
Já fiz de Cuqueda, de beiçolas pintadas, já dei muitos beijinhos coloridos e já me manifestei como os feijões cinzentos… em todos estes momentos vivi com emoção, gratidão e, acima de tudo, DIVERSÃO, o papel e função de professora bibliotecária do Agrupamento de Escolas de Alcochete.
Mas hoje… hoje, estive do outro lado. Hoje a educadora Zé que, felizmente, goza do famoso artigo 79, preparou uma história para receber os alunos do pré-escolar da sala 1 da EB da Restauração. Deixei a base de dados de lado e sentei-me num daqueles pufes que nos fazem escorregar até ao chão e fiquei a ouvir a história, como eles… Ouvimos Charlie e Lola: Mas esse livro é meu! da Lauren Child. Entre besouros, baratas e borboletas aprendemos que os livros da biblioteca não são nossos, são para partilhar, aprendemos como nos devemos comportar na biblioteca e o que esta nos pode mais oferecer para fazer.
Trabalho com as crianças do pré-escolar e do 1º ciclo há seis anos. Houve um ano em que decidi sair, fazer uma pausa: senti necessidade de perceber se o que estava a fazer na e com a Biblioteca fazia sentido, se faria falta, se era realmente como professora bibliotecária que pretendia seguir a minha carreira… se… se…
Bastou um mês desse ano para perceber que cometi um erro. Assumo: cometi um erro! Desejei o fim daquele ano letivo com todas as minhas forças. Senti a falta dos beijinhos, dos abraços, das palavras bonitas que nos dizem logo pela manhã. Senti a falta da forma como aquelas crianças recebem o que partilho com elas. Senti a falta do sorriso com que me recebem todos os dias quando lhes digo que a biblioteca estará aberta, mas senti também a falta do puxador da porta a abanar de tanto ser rodado e empurrado quando a porta da biblioteca está fechada e trancada na hora do almoço.
As crianças não esquecem quando prometo fazer alguma coisa diferente, como carimbar ou costurar ou, tão simplesmente, ver se o livro que pediram já foi comprado. Aparecem a cobrar. Não esquecem. Voltam, sistematicamente, mesmo quando os mandamos apanhar ar e brincar um bocadinho para depois usufruírem melhor da biblioteca.
Eu tenho semanas loucas. Sou responsável por duas bibliotecas, de duas escolas espacialmente distantes. Visito outras escolas envolvidas nos projetos da Biblioteca, leciono Alemão em duas escolas diferentes, às turmas de 9º ano e 12º ano. Subo escadas, visito salas vezes sem conta, dou recados, levo livros, tiro dúvidas sobre o computador, partilho e proponho atividades, falo de projetos, vou simplesmente dizer Guten Morgen, Hello ou Bon Jour, não fosse eu de línguas. Gosto? Sim e não. Consigo? Vou tentando e conseguindo…
Adoro o que faço, mas tenho uma atividade intensa e nem todos os anos sou acompanhada por uma equipa de professores. Contudo, recebo imenso apoio e carinho dos docentes com quem trabalho, pois, penso que criei uma relação de partilha e amizade que me permite ter uma rede de trabalho colaborativo excelente. Sinto-me feliz com quem trabalho: crianças, professores, funcionários, pais, comunidade.
Os outros membros da equipa de professores bibliotecários, a Olívia e o Ricardo… bem, são, como diria a Olívia, “uns fixolas”. Conseguimos organizar o trabalho, as tarefas, desenvolver os projetos, responder ao que nos solicitam e não temos mãos a medir. A atividade flui e chegamos ao que nos propomos. Mas é duro!
Gosto do que faço. As crianças amam a biblioteca, aprendem com a biblioteca e constroem-se cidadãos com a biblioteca. E comigo!
A biblioteca é e sempre será, para mim, amante de livros, da leitura e de muitas literacias, o CORAÇÃO de qualquer escola.
Susana Castro
Professora bibliotecária
Escola Básica da Restauração e Escola Básica de São Francisco
Agrupamento de Escolas de Alcochete
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- Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
- Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
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