retalhos

Entre estantes, caretas e relatórios

21.04.2026.png

Expetativa em suspenso

Setembro de 2023 chegou com cheiro a livros e uma apreensão difícil de disfarçar. 

Entrar numa biblioteca como professora bibliotecária pela primeira vez, não foi apenas mudar de espaço físico. Foi mudar de linguagem, de expetativas e de identidade profissional.

Apesar dos anos de docência (iniciei em 2000), senti-me principiante outra vez. A biblioteca parecia um território encantado, mas cheio de interrogações: Será que vou estar à altura? Como se conquista este público tão pequeno? 

“És professora de…?” 

Uma das perguntas mais frequentes nestes dois anos foi simples e recorrente: “És professora de Português? De História, não é?”.

Quando respondo que sou de Biologia e Geologia, segue-se quase sempre um “Ah!”. Um “Ah” curto, sem maldade. Um “Ah” que carrega surpresa e a ideia enraizada de que a biblioteca pertence apenas às letras e à memória. Não levo a mal.

Aprendi a sorrir para esse “Ah”. A biblioteca é um ecossistema vivo: há histórias, sim, mas também há curiosidade, observação e ligações improváveis. A ciência entrou comigo. Nem sabem o número de relações bióticas que aqui acontecem… Na maioria, simbióticas. Aqui ninguém preda ninguém! Acontece parasitarmos cérebros pequeninos, mas rapidamente o parasita se torna num agente de mutualismo. Raras vezes, tenho de aceitar algum amensalismo (relação em que um é prejudicado e o outro não é afetado) quando questiono alguns miúdos sobre o que acharam da atividade que preparei e a reposta é: “Olha, não gostei muito!”. Nunca sei bem quem é o prejudicado e o não afetado, mas registo para melhorar o meu trabalho. Seria aborrecidíssimo agradar a todos. 

Território exigente 

Trabalhar com crianças é um desafio diário. A infância não é previsível. É intensa, curiosa, inquieta. Exige flexibilidade e escuta atenta, mesmo quando essa escuta acontece entre risos, perguntas desconexas e pés que não sossegam. É nesta idade que se lançam sementes: o prazer de ouvir uma história, o respeito pelo espaço comum, o tempo de espera.

Adereços, caretas e sons estranhos

Às vezes imagino o que Umberto Eco diria de uma biblioteca escolar, onde os utilizadores não furtam incunábulos, mas marcadores e, ocasionalmente, um livro que foi “só para mostrar à mãe”. Histórias com adereços, caretas pouco dignas e sons estranhos que fazem arregalar olhos e os risos surgir, sem aviso.

Contar histórias é, para mim, um ato profundamente pedagógico, humano. A atenção acontece, o silêncio constrói-se (ainda que por breves minutos) e a imaginação cresce. Não sei se o faço bem, não sou profissional, mas dou o meu melhor.

Gosto das histórias “fora da caixa”, disparatadas. As que não seguem o caminho óbvio, as que ficam a ecoar depois.

A biblioteca real

Há dias em que me lembro de Eco e do seu delicioso retrato da “má biblioteca”. Aquela onde o leitor é tratado como suspeito, onde os horários parecem afastar qualquer ser humano e onde pedir um livro é quase um teste de resistência psicológica. Felizmente, as bibliotecas onde trabalho não chegam a esse nível de pesadelo. Confesso que, entre grelhas e plataformas, por vezes sinto que estamos perigosamente perto de cumprir um ou dois pontos da lista de Eco.

A biblioteca não vive só de histórias. Há o outro lado, menos visível: relatórios, bases de dados, grelhas e planos. Há muito trabalho na sombra, necessário, mas raramente aparece nos momentos mágicos da hora do conto.

Ser professora bibliotecária é equilibrar estes dois mundos: o da criatividade e o da burocracia, o do tapete no chão e o do computador ligado, o da gargalhada espontânea e o do formulário a submeter.

Sigo!

Continuo a aprender, a improvisar. Entre estantes, caretas e relatórios, a biblioteca tornouse um lugar de pertença. Um espaço onde não sou apenas “a professora de…”, mas alguém que conta histórias, organiza o caos possível e acredita que a educação também se faz com livros abertos, olhos atentos e, de vez em quando, com sons estranhos perfeitamente justificados.

E quando no final de uma atividade, recebo de uma pequena criatura, um “obrigado” sob a forma de abraço atabalhoado que quase me tomba, penso: “Ainda vou andar por aqui mais uns tempos…”.

por Sandrina Silva Martins
Professora Bibliotecária
Agrupamento de Escolas Damião de Goes

Referências

Eco, U. (1994). A biblioteca (Maria Luísa de Freitas, Trad.). Lisboa: Difel.

___________________________________________________________________________________________________________

Retalhos (3).png

  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

_____________________________________________________________________________________________________________________

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *