
O Guia para Comunidades Ecológicas, cujo enquadramento foi feito no artigo anterior, resultou de um processo consultivo/participativo nacional e internacional (cocriação), para o qual contribuíram especialistas e organizações de várias regiões do mundo e foi desenvolvido pela Parceria para a Educação Ecológica (Greening Education Partnership – GEP) da UNESCO.
Porque é que o Guia para Comunidades Ecológicas [1], é importante para as bibliotecas escolares?
1. As bibliotecas escolares geram comunidades e o Guia “oferece uma estrutura prática para capacitar cidades e comunidades a impulsionar ações significativas em prol do clima e da sustentabilidade por meio da aprendizagem inclusiva ao longo da vida” [2].
… por meio da aprendizagem inclusiva: “significa garantir que existem oportunidades de aprendizagem verde para pessoas de todas as idades, níveis de escolaridade e setores da sociedade, bem como para pessoas de origens de género, étnicas, nacionais e económicas diversas, incluindo grupos sub-representados. Idealmente, esta aprendizagem ao longo da vida deve ser holística, orientada para a ação, baseada em direitos [impulsionando a justiça climática] e oferecida através de aprendizagem não formal e informal”, segundo Preparando todas as escolas para as mudanças climáticas (UNESCO, 2021), referido no Guia (p. 2).
… por meio da aprendizagem ao longo da vida, significa abranger todos:
- Os aprendentes, incluindo grupos sub-representados;
- Os educadores e partes interessadas (parceiros);
- As aprendizagens, formal (havendo lugar a certificação de qualificações) e não-formal (dinamizadas por instituições, é complementar);
- Os espaços/contextos de aprendizagem físicos (famílias, lugares de trabalho, livrarias, museus…) e digitais.
O Guia “É direcionado principalmente a governos locais, mas também é altamente relevante para ONGs, bibliotecas, museus, organizações juvenis, grupos indígenas, instituições educativas e setor privado” (p. 2), incentivando a colaboração e capacitando para ações locais baseadas na aprendizagem.
2. As alterações climáticas têm uma natureza global/transfronteiriça e “Afetam tudo, desde a segurança alimentar e a disponibilidade de água até à saúde pública e à estabilidade económica (IPCC, 2023)” (p. 2) e ao próprio acesso à educação e às coleções, pelo que é importante incorporar estes temas que ajudam a construir sistemas educativos, bibliotecas e comunidades resilientes e com bem-estar.
3. As ações locais são determinantes para alcançar metas globais, conforme estabelece a Agenda 2030 (ONU, 2015) e o Acordo de Paris (UNFCCC, 2015) e parte destas ações consiste no envolvimento da comunidade na aprendizagem orientada para a co-construção de comunidades verdes.
Um plano de ação para a construção de uma comunidade verde inclusiva e ao longo da vida pode responder às seguintes questões:
- Quais são… as principais políticas/ documentos e riscos que afetam a comunidade? … os objetivos climáticos e ambientais localmente mais relevantes? … os pontos fortes/ oportunidades e parceiros da comunidade que ajudam à transformação através da aprendizagem.
- Quem são os nossos estudantes/ partes interessadas/ educadores? Quais são os espaços de aprendizagem da nossa comunidade? Quais são as prioridades/ visão de que a comunidade necessita/gostaria? Que tópicos/ estratégias de aprendizagem verde deverão ser desenvolvidos?
4. O Guia considera que os contextos de educação formal (ensino obrigatório nas escolas e ensino superior/academia) contribuem poderosamente para a ecologização das comunidades através da aprendizagem.
Para criar uma cultura de sustentabilidade na educação, recomenda uma abordagem de toda a instituição (whole-institution approach) – alunos, docentes, dirigentes, pessoal de apoio, pais e comunidade alargada – integrando o clima, a sustentabilidade, a biodiversidade e o território no currículo, na infraestrutura, operações e governação da escola e da comunidade. Critica eventos verdes pontuais/isolados que gastam mais recursos e não geram a transformação de hábitos e estilo de vida.
Recomenda que as escolas realizem projetos de sustentabilidade com foco local que impliquem colaborações comunitárias e mobilizem diversas disciplinas (aprendizagem holística) – artes, humanidades, ciências sociais, ciências naturais, matemática – e possam ser lúdicos e ao ar livre. Contar histórias (storytelling) físicas ou digitais – que narrativas existem e são necessárias para a transformação? – pode ajudar a humanizar e a sensibilizar para a ação.
Referindo Nxumalo (2018), considera que as “crianças pequenas não devem ser protegidas das realidades das alterações climáticas, mas antes aprender a partir dos seus encontros com a precariedade ambiental” (p. 16).
Exemplo de projeto é a Ação Estudantil por um Futuro Sustentável (Student Action for a Sustainable Future), em Saskatoon (Canadá), que é um programa de aprendizagem experiencial (através da ação), liderado por alunos do 5.º ao 12.º ano e que visa a investigação, o planeamento e a implementação de soluções para redução de emissões nas próprias escolas e casas (exemplos de ações: compostagem, jardins de plantas nativas e investigação do impacto ambiental da IA). Envolve agrupamentos de escolas e é apoiado pelo governo local e por organizações, empresas e investigadores na área ambiental.
Outros exemplos que envolvem parcerias comunitárias: estágios profissionais para estudantes porem em prática competências verdes; feiras agrícolas e dias abertos em que especialistas apresentam o trabalho que está a ser realizado na comunidade e proporcionam formação prática a crianças e famílias sobre mitigação e adaptação às alterações climáticas.
O Guia sugere ainda que as bibliotecas organizem coleções sobre sustentabilidade, alterações climáticas, biodiversidade e conservação das espécies e que solicitem aos governos municipais que invistam em recursos de aprendizagem como kits de observação de aves ou de análise da água que possam ser usados em iniciativas de ciência cidadã.
Aprender com tecnologias digitais pode ajudar a ligar comunidades com desafios semelhantes, a facilitar a aprendizagem e a colaboração e permite o lançamento de campanhas nas redes sociais, como as dos Dias internacionais temáticos Hora do Planeta (Earth Hour) ou o Dia Internacional da Mulher.
Os bibliotecários (e professores bibliotecários) podem apoiar os educadores na adaptação do currículo e oferecer programas de aprendizagem acessíveis ou palestras abertas à comunidade, uma vez que as bibliotecas são locais físicos/ digitais de encontro livre/ gratuito e seguro que ajudam ao desenvolvimento de capacidades de toda a comunidade.
Referências
- UNESCO. (2025). Greening communities guidance: lifelong learning for climate and sustainability action. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000396434
- UNESCO. (2026). Greening Communities Guidance: Lifelong Learning for Climate and Sustainability Action. https://www.uil.unesco.org/en/greening-communities-guidance
- Fonte da imagem [1].