{"id":2994251,"date":"2025-09-03T09:00:00","date_gmt":"2025-09-03T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2994251.html"},"modified":"2026-05-13T13:03:28","modified_gmt":"2026-05-13T13:03:28","slug":"porque-lemos-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2994251","title":{"rendered":"Porque lemos?\u00a0"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Blogue (5).png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22793379_Nzdos.png\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 12pt;\"><em>Porque lemos: setenta escritores sobre a n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o<\/em>, editado por Josephine Greywoode [1], \u00e9 uma antologia de 70 ensaios breves de autores contempor\u00e2neos que oferecem uma perspetiva singular, rica e complexa sobre o ato de ler, explorando as raz\u00f5es pelas quais lemos, de que modo lemos, o valor da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o e a fluidez da sua fronteira com a fic\u00e7\u00e3o.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Este \u00e9 o terceiro de uma s\u00e9rie de 3 artigos sobre o livro e destaca os ensaios de Niall Ferguson, Gerd Gigerenzer e Rana Mitter.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000; font-size: 18pt;\"><strong>Niall Ferguson<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, historiador, professor na Universidade de Harvard e comentador pol\u00edtico, partindo da analogia\u00a0 com o filme Matrix &#8211; no qual a realidade percebida pelos humanos \u00e9 simulada por computador (Matrix) &#8211; considera que \u201c<\/span><strong>\u00e9 a literatura que \u00e9 a simula\u00e7\u00e3o. Lemos tanto fic\u00e7\u00e3o como n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o para experimentar imaginativamente vidas diferentes da nossa.<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> Esta experi\u00eancia interior &#8211; a nossa participa\u00e7\u00e3o na simula\u00e7\u00e3o &#8211; melhora as nossas vidas, que de outra forma seriam mon\u00f3tonas e repetitivas\u201d.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Formas modernas de entretenimento, como o cinema, a televis\u00e3o, os videojogos e o metaverso da realidade virtual e aumentada s\u00e3o \u201cformas de entretenimento que exigem menos esfor\u00e7o imaginativo\u201d e cognitivo e, por isso,\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cs\u00e3o inferiores \u00e0 leitura. [\u2026] Claro que se gasta menos energia a ser transportado numa liteira do que a andar ou correr, mas h\u00e1 uma raz\u00e3o \u2014 para al\u00e9m do aumento de peso \u2014 pela qual incentivamos as nossas crian\u00e7as a usarem as suas pr\u00f3prias pernas. <\/span><strong>A literatura \u00e9, ent\u00e3o, a simula\u00e7\u00e3o: a verdadeira e insuper\u00e1vel \u2018experi\u00eancia imersiva\u2019\u201d que \u201cproporciona um aumento da realidade\u201d<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Destaca \u201coutra raz\u00e3o para ler, que \u00e9 <\/span><strong>a forma como a simula\u00e7\u00e3o permanece na mem\u00f3ria, moldando e enriquecendo todos os nossos encontros futuros com a realidade<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d, influenciando a forma como o leitor compreende e interage com o mundo, tendo efeitos duradouros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conclui, \u201c\u00e9 quase certo que n\u00e3o vivemos numa simula\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica. Mas podemos, se assim quisermos, viver numa simula\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Eu escolhi faz\u00ea-lo h\u00e1 muito tempo. E espero, sinceramente, morrer a ler\u201d.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ensaio de <\/span><span style=\"color: #ff0000; font-size: 18pt;\"><strong>Gerd Gigerenzer<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"color: #ff0000;\">,<\/span> psic\u00f3logo e professor universit\u00e1rio alem\u00e3o, \u00e9 uma valoriza\u00e7\u00e3o da <\/span><strong>leitura em voz alta<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, que sempre existiu, durante mil\u00e9nios \u201cler significava ler para outra pessoa\u201d. Compara-a \u00e0 experi\u00eancia atual dos audiolivros, mas com outra(s) pessoa(s).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o muitas as virtudes da leitura em voz alta:<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li aria-level=\"1\"><strong>Fomenta a aprendizagem da linguagem;<\/strong><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li aria-level=\"1\"><strong>Refor\u00e7a os la\u00e7os sociais entre quem escuta e quem l\u00ea;<\/strong><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><strong>Ajuda a compreender e a fixar na mem\u00f3ria.<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAs pessoas parecem intuitivamente ter consci\u00eancia deste efeito positivo. Por exemplo, quando \u00e9 dif\u00edcil compreender uma receita ou instru\u00e7\u00e3o, espontaneamente come\u00e7am a l\u00ea-la em voz alta para facilitar a compreens\u00e3o\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Este psic\u00f3logo que valoriza o uso de heur\u00edsticas (regras simples) como ferramentas cognitivas inteligentes que podem ajudar a tomar boas decis\u00f5es, considera que em situa\u00e7\u00f5es de risco (dentro do avi\u00e3o, numa mesa de opera\u00e7\u00f5es\u2026) ter uma checklist que possa ser lida em voz alta ajuda a manter o controlo e a seguran\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A leitura silenciosa e privada est\u00e1 associada a &#8220;t\u00e9cnicas de leitura r\u00e1pida que incorporam o valor do &#8216;quanto mais r\u00e1pido, melhor&#8217;, o que \u00e9 estranho \u00e0 leitura em voz alta, mas passar por vinte a trinta palavras por segundo n\u00e3o permite realmente a mesma compreens\u00e3o que ao ler a um ritmo normal&#8221;. <\/span><strong>A lentid\u00e3o da leitura em voz alta aprofunda as capacidades de entendimento e memoriza\u00e7\u00e3o do texto lido<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gigerenzer destaca ainda a confian\u00e7a como \u201cuma componente essencial da leitura\u201d.\u00a0 Na era digital e da desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 importante determinar se podemos confiar no autor\/fonte e isso exige educa\u00e7\u00e3o\/forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de compet\u00eancias. Neste \u00e2mbito, identifica um problema geral: <\/span><strong>os autores n\u00e3o \u201cfazerem o esfor\u00e7o de ler as fontes originais\u201d<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, baseando-se no que os outros escreveram ou em boatos, o que gera perda de rigor. \u201cPassar de boca em boca n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ler em voz alta, apesar de parecer suscitar n\u00edveis de confian\u00e7a semelhantes sobre a fonte\u201d.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gigerenzer estabelece uma liga\u00e7\u00e3o direta entre os n\u00edveis de leitura e de democracia:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Ler de forma ampla e cont\u00ednua \u00e9 um bom ant\u00eddoto contra ser induzido em erro por uma \u00fanica fonte incorreta e \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">sine qua non<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> para uma democracia funcional. <\/span><strong>Cultiva cidad\u00e3os com esp\u00edrito cr\u00edtico, capazes de argumentar e de enfrentar as autoridades. Nesse sentido, a leitura extensiva \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o \u2014 at\u00e9 mesmo um dever moral<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No mundo interdependente atual, <strong>a leitura ampla e variada expande o repert\u00f3rio do indiv\u00edduo<\/strong> (lingu\u00edstico, cognitivo, experiencial\u2026) e \u00e9 um imperativo \u00e9tico, uma responsabilidade moral que cabe a cada um exercer para que:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Circulem livremente m\u00faltiplas perspetivas, argumentos e autores;<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Se analisem criticamente fontes e autoridades, evitando censura, manipula\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o;<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Cres\u00e7a a participa\u00e7\u00e3o e o compromisso com a vida p\u00fablica.<\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000; font-size: 18pt;\"><strong>Rana Mitter<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, de ascend\u00eancia indiana, \u00e9 um dos grandes especialistas brit\u00e2nicos de Hist\u00f3ria e Pol\u00edtica da Rep\u00fablica Popular da China.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Reconhece que o digital facilita o acesso, mas tamb\u00e9m a censura de informa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p><strong>&#8220;A censura tem sido usada por todos os regimes chineses, mas na \u00faltima d\u00e9cada ou duas, muitos livros que registaram aspetos problem\u00e1ticos do passado surgiram e depois desapareceram das prateleiras na China.&#8221;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aspetos problem\u00e1ticos ou sens\u00edveis s\u00e3o as t\u00e1ticas coercivas, por vezes ilegais, de vigil\u00e2ncia e intimida\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes de oposi\u00e7\u00e3o, levadas a cabo pelo Partido Comunista Chin\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Defendendo o direito \u00e0 liberdade de informa\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, Mitter considera que \u201cLemos porque queremos adquirir conhecimento e formar julgamentos enquanto o material est\u00e1 dispon\u00edvel\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000; font-size: 18pt;\"><strong>Pode gostar de ler\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"175\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22764783_lm11r.png\" style=\"float: left; width: 350px; padding: 10px 10px;\" width=\"350\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: 14pt;\"><a href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/porque-lemos-2961580\">Porque lemos?<\/a><\/span><\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"175\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22773635_8R0h6.png\" style=\"float: left; width: 350px; padding: 10px 10px;\" width=\"350\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: 14pt;\"><a href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/porque-lemos-2970504\">Porque lemos?<\/a><\/span><\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Greywoode, Josephine (Ed.). (2002). <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Why We Read: Seventy Writers on Non-Fiction<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\">. Penguin Books Ltd. <\/span><a href=\"https:\/\/cdn.penguin.co.uk\/dam-assets\/books\/9781802060959\/9781802060959-sample.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/cdn.penguin.co.uk\/dam-assets\/books\/9781802060959\/9781802060959-sample.pdf<\/span><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Peter Hennessy<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, historiador e acad\u00e9mico ingl\u00eas, \u201cCuriosidade, literacia e mem\u00f3ria \u00e9 o que distingue a nossa esp\u00e9cie das outras. Ler \u00e9 a atividade suprema que as alimenta \u2013 o maior acumulador de capital humano.\u201d A leitura liga-nos a um mundo partilhado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Interesse\/Curiosidade, ilumina\u00e7\u00e3o (est\u00edmulo mental), inspira\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e relaxamento s\u00e3o as principais raz\u00f5es que Ian Kershaw identifica para ler.\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque lemos: setenta escritores sobre a n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, editado por Josephine Greywoode [1], \u00e9 uma antologia de 70 ensaios breves de autores contempor\u00e2neos que oferecem uma perspetiva singular, rica e complexa sobre o ato de ler, explorando as raz\u00f5es pelas quais lemos, de que modo lemos, o valor da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o e a fluidez da sua fronteira com a fic\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o terceiro de uma s\u00e9rie de 3 artigos sobre o livro e destaca os ensaios de Niall Ferguson, Gerd Gigerenzer e Rana Mitter.\u00a0 Niall Ferguson, historiador, professor na Universidade de Harvard e comentador pol\u00edtico, partindo da analogia\u00a0 com o filme Matrix &#8211; no qual a realidade percebida pelos humanos \u00e9 simulada por computador (Matrix) &#8211; considera que \u201c\u00e9 a literatura que \u00e9 a simula\u00e7\u00e3o. Lemos tanto fic\u00e7\u00e3o como n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o para experimentar imaginativamente vidas diferentes da nossa. Esta experi\u00eancia interior &#8211; a nossa participa\u00e7\u00e3o na simula\u00e7\u00e3o &#8211; melhora as nossas vidas, que de outra forma seriam mon\u00f3tonas e repetitivas\u201d. Formas modernas de entretenimento, como o cinema, a televis\u00e3o, os videojogos e o metaverso da realidade virtual e aumentada s\u00e3o \u201cformas de entretenimento que exigem menos esfor\u00e7o imaginativo\u201d e cognitivo e, por isso,\u00a0 \u201cs\u00e3o inferiores \u00e0 leitura. [\u2026] Claro que se gasta menos energia a ser transportado numa liteira do que a andar ou correr, mas h\u00e1 uma raz\u00e3o \u2014 para al\u00e9m do aumento de peso \u2014 pela qual incentivamos as nossas crian\u00e7as a usarem as suas pr\u00f3prias pernas. A literatura \u00e9, ent\u00e3o, a simula\u00e7\u00e3o: a verdadeira e insuper\u00e1vel \u2018experi\u00eancia imersiva\u2019\u201d que \u201cproporciona um aumento da realidade\u201d.\u00a0 Destaca \u201coutra raz\u00e3o para ler, que \u00e9 a forma como a simula\u00e7\u00e3o permanece na mem\u00f3ria, moldando e enriquecendo todos os nossos encontros futuros com a realidade\u201d, influenciando a forma como o leitor compreende e interage com o mundo, tendo efeitos duradouros.\u00a0 Conclui, \u201c\u00e9 quase certo que n\u00e3o vivemos numa simula\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica. Mas podemos, se assim quisermos, viver numa simula\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Eu escolhi faz\u00ea-lo h\u00e1 muito tempo. E espero, sinceramente, morrer a ler\u201d. \u00a0 O ensaio de Gerd Gigerenzer, psic\u00f3logo e professor universit\u00e1rio alem\u00e3o, \u00e9 uma valoriza\u00e7\u00e3o da leitura em voz alta, que sempre existiu, durante mil\u00e9nios \u201cler significava ler para outra pessoa\u201d. Compara-a \u00e0 experi\u00eancia atual dos audiolivros, mas com outra(s) pessoa(s).\u00a0 S\u00e3o muitas as virtudes da leitura em voz alta: \u00a0 Fomenta a aprendizagem da linguagem; \u00a0 Refor\u00e7a os la\u00e7os sociais entre quem escuta e quem l\u00ea; \u00a0 \u00a0 Ajuda a compreender e a fixar na mem\u00f3ria.\u00a0 \u201cAs pessoas parecem intuitivamente ter consci\u00eancia deste efeito positivo. Por exemplo, quando \u00e9 dif\u00edcil compreender uma receita ou instru\u00e7\u00e3o, espontaneamente come\u00e7am a l\u00ea-la em voz alta para facilitar a compreens\u00e3o\u201d.\u00a0 Este psic\u00f3logo que valoriza o uso de heur\u00edsticas (regras simples) como ferramentas cognitivas inteligentes que podem ajudar a tomar boas decis\u00f5es, considera que em situa\u00e7\u00f5es de risco (dentro do avi\u00e3o, numa mesa de opera\u00e7\u00f5es\u2026) ter uma checklist que possa ser lida em voz alta ajuda a manter o controlo e a seguran\u00e7a.\u00a0 A leitura silenciosa e privada est\u00e1 associada a &#8220;t\u00e9cnicas de leitura r\u00e1pida que incorporam o valor do &#8216;quanto mais r\u00e1pido, melhor&#8217;, o que \u00e9 estranho \u00e0 leitura em voz alta, mas passar por vinte a trinta palavras por segundo n\u00e3o permite realmente a mesma compreens\u00e3o que ao ler a um ritmo normal&#8221;. A lentid\u00e3o da leitura em voz alta aprofunda as capacidades de entendimento e memoriza\u00e7\u00e3o do texto lido.\u00a0 Gigerenzer destaca ainda a confian\u00e7a como \u201cuma componente essencial da leitura\u201d.\u00a0 Na era digital e da desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 importante determinar se podemos confiar no autor\/fonte e isso exige educa\u00e7\u00e3o\/forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de compet\u00eancias. Neste \u00e2mbito, identifica um problema geral: os autores n\u00e3o \u201cfazerem o esfor\u00e7o de ler as fontes originais\u201d, baseando-se no que os outros escreveram ou em boatos, o que gera perda de rigor. \u201cPassar de boca em boca n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ler em voz alta, apesar de parecer suscitar n\u00edveis de confian\u00e7a semelhantes sobre a fonte\u201d.\u00a0\u00a0 Gigerenzer estabelece uma liga\u00e7\u00e3o direta entre os n\u00edveis de leitura e de democracia:\u00a0 &#8220;Ler de forma ampla e cont\u00ednua \u00e9 um bom ant\u00eddoto contra ser induzido em erro por uma \u00fanica fonte incorreta e \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o sine qua non para uma democracia funcional. Cultiva cidad\u00e3os com esp\u00edrito cr\u00edtico, capazes de argumentar e de enfrentar as autoridades. Nesse sentido, a leitura extensiva \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o \u2014 at\u00e9 mesmo um dever moral.&#8221; No mundo interdependente atual, a leitura ampla e variada expande o repert\u00f3rio do indiv\u00edduo (lingu\u00edstico, cognitivo, experiencial\u2026) e \u00e9 um imperativo \u00e9tico, uma responsabilidade moral que cabe a cada um exercer para que:\u00a0 Circulem livremente m\u00faltiplas perspetivas, argumentos e autores; Se analisem criticamente fontes e autoridades, evitando censura, manipula\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o; Cres\u00e7a a participa\u00e7\u00e3o e o compromisso com a vida p\u00fablica. Rana Mitter, de ascend\u00eancia indiana, \u00e9 um dos grandes especialistas brit\u00e2nicos de Hist\u00f3ria e Pol\u00edtica da Rep\u00fablica Popular da China.\u00a0 Reconhece que o digital facilita o acesso, mas tamb\u00e9m a censura de informa\u00e7\u00e3o.\u00a0 &#8220;A censura tem sido usada por todos os regimes chineses, mas na \u00faltima d\u00e9cada ou duas, muitos livros que registaram aspetos problem\u00e1ticos do passado surgiram e depois desapareceram das prateleiras na China.&#8221;\u00a0 Aspetos problem\u00e1ticos ou sens\u00edveis s\u00e3o as t\u00e1ticas coercivas, por vezes ilegais, de vigil\u00e2ncia e intimida\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes de oposi\u00e7\u00e3o, levadas a cabo pelo Partido Comunista Chin\u00eas. Defendendo o direito \u00e0 liberdade de informa\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, Mitter considera que \u201cLemos porque queremos adquirir conhecimento e formar julgamentos enquanto o material est\u00e1 dispon\u00edvel\u201d.\u00a0 Pode gostar de ler\u00a0 \u00a0 Porque lemos? \u00a0 \u00a0 \u00a0 Porque lemos? \u00a0 \u00a0 Refer\u00eancia Greywoode, Josephine (Ed.). (2002). Why We Read: Seventy Writers on Non-Fiction. Penguin Books Ltd. https:\/\/cdn.penguin.co.uk\/dam-assets\/books\/9781802060959\/9781802060959-sample.pdf Segundo Peter Hennessy, historiador e acad\u00e9mico ingl\u00eas, \u201cCuriosidade, literacia e mem\u00f3ria \u00e9 o que distingue a nossa esp\u00e9cie das outras. Ler \u00e9 a atividade suprema que as alimenta \u2013 o maior acumulador de capital humano.\u201d A leitura liga-nos a um mundo partilhado.\u00a0 \u00a0 Interesse\/Curiosidade, ilumina\u00e7\u00e3o (est\u00edmulo mental), inspira\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e relaxamento s\u00e3o as principais raz\u00f5es que Ian Kershaw identifica para ler.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,140],"tags":[],"class_list":["post-2994251","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","category-livros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2994251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2994251"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2994251\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3085196,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2994251\/revisions\/3085196"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2994251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2994251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2994251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}