{"id":2937107,"date":"2025-03-26T09:00:00","date_gmt":"2025-03-26T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2937107.html"},"modified":"2026-05-14T08:58:48","modified_gmt":"2026-05-14T08:58:48","slug":"migracao-mitos-factos-e-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2937107","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00e3o: Mitos, Factos e Hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2025.03.25_blogue.png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/blogs.sl.pt\/cloud\/thumb\/1a44a2c597da688a0ed21ef60e7bdccc\/bibliotecasescolares\/2025\/2025.03.25_blogue.png?size=l\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>A escola e as bibliotecas escolares transmitem conhecimentos e formam cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nesta dupla miss\u00e3o, h\u00e1 um tema que raramente aborda pela dificuldade\/controv\u00e9rsia que representa: a migra\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um tema dif\u00edcil e para o qual \u00e9 dif\u00edcil educar.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Este artigo tem liga\u00e7\u00e3o \u00e0 perspetiva de Bobby Duffy,\u00a0<a href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/porque-estamos-tao-iludidos-sobre-a-2934732\">Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade?<\/a> e aborda os seguintes t\u00f3picos:<\/p>\n<p><\/p>\n<ol><\/p>\n<li>No contexto das bibliotecas escolares, porqu\u00ea falar de migra\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Que mitos alimentam a opini\u00e3o p\u00fablica?<\/li>\n<p><\/p>\n<li>A import\u00e2ncia de narrativas: factos\/ evid\u00eancias n\u00e3o bastam<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Atividades com alunos<\/li>\n<p><\/ol>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>1. No contexto das bibliotecas escolares, porqu\u00ea falar de migra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo Bobby Duffy [2]:<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li>A Migra\u00e7\u00e3o (e a religi\u00e3o) \u00e9 o tema que mais divide as pessoas em todo o mundo, desempenhando um papel fundamental nas audi\u00eancias dos media e nas tend\u00eancias de voto (Brexit, elei\u00e7\u00f5es europeias e americanas\u2026) e tendo efeitos no discurso de \u00f3dio\/ bullying e na democracia \/paz;\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li>\u201cAs pessoas declaram percentagens muito superiores \u00e0s verdadeiras\u201d &#8211; \u201cimigra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria\u201d &#8211; (Duffy, p. 105) e, quanto maior \u00e9 a sobrestima\u00e7\u00e3o, mais defendem pol\u00edticas de restri\u00e7\u00e3o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o &#8211; este \u00e9 um exemplo em que as perce\u00e7\u00f5es transformam a realidade e a vida das pessoas, designadamente as mais vulner\u00e1veis.\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li>No Brasil e Argentina as estimativas das pessoas \u00e9 25% mais alta do que a realidade, nos EUA 19%, em It\u00e1lia 17% e na Fran\u00e7a 14% (Duffy, p. 106).\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Em Portugal e, segundo dados da FFMS (2024) [3], \u201c2 em cada 4 pessoas (43%) acham que h\u00e1 mais de 20% de estrangeiros no pa\u00eds\u201d.\n<p>A sobrestima\u00e7\u00e3o consistente baseia-se numa rea\u00e7\u00e3o emocional que reflete as nossas preocupa\u00e7\u00f5es\/medos diante do desconhecido (o estrangeiro) e a incompreens\u00e3o dos factos\/evid\u00eancias, alimentada pelo debate pol\u00edtico e pela comunica\u00e7\u00e3o social que, buscando audi\u00eancias\/cliques, exploram as nossas vulnerabilidades e alimentam a imagem socialmente negativa da migra\u00e7\u00e3o (Duffy, p. 112).<\/p>\n<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/li>\n<p><\/p>\n<li>H\u00e1 \u201cmuito poucas reportagens sobre vidas mu\u00e7ulmanas comuns [e de outras comunidades de migrantes] e o impacto positivo que t\u00eam nas comunidades locais e nos pa\u00edses\u201d (Duffy, p. 122). Em geral, \u201ca<strong>s informa\u00e7\u00f5es negativas prendem mais a nossa aten\u00e7\u00e3o do que as positivas.<\/strong> Isto \u00e9 consequ\u00eancia do nosso passado evolutivo, quando a informa\u00e7\u00e3o negativa era quase sempre mais urgente\u201d e a neuroci\u00eancia comprova, atrav\u00e9s de registos da atividade do c\u00e9rebro.\n<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>2. Que mitos alimentam a opini\u00e3o p\u00fablica?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Hein de Haas investigou durante d\u00e9cadas o tema da migra\u00e7\u00e3o, \u00e9 cofundador e diretor do <em>International Migration Institute<\/em> e consultor sobre migra\u00e7\u00e3o em organismos internacionais como a ONU, a OCDE e a UE.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O seu livro, <em>Como Funciona Realmente a Migra\u00e7\u00e3o<\/em> organiza-se em 22 cap\u00edtulos e, em cada um, desmistifica um mito, socorrendo-se de informa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, estat\u00edsticas, gr\u00e1ficos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo este soci\u00f3logo e ge\u00f3grafo holand\u00eas, uma forma eficaz de abordar o tema da migra\u00e7\u00e3o \u00e9 desconstruir mitos difundidos na opini\u00e3o p\u00fablica. Exemplo:<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Imagem 1 (1).png\" height=\"282\" src=\"https:\/\/blogs.sl.pt\/cloud\/thumb\/1a44a2c597da688a0ed21ef60e7bdccc\/bibliotecasescolares\/2025\/Imagem 1 (1).png?size=l\" style=\"float: right; width: 350px; padding: 10px 10px;\" width=\"350\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Mito:<\/strong>\u00a0Vivemos uma era de migra\u00e7\u00e3o em massa e sem precedentes.<br \/><strong>Realidade:<\/strong> A percentagem de migrantes internacionais no mundo \u00e9 est\u00e1vel.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Atualmente, apenas 3 a 3,5% da popula\u00e7\u00e3o mundial vive fora do seu pa\u00eds de origem, percentagem que se mant\u00e9m relativamente est\u00e1vel desde h\u00e1 50 anos e que, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, era superior [4] &#8211; Cf. Gr\u00e1fico\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><strong>O que mudou foi a dire\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211; e n\u00e3o a escala &#8211; da migra\u00e7\u00e3o global:\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><strong>No passado, os migrantes eram maioritariamente europeus<\/strong>, saindo da Europa, colonizando e povoando na\u00e7\u00f5es.\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li><strong>Atualmente, a Europa passou a ser destino<\/strong>, lugar de chegada e n\u00e3o de sa\u00edda de fluxos migrat\u00f3rios, devido a: descoloniza\u00e7\u00e3o, aumento dos n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o, envelhecimento demogr\u00e1fico, aumento da riqueza e escassez de m\u00e3o de obra qualificada.\u00a0<br \/>A Europa passou a ter a mais elevada falta de m\u00e3o de obra qualificada de sempre e passaram a deslocar-se para ela pessoas de outros pa\u00edses, sobretudo em busca de emprego.\n<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/li>\n<p><\/p>\n<li>Estes fatores explicam porque \u00e9 que a migra\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea responde principalmente \u00e0 procura de trabalho e \u00e0 din\u00e2mica espont\u00e2nea de uma economia de mercado global, livre e sem fronteiras.<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong>: A narrativa alarmista de uma acelera\u00e7\u00e3o sem precedentes da migra\u00e7\u00e3o <strong>ignora os dados hist\u00f3ricos e estat\u00edsticos e \u00e9 frequentemente instrumentalizada para fins pol\u00edticos e medi\u00e1ticos<\/strong>, em que perante uma (hipot\u00e9tica e falsa) \u201cinvas\u00e3o\u201d, o l\u00edder pol\u00edtico se constituiria como o salvador, ao qual devemos dar o nosso voto. Esta forma de pensar, do caos ao cosmos por interven\u00e7\u00e3o divina, est\u00e1 na ess\u00eancia do pensamento m\u00edtico e primitivo, oposto ao pensamento racional e n\u00e3o \u00e9 corroborada pelos factos\/ci\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por outro lado, difunde-se a imagem de que \u201ca migra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma torneira que se abre e fecha\u201d e que h\u00e1 medidas pol\u00edticas que permitem controlar as fronteiras, mas este \u00e9 outro <strong>mito<\/strong> que a realidade mostra ser falso, segundo Hein de Haas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00c9 preciso normalizar o fen\u00f3meno: a migra\u00e7\u00e3o faz parte da hist\u00f3ria e da identidade humana, sempre fez parte integrante da humanidade e existiu em todas as \u00e9pocas, \u00e9 inevit\u00e1vel &#8211; temos \u00e9 que aprender a viver com ela.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Outro <strong>mito<\/strong> \u00e9 que os migrantes s\u00e3o pobres e pouco qualificados. Segundo Hein de Haas, <strong>a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 seletiva e tende a favorecer pessoas com mais qualifica\u00e7\u00f5es.<\/strong> Nas suas palavras, \u201cPessoas com n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o superior movimentam-se mais. A migra\u00e7\u00e3o \u00e9 cara e exige uma certa mentalidade que resulta da educa\u00e7\u00e3o. Migra\u00e7\u00e3o \u00e9 desenvolvimento\u201d. Os migrantes internacionais s\u00e3o, na maioria dos casos, agentes ativos do seu pr\u00f3prio desenvolvimento e do desenvolvimento das sociedades de origem e destino.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>3. A import\u00e2ncia de narrativas: factos\/ evid\u00eancias n\u00e3o bastam<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo Hein de Haas (e Bobby Duffy) \u00e9 fundamental que pol\u00edticos, jornalistas, escritores &#8211; e professores &#8211; transformem o seu discurso para que a vis\u00e3o acad\u00e9mica sobre os migrantes seja convergente com a da opini\u00e3o p\u00fablica, <strong>reflita a realidade e contribua para uma cidadania cr\u00edtica e emp\u00e1tica<\/strong>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em vez de se criarem debates \u201cpr\u00f3s e contras\u201d com uma l\u00f3gica simplista e que aumenta a divis\u00e3o\/ polariza\u00e7\u00e3o, o autor defende a necessidade de <strong>transformar estat\u00edsticas e dados em hist\u00f3rias humanas<\/strong>, ancoradas em experi\u00eancias reais, capazes de criar identifica\u00e7\u00e3o e envolvimento emocional com o p\u00fablico.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A mera apresenta\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas n\u00e3o muda perce\u00e7\u00f5es, porque <strong>os n\u00fameros<\/strong>, quando apresentados de forma abstrata e descontextualizada, <strong>n\u00e3o geram empatia nem compreens\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rias bem contadas t\u00eam o poder<\/strong> de traduzir conhecimento acad\u00e9mico em mensagens acess\u00edveis e impactantes e de combater a polariza\u00e7\u00e3o para uma abordagem mais humanista e informada.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>4. Atividades com alunos<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>A biblioteca escolar pode ajudar a transformar o discurso da opini\u00e3o p\u00fablica sobre migra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a partir de atividades criativas com os alunos:<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><strong>Mapa\/Tabela comparativa das migra\u00e7\u00f5es:<\/strong> ontem e hoje que inclua dados estat\u00edsticos, imagens e legendas explicativas, utilizando Canva, Google Earth, ou mapas interativos com Genially ou StoryMapJS;\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li><strong>Teatro documental:<\/strong> \u201cUma vida em movimento\u201d que resulte da pesquisa de testemunhos de migrantes reais e da produ\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos, entrevistas, document\u00e1rios e ajude a compreender a evolu\u00e7\u00e3o dos fluxos migrat\u00f3rios e desconstruir a ideia de &#8220;migra\u00e7\u00e3o em massa sem precedentes&#8221;;\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li><strong>Estat\u00edsticas com hist\u00f3rias e emo\u00e7\u00f5es<\/strong> que resulte na cria\u00e7\u00e3o de infogr\u00e1ficos\/cartazes com impacto humano que permitam responder \u00e0 inumeracia emotiva (Paul Slovic) [<a style=\"font-size: 14pt;\" href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/porque-estamos-tao-iludidos-sobre-a-2934732\">Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade?<\/a>], ligando dados num\u00e9ricos a hist\u00f3rias reais &#8211; \u201c10.000 pessoas cruzaram o Mediterr\u00e2neo este ano. Uma delas foi a Amina, de 17 anos, que fugiu da L\u00edbia com o irm\u00e3o&#8230;\u201d;\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li><strong>Exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica:<\/strong> Rostos de Migra\u00e7\u00e3o que apresente o problema do Desvanecimento da Compaix\u00e3o (Paul Slovic) [<a style=\"font-size: 14pt;\" href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/porque-estamos-tao-iludidos-sobre-a-2934732\">Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade?<\/a>] perante crises em massa e que sugira estrat\u00e9gias de envolvimento e apoio a problemas atuais.\u00a0<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ol><\/p>\n<li>Hein de Haas. (2024). <em>Como Funciona Realmente a Migra\u00e7\u00e3o. Um guia factual sobre a quest\u00e3o que mais divide a pol\u00edtica<\/em>. Temas e debates\u00a0<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Duffy, Bobby. (2025). Os Perigos da Percep\u00e7\u00e3o. Zigurate<\/li>\n<p><\/p>\n<li>FFMS. (2024, 17 dez.). Bar\u00f3metro da Imigra\u00e7\u00e3o: a perspetiva dos portugueses. <a href=\"https:\/\/ffms.pt\/pt-pt\/estudos\/barometros\/barometro-da-imigracao-perspetiva-dos-portugueses\">https:\/\/ffms.pt\/pt-pt\/estudos\/barometros\/barometro-da-imigracao-perspetiva-dos-portugueses<\/a>\u00a0<\/li>\n<p><\/p>\n<li>FFMS. (2024). <em>Hein de Haas: migra\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CTh38_2oyDM\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CTh38_2oyDM<\/a>\u00a0<\/li>\n<p><\/p>\n<li>World Economic Forum. (2020). <em>Global migration, by the numbers: who migrates, where they go and why<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.weforum.org\/stories\/2020\/01\/iom-global-migration-report-international-migrants-2020\/\">https:\/\/www.weforum.org\/stories\/2020\/01\/iom-global-migration-report-international-migrants-2020\/<\/a>\u00a0<\/li>\n<p><\/ol>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escola e as bibliotecas escolares transmitem conhecimentos e formam cidad\u00e3os. Nesta dupla miss\u00e3o, h\u00e1 um tema que raramente aborda pela dificuldade\/controv\u00e9rsia que representa: a migra\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um tema dif\u00edcil e para o qual \u00e9 dif\u00edcil educar.\u00a0 Este artigo tem liga\u00e7\u00e3o \u00e0 perspetiva de Bobby Duffy,\u00a0Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade? e aborda os seguintes t\u00f3picos: No contexto das bibliotecas escolares, porqu\u00ea falar de migra\u00e7\u00e3o? Que mitos alimentam a opini\u00e3o p\u00fablica? A import\u00e2ncia de narrativas: factos\/ evid\u00eancias n\u00e3o bastam Atividades com alunos 1. No contexto das bibliotecas escolares, porqu\u00ea falar de migra\u00e7\u00e3o? Segundo Bobby Duffy [2]: A Migra\u00e7\u00e3o (e a religi\u00e3o) \u00e9 o tema que mais divide as pessoas em todo o mundo, desempenhando um papel fundamental nas audi\u00eancias dos media e nas tend\u00eancias de voto (Brexit, elei\u00e7\u00f5es europeias e americanas\u2026) e tendo efeitos no discurso de \u00f3dio\/ bullying e na democracia \/paz; \u201cAs pessoas declaram percentagens muito superiores \u00e0s verdadeiras\u201d &#8211; \u201cimigra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria\u201d &#8211; (Duffy, p. 105) e, quanto maior \u00e9 a sobrestima\u00e7\u00e3o, mais defendem pol\u00edticas de restri\u00e7\u00e3o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o &#8211; este \u00e9 um exemplo em que as perce\u00e7\u00f5es transformam a realidade e a vida das pessoas, designadamente as mais vulner\u00e1veis. No Brasil e Argentina as estimativas das pessoas \u00e9 25% mais alta do que a realidade, nos EUA 19%, em It\u00e1lia 17% e na Fran\u00e7a 14% (Duffy, p. 106). Em Portugal e, segundo dados da FFMS (2024) [3], \u201c2 em cada 4 pessoas (43%) acham que h\u00e1 mais de 20% de estrangeiros no pa\u00eds\u201d. A sobrestima\u00e7\u00e3o consistente baseia-se numa rea\u00e7\u00e3o emocional que reflete as nossas preocupa\u00e7\u00f5es\/medos diante do desconhecido (o estrangeiro) e a incompreens\u00e3o dos factos\/evid\u00eancias, alimentada pelo debate pol\u00edtico e pela comunica\u00e7\u00e3o social que, buscando audi\u00eancias\/cliques, exploram as nossas vulnerabilidades e alimentam a imagem socialmente negativa da migra\u00e7\u00e3o (Duffy, p. 112). H\u00e1 \u201cmuito poucas reportagens sobre vidas mu\u00e7ulmanas comuns [e de outras comunidades de migrantes] e o impacto positivo que t\u00eam nas comunidades locais e nos pa\u00edses\u201d (Duffy, p. 122). Em geral, \u201cas informa\u00e7\u00f5es negativas prendem mais a nossa aten\u00e7\u00e3o do que as positivas. Isto \u00e9 consequ\u00eancia do nosso passado evolutivo, quando a informa\u00e7\u00e3o negativa era quase sempre mais urgente\u201d e a neuroci\u00eancia comprova, atrav\u00e9s de registos da atividade do c\u00e9rebro. 2. Que mitos alimentam a opini\u00e3o p\u00fablica? Hein de Haas investigou durante d\u00e9cadas o tema da migra\u00e7\u00e3o, \u00e9 cofundador e diretor do International Migration Institute e consultor sobre migra\u00e7\u00e3o em organismos internacionais como a ONU, a OCDE e a UE. O seu livro, Como Funciona Realmente a Migra\u00e7\u00e3o organiza-se em 22 cap\u00edtulos e, em cada um, desmistifica um mito, socorrendo-se de informa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, estat\u00edsticas, gr\u00e1ficos. Segundo este soci\u00f3logo e ge\u00f3grafo holand\u00eas, uma forma eficaz de abordar o tema da migra\u00e7\u00e3o \u00e9 desconstruir mitos difundidos na opini\u00e3o p\u00fablica. Exemplo: Mito:\u00a0Vivemos uma era de migra\u00e7\u00e3o em massa e sem precedentes.Realidade: A percentagem de migrantes internacionais no mundo \u00e9 est\u00e1vel. Atualmente, apenas 3 a 3,5% da popula\u00e7\u00e3o mundial vive fora do seu pa\u00eds de origem, percentagem que se mant\u00e9m relativamente est\u00e1vel desde h\u00e1 50 anos e que, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, era superior [4] &#8211; Cf. Gr\u00e1fico\u00a0 O que mudou foi a dire\u00e7\u00e3o &#8211; e n\u00e3o a escala &#8211; da migra\u00e7\u00e3o global: No passado, os migrantes eram maioritariamente europeus, saindo da Europa, colonizando e povoando na\u00e7\u00f5es. Atualmente, a Europa passou a ser destino, lugar de chegada e n\u00e3o de sa\u00edda de fluxos migrat\u00f3rios, devido a: descoloniza\u00e7\u00e3o, aumento dos n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o, envelhecimento demogr\u00e1fico, aumento da riqueza e escassez de m\u00e3o de obra qualificada.\u00a0A Europa passou a ter a mais elevada falta de m\u00e3o de obra qualificada de sempre e passaram a deslocar-se para ela pessoas de outros pa\u00edses, sobretudo em busca de emprego. Estes fatores explicam porque \u00e9 que a migra\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea responde principalmente \u00e0 procura de trabalho e \u00e0 din\u00e2mica espont\u00e2nea de uma economia de mercado global, livre e sem fronteiras. Conclus\u00e3o: A narrativa alarmista de uma acelera\u00e7\u00e3o sem precedentes da migra\u00e7\u00e3o ignora os dados hist\u00f3ricos e estat\u00edsticos e \u00e9 frequentemente instrumentalizada para fins pol\u00edticos e medi\u00e1ticos, em que perante uma (hipot\u00e9tica e falsa) \u201cinvas\u00e3o\u201d, o l\u00edder pol\u00edtico se constituiria como o salvador, ao qual devemos dar o nosso voto. Esta forma de pensar, do caos ao cosmos por interven\u00e7\u00e3o divina, est\u00e1 na ess\u00eancia do pensamento m\u00edtico e primitivo, oposto ao pensamento racional e n\u00e3o \u00e9 corroborada pelos factos\/ci\u00eancia.\u00a0 Por outro lado, difunde-se a imagem de que \u201ca migra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma torneira que se abre e fecha\u201d e que h\u00e1 medidas pol\u00edticas que permitem controlar as fronteiras, mas este \u00e9 outro mito que a realidade mostra ser falso, segundo Hein de Haas. \u00c9 preciso normalizar o fen\u00f3meno: a migra\u00e7\u00e3o faz parte da hist\u00f3ria e da identidade humana, sempre fez parte integrante da humanidade e existiu em todas as \u00e9pocas, \u00e9 inevit\u00e1vel &#8211; temos \u00e9 que aprender a viver com ela. Outro mito \u00e9 que os migrantes s\u00e3o pobres e pouco qualificados. Segundo Hein de Haas, a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 seletiva e tende a favorecer pessoas com mais qualifica\u00e7\u00f5es. Nas suas palavras, \u201cPessoas com n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o superior movimentam-se mais. A migra\u00e7\u00e3o \u00e9 cara e exige uma certa mentalidade que resulta da educa\u00e7\u00e3o. Migra\u00e7\u00e3o \u00e9 desenvolvimento\u201d. Os migrantes internacionais s\u00e3o, na maioria dos casos, agentes ativos do seu pr\u00f3prio desenvolvimento e do desenvolvimento das sociedades de origem e destino. 3. A import\u00e2ncia de narrativas: factos\/ evid\u00eancias n\u00e3o bastam Segundo Hein de Haas (e Bobby Duffy) \u00e9 fundamental que pol\u00edticos, jornalistas, escritores &#8211; e professores &#8211; transformem o seu discurso para que a vis\u00e3o acad\u00e9mica sobre os migrantes seja convergente com a da opini\u00e3o p\u00fablica, reflita a realidade e contribua para uma cidadania cr\u00edtica e emp\u00e1tica. Em vez de se criarem debates \u201cpr\u00f3s e contras\u201d com uma l\u00f3gica simplista e que aumenta a divis\u00e3o\/ polariza\u00e7\u00e3o, o autor defende a necessidade de transformar estat\u00edsticas e dados em hist\u00f3rias humanas, ancoradas em experi\u00eancias reais, capazes de criar identifica\u00e7\u00e3o e envolvimento emocional com o p\u00fablico. A mera apresenta\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas n\u00e3o muda perce\u00e7\u00f5es, porque os n\u00fameros, quando apresentados de forma abstrata e descontextualizada, n\u00e3o geram empatia nem compreens\u00e3o. Hist\u00f3rias bem contadas t\u00eam o poder de traduzir conhecimento acad\u00e9mico em mensagens acess\u00edveis e impactantes e de combater a polariza\u00e7\u00e3o para uma abordagem mais humanista e informada. 4. Atividades com alunos A biblioteca escolar pode ajudar a transformar o discurso da opini\u00e3o p\u00fablica sobre migra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a partir de atividades criativas com os alunos: Mapa\/Tabela comparativa das migra\u00e7\u00f5es: ontem e hoje que inclua dados estat\u00edsticos, imagens e legendas explicativas, utilizando Canva, Google Earth, ou mapas interativos com Genially ou StoryMapJS; Teatro documental: \u201cUma vida em movimento\u201d que resulte da pesquisa de testemunhos de migrantes reais e da produ\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos, entrevistas, document\u00e1rios e ajude a compreender a evolu\u00e7\u00e3o dos fluxos migrat\u00f3rios e desconstruir a ideia de &#8220;migra\u00e7\u00e3o em massa sem precedentes&#8221;; Estat\u00edsticas com hist\u00f3rias e emo\u00e7\u00f5es que resulte na cria\u00e7\u00e3o de infogr\u00e1ficos\/cartazes com impacto humano que permitam responder \u00e0 inumeracia emotiva (Paul Slovic) [Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade?], ligando dados num\u00e9ricos a hist\u00f3rias reais &#8211; \u201c10.000 pessoas cruzaram o Mediterr\u00e2neo este ano. Uma delas foi a Amina, de 17 anos, que fugiu da L\u00edbia com o irm\u00e3o&#8230;\u201d; Exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica: Rostos de Migra\u00e7\u00e3o que apresente o problema do Desvanecimento da Compaix\u00e3o (Paul Slovic) [Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade?] perante crises em massa e que sugira estrat\u00e9gias de envolvimento e apoio a problemas atuais.\u00a0 Refer\u00eancias Hein de Haas. (2024). Como Funciona Realmente a Migra\u00e7\u00e3o. Um guia factual sobre a quest\u00e3o que mais divide a pol\u00edtica. Temas e debates\u00a0 Duffy, Bobby. (2025). Os Perigos da Percep\u00e7\u00e3o. Zigurate FFMS. (2024, 17 dez.). Bar\u00f3metro da Imigra\u00e7\u00e3o: a perspetiva dos portugueses. https:\/\/ffms.pt\/pt-pt\/estudos\/barometros\/barometro-da-imigracao-perspetiva-dos-portugueses\u00a0 FFMS. (2024). Hein de Haas: migra\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CTh38_2oyDM\u00a0 World Economic Forum. (2020). Global migration, by the numbers: who migrates, where they go and why. https:\/\/www.weforum.org\/stories\/2020\/01\/iom-global-migration-report-international-migrants-2020\/\u00a0 \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[159,140],"tags":[],"class_list":["post-2937107","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","category-livros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2937107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2937107"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2937107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3085466,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2937107\/revisions\/3085466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2937107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2937107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2937107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}