{"id":2967861,"date":"2025-06-26T09:00:00","date_gmt":"2025-06-26T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2967861.html"},"modified":"2026-05-13T13:10:55","modified_gmt":"2026-05-13T13:10:55","slug":"a-floresta-e-a-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2967861","title":{"rendered":"&#8220;A Floresta&#8221; e a espera"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Blogue.jpg\" height=\"445\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22771369_8rTr6.jpeg\" style=\"width: 891px; padding: 10px 10px;\" width=\"891\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Demoraram d\u00e9cadas a reencontrar o livro que lhes ficou na mem\u00f3ria pela capa e no cora\u00e7\u00e3o pelas emo\u00e7\u00f5es que despertou. Ambas recordam com nitidez o momento em que <strong>\u201cA Floresta\u201d<\/strong>, de <em>Sophia de Mello Breyner Andresen<\/em>, lhes foi apresentado por uma professora.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Uma, num tempo de instabilidade escolar e aus\u00eancia de bibliotecas; outra, numa aldeia onde n\u00e3o havia livros nem bibliotecas, mas havia uma professora que emprestava livros com cuidado e intui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>S\u00e3o hist\u00f3rias de <strong>leitura adiada<\/strong>, mas tamb\u00e9m de <strong>encontros marcantes<\/strong>, da for\u00e7a que tem uma hist\u00f3ria bem contada e da aus\u00eancia de estruturas que, durante muito tempo, impediram que as crian\u00e7as encontrassem o seu livro, o seu autor, a sua floresta.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Hoje, com bibliotecas escolares em funcionamento em todo o pa\u00eds e com <strong>professores bibliotec\u00e1rios<\/strong> atentos aos interesses e necessidades dos alunos, \u00e9 poss\u00edvel garantir que <em>ningu\u00e9m precise de esperar vinte anos<\/em> para encontrar um livro que o emocione, o toque, o transforme.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Demorei 20 anos a ler \u201cA Floresta\u201d, de Sofia de Melo Breyner. Conseguem imaginar porqu\u00ea?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Testemunho de uma leitora que se transformou em professora bibliotec\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Eu frequentava o que hoje \u00e9 o quinto ano, em 1975, no ano p\u00f3s 25 de abril. Havia muita instabilidade nas escolas. Os professores ficavam pouco tempo na escola onde eu andava que era muito longe dos centros importantes e estavam sempre a mudar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Um dia, chegou \u00e0 escola uma professora de portugu\u00eas que era muito jovem, muito simp\u00e1tica, alegre e muito inovadora, com roupas muito, muito modernas. Cativou-nos imediatamente!<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nas aulas de portugu\u00eas ela pegou num livro e leu-o em voz alta para n\u00f3s. Quando a hist\u00f3ria estava no melhor, foi-se embora. Eu estava l\u00e1 no meio da sala e n\u00e3o conseguia ler o nome do livro, nem da autora, s\u00f3 sabia como era a capa: verde, com \u00e1rvores. A professora foi embora na parte em que a hist\u00f3ria estava melhor e eu queria saber o resto. N\u00e3o havia professor bibliotec\u00e1rio e eu era muito t\u00edmida, os alunos n\u00e3o tinham \u00e0 vontade para falar com os professores e eu fiquei assim inquieta, curiosa, sem tapete.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Na minha casa s\u00f3 havia livros de adultos que a minha m\u00e3e lia, eram os romances de E\u00e7a de Queiroz, de Camilo Castelo Branco, J\u00falio Dinis e essas coisas. \u00a0\u00a0Eu n\u00e3o sabia como conseguir encontrar aquele livro.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em 1995, estava numa livraria que me deixou entrar para a parte das estantes, comecei a ver os livros e de repente deparei-me com aquela capa. Era o livro que eu procurava h\u00e1 20 anos. Sentei-me nas escadas e comecei a ler, entretanto vieram chamar-me e eu tive que interromper a leitura.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Fui ao balc\u00e3o, paguei e levei o livro comigo. Nessa mesma noite n\u00e3o fui dormir sem ler aquela hist\u00f3ria que ainda hoje \u00e9 uma das minhas preferidas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>E as bibliotecas escolares? Pois \u00e9, s\u00f3 come\u00e7aram a surgir em 1998. \u00a0E na cidade onde vivo a \u00fanica biblioteca p\u00fablica que havia n\u00e3o era em livre acesso! S\u00f3 inaugurou em 2009 e claro fiz logo o meu cart\u00e3o de leitora.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Entretanto hoje, nas bibliotecas escolares, temos professores bibliotec\u00e1rios que, neste ambiente de liberdade, nos ajudam a encontrar os livros que melhor nos \u2018assentam\u2019.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000; font-size: 14pt;\"><strong>Pois eu, demorei um dia a ler &#8220;A Floresta&#8221;&#8230; mas s\u00f3 descobri 20 ou 30 anos depois!<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #333333; font-size: 14pt;\"><strong>Outro testemunho. Outra leitora. Outra professora bibliotec\u00e1ria.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Foi assim:<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Durante a minha, ent\u00e3o, instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria n\u00e3o havia biblioteca de qualquer tipo, nem escolar, nem p\u00fablica e, na minha aldeia, n\u00e3o passava sequer a biblioteca itinerante da Gulbenkian. Na minha casa, havia apenas os poucos livros infantis que a minha m\u00e3e comprava e os muitos que a minha amiga rica l\u00e1 da aldeia me emprestava.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Um dia, andaria eu pela segunda ou terceira classe, a minha professora chamou-me e disse: &#8220;Tenho aqui um livro de que acho que vais gostar e vou emprestar-to&#8230;&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Peguei-lhe com rever\u00eancia e levei-o com muito cuidado. Mal cheguei a casa, li-o, sem parar at\u00e9 chegar ao fim.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>No dia seguinte, com a mesma rever\u00eancia da v\u00e9spera, fui at\u00e9 \u00e0 secret\u00e1ria da professora e devolvi o livro.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Percebi, muitos anos mais tarde, a desilus\u00e3o na cara da minha professora quando me perguntou: &#8220;N\u00e3o gostaste?&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>&#8220;Gostei sim, mas j\u00e1 li!&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>&#8220;Todo?&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>&#8220;Sim&#8221;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que se passou depois, nem antes, s\u00f3 recordo esta cena que me ficou gravada para sempre.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>N\u00e3o fixei o t\u00edtulo. Apenas as \u00e1rvores da capa e algum conte\u00fado.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>S\u00f3 depois de me tornar professora bibliotec\u00e1ria, voltei a abrir <em>A Floresta<\/em> e percebi que a minha querida professora Adelaide, de forma muito simples, me tinha apresentado Sophia, naquele retalho que ficou registado na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Estas mem\u00f3rias s\u00e3o relatos pessoais, mas tamb\u00e9m lembretes do que esteve ausente e do que agora se tornou essencial: <strong>o direito ao livro certo, no momento certo, com media\u00e7\u00e3o qualificada e afetiva.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Porque uma biblioteca escolar \u00e9 sempre um lugar de encontros!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demoraram d\u00e9cadas a reencontrar o livro que lhes ficou na mem\u00f3ria pela capa e no cora\u00e7\u00e3o pelas emo\u00e7\u00f5es que despertou. Ambas recordam com nitidez o momento em que \u201cA Floresta\u201d, de Sophia de Mello Breyner Andresen, lhes foi apresentado por uma professora. Uma, num tempo de instabilidade escolar e aus\u00eancia de bibliotecas; outra, numa aldeia onde n\u00e3o havia livros nem bibliotecas, mas havia uma professora que emprestava livros com cuidado e intui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o hist\u00f3rias de leitura adiada, mas tamb\u00e9m de encontros marcantes, da for\u00e7a que tem uma hist\u00f3ria bem contada e da aus\u00eancia de estruturas que, durante muito tempo, impediram que as crian\u00e7as encontrassem o seu livro, o seu autor, a sua floresta. Hoje, com bibliotecas escolares em funcionamento em todo o pa\u00eds e com professores bibliotec\u00e1rios atentos aos interesses e necessidades dos alunos, \u00e9 poss\u00edvel garantir que ningu\u00e9m precise de esperar vinte anos para encontrar um livro que o emocione, o toque, o transforme. Demorei 20 anos a ler \u201cA Floresta\u201d, de Sofia de Melo Breyner. Conseguem imaginar porqu\u00ea? Testemunho de uma leitora que se transformou em professora bibliotec\u00e1ria Eu frequentava o que hoje \u00e9 o quinto ano, em 1975, no ano p\u00f3s 25 de abril. Havia muita instabilidade nas escolas. Os professores ficavam pouco tempo na escola onde eu andava que era muito longe dos centros importantes e estavam sempre a mudar. Um dia, chegou \u00e0 escola uma professora de portugu\u00eas que era muito jovem, muito simp\u00e1tica, alegre e muito inovadora, com roupas muito, muito modernas. Cativou-nos imediatamente! Nas aulas de portugu\u00eas ela pegou num livro e leu-o em voz alta para n\u00f3s. Quando a hist\u00f3ria estava no melhor, foi-se embora. Eu estava l\u00e1 no meio da sala e n\u00e3o conseguia ler o nome do livro, nem da autora, s\u00f3 sabia como era a capa: verde, com \u00e1rvores. A professora foi embora na parte em que a hist\u00f3ria estava melhor e eu queria saber o resto. N\u00e3o havia professor bibliotec\u00e1rio e eu era muito t\u00edmida, os alunos n\u00e3o tinham \u00e0 vontade para falar com os professores e eu fiquei assim inquieta, curiosa, sem tapete. Na minha casa s\u00f3 havia livros de adultos que a minha m\u00e3e lia, eram os romances de E\u00e7a de Queiroz, de Camilo Castelo Branco, J\u00falio Dinis e essas coisas. \u00a0\u00a0Eu n\u00e3o sabia como conseguir encontrar aquele livro. Em 1995, estava numa livraria que me deixou entrar para a parte das estantes, comecei a ver os livros e de repente deparei-me com aquela capa. Era o livro que eu procurava h\u00e1 20 anos. Sentei-me nas escadas e comecei a ler, entretanto vieram chamar-me e eu tive que interromper a leitura. Fui ao balc\u00e3o, paguei e levei o livro comigo. Nessa mesma noite n\u00e3o fui dormir sem ler aquela hist\u00f3ria que ainda hoje \u00e9 uma das minhas preferidas. E as bibliotecas escolares? Pois \u00e9, s\u00f3 come\u00e7aram a surgir em 1998. \u00a0E na cidade onde vivo a \u00fanica biblioteca p\u00fablica que havia n\u00e3o era em livre acesso! S\u00f3 inaugurou em 2009 e claro fiz logo o meu cart\u00e3o de leitora. Entretanto hoje, nas bibliotecas escolares, temos professores bibliotec\u00e1rios que, neste ambiente de liberdade, nos ajudam a encontrar os livros que melhor nos \u2018assentam\u2019. \u00a0 Pois eu, demorei um dia a ler &#8220;A Floresta&#8221;&#8230; mas s\u00f3 descobri 20 ou 30 anos depois! Outro testemunho. Outra leitora. Outra professora bibliotec\u00e1ria. Foi assim: Durante a minha, ent\u00e3o, instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria n\u00e3o havia biblioteca de qualquer tipo, nem escolar, nem p\u00fablica e, na minha aldeia, n\u00e3o passava sequer a biblioteca itinerante da Gulbenkian. Na minha casa, havia apenas os poucos livros infantis que a minha m\u00e3e comprava e os muitos que a minha amiga rica l\u00e1 da aldeia me emprestava. Um dia, andaria eu pela segunda ou terceira classe, a minha professora chamou-me e disse: &#8220;Tenho aqui um livro de que acho que vais gostar e vou emprestar-to&#8230;&#8221; Peguei-lhe com rever\u00eancia e levei-o com muito cuidado. Mal cheguei a casa, li-o, sem parar at\u00e9 chegar ao fim. No dia seguinte, com a mesma rever\u00eancia da v\u00e9spera, fui at\u00e9 \u00e0 secret\u00e1ria da professora e devolvi o livro. Percebi, muitos anos mais tarde, a desilus\u00e3o na cara da minha professora quando me perguntou: &#8220;N\u00e3o gostaste?&#8221; &#8220;Gostei sim, mas j\u00e1 li!&#8221; &#8220;Todo?&#8221; &#8220;Sim&#8221; N\u00e3o sei o que se passou depois, nem antes, s\u00f3 recordo esta cena que me ficou gravada para sempre. N\u00e3o fixei o t\u00edtulo. Apenas as \u00e1rvores da capa e algum conte\u00fado. S\u00f3 depois de me tornar professora bibliotec\u00e1ria, voltei a abrir A Floresta e percebi que a minha querida professora Adelaide, de forma muito simples, me tinha apresentado Sophia, naquele retalho que ficou registado na minha mem\u00f3ria. \u00a0 Estas mem\u00f3rias s\u00e3o relatos pessoais, mas tamb\u00e9m lembretes do que esteve ausente e do que agora se tornou essencial: o direito ao livro certo, no momento certo, com media\u00e7\u00e3o qualificada e afetiva. 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