
Exerço o cargo de professora bibliotecária há cinco anos. O gentil convite da diretora da altura assumiu-se, de início, como um desafio difícil e complexo. Apesar de estar na escola desde 1989, encontrava-me desligada de todo e qualquer procedimento ligado à biblioteca escolar e à Rede de Bibliotecas Escolares.
Hoje, o cargo continua desafiante e complexo. Se, por um lado, a coordenação e a gestão da biblioteca escolar são tarefas exigentes pela sua diversidade e pela multiplicidade de tarefas e interações que implicam, por outro lado, a promoção das atividades é altamente motivadora e, quando tem impacto imediato, muito compensadora. É uma ilustração deste impacto direto de que vos gostaria de dar conta.
Em primeiro lugar, julgo importante referir que a leitura se mantém o foco principal e o elemento agregador das competências que desenvolvemos na nossa biblioteca. É sabido que uma Biblioteca vai muito para além dos livros e, por isso, entenda-se aqui leitura como uma perceção humana e significativa do que se vê, toca, ouve ou lê, ou na definição poética solicitada hoje à IA (Chatgpt), ler é deixar-se atravessar pela arte, até que ela encontre morada em nós e nos transforme em parte do que ela sonhou ser. Sophia M.B.Andresen referiu, aliás, isso mesmo sobre a cultura ao afirmar que esta serve para nos transformar.
Na primeira linha das bibliotecas escolares, os professores bibliotecários querem fazer a diferença nos alunos, divulgando livros, filmes, pinturas, jogos, o mundo digital. Ao promover e dinamizar estas múltiplas experiências, levamos o aluno a refletir, a tornar-se crítico, a apropriar-se momentaneamente (ou para sempre!) de algo que contribua para o seu desenvolvimento global.
Em novembro de 2025, foi-nos gentilmente emprestada, pela Embaixada de Espanha, uma coleção de vinte reproduções de obras do Museu do Prado que expusemos na biblioteca escolar. Num espaço limitado e de parcos recursos, durante duas semanas, a Biblioteca foi museu e o Museu foi biblioteca. Serviu de local para visitas na área da História de Arte, contribuindo para os conteúdos da disciplina, de inspiração para criação (por ex., os alunos pintaram “Las Meninas”, de Velázquez, nos dias de hoje), serviu ainda de motivação à escrita criativa em formato digital e, finalmente, de espaço de tertúlia e convívio. Isto é, leram-se os quadros de inúmeras formas.
Dirigida a toda a comunidade escolar, a exposição acabou por ser um exemplo feliz daquilo que é o resultado de um verdadeiro trabalho de equipa inter e multidisciplinar. Com a ajuda de um catálogo e de um pequeno questionário, os alunos foram guiados na visita, podendo observar, analisar e comparar nomes, datas, estilos e muitos pormenores que, de outra forma, não o teriam feito. Viram e compreenderam obras que, de outra forma, talvez não o pudessem ter feito.
Ser professor bibliotecário é isto, é oferecer histórias, oportunidades de crescer e de sonhar.
Alexandra Alves
Professora Bibliotecária da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto (Não Agrupada), Almada
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- Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
- Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
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