{"id":930180,"date":"2009-10-27T00:00:00","date_gmt":"2009-10-27T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/930180.html"},"modified":"2026-05-14T04:35:03","modified_gmt":"2026-05-14T04:35:03","slug":"as-memorias-electronicas-tambem-morrem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=930180","title":{"rendered":"As mem\u00f3rias electr\u00f3nicas tamb\u00e9m morrem"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_Ktgp5ZkbTjk\/SuTegxCmj1I\/AAAAAAAAAWs\/TCVImHOConw\/s1600-h\/memorias.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/memorias.jpg\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><b>A multiplica\u00e7\u00e3o dos suportes de armazenamento e a sua esperan\u00e7a de vida limitada colocam a quest\u00e3o da salvaguarda do conhecimento. Para o escritor italiano Umberto Eco, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o papel ainda tem futuro.<\/b><\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\"><\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8220;As estrelas eg\u00edpcias, as placas de argila, os papiros, os pergaminhos e, claro, o livro impresso foram suportes de informa\u00e7\u00f5es escritas. Este \u00faltimo mostrou que podia sobreviver facilmente durante cinco s\u00e9culos, desde que fosse impresso em papel de trapo.<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Desde o s\u00e9culo XIX, pass\u00e1mos para o papel \u00e0 base de pasta de madeira, que parece ter uma dura\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de 70 anos (basta pegar em jornais ou em livros do p\u00f3s-guerra para verificar que muitos se desfazem assim que os folheamos). Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, T\u00eam estado em estudo diversos meios para salvar todos os livros que enchem as nossas bibliotecas. Um dos meios mais apreciados (mas quase imposs\u00edvel de realizar para a totalidade das obras existentes) consiste em digitalizar todas as p\u00e1ginas e transferi-las para um suporte electr\u00f3nico.<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">A\u00ed, por\u00e9m, coloca-se outro problema. Todos os suportes para transfer\u00eancia e conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que utilizamos actualmente, desde a fotografia as pel\u00edculas cinematogr\u00e1ficas, do disco a pen USB, s\u00e3o mais perec\u00edveis do que o livro. Sabemos que, nas velhas cassetes \u00e1udio, ao fim de um certo tempo, a fita ficava encravada. Tent\u00e1vamos arranj\u00e1-la com uma esferogr\u00e1fica mas, muitas vezes, era tempo perdido. As cassetes de v\u00eddeo perdem facilmente as cores e a defini\u00e7\u00e3o. <\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">(\u2026) Tamb\u00e9m n\u00e3o tivemos tempo para perceber quanto tempo podiam durar os discos flex\u00edveis, porque, antes de nos termos acostumado a eles, foram substitu\u00eddos pelas disquetes r\u00edgidas [de 3,5 polegadas], estas pelos CD-ROM e estes pelas pens.\u00a0<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">(\u2026)<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Em rela\u00e7\u00e3o a todos os suportes mec\u00e2nicos, el\u00e9ctricos e electr\u00f3nicos, sabemos que ir\u00e3o desaparecer em breve ou n\u00e3o sabemos ainda quanta tempo ir\u00e3o durar e, provavelmente, nunca o saberemos. Basta um incidente, alias, um rel\u00e2mpago que cai no jardim ou qualquer outro incidente mais banal, para desmagnetizar uma mem\u00f3ria de computador. Se houver uma avaria el\u00e9ctrica importante, deixarei de poder utilizar qualquer mem\u00f3ria electr\u00f3nica. Al\u00e9m disso, mesmo tendo gravado na minha mem\u00f3ria electr\u00f3nica a vers\u00e3o integral do \u201cDom Quixote\u201d, n\u00e3o a poderei ler \u00e0 luz de uma vela, numa cama de rede, num barco, numa banheira ou num baloi\u00e7o, ao passo que com um livro posso fazer tudo isso, mesmo em condi\u00e7\u00f5es menos confort\u00e1veis. E, se o meu computador ou o meu livro electr\u00f3nico ca\u00edrem do 5\u00ba andar, estou matematicamente certo de ter perdido tudo, enquanto que, se for o meu livro a cair, na pior das hip\u00f3teses terei de apanhar as paginas uma a uma.<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Os suportes modernos parecem ter como alvo principal a difus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a sua conserva\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, o livro foi o instrumento mais importante da difus\u00e3o (pensemos no papel que teve a circula\u00e7\u00e3o da B\u00edblia impressa no aparecimento da Reforma e, ao mesmo tempo, da conserva\u00e7\u00e3o. E poss\u00edvel que, daqui a alguns s\u00e9culos, quando todos os suportes electr\u00f3nicos ficarem desmagnetizados, \u00fanico meio de obter informa\u00e7\u00f5es sobre o passado seja abrir um incun\u00e1bulo [obra impressa anterior a 1500].<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Entre os livros modernos, sobreviver\u00e3o todos os que tiverem sido impressos em papel de qualidade ou em papel sem \u00e1cido. S\u00e3o muitos os editores que j\u00e1 os disponibilizam.<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">N\u00e3o sou um passadista. Num disco r\u00edgido de 250 gigabytes, gravei as maiores obras-primas da literatura universal e da hist\u00f3ria da filosofia. \u00c9 bem mais c\u00f3modo para encontrar em segundos uma cita\u00e7\u00e3o de Dante ou a <i>Summa Theologiae<\/i>, de Tomas de Aquino, do que levantar -me para ir procurar um livro demasiado pesado em prateleiras demasiado altas. Mas estou feliz por ter estes livros nas minhas estantes, uma mem\u00f3ria fi\u00e1vel para o dia em que os meus instrumentos electr\u00f3nicos se avariarem.&#8221;<\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: right;\"><span style=\"font-size: small;\"><br \/><\/span><\/div>\n<div style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: right;\"><span style=\"font-size: x-small;\"><i>Courrier Internacional<\/i>, n\u00ba 160, Junho de 2009<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A multiplica\u00e7\u00e3o dos suportes de armazenamento e a sua esperan\u00e7a de vida limitada colocam a quest\u00e3o da salvaguarda do conhecimento. Para o escritor italiano Umberto Eco, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o papel ainda tem futuro. &#8220;As estrelas eg\u00edpcias, as placas de argila, os papiros, os pergaminhos e, claro, o livro impresso foram suportes de informa\u00e7\u00f5es escritas. Este \u00faltimo mostrou que podia sobreviver facilmente durante cinco s\u00e9culos, desde que fosse impresso em papel de trapo. Desde o s\u00e9culo XIX, pass\u00e1mos para o papel \u00e0 base de pasta de madeira, que parece ter uma dura\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de 70 anos (basta pegar em jornais ou em livros do p\u00f3s-guerra para verificar que muitos se desfazem assim que os folheamos). Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, T\u00eam estado em estudo diversos meios para salvar todos os livros que enchem as nossas bibliotecas. Um dos meios mais apreciados (mas quase imposs\u00edvel de realizar para a totalidade das obras existentes) consiste em digitalizar todas as p\u00e1ginas e transferi-las para um suporte electr\u00f3nico. A\u00ed, por\u00e9m, coloca-se outro problema. Todos os suportes para transfer\u00eancia e conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que utilizamos actualmente, desde a fotografia as pel\u00edculas cinematogr\u00e1ficas, do disco a pen USB, s\u00e3o mais perec\u00edveis do que o livro. Sabemos que, nas velhas cassetes \u00e1udio, ao fim de um certo tempo, a fita ficava encravada. Tent\u00e1vamos arranj\u00e1-la com uma esferogr\u00e1fica mas, muitas vezes, era tempo perdido. As cassetes de v\u00eddeo perdem facilmente as cores e a defini\u00e7\u00e3o. (\u2026) Tamb\u00e9m n\u00e3o tivemos tempo para perceber quanto tempo podiam durar os discos flex\u00edveis, porque, antes de nos termos acostumado a eles, foram substitu\u00eddos pelas disquetes r\u00edgidas [de 3,5 polegadas], estas pelos CD-ROM e estes pelas pens.\u00a0 (\u2026) Em rela\u00e7\u00e3o a todos os suportes mec\u00e2nicos, el\u00e9ctricos e electr\u00f3nicos, sabemos que ir\u00e3o desaparecer em breve ou n\u00e3o sabemos ainda quanta tempo ir\u00e3o durar e, provavelmente, nunca o saberemos. Basta um incidente, alias, um rel\u00e2mpago que cai no jardim ou qualquer outro incidente mais banal, para desmagnetizar uma mem\u00f3ria de computador. Se houver uma avaria el\u00e9ctrica importante, deixarei de poder utilizar qualquer mem\u00f3ria electr\u00f3nica. Al\u00e9m disso, mesmo tendo gravado na minha mem\u00f3ria electr\u00f3nica a vers\u00e3o integral do \u201cDom Quixote\u201d, n\u00e3o a poderei ler \u00e0 luz de uma vela, numa cama de rede, num barco, numa banheira ou num baloi\u00e7o, ao passo que com um livro posso fazer tudo isso, mesmo em condi\u00e7\u00f5es menos confort\u00e1veis. E, se o meu computador ou o meu livro electr\u00f3nico ca\u00edrem do 5\u00ba andar, estou matematicamente certo de ter perdido tudo, enquanto que, se for o meu livro a cair, na pior das hip\u00f3teses terei de apanhar as paginas uma a uma. Os suportes modernos parecem ter como alvo principal a difus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a sua conserva\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, o livro foi o instrumento mais importante da difus\u00e3o (pensemos no papel que teve a circula\u00e7\u00e3o da B\u00edblia impressa no aparecimento da Reforma e, ao mesmo tempo, da conserva\u00e7\u00e3o. E poss\u00edvel que, daqui a alguns s\u00e9culos, quando todos os suportes electr\u00f3nicos ficarem desmagnetizados, \u00fanico meio de obter informa\u00e7\u00f5es sobre o passado seja abrir um incun\u00e1bulo [obra impressa anterior a 1500]. Entre os livros modernos, sobreviver\u00e3o todos os que tiverem sido impressos em papel de qualidade ou em papel sem \u00e1cido. S\u00e3o muitos os editores que j\u00e1 os disponibilizam. N\u00e3o sou um passadista. Num disco r\u00edgido de 250 gigabytes, gravei as maiores obras-primas da literatura universal e da hist\u00f3ria da filosofia. \u00c9 bem mais c\u00f3modo para encontrar em segundos uma cita\u00e7\u00e3o de Dante ou a Summa Theologiae, de Tomas de Aquino, do que levantar -me para ir procurar um livro demasiado pesado em prateleiras demasiado altas. 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