{"id":3015170,"date":"2025-10-31T09:00:00","date_gmt":"2025-10-31T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/3015170.html"},"modified":"2026-05-13T12:58:03","modified_gmt":"2026-05-13T12:58:03","slug":"ler-e-acima-de-tudo-um-ato-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=3015170","title":{"rendered":"Ler \u00e9, acima de tudo, um ato de liberdade"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2025-10-27 tempo para ler.png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22813633_peKgN.png\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong><em>\u201c(\u2026) A inform\u00e1tica preserva mensagens e proporciona uma comunica\u00e7\u00e3o imediata. As sua entranhas protegem algo perdur\u00e1vel e o seu metabolismo \u00e9 dominado pela pressa. Onde ficam aos tempos interm\u00e9dios a que a leitura pertence.&#8221;<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Villoro<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong style=\"text-align: justify; font-size: 14pt;\"><em>Para al\u00e9m das estantes: IA, bibliotecas e o futuro das hist\u00f3rias <\/em><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 o mote de 2025, para <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">celebrar as Bibliotecas Escolares (BE), com o prop\u00f3sito de dar visibilidade ao trabalho que \u00e9 desenvolvido por professores bibliotec\u00e1rios, docentes, alunos, t\u00e9cnicos, pais e encarregados de educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m mediadores, escritores, criativos, entre outros. Celebrar as bibliotecas escolares \u00e9 celebrar a curiosidade e a criatividade, a liberdade de pensar e o poder das hist\u00f3rias. Entre livros f\u00edsicos e digitais, entre estantes e pixels, cada leitor tem a oportunidade de construir o seu pr\u00f3prio mundo e imaginar o futuro das hist\u00f3rias. Porque, no fim, cada livro lido e cada hist\u00f3ria inventada abre caminho a novas ideias, novos mundos \u2014 e a novos leitores.<\/span><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nas bibliotecas, cada p\u00e1gina \u00e9 uma porta para a imagina\u00e7\u00e3o. Ler n\u00e3o \u00e9 apenas decifrar palavras: \u00e9 questionar, criar, sonhar e descobrir novos pontos de vista. Agora, com a Intelig\u00eancia Artificial (IA), podemos experimentar novas formas de criar hist\u00f3rias, explorar aventuras interativas e at\u00e9 inventar livros com a nossa pr\u00f3pria voz. Sublinhem a palavra desafio. Com a IA s\u00e3o muitos os desafios que s\u00e3o colocados aos alunos, professores, pais e educadores, mas tamb\u00e9m a escritores e a leitores. Cada leitor encontra o seu caminho: h\u00e1 quem procure aventuras, quem se perca em poemas, quem descubra respostas e quem aprenda a fazer perguntas. Entre estantes e p\u00e1ginas, a leitura transforma-se num di\u00e1logo entre presente, passado e o futuro, diferentes geografias, entre o leitor e o autor, entre eu e os outros, entre n\u00f3s, entre eles.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O lema das bibliotecas escolares deste ano \u2014 <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cPara al\u00e9m das estantes: IA, bibliotecas e o futuro das hist\u00f3rias\u201d<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2014 convida-nos a refletir precisamente sobre este territ\u00f3rio h\u00edbrido entre o humano e o tecnol\u00f3gico. E poucas obras traduzem melhor esse desafio do que <\/span><strong><em>N\u00e3o sou um rob\u00f4 &#8211; A leitura e a sociedade digital <\/em><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">(Zigurate, 2025)<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"b4b9a7e-164816-nao-sou-um-robot_juan-villoro.jpg\" class=\"\" height=\"620\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22813629_NZBaT.jpeg\" style=\"float: left; width: 350px; padding: 10px 10px;\" width=\"350\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Juan Villoro inicia o seu livro com uma imagem familiar a todos n\u00f3s: o pequeno teste de seguran\u00e7a que pede para \u201cprovarmos\u201d que n\u00e3o somos rob\u00f4s. Essa frase, que tantas vezes clicamos sem pensar, torna-se no livro uma poderosa met\u00e1fora sobre a condi\u00e7\u00e3o humana contempor\u00e2nea. <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">O que significa continuar humano num mundo em que as m\u00e1quinas l\u00eaem, escrevem e decidem por n\u00f3s?<\/span><\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O autor mostra como a leitura \u2014 uma das atividades mais profundamente humanas \u2014 est\u00e1 a ser transformada pela tecnologia. Se outrora ler era um ato de recolhimento e de encontro com a palavra impressa, hoje \u00e9 tamb\u00e9m um ato de navega\u00e7\u00e3o: percorremos textos, imagens e sons numa rede infinita, onde o tempo de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 constantemente desafiado. No entanto, J. Villoro n\u00e3o condena o digital; prop\u00f5e antes uma consci\u00eancia cr\u00edtica. Ler na era da IA \u00e9, segundo o autor, aprender a distinguir entre informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, entre dados e sabedoria.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 aqui que as <\/span><strong>bibliotecas escolares<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> ganham novo protagonismo. S\u00e3o <\/span><strong>espa\u00e7os de media\u00e7\u00e3o digital<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, lugares onde se aprende a pensar, selecionar, interpretar e questionar. O \u201cpara al\u00e9m das estantes\u201d n\u00e3o \u00e9 um abandono do livro, mas a expans\u00e3o do seu esp\u00edrito: a leitura como ponte entre o passado e o futuro, entre o humano e o tecnol\u00f3gico.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A <\/span><strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, por seu lado, surge como parceria e um grande desafio. Ajuda-nos a organizar a informa\u00e7\u00e3o, a descobrir autores e temas, a criar formas de (re)contar hist\u00f3rias. Mas tamb\u00e9m nos obriga a reafirmar aquilo que \u00e9 exclusivamente humano: a imagina\u00e7\u00e3o, a empatia, a capacidade de criar sentido. Como lembra J. Villoro, os algoritmos podem prever padr\u00f5es, mas n\u00e3o compreendem os la\u00e7os emotivos e emp\u00e1ticos; podem gerar texto, mas n\u00e3o compreender a met\u00e1fora.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E, qual o futuro das hist\u00f3rias? A resposta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Tudo depender\u00e1 como n\u00f3s, os humanos, soubermos habitar neste mundo h\u00edbrido. Se formos leitores atentos, conscientes e curiosos, a IA ser\u00e1 uma ferramenta que amplifica a nossa criatividade.\u00a0 Talvez nos tornemos melhores leitores. Mais eficientes. Se deixarmos de interrogar, de nos espantar e gostar de ler fic\u00e7\u00e3o correremos o risco de nos tornarmos, n\u00f3s pr\u00f3prios, os rob\u00f4s que tanto tememos ser.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As bibliotecas \u2014 f\u00edsicas ou digitais \u2014 t\u00eam hoje de abra\u00e7ar m\u00faltiplos desafios, nomeadamente a miss\u00e3o de preservar o mais humano das hist\u00f3rias: o encontro, a partilha e o pensamento cr\u00edtico. <\/span><strong><em>N\u00e3o sou um rob\u00f4 &#8211; A leitura e a sociedade digital <\/em><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">recorda-nos que ler \u00e9, acima de tudo, um ato de liberdade. E \u00e9 essa liberdade que, para al\u00e9m das estantes, continuar\u00e1 a definir quem somos e as hist\u00f3rias que ainda seremos capazes de contar.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400; color: #ff0000;\">_____________________________________________________________________________<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E para continuarmos a falar de leitura, de liberdade, de curiosidade, do valor da fic\u00e7\u00e3o e das hist\u00f3rias, sugerimos mais duas maravilhosas hist\u00f3rias que devem habitar nas estantes das nossas bibliotecas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"um-vestido-com-bolsosFA31357-1021x1024.jpg\" class=\"editing\" height=\"350\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22813630_u9Zrz.jpeg\" style=\"float: left; width: 350px; padding: 10px 10px;\" width=\"350\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Um vestido com bolsos<\/em><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> (F\u00e1bula, 2025) \u00e9 uma hist\u00f3ria deliciosa, que deve saltar das estantes para que os leitores vejam como a curiosidade podem dar mote a bel\u00edssimas hist\u00f3rias. Nesta hist\u00f3ria, as coisas mais singelas poder\u00e3o ter um valor desmedido e as crian\u00e7as uma capacidade de transformar o vulgar em precioso. A autenticidade, a liberdade individual e a rejei\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos da moda feminina est\u00e3o presentes na hist\u00f3ria. Ser\u00e1 esta uma hist\u00f3ria do presente ou do futuro? <\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">_______________________________________________<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"eu-odeio-adoro-livrosFA79913-scaled.jpg\" class=\"\" height=\"473\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22813631_2wwBV.jpeg\" style=\"float: right; width: 350px; padding: 10px 10px;\" width=\"350\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O \u00faltimo dia de aula chegou! Com ele os alunos s\u00e3o apoderados de uma felicidade sem fim! Chegaram os dias de \u00f3cio. Mas, neste dia foi diferente. A felicidade teve pouca dura\u00e7\u00e3o. A professora convidou os alunos a lerem um livro! Um livro inteiro! As f\u00e9rias estavam condenadas ao fracasso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00f3 havia uma solu\u00e7\u00e3o: ir \u00e0 biblioteca e procurar um livro e l\u00ea-lo rapidamente. Perante a estante a pergunta persistia: como escolher um livro? S\u00e3o tanto e todos me parecem aborrecidos, afirmava a jovem que odiava livros. Recusou algumas sugest\u00f5es. N\u00e3o havia nenhum livro que a seduzisse.\u00a0 De regresso a casa, a m\u00e3e, diz-lhe \u201c<\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Porque \u00e9 que n\u00e3o experimentas este? Li-o quando tinha a tua idade<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">.\u201d\u00a0 O livro pareceu-lhe enorme, talvez as f\u00e9rias de ver\u00e3o n\u00e3o chegassem para o ler na integra. O melhor seria come\u00e7ar \u2026 e, eis que se inicia uma grande e transformadora aventura. A magia da leitura apodera-se da jovem que rapidamente quer regressar \u00e0 biblioteca e procurar novas proezas e feiti\u00e7os, terras imagin\u00e1rias e long\u00ednquas, her\u00f3is que nos fazem palpitar o cora\u00e7\u00e3o, ingredientes milagrosos, r\u00e3s encantadas, piratas travessos, lugares assustadores\u2026finalmente, a descoberta de mil de aventuras sem fim. O deslumbramento da leitura acontece!\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>\u201c(\u2026) precisamos de bibliotecas. Precisamos de livros. Precisamos de cidad\u00e3os letrados. N\u00e3o interessa \u2013 n\u00e3o acredito que seja importante \u2013 se os livros s\u00e3o em papel ou digitais, se est\u00e1 a ler um pergaminho ou a deslizar pelo ecr\u00e3. O importante \u00e9 o conte\u00fado. [\u2026] temos responsabilidades para com o futuro. [\u2026] Penso que temos a obriga\u00e7\u00e3o de ler por prazer, seja em locais p\u00fablicos ou privados. Se lermos por prazer, se os outros nos virem a ler, ent\u00e3o aprendemos, exercitamos a nossa imagina\u00e7\u00e3o. Mostramos aos outros que ler \u00e9 bom.\u201d\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Neil Gaiman (2017), <em>O que se v\u00ea da \u00faltima Fila<\/em>. Lisboa: Elsinore<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>______________________________________________________<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>* J\u00falia Martins<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Acredita no poder da leitura. Dar a ler \u00e9 um desafio que gosta de abra\u00e7ar. \u00c9 leitora e frequenta, de forma ass\u00eddua, Clubes de Leitura.<span>\u00a0<\/span><a title=\"Saiba mais\" href=\"https:\/\/www.rbe.mec.pt\/np4\/VL-oradores-julia-martins.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Saiba mais<\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>______________________________________________________<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Leia outros artigos da s\u00e9rie<\/strong><\/span><strong><br \/><a href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/tag\/tempo+para+ler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Imagem23.png\" class=\"lazyload-item lazyload-item lazyload-item lazyload-item lazyload-item lazyload-item lazyload-item lazyload-item\" height=\"67\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22630975_LsyUu.png\" width=\"348\" \/><\/a><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c(\u2026) A inform\u00e1tica preserva mensagens e proporciona uma comunica\u00e7\u00e3o imediata. As sua entranhas protegem algo perdur\u00e1vel e o seu metabolismo \u00e9 dominado pela pressa. Onde ficam aos tempos interm\u00e9dios a que a leitura pertence.&#8221; Villoro Para al\u00e9m das estantes: IA, bibliotecas e o futuro das hist\u00f3rias \u00e9 o mote de 2025, para celebrar as Bibliotecas Escolares (BE), com o prop\u00f3sito de dar visibilidade ao trabalho que \u00e9 desenvolvido por professores bibliotec\u00e1rios, docentes, alunos, t\u00e9cnicos, pais e encarregados de educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m mediadores, escritores, criativos, entre outros. Celebrar as bibliotecas escolares \u00e9 celebrar a curiosidade e a criatividade, a liberdade de pensar e o poder das hist\u00f3rias. Entre livros f\u00edsicos e digitais, entre estantes e pixels, cada leitor tem a oportunidade de construir o seu pr\u00f3prio mundo e imaginar o futuro das hist\u00f3rias. Porque, no fim, cada livro lido e cada hist\u00f3ria inventada abre caminho a novas ideias, novos mundos \u2014 e a novos leitores. Nas bibliotecas, cada p\u00e1gina \u00e9 uma porta para a imagina\u00e7\u00e3o. Ler n\u00e3o \u00e9 apenas decifrar palavras: \u00e9 questionar, criar, sonhar e descobrir novos pontos de vista. Agora, com a Intelig\u00eancia Artificial (IA), podemos experimentar novas formas de criar hist\u00f3rias, explorar aventuras interativas e at\u00e9 inventar livros com a nossa pr\u00f3pria voz. Sublinhem a palavra desafio. Com a IA s\u00e3o muitos os desafios que s\u00e3o colocados aos alunos, professores, pais e educadores, mas tamb\u00e9m a escritores e a leitores. Cada leitor encontra o seu caminho: h\u00e1 quem procure aventuras, quem se perca em poemas, quem descubra respostas e quem aprenda a fazer perguntas. Entre estantes e p\u00e1ginas, a leitura transforma-se num di\u00e1logo entre presente, passado e o futuro, diferentes geografias, entre o leitor e o autor, entre eu e os outros, entre n\u00f3s, entre eles.\u00a0 O lema das bibliotecas escolares deste ano \u2014 \u201cPara al\u00e9m das estantes: IA, bibliotecas e o futuro das hist\u00f3rias\u201d \u2014 convida-nos a refletir precisamente sobre este territ\u00f3rio h\u00edbrido entre o humano e o tecnol\u00f3gico. E poucas obras traduzem melhor esse desafio do que N\u00e3o sou um rob\u00f4 &#8211; A leitura e a sociedade digital (Zigurate, 2025) Juan Villoro inicia o seu livro com uma imagem familiar a todos n\u00f3s: o pequeno teste de seguran\u00e7a que pede para \u201cprovarmos\u201d que n\u00e3o somos rob\u00f4s. Essa frase, que tantas vezes clicamos sem pensar, torna-se no livro uma poderosa met\u00e1fora sobre a condi\u00e7\u00e3o humana contempor\u00e2nea. O que significa continuar humano num mundo em que as m\u00e1quinas l\u00eaem, escrevem e decidem por n\u00f3s? O autor mostra como a leitura \u2014 uma das atividades mais profundamente humanas \u2014 est\u00e1 a ser transformada pela tecnologia. Se outrora ler era um ato de recolhimento e de encontro com a palavra impressa, hoje \u00e9 tamb\u00e9m um ato de navega\u00e7\u00e3o: percorremos textos, imagens e sons numa rede infinita, onde o tempo de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 constantemente desafiado. No entanto, J. Villoro n\u00e3o condena o digital; prop\u00f5e antes uma consci\u00eancia cr\u00edtica. Ler na era da IA \u00e9, segundo o autor, aprender a distinguir entre informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, entre dados e sabedoria. \u00c9 aqui que as bibliotecas escolares ganham novo protagonismo. S\u00e3o espa\u00e7os de media\u00e7\u00e3o digital, lugares onde se aprende a pensar, selecionar, interpretar e questionar. O \u201cpara al\u00e9m das estantes\u201d n\u00e3o \u00e9 um abandono do livro, mas a expans\u00e3o do seu esp\u00edrito: a leitura como ponte entre o passado e o futuro, entre o humano e o tecnol\u00f3gico. A intelig\u00eancia artificial, por seu lado, surge como parceria e um grande desafio. Ajuda-nos a organizar a informa\u00e7\u00e3o, a descobrir autores e temas, a criar formas de (re)contar hist\u00f3rias. Mas tamb\u00e9m nos obriga a reafirmar aquilo que \u00e9 exclusivamente humano: a imagina\u00e7\u00e3o, a empatia, a capacidade de criar sentido. Como lembra J. Villoro, os algoritmos podem prever padr\u00f5es, mas n\u00e3o compreendem os la\u00e7os emotivos e emp\u00e1ticos; podem gerar texto, mas n\u00e3o compreender a met\u00e1fora. E, qual o futuro das hist\u00f3rias? A resposta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Tudo depender\u00e1 como n\u00f3s, os humanos, soubermos habitar neste mundo h\u00edbrido. Se formos leitores atentos, conscientes e curiosos, a IA ser\u00e1 uma ferramenta que amplifica a nossa criatividade.\u00a0 Talvez nos tornemos melhores leitores. Mais eficientes. Se deixarmos de interrogar, de nos espantar e gostar de ler fic\u00e7\u00e3o correremos o risco de nos tornarmos, n\u00f3s pr\u00f3prios, os rob\u00f4s que tanto tememos ser. As bibliotecas \u2014 f\u00edsicas ou digitais \u2014 t\u00eam hoje de abra\u00e7ar m\u00faltiplos desafios, nomeadamente a miss\u00e3o de preservar o mais humano das hist\u00f3rias: o encontro, a partilha e o pensamento cr\u00edtico. N\u00e3o sou um rob\u00f4 &#8211; A leitura e a sociedade digital recorda-nos que ler \u00e9, acima de tudo, um ato de liberdade. E \u00e9 essa liberdade que, para al\u00e9m das estantes, continuar\u00e1 a definir quem somos e as hist\u00f3rias que ainda seremos capazes de contar. _____________________________________________________________________________ E para continuarmos a falar de leitura, de liberdade, de curiosidade, do valor da fic\u00e7\u00e3o e das hist\u00f3rias, sugerimos mais duas maravilhosas hist\u00f3rias que devem habitar nas estantes das nossas bibliotecas.\u00a0 Um vestido com bolsos (F\u00e1bula, 2025) \u00e9 uma hist\u00f3ria deliciosa, que deve saltar das estantes para que os leitores vejam como a curiosidade podem dar mote a bel\u00edssimas hist\u00f3rias. Nesta hist\u00f3ria, as coisas mais singelas poder\u00e3o ter um valor desmedido e as crian\u00e7as uma capacidade de transformar o vulgar em precioso. A autenticidade, a liberdade individual e a rejei\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos da moda feminina est\u00e3o presentes na hist\u00f3ria. Ser\u00e1 esta uma hist\u00f3ria do presente ou do futuro? _______________________________________________ O \u00faltimo dia de aula chegou! Com ele os alunos s\u00e3o apoderados de uma felicidade sem fim! Chegaram os dias de \u00f3cio. Mas, neste dia foi diferente. A felicidade teve pouca dura\u00e7\u00e3o. A professora convidou os alunos a lerem um livro! Um livro inteiro! As f\u00e9rias estavam condenadas ao fracasso.\u00a0 S\u00f3 havia uma solu\u00e7\u00e3o: ir \u00e0 biblioteca e procurar um livro e l\u00ea-lo rapidamente. Perante a estante a pergunta persistia: como escolher um livro? S\u00e3o tanto e todos me parecem aborrecidos, afirmava a jovem que odiava livros. Recusou algumas sugest\u00f5es. N\u00e3o havia nenhum livro que a seduzisse.\u00a0 De regresso a casa, a m\u00e3e, diz-lhe \u201cPorque \u00e9 que n\u00e3o experimentas este? Li-o quando tinha a tua idade.\u201d\u00a0 O livro pareceu-lhe enorme, talvez as f\u00e9rias de ver\u00e3o n\u00e3o chegassem para o ler na integra. O melhor seria come\u00e7ar \u2026 e, eis que se inicia uma grande e transformadora aventura. A magia da leitura apodera-se da jovem que rapidamente quer regressar \u00e0 biblioteca e procurar novas proezas e feiti\u00e7os, terras imagin\u00e1rias e long\u00ednquas, her\u00f3is que nos fazem palpitar o cora\u00e7\u00e3o, ingredientes milagrosos, r\u00e3s encantadas, piratas travessos, lugares assustadores\u2026finalmente, a descoberta de mil de aventuras sem fim. O deslumbramento da leitura acontece!\u00a0 \u00a0 \u201c(\u2026) precisamos de bibliotecas. Precisamos de livros. Precisamos de cidad\u00e3os letrados. N\u00e3o interessa \u2013 n\u00e3o acredito que seja importante \u2013 se os livros s\u00e3o em papel ou digitais, se est\u00e1 a ler um pergaminho ou a deslizar pelo ecr\u00e3. O importante \u00e9 o conte\u00fado. [\u2026] temos responsabilidades para com o futuro. [\u2026] Penso que temos a obriga\u00e7\u00e3o de ler por prazer, seja em locais p\u00fablicos ou privados. Se lermos por prazer, se os outros nos virem a ler, ent\u00e3o aprendemos, exercitamos a nossa imagina\u00e7\u00e3o. Mostramos aos outros que ler \u00e9 bom.\u201d\u00a0 Neil Gaiman (2017), O que se v\u00ea da \u00faltima Fila. Lisboa: Elsinore ______________________________________________________ * J\u00falia Martins Acredita no poder da leitura. Dar a ler \u00e9 um desafio que gosta de abra\u00e7ar. \u00c9 leitora e frequenta, de forma ass\u00eddua, Clubes de Leitura.\u00a0Saiba mais ______________________________________________________ Leia outros artigos da s\u00e9rie<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[115,119,169],"tags":[],"class_list":["post-3015170","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-bibliotecas-escolares","category-mibe","category-tempo-para-ler"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3015170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3015170"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3015170\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3085104,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3015170\/revisions\/3085104"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3015170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3015170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3015170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}