{"id":2970070,"date":"2025-07-01T09:00:00","date_gmt":"2025-07-01T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2970070.html"},"modified":"2026-05-13T13:10:20","modified_gmt":"2026-05-13T13:10:20","slug":"com-livros-cabelos-ruivos-e-historias-para-contar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2970070","title":{"rendered":"Com livros, cabelos ruivos e hist\u00f3rias para contar"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Retalhos.png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22773630_m4AHD.png\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Entre estantes, livros e sorrisos t\u00edmidos de leitores iniciantes, fui recolhendo pequenos epis\u00f3dios que fazem da minha vida de professora bibliotec\u00e1ria uma colcha feita de mem\u00f3rias, surpresas e afetos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Apesar de possuir, apenas, cinco anos de experi\u00eancia como professora bibliotec\u00e1ria, o meu percurso nas bibliotecas n\u00e3o se reduz ao desempenho deste cargo. Entrela\u00e7ados nestes, est\u00e3o outros seis anos como membro de equipas de bibliotecas escolares: um ano no Agrupamento onde posteriormente me estreei como professora bibliotec\u00e1ria e os restantes, num interregno for\u00e7ado, num outro Agrupamento, onde, mais tarde, retomei estas fun\u00e7\u00f5es. Lembro-me bem de como foi dif\u00edcil, no in\u00edcio, mudar mentalidades. A biblioteca era vista apenas como um local de passagem ou como um espa\u00e7o onde, de vez em quando, se fazia uma atividade diferente ou se comemoravam dias festivos. Mas eu via nela muito mais do que isso. Com persist\u00eancia, alguma teimosia e uma grande vontade de fazer a diferen\u00e7a, consegui aos poucos transformar aquele espa\u00e7o num verdadeiro cora\u00e7\u00e3o da escola \u2014 um lugar onde se partilhavam hist\u00f3rias, se descobriam autores, se criavam h\u00e1bitos, se inspiravam professores e alunos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O primeiro ano como professora bibliotec\u00e1ria, foi tamb\u00e9m exigente. Inexperiente, dei-me conta rapidamente de que ser bibliotec\u00e1ria n\u00e3o era apenas dinamizar atividades. Era gerir um espa\u00e7o, um fundo documental, um ritmo pr\u00f3prio. Era aprender a estar presente sem se impor. Felizmente, tive e continuo a ter o apoio inestim\u00e1vel da Coordenadora Interconcelhia da RBE e das colegas bibliotec\u00e1rias com quem trabalhei, que, com generosidade, me ajudaram a crescer e a descobrir, na pr\u00e1tica, o que significa verdadeiramente ocupar este lugar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Depois desse primeiro ano intenso, voltei \u00e0 minha \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o inicial, a Educa\u00e7\u00e3o de Inf\u00e2ncia. Curiosamente (ou talvez nem tanto), os livros n\u00e3o me largavam. Seguiam-me, discretamente, como quem sabe que ainda tem um papel a cumprir. As escolas (EB 1.\u00ba ciclo\/ JI) onde fui colocada, tinham zonas de leitura esquecidas, desorganizadas, com livros espalhados e estantes que pareciam n\u00e3o terem sido tocadas h\u00e1 muito tempo. Havia, no entanto, ali um potencial enorme e uma voz dentro de mim que n\u00e3o se calava.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Estava longe de casa, tinha muitas horas livres, tantas que decidi p\u00f4r m\u00e3os \u00e0 obra. Aos poucos, entre caixas, p\u00f3 e pilhas de livros desalinhados, fui dando forma ao espa\u00e7o. Organizei o fundo documental, tornei-o acess\u00edvel, e, sobretudo, preparei-o para ser vivido. Queria que estes espa\u00e7os deixassem de ser dep\u00f3sitos de livros, para passarem a ser um espa\u00e7o de encontro, de descoberta, de magia.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>E foi isso que aconteceu. Come\u00e7aram a vir os alunos. Vieram os professores. Come\u00e7aram a surgir as hist\u00f3rias contadas, livros emprestados, sorrisos curiosos. As estantes deixaram de ser apenas decora\u00e7\u00e3o: tornaram-se num convite a serem tocadas. Os espa\u00e7os transformaram-se e ganharam sentido.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Passados sete anos desde a minha primeira experi\u00eancia como professora bibliotec\u00e1ria, regressei ao cargo. O curioso \u00e9 que voltei \u00e0 mesma escola onde j\u00e1 tinha estado durante cinco anos como membro da equipa das bibliotecas escolares. Desta vez, o desafio era diferente: estava agora quase exclusivamente dedicada \u00e0 biblioteca de uma \u00fanica escola e, sobretudo, ocupava o lugar de algu\u00e9m que o tinha desempenhado durante muitos anos, com dedica\u00e7\u00e3o e reconhecimento por parte da comunidade escolar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Lembro-me bem do que pensei nas primeiras semanas: &#8220;<em>Serei capaz? Estarei \u00e0 altura?&#8221;<\/em> A d\u00favida instalou-se, natural em quem respeita o caminho feito por outros. Mas, mais uma vez, deixei que fosse o trabalho a falar por mim. Comecei por escutar, por observar, por compreender o que j\u00e1 estava enraizado e o que poderia ser renovado. Trouxe comigo a experi\u00eancia dos anos anteriores, a vontade de fazer bem e a convic\u00e7\u00e3o de que uma biblioteca escolar tem tanto de espa\u00e7o f\u00edsico como de espa\u00e7o emocional, um lugar onde se semeiam h\u00e1bitos, se despertam curiosidades e se acolhem vozes pequenas que, um dia, se tornar\u00e3o grandes.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Aos poucos, essa d\u00favida inicial deu lugar a uma certeza tranquila: n\u00e3o se trata de estar <em>\u201c\u00e0 altura\u201d<\/em> de algu\u00e9m, mas de dar continuidade com respeito, acrescentando a nossa pr\u00f3pria marca, feita de presen\u00e7a, escuta e inten\u00e7\u00e3o. A biblioteca voltou a ganhar vida \u2014 com alunos, professores, livros que circulam, ideias que florescem, e retalhos que entretecem o meu percurso como professora bibliotec\u00e1ria<\/p>\n<p><\/p>\n<p>No ano seguinte, regressei ao agrupamento onde tinha sido professora bibliotec\u00e1ria pela primeira vez. Estava, desta vez, sozinha. Era a \u00fanica professora bibliotec\u00e1ria respons\u00e1vel por quatro bibliotecas escolares, sendo que uma delas ficava a cerca de vinte quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia das restantes. O desafio, aqui, era enorme. Maior do que qualquer um que tivesse enfrentado at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>As perguntas come\u00e7aram a acumular-se: <em>Serei capaz? Como me irei dividir entre os espa\u00e7os? Conseguirei que o trabalho tenha realmente impacto? E os documentos todos? Os Planos de Melhoria, os Relat\u00f3rios de Avalia\u00e7\u00e3o, as Bases de Dados, os Recursos Humanos, o Plano Anual de Atividades&#8230;<\/em> Meu Deus, tanta coisa para uma s\u00f3 pessoa! E, por cima de tudo isso, fazia pontualmente substitui\u00e7\u00f5es no pr\u00e9-escolar. \u00a0Confesso que me senti frustrada, desesperada e angustiada. Pensei muitas vezes em desistir.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Mas havia algo dentro de mim que n\u00e3o me deixava parar: um &#8220;bichinho&#8221; que j\u00e1 fazia parte de quem eu era. E bastava ver o brilho nos olhos dos alunos, quando eu contava uma hist\u00f3ria, os abra\u00e7os inesperados, os desenhos coloridos com figuras femininas de longos cabelos ruivos e as perguntas que os pais faziam \u201c<em>Quem \u00e9 a professora Anabela? Aquela, a\u00a0 dos cabelos ruivos\u2026\u201d<\/em>\u00a0 E assim tudo voltava a fazer sentido.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Fui, aos poucos, conquistando professores, assistentes operacionais, encarregados de educa\u00e7\u00e3o, a comunidade em geral, mostrando que a biblioteca n\u00e3o \u00e9 um peso nem uma complica\u00e7\u00e3o, mas sim uma ajuda \u2014 um apoio precioso para enriquecer aprendizagens, despertar curiosidades, abrir horizontes. Hoje, posso dizer que me sinto feliz e realizada neste caminho. Ainda tenho muito para aprender, sem d\u00favida. Mas tamb\u00e9m j\u00e1 percorri um bom peda\u00e7o. E, mais do que tudo, tenho a certeza de que continuo a fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Ser professora bibliotec\u00e1ria \u00e9 viver entre livros, sim, mas, acima de tudo, \u00e9 viver entre pessoas. \u00c9 costurar, com palavras e gestos, pequenos retalhos de mudan\u00e7a. \u00c9 acreditar, todos os dias, que uma hist\u00f3ria bem contada pode mudar um olhar. E que uma biblioteca com alma transforma muito mais do que curr\u00edculos: transforma vidas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Anabela Correia dos Santos Penas<br \/>Professora Bibliotec\u00e1ria<br \/>Agrupamento de Escolas de Valpa\u00e7os<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\ud83d\udcf7 Imagem criada (pela professora) a partir de uma fotografia e depois em canva<\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400; color: #ff0000;\"><strong>__________________________________________________________________________________________________________________<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<div><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"3.jpg\" class=\"lazyload-item lazyload-item lazyload-item lazyload-item\" height=\"54\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22691350_giZ3J.jpeg\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" width=\"730\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ol><\/p>\n<li>Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra\u00a0<a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/apoio\/artigos\/$retalhos-da-vida-de-um-medico\" rel=\"noopener\">Retalhos da vida de um m\u00e9dico<\/a>, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora.<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias.<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Se \u00e9 professor bibliotec\u00e1rio e gostaria de partilhar um \u201cretalho\u201d, poder\u00e1 faz\u00ea-lo, submetendo\u00a0<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSc5afn6N2wiyMUUt2SeWXWWIEDXwf6wwUJafLwjDDmTA6phjw\/viewform\" rel=\"noopener\">este formul\u00e1rio<\/a>.<\/li>\n<p><\/ol>\n<p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre estantes, livros e sorrisos t\u00edmidos de leitores iniciantes, fui recolhendo pequenos epis\u00f3dios que fazem da minha vida de professora bibliotec\u00e1ria uma colcha feita de mem\u00f3rias, surpresas e afetos. Apesar de possuir, apenas, cinco anos de experi\u00eancia como professora bibliotec\u00e1ria, o meu percurso nas bibliotecas n\u00e3o se reduz ao desempenho deste cargo. Entrela\u00e7ados nestes, est\u00e3o outros seis anos como membro de equipas de bibliotecas escolares: um ano no Agrupamento onde posteriormente me estreei como professora bibliotec\u00e1ria e os restantes, num interregno for\u00e7ado, num outro Agrupamento, onde, mais tarde, retomei estas fun\u00e7\u00f5es. Lembro-me bem de como foi dif\u00edcil, no in\u00edcio, mudar mentalidades. A biblioteca era vista apenas como um local de passagem ou como um espa\u00e7o onde, de vez em quando, se fazia uma atividade diferente ou se comemoravam dias festivos. Mas eu via nela muito mais do que isso. Com persist\u00eancia, alguma teimosia e uma grande vontade de fazer a diferen\u00e7a, consegui aos poucos transformar aquele espa\u00e7o num verdadeiro cora\u00e7\u00e3o da escola \u2014 um lugar onde se partilhavam hist\u00f3rias, se descobriam autores, se criavam h\u00e1bitos, se inspiravam professores e alunos. O primeiro ano como professora bibliotec\u00e1ria, foi tamb\u00e9m exigente. Inexperiente, dei-me conta rapidamente de que ser bibliotec\u00e1ria n\u00e3o era apenas dinamizar atividades. Era gerir um espa\u00e7o, um fundo documental, um ritmo pr\u00f3prio. Era aprender a estar presente sem se impor. Felizmente, tive e continuo a ter o apoio inestim\u00e1vel da Coordenadora Interconcelhia da RBE e das colegas bibliotec\u00e1rias com quem trabalhei, que, com generosidade, me ajudaram a crescer e a descobrir, na pr\u00e1tica, o que significa verdadeiramente ocupar este lugar. Depois desse primeiro ano intenso, voltei \u00e0 minha \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o inicial, a Educa\u00e7\u00e3o de Inf\u00e2ncia. Curiosamente (ou talvez nem tanto), os livros n\u00e3o me largavam. Seguiam-me, discretamente, como quem sabe que ainda tem um papel a cumprir. As escolas (EB 1.\u00ba ciclo\/ JI) onde fui colocada, tinham zonas de leitura esquecidas, desorganizadas, com livros espalhados e estantes que pareciam n\u00e3o terem sido tocadas h\u00e1 muito tempo. Havia, no entanto, ali um potencial enorme e uma voz dentro de mim que n\u00e3o se calava. Estava longe de casa, tinha muitas horas livres, tantas que decidi p\u00f4r m\u00e3os \u00e0 obra. Aos poucos, entre caixas, p\u00f3 e pilhas de livros desalinhados, fui dando forma ao espa\u00e7o. Organizei o fundo documental, tornei-o acess\u00edvel, e, sobretudo, preparei-o para ser vivido. Queria que estes espa\u00e7os deixassem de ser dep\u00f3sitos de livros, para passarem a ser um espa\u00e7o de encontro, de descoberta, de magia. E foi isso que aconteceu. Come\u00e7aram a vir os alunos. Vieram os professores. Come\u00e7aram a surgir as hist\u00f3rias contadas, livros emprestados, sorrisos curiosos. As estantes deixaram de ser apenas decora\u00e7\u00e3o: tornaram-se num convite a serem tocadas. Os espa\u00e7os transformaram-se e ganharam sentido. Passados sete anos desde a minha primeira experi\u00eancia como professora bibliotec\u00e1ria, regressei ao cargo. O curioso \u00e9 que voltei \u00e0 mesma escola onde j\u00e1 tinha estado durante cinco anos como membro da equipa das bibliotecas escolares. Desta vez, o desafio era diferente: estava agora quase exclusivamente dedicada \u00e0 biblioteca de uma \u00fanica escola e, sobretudo, ocupava o lugar de algu\u00e9m que o tinha desempenhado durante muitos anos, com dedica\u00e7\u00e3o e reconhecimento por parte da comunidade escolar. Lembro-me bem do que pensei nas primeiras semanas: &#8220;Serei capaz? Estarei \u00e0 altura?&#8221; A d\u00favida instalou-se, natural em quem respeita o caminho feito por outros. Mas, mais uma vez, deixei que fosse o trabalho a falar por mim. Comecei por escutar, por observar, por compreender o que j\u00e1 estava enraizado e o que poderia ser renovado. Trouxe comigo a experi\u00eancia dos anos anteriores, a vontade de fazer bem e a convic\u00e7\u00e3o de que uma biblioteca escolar tem tanto de espa\u00e7o f\u00edsico como de espa\u00e7o emocional, um lugar onde se semeiam h\u00e1bitos, se despertam curiosidades e se acolhem vozes pequenas que, um dia, se tornar\u00e3o grandes. Aos poucos, essa d\u00favida inicial deu lugar a uma certeza tranquila: n\u00e3o se trata de estar \u201c\u00e0 altura\u201d de algu\u00e9m, mas de dar continuidade com respeito, acrescentando a nossa pr\u00f3pria marca, feita de presen\u00e7a, escuta e inten\u00e7\u00e3o. A biblioteca voltou a ganhar vida \u2014 com alunos, professores, livros que circulam, ideias que florescem, e retalhos que entretecem o meu percurso como professora bibliotec\u00e1ria No ano seguinte, regressei ao agrupamento onde tinha sido professora bibliotec\u00e1ria pela primeira vez. Estava, desta vez, sozinha. Era a \u00fanica professora bibliotec\u00e1ria respons\u00e1vel por quatro bibliotecas escolares, sendo que uma delas ficava a cerca de vinte quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia das restantes. O desafio, aqui, era enorme. Maior do que qualquer um que tivesse enfrentado at\u00e9 ent\u00e3o. As perguntas come\u00e7aram a acumular-se: Serei capaz? Como me irei dividir entre os espa\u00e7os? Conseguirei que o trabalho tenha realmente impacto? E os documentos todos? Os Planos de Melhoria, os Relat\u00f3rios de Avalia\u00e7\u00e3o, as Bases de Dados, os Recursos Humanos, o Plano Anual de Atividades&#8230; Meu Deus, tanta coisa para uma s\u00f3 pessoa! E, por cima de tudo isso, fazia pontualmente substitui\u00e7\u00f5es no pr\u00e9-escolar. \u00a0Confesso que me senti frustrada, desesperada e angustiada. Pensei muitas vezes em desistir. Mas havia algo dentro de mim que n\u00e3o me deixava parar: um &#8220;bichinho&#8221; que j\u00e1 fazia parte de quem eu era. E bastava ver o brilho nos olhos dos alunos, quando eu contava uma hist\u00f3ria, os abra\u00e7os inesperados, os desenhos coloridos com figuras femininas de longos cabelos ruivos e as perguntas que os pais faziam \u201cQuem \u00e9 a professora Anabela? Aquela, a\u00a0 dos cabelos ruivos\u2026\u201d\u00a0 E assim tudo voltava a fazer sentido. Fui, aos poucos, conquistando professores, assistentes operacionais, encarregados de educa\u00e7\u00e3o, a comunidade em geral, mostrando que a biblioteca n\u00e3o \u00e9 um peso nem uma complica\u00e7\u00e3o, mas sim uma ajuda \u2014 um apoio precioso para enriquecer aprendizagens, despertar curiosidades, abrir horizontes. Hoje, posso dizer que me sinto feliz e realizada neste caminho. Ainda tenho muito para aprender, sem d\u00favida. Mas tamb\u00e9m j\u00e1 percorri um bom peda\u00e7o. E, mais do que tudo, tenho a certeza de que continuo a fazer a diferen\u00e7a. Ser professora bibliotec\u00e1ria \u00e9 viver entre livros, sim, mas, acima de tudo, \u00e9 viver entre pessoas. \u00c9 costurar, com palavras e gestos, pequenos retalhos de mudan\u00e7a. \u00c9 acreditar, todos os dias, que uma hist\u00f3ria bem contada pode mudar um olhar. E que uma biblioteca com alma transforma muito mais do que curr\u00edculos: transforma vidas. Anabela Correia dos Santos PenasProfessora Bibliotec\u00e1riaAgrupamento de Escolas de Valpa\u00e7os \u00a0 \ud83d\udcf7 Imagem criada (pela professora) a partir de uma fotografia e depois em canva __________________________________________________________________________________________________________________ Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra\u00a0Retalhos da vida de um m\u00e9dico, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias. Se \u00e9 professor bibliotec\u00e1rio e gostaria de partilhar um \u201cretalho\u201d, poder\u00e1 faz\u00ea-lo, submetendo\u00a0este formul\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[163],"tags":[],"class_list":["post-2970070","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-retalhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2970070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2970070"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2970070\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3085358,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2970070\/revisions\/3085358"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2970070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2970070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2970070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}