bibliotecas escolares - cidadania - interculturalidade

Interculturalidade e Humanismo – O outro sou eu

2026-03-11 Interculturalidade e Humanismo - O outr

O que é um ser humano? 

Para Lídia Jorge [1], Prémio Pessoa 2025 (a primeira mulher de 37 escritores), é um ser em liberdade e, segundo o médico e professor do filme O menino selvagem de François Truffaut, sensível à justiça – o menino selvagem reage com raiva à injustiça de não ser recompensado quando responde corretamente, uma vez que sempre o foi anteriormente.  A justiça permite a equidade entre seres humanos, que na sua essência são iguais, tendo todos o mesmo ADN. 

A biblioteca escolar desenvolve uma abordagem humanista e intercultural de múltiplas formas. Apresentamos algumas a partir de exemplos colhidos em questionário da Rede de Bibliotecas Escolares de resposta voluntária por parte dos professores bibliotecários no ano letivo 2024/2025.  

1. A leitura e a escrita

Para as bibliotecas escolares, a palavra – a partir do seu exercício, a leitura e a escrita, é o elemento humanizador fundamental porque a leitura/escrita funciona como gatilho para desenvolver todas as competências humanas (memória, imaginação, cálculo…). E isto é essencial porque a inteligência/pensamento – humano ou artificial – tem como matéria-prima a linguagem e, se o não a desenvolvermos, perdemos autonomia, identidade, cultura e somos mais facilmente manipulados.

E é importante que esse trabalho de leitura/escrita se realize autonomamente, implicando esforço mental:  

“Delegar tarefas cognitivas a chatbots de uso geral cria riscos de preguiça metacognitiva e desinteresse. (…) embora os alunos com acesso a ferramentas de GenAI de uso geral produzam resultados de maior qualidade do que seus colegas, essa vantagem desaparece — e às vezes inverte-se — em provas quando o acesso é removido” [2].

Na biblioteca são muitas as formas de desenvolver a palavra, através da oralidade, da leitura/escrita e do uso de tecnologias digitais, ajudando a construir relações e um contexto intercultural e mais humano. 

A) Contos com valor(es) e histórias do mundo

A biblioteca do Agrupamento de Escolas de Canelas, Vila Nova de Gaia, no âmbito da iniciativa, Contos com valor(es), realiza com o 1.º Ciclo uma sessão de animação do livro (fábula), A mala

“Quando, um dia, um estranho aparece, exausto e só com uma mala, todos ficam curiosos. Porque é que ele está aqui? De onde é que veio? E o que estará dentro da mala?” [3]. 

Após a sua apresentação, através de Kamishibai (teatro de papel), a professora bibliotecária introduz o diálogo sobre a atitude dos personagens, por exemplo: 

  • “’Eu cá não confio nele. Como é que sabemos que está a dizer a verdade?’” Porque será que a raposa não confiava naquele animal estranho”?

  • Depois, procura-se estabelecer um paralelismo com situações reais do quotidiano dos alunos: “Conheceram alguém que tenha chegado recentemente de outro país? Se sim, como o receberam”?  
  • Para finalizar, “E se fosses tu a ter de partir para outro lugar? O que gostarias de levar na tua mala”? Carteira de moedas, phones, dinossauro de peluche para dormir e a fotografia da avó são algumas das respostas das crianças [4]. 

A abordagem de temas difíceis – como a migração, a guerra ou a sexualidade – pode fazer-se de forma subtil, a partir da conversa em torno de uma história que vá ao encontro dos interesses dos alunos e que, não fale expressamente desses temas. 

O diálogo que se estabelece em torno da história ajuda à expansão da compreensão dos alunos e ao desenvolvimento das suas competências cognitivas e socio-emocionais, como a empatia e a solidariedade.

B) Tomar o português como a língua do currículo 

A biblioteca da Escola Secundária Dona Luisa de Gusmão, Lisboa, através da iniciativa INCLUBE – Biblioteca Escolar + Inclusiva, reconhece que, apesar de sermos todos diferentes, “ninguém gosta de ser tido em conta por ser diferente”. Por isso, rejeita práticas de aparente inclusão – que são formas de paternalismo, integração, tolerância e que não são inclusão – que são formas de exibir a diferença, de excluir e segregar:

  • Feiras gastronómicas e mostras de costumes, danças e culturas diferentes e exóticas;
  • Manuais e outros documentos exclusivos para estrangeiros;
  • Uso sistemático de tradução para uma língua franca, como o inglês. 

“Tudo o que fugir do espírito de fazer parte do todo acessível para todos não é inclusão”.

Para ultrapassar a barreira linguística, propõe que a língua do currículo seja sempre o português “e não outra língua, sob pena de estarmos a excluir estas comunidades de uma língua viva que se aprende por imersão” na cultura da comunidade que acolhe.

A inclusão deve fazer-se, em todas as disciplinas, na língua do currículo, por exemplo, mediante simplificação dos enunciados orais e escritos ou recursos visuais.

Dispõe de uma Comissão de Tradutores formado por voluntários e parceiros que contribuem para a revisão de textos em várias línguas, como mandarim, hindi, nepalês, guzarate, russo, romeno, ucraniano, árabe, urdu e búlgaro.

No ano letivo 2023/2024, o INCLUBE abrangeu 749 alunos, 221 estrangeiros, de 32 nacionalidades e falantes de 42 idiomas.

C) Bibliodiversidade

O mapa mundo dos autores da biblioteca escolar, contempla todas as nacionalidades dos alunos da escola?

O fundo documental da biblioteca escolar deve, sempre que possível, refletir a diversidade cultural (e linguística) dos alunos da escola, para que possam conhecer e aprofundar a sua cultura de origem. Segundo a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias, cujas orientações a Rede de Bibliotecas adota:

“Bibliotecas de todos os tipos devem refletir, apoiar e promover a diversidade cultural e linguística a nível internacional, nacional e local [e no ciberespaço] e, assim, trabalhar para o diálogo intercultural e a cidadania ativa”;

“Especial atenção deve ser dada aos grupos que são muitas vezes marginalizados em sociedades culturalmente diversas” [5]. 

Também é importante que os livros apresentem uma variedade de personagens com atributos diferentes, que potenciem um diálogo mais rico e com os quais todos os leitores se possam identificar. 

A biblioteca escolar dever ser uma comunidade intercultural, plurilingue e representativa de todos

D) Valorizar a língua de origem

De acordo com Inclusão de alunos migrantes em meio educativo [6], também é importante: 

  • Mobilizar os alunos que falem a língua materna dos migrantes para mediação linguística;
  • Solicitar aos alunos migrantes que deem exemplos de palavras ou expressões na sua língua relacionadas com o que estão a aprender; 
  • Relacionar factos históricos, culturais ou efemérides dos vários países. 

Ferramentas digitais que ajudam a relacionar países e culturas são: My Life Elsewhere, Country Comparison Tool e Index Mundi [6]. 

O Agrupamento de Escolas Santo André, Barreiro, comemora o Dia internacional da Língua Materna – 21 fevereiro. Considera que:

“No vasto mosaico cultural que é o nosso mundo, as línguas desempenham um papel fundamental na expressão da identidade, na preservação da história e na promoção da diversidade. A interculturalidade como conceito central, destaca a riqueza que surge do encontro e da interação [e da aprendizagem recíproca] entre diferentes culturas, sendo as línguas maternas os veículos primordiais dessa expressão” [7]. 

E) Acolher

Preparar a chegada para receber, de modo significativo, quem chega de novo, para que sinta que faz parte daquele lugar. Acolher é importante, mas o principal é pertencer, numa lógica, não de mobilidade, mas de quem chega para ficar.   

A biblioteca escolar do Agrupamento de Escolas António Nobre, Lisboa, através da iniciativa, Sinto-me em casa, ajuda os alunos recém-chegados a colocar perguntas simples no bar/cantina/reprografia e a interpretar e traduzir para as suas línguas maternas textos dos manuais e enunciados de exercícios e de provas escritas;

Acompanha-os em visitas guiadas à escola e apresenta-lhes a biblioteca escolar, dando-lhes a conhecer livros na sua língua materna. 

A biblioteca da Escola Secundária com 3.º Ciclo Henrique Medina, Lisboa, desenvolve Mentoria interpares, dispondo de um gabinete de mentoria, a partir do qual os alunos mentores fazem o seu atendimento aos colegas, através da receção dos alunos, de Intervenções em sala de aula com a partilha de experiências, de sessões de leitura e outras iniciativas. Esta iniciativa, que funciona desde 2014 e envolve dezenas de alunos mentores, foi reconhecida pelo Conselho Nacional de Educação [8].  

Os alunos do Agrupamento de Escolas André de Gouveia, Évora, acolhem os recém-chegados através de um mural de cortesia com expressões do dia-a-dia em diferentes línguas.  

2. Literacia digital 

A literatura (e a arte) preserva a memória do que é humano e a leitura/escrita partilhadas em comunidade, facilitam o encontro entre pessoas diferentes, ajudando a construir uma vida em comum e à coesão social e democracia. 

A abordagem da biblioteca escolar é integrada/contextualizada – no currículo e na experiência/vivência subjetiva/local dos alunos – e é global/holística, trabalhando todas as literacias, com destaque para a literacia digital.

A literacia digital é importante para uma visão crítica do humano e intercultural na atualidade. 

A experiência que temos do storytelling e da cultura (e da internet) é cada vez menos humanizada porque “o algoritmo filtra antes de vermos, recomenda antes de pesquisarmos, decide antes de decidirmos” [9], diminuindo a liberdade humana. 

O algoritmo é moldado por interesses comerciais das grandes empresas tecnológicas que enriquecem com desinformação, raiva (emoções geram mais circulação/visibilidade) e discurso de ódio, que capta mais a atenção e gera mais cliques, aumentando o lucro dos seus proprietários (capitalismo digital). 

Está moldado para priorizar o 1% dos criadores mais influentes, reforçando a desigualdade e a injustiça cultural e social

Ao contrário do que se esperava quando foi criada, hoje a internet reduz, em vez de expandir, a exposição cultural coletiva. A mediação por algoritmos a que temos acesso não é representativa da diversidade cultural global, excluindo ou não dando a justa visibilidade a muitas pessoas, histórias, idiomas, culturas e sistemas de conhecimento. E isso deve inquietarmo-nos e mobilizar a ação cívica. 

3. A capacidade de agência da biblioteca escolar 

A biblioteca escolar é um espaço aberto a todos e onde as pessoas não precisam justificar a sua presença. É procurada para ler, conviver, estar. 

O que distingue uma boa biblioteca escolar: 

  • Não é apenas o espaço, que é fundamental. Em 2026 a Rede de Bibliotecas Escolares celebra 30 anos e expande o seu alcance, pois deverão ser criadas mais 434 novas bibliotecas escolares no 1.º Ciclo, beneficiando 50 mil alunos e, em 2027, esta medida deverá ter continuidade porque há 1 487 escolas do 1.º ciclo sem biblioteca; 

  • Nem os recursos que disponibiliza: equipamentos e coleção de livros, de livre acesso, em diversos suportes;

  • Mas a capacidade de agência, aquilo que faz (até quem/onde chega), com qualidade, mobilizando o que tem, junto dos alunos e comunidade, para que todos aprendam, uns com os outros e transformem a si próprios e à sociedade.

E, por isso, é decisivo o papel do professor bibliotecário, da sua equipa e dos professores e parceiros aqui reunidos e que realizam esta ação conjunta e a quem agradeço. 

Nota: Este conteúdo fez parte de uma comunicação da Rede de Bibliotecas Escolares, apresentada a 24 de fevereiro de 2026, no encontro Contornos da Palavra 2026, do Município de Viana do Castelo. 

Referências

  1. Mendonça, B. (2025). A beleza das pequenas coisas [podcast]. Expresso. 
  2. OECD. (2026, 19 jan.). OECD Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education. https://www.oecd.org/en/publications/oecd-digital-education-outlook-2026_062a7394-en.html
  3. Naylor-Ballesteros, C. (2021). A Mala. https://www.tribodospequenosexploradores.pt/product/a-mala-or-edicare
  4. Biblioteca do Agrupamento de Escolas de Canelas. (s.d.). Contos com valor(es). https://padlet.com/equipabe/contos-com-valor-es-oygdizhtrv8j6i56
  5. IFLA/UNESCO. (2009). Manifesto da Biblioteca Multicultural. https://www.ifla.org/ifla-unesco-multicultural-library-manifesto/ 
  6. My Life Elsewhere. https://www.mylifeelsewhere.com/
    CEMR CCRE. (2025). Country Comparison Tool. https://terri.cemr.eu/en/country-profiles/country-comparison-tool.html
    Index Mundi. https://www.indexmundi.com/
  7. AE Santo André. AESA. (2024, fev.). News. Os afetos.  Barreiro https://heyzine.com/flip-book/3c7ba8d1b5.html#page/28
  8. CNE. (2023). DICA: Divulgar, Inovar, Colaborar, Aprender. https://www.cnedu.pt/content/DICA/DICA_2023/Percursos_2023/Eu_sou_Medina.pdf
    Ribeiro, T.(12.º L). Dia da Receção aos alunos e E.E. na 14.ª edição do projeto Mentoria Interpares. Escola Secundária com 3º Ciclo Henrique Medina.  https://true-project.mog-technologies.com/henrique-medina/news/dia-da-rececao-aos-alunos-e-ee-na-14-edicao-do-projeto-mentoria-interpares?id=66e9539c7bb422001945ca58
  9. DGE. (2024). Inclusão de alunos migrantes em meio educativo. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/EBasico/PLNM/inclusao_de_alunos_migrantes_em_meio_educativo.pdf
  10. Cardoso, G. & Moreno, J. (2026, 21 jan.). A nossa comunicação algorítmica. https://www.publico.pt/2026/01/21/opiniao/opiniao/comunicacao-algoritmica-2161975
  11. Fonte da imagem: Freepik

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *