{"id":2934732,"date":"2025-03-20T09:00:00","date_gmt":"2025-03-20T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2934732.html"},"modified":"2026-05-14T08:59:03","modified_gmt":"2026-05-14T08:59:03","slug":"porque-estamos-tao-iludidos-sobre-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2934732","title":{"rendered":"\u00a0Porque estamos t\u00e3o iludidos sobre a realidade?"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2025-03-20.png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/blogs.sl.pt\/cloud\/thumb\/1a44a2c597da688a0ed21ef60e7bdccc\/bibliotecasescolares\/2025\/2025-03-20.png?size=l\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><span><\/span><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>As nossas opini\u00f5es ou pontos de vista err\u00f3neos n\u00e3o decorrem apenas, nem principalmente, de desinforma\u00e7\u00e3o, mas do modo como pensamos (raz\u00f5es internas) e da nossa ignor\u00e2ncia. S\u00e3o estruturais, profundas e eternas e podem transformar a realidade, tendo consequ\u00eancias na vida das pessoas.\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Este artigo prop\u00f5e-se abordar as nossas opini\u00f5es err\u00f3neas a partir de um ponto de vista amplo, do qual a desinforma\u00e7\u00e3o transmitida pela comunica\u00e7\u00e3o social ou redes sociais, uma das raz\u00f5es externas de estarmos enganados, \u00e9 uma parte.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Analisa 3 das principais causas das nossas cren\u00e7as ou opini\u00f5es enganosas e baseia-se no livro <em>Os Perigos da Perce\u00e7\u00e3o. Talvez estejamos errados acerca de quase tudo. E h\u00e1 quem saiba aproveitar-se disso<\/em> de Bobby Duffy, publicado pela primeira vez em 2018 e editado em 2025 em Portugal pela Zigurate.*<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>1. A import\u00e2ncia de emo\u00e7\u00f5es e hist\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>As nossas <strong>emo\u00e7\u00f5es influenciam o que vemos\/lemos, decidem de que lado estamos e modificam o pensamento.<\/strong> \u00c9 importante aceitar e tomar consci\u00eancia do seu importante papel nas nossas opini\u00f5es sobre a realidade, sugerindo-se que as identifiquemos e escrevamos sobre elas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por exemplo, quando estamos muito preocupados com um problema, como o da migra\u00e7\u00e3o, isso faz com que o sobrestimemos, considerando que tem uma maior dimens\u00e3o do que a que os factos mostram. Este princ\u00edpio est\u00e1 na base da inumeracia emotiva, conceito atribu\u00eddo ao psic\u00f3logo e economista Paul Slovic que designa a nossa incapacidade natural de responder adequadamente a dados num\u00e9ricos ou estat\u00edsticos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Outro exemplo, a empatia e a nossa preocupa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o tende a diminuir se o n\u00famero de pessoas que precisam de ajuda ou morreram aumenta. Este preconceito cognitivo Slovic designou-o Desvanecimento da Compaix\u00e3o\/ <em>Compassion Fade<\/em> e traduz-se num entorpecimento mental perante crises em massa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Apresentarmos n\u00fameros ou estat\u00edsticas e promovermos a literacia num\u00e9rica n\u00e3o garante uma vis\u00e3o objetiva e racional da realidade.<\/strong> Segundo Slovic, para transmitir o verdadeiro significado de cat\u00e1strofes e motivar para a sua preven\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar uma componente emocional que decorre da apresenta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias sobre pessoas concretas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo Bobby Duffy, os estudos do Instituto IPSOS mostram que temos falta de compet\u00eancias matem\u00e1ticas e estat\u00edsticas b\u00e1sicas e que <strong>damos mais import\u00e2ncia \u00e0s palavras do que aos n\u00fameros.<\/strong> Consequentemente, recomenda que, para abordar temas dif\u00edceis ou fraturantes, as hist\u00f3rias &#8211; mais do que a informa\u00e7\u00e3o estat\u00edstica &#8211; contribuem para modificar cren\u00e7as e comportamentos.\u00a0 Retornando ao exemplo dos migrantes, devemos \u201capresentar exemplos reais envolvendo indiv\u00edduos reais, que calhou serem imigrantes, para alterar a imagem mental estereotipada dessas pessoas\u201d. (p. 250).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Conclui, afirmando que \u201cn\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre factos e hist\u00f3rias (\u2026) O poder das hist\u00f3rias sobre n\u00f3s implica termos de levar as pessoas a interessarem-se por ambos\u201d (p. 250).\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>2. Pensamos mal dos outros e que somos a norma<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Quando h\u00e1 demasiada informa\u00e7\u00e3o e proliferam os pontos de vista contradit\u00f3rios, tendemos a considerar que n\u00f3s, e os nossos amigos, correspondem ao padr\u00e3o e que <strong>a maioria pensa como n\u00f3s.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>E somos \u201cem geral, indevidamente negativos na nossa avalia\u00e7\u00e3o dos outros, temos uma tend\u00eancia natural a pensar o pior dos outros &#8211; em geral, atrai-nos informa\u00e7\u00e3o negativa. Significa isto que sofremos de um \u2018vi\u00e9s da superioridade ilus\u00f3ria\u2019, tendemos a achar que somos superiores ao cidad\u00e3o m\u00e9dio\u201d (p. 57). E sugere que tenhamos em mente que \u201cAs coisas n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o mal quanto pensamos\u201d (p. 240)<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Temos \u201ctend\u00eancia natural para procurarmos informa\u00e7\u00e3o que confirme as nossas opini\u00f5es e evitarmos a que n\u00e3o o faz, lan\u00e7ando-nos para os bra\u00e7os de especialistas que corroboram as nossas opini\u00f5es preexistentes\u201d (p. 235).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Evitamos a disson\u00e2ncia cognitiva, mas consultar diferentes fontes e perspetivas evita opini\u00f5es enganosas. Atualmente diversos jornais apresentam para uma pergunta dois lados da resposta e este \u00e9 um exerc\u00edcio que as bibliotecas escolares podem solicitar \u00e0s crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A app <em>Read Across the Aisle\/ Ler o lado de l\u00e1<\/em> [3] ajuda a escapar ao vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o e a abandonar a ideia de que os nossos pontos de vista s\u00e3o os dominantes e os corretos, constituindo um rem\u00e9dio para a polariza\u00e7\u00e3o e o discurso de \u00f3dio.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>3. O c\u00e9rebro tende a simplificar e a exagerar<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>A paisagem medi\u00e1tica, na sua busca por audi\u00eancias, visualiza\u00e7\u00f5es, likes e lucro, tende a apresentar mensagens simples, f\u00e1ceis de captar. E \u201cos pr\u00f3prios investigadores, acad\u00e9micos e autores (incluindo eu mesmo!) t\u00eam motivos para simplificar as coisas: mensagens contundentes atraem mais aten\u00e7\u00e3o, mais financiamento e geram mais vendas de livros!\u201d (p. 12). Perante um problema, o nosso c\u00e9rebro detesta ficar na d\u00favida e tem <strong>apet\u00eancia natural para a simplicidade, respostas \u00fanicas\/solu\u00e7\u00f5es e arranjar culpados<\/strong>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo Duffy, temos uma <strong>fixa\u00e7\u00e3o natural por exemplos extremos, generaliza\u00e7\u00f5es\/ estere\u00f3tipos<\/strong>, que n\u00e3o s\u00e3o representativos da realidade. A comunica\u00e7\u00e3o social e redes sociais exploram esta vulnerabilidade &#8211; \u201cDrama, trag\u00e9dia e horror atrai a aten\u00e7\u00e3o\u201d. Evocando Evan Davis, autor do livro Post-true, \u201cPrimeiro simplifica-se, depois exagera-se\u201d.\u00a0 \u201c\u00c9 muito mais f\u00e1cil ser-se arrastado para esta armadilha muit\u00edssimo comum do que por qualquer coisa que envolva fake news\u201d (p. 242).\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Concluindo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pontos de vista err\u00f3neos n\u00e3o se corrigem com mais informa\u00e7\u00e3o, mas refletindo sobre como pensamos. A educa\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo baseado em exemplos reais da Psicologia e da Neuroci\u00eancia facilitam este processo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cApesar da nossa vis\u00e3o do mundo baseada na realidade estar cada vez mais em risco, h\u00e1 coisas que podemos fazer\u201d (p. 252), como:<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><strong>Cultivar um saud\u00e1vel ceticismo<\/strong>, duvidando e desconfiando das primeiras impress\u00f5es;\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li><strong>Cultivar uma certa in\u00e9rcia<\/strong>, n\u00e3o correndo atr\u00e1s da \u00faltima novidade, cuja informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi estabilizada;\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Consumir not\u00edcias transitando da recetividade passiva para a <strong>reflex\u00e3o ativa<\/strong> (quem, o qu\u00ea, onde, quando, para qu\u00ea esta not\u00edcia?), <strong>desenvolvendo a leitura lateral<\/strong> usada pelos verificadores de factos.\n<\/li>\n<p><\/p>\n<li><strong>Exercitar um pensamento\/a\u00e7\u00e3o lento, com consci\u00eancia e inten\u00e7\u00e3<\/strong>o. O pensamento r\u00e1pido, instintivo, n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel, pois tende a multiplicar os erros cognitivos. O livro <em>Pensar Depressa e Devagar<\/em> de Daniel Kahneman demonstra que a rapidez modifica a forma como compreendemos o mundo, definimos as nossas prioridades e nos comportamos e \u00e9 prejudicial para o desenvolvimento.<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00c9 importante tomar consci\u00eancia de que os c\u00e9rebros humanos s\u00e3o t\u00edpicos, previs\u00edveis e que estas s\u00e3o ilus\u00f5es sistem\u00e1ticas e que h\u00e1 pessoas que intencionalmente as exploram para as manipular e retirar benef\u00edcio pr\u00f3prio.\u00a0 Estas pessoas \u201cconstituem um risco real para a sociedade\u201d (p. 13) porque nos afastam de uma vis\u00e3o objetiva e rigorosa da realidade, de um pensamento e a\u00e7\u00e3o livres. Entre elas destacam-se os programadores de tecnologias digitais, redes socais e IA, os influenciadores e os pol\u00edticos. O uso cont\u00ednuo de ferramentas digitais e IA alimenta autom\u00e1tica e exponencialmente este sistema natural de ilus\u00f5es, sem disso termos consci\u00eancia, pelo que urge intervirmos.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff0000;\"><span style=\"font-family: &#39;arial black&#39;, sans-serif;\">*<\/span> Sobre o autor<\/span><\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Duffy \u00e9 professor de pol\u00edticas p\u00fablicas e diretor do Policy Institute no King&#8217;s College de Londres. Anteriormente foi diretor de pesquisa global do IPSOS [1], Instituto com 50 anos de hist\u00f3ria e l\u00edder mundial em investiga\u00e7\u00e3o social que publica anualmente e em acesso livre Os Perigos da Perce\u00e7\u00e3o\/Perils of Perception e o \u00cdndice de Confian\u00e7a Global\/Global Trustworthiness Index, entre outros estudos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>1. Duffy, Bobby. (2025). <em>Os Perigos da Percep\u00e7\u00e3o<\/em>. Zigurate<br \/>2. Ipsos Portugal. (s.d.). <em>Ipsos Portugal<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.ipsos.com\/pt-pt\">https:\/\/www.ipsos.com\/pt-pt<\/a>\u00a0<br \/>3. <strong>Read Across the Aisle.<\/strong> (s.d.). <em>Read Across the Aisle<\/em>.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.readacrosstheaisle.com\/\" target=\"_new\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.readacrosstheaisle.com\/<\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As nossas opini\u00f5es ou pontos de vista err\u00f3neos n\u00e3o decorrem apenas, nem principalmente, de desinforma\u00e7\u00e3o, mas do modo como pensamos (raz\u00f5es internas) e da nossa ignor\u00e2ncia. S\u00e3o estruturais, profundas e eternas e podem transformar a realidade, tendo consequ\u00eancias na vida das pessoas.\u00a0 Este artigo prop\u00f5e-se abordar as nossas opini\u00f5es err\u00f3neas a partir de um ponto de vista amplo, do qual a desinforma\u00e7\u00e3o transmitida pela comunica\u00e7\u00e3o social ou redes sociais, uma das raz\u00f5es externas de estarmos enganados, \u00e9 uma parte. Analisa 3 das principais causas das nossas cren\u00e7as ou opini\u00f5es enganosas e baseia-se no livro Os Perigos da Perce\u00e7\u00e3o. Talvez estejamos errados acerca de quase tudo. E h\u00e1 quem saiba aproveitar-se disso de Bobby Duffy, publicado pela primeira vez em 2018 e editado em 2025 em Portugal pela Zigurate.* 1. A import\u00e2ncia de emo\u00e7\u00f5es e hist\u00f3rias As nossas emo\u00e7\u00f5es influenciam o que vemos\/lemos, decidem de que lado estamos e modificam o pensamento. \u00c9 importante aceitar e tomar consci\u00eancia do seu importante papel nas nossas opini\u00f5es sobre a realidade, sugerindo-se que as identifiquemos e escrevamos sobre elas. Por exemplo, quando estamos muito preocupados com um problema, como o da migra\u00e7\u00e3o, isso faz com que o sobrestimemos, considerando que tem uma maior dimens\u00e3o do que a que os factos mostram. Este princ\u00edpio est\u00e1 na base da inumeracia emotiva, conceito atribu\u00eddo ao psic\u00f3logo e economista Paul Slovic que designa a nossa incapacidade natural de responder adequadamente a dados num\u00e9ricos ou estat\u00edsticos. Outro exemplo, a empatia e a nossa preocupa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o tende a diminuir se o n\u00famero de pessoas que precisam de ajuda ou morreram aumenta. Este preconceito cognitivo Slovic designou-o Desvanecimento da Compaix\u00e3o\/ Compassion Fade e traduz-se num entorpecimento mental perante crises em massa. Apresentarmos n\u00fameros ou estat\u00edsticas e promovermos a literacia num\u00e9rica n\u00e3o garante uma vis\u00e3o objetiva e racional da realidade. Segundo Slovic, para transmitir o verdadeiro significado de cat\u00e1strofes e motivar para a sua preven\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar uma componente emocional que decorre da apresenta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias sobre pessoas concretas. Segundo Bobby Duffy, os estudos do Instituto IPSOS mostram que temos falta de compet\u00eancias matem\u00e1ticas e estat\u00edsticas b\u00e1sicas e que damos mais import\u00e2ncia \u00e0s palavras do que aos n\u00fameros. Consequentemente, recomenda que, para abordar temas dif\u00edceis ou fraturantes, as hist\u00f3rias &#8211; mais do que a informa\u00e7\u00e3o estat\u00edstica &#8211; contribuem para modificar cren\u00e7as e comportamentos.\u00a0 Retornando ao exemplo dos migrantes, devemos \u201capresentar exemplos reais envolvendo indiv\u00edduos reais, que calhou serem imigrantes, para alterar a imagem mental estereotipada dessas pessoas\u201d. (p. 250). Conclui, afirmando que \u201cn\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre factos e hist\u00f3rias (\u2026) O poder das hist\u00f3rias sobre n\u00f3s implica termos de levar as pessoas a interessarem-se por ambos\u201d (p. 250).\u00a0 2. Pensamos mal dos outros e que somos a norma Quando h\u00e1 demasiada informa\u00e7\u00e3o e proliferam os pontos de vista contradit\u00f3rios, tendemos a considerar que n\u00f3s, e os nossos amigos, correspondem ao padr\u00e3o e que a maioria pensa como n\u00f3s. E somos \u201cem geral, indevidamente negativos na nossa avalia\u00e7\u00e3o dos outros, temos uma tend\u00eancia natural a pensar o pior dos outros &#8211; em geral, atrai-nos informa\u00e7\u00e3o negativa. Significa isto que sofremos de um \u2018vi\u00e9s da superioridade ilus\u00f3ria\u2019, tendemos a achar que somos superiores ao cidad\u00e3o m\u00e9dio\u201d (p. 57). E sugere que tenhamos em mente que \u201cAs coisas n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o mal quanto pensamos\u201d (p. 240) Temos \u201ctend\u00eancia natural para procurarmos informa\u00e7\u00e3o que confirme as nossas opini\u00f5es e evitarmos a que n\u00e3o o faz, lan\u00e7ando-nos para os bra\u00e7os de especialistas que corroboram as nossas opini\u00f5es preexistentes\u201d (p. 235). Evitamos a disson\u00e2ncia cognitiva, mas consultar diferentes fontes e perspetivas evita opini\u00f5es enganosas. Atualmente diversos jornais apresentam para uma pergunta dois lados da resposta e este \u00e9 um exerc\u00edcio que as bibliotecas escolares podem solicitar \u00e0s crian\u00e7as e jovens. A app Read Across the Aisle\/ Ler o lado de l\u00e1 [3] ajuda a escapar ao vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o e a abandonar a ideia de que os nossos pontos de vista s\u00e3o os dominantes e os corretos, constituindo um rem\u00e9dio para a polariza\u00e7\u00e3o e o discurso de \u00f3dio.\u00a0 3. O c\u00e9rebro tende a simplificar e a exagerar A paisagem medi\u00e1tica, na sua busca por audi\u00eancias, visualiza\u00e7\u00f5es, likes e lucro, tende a apresentar mensagens simples, f\u00e1ceis de captar. E \u201cos pr\u00f3prios investigadores, acad\u00e9micos e autores (incluindo eu mesmo!) t\u00eam motivos para simplificar as coisas: mensagens contundentes atraem mais aten\u00e7\u00e3o, mais financiamento e geram mais vendas de livros!\u201d (p. 12). Perante um problema, o nosso c\u00e9rebro detesta ficar na d\u00favida e tem apet\u00eancia natural para a simplicidade, respostas \u00fanicas\/solu\u00e7\u00f5es e arranjar culpados. Segundo Duffy, temos uma fixa\u00e7\u00e3o natural por exemplos extremos, generaliza\u00e7\u00f5es\/ estere\u00f3tipos, que n\u00e3o s\u00e3o representativos da realidade. A comunica\u00e7\u00e3o social e redes sociais exploram esta vulnerabilidade &#8211; \u201cDrama, trag\u00e9dia e horror atrai a aten\u00e7\u00e3o\u201d. Evocando Evan Davis, autor do livro Post-true, \u201cPrimeiro simplifica-se, depois exagera-se\u201d.\u00a0 \u201c\u00c9 muito mais f\u00e1cil ser-se arrastado para esta armadilha muit\u00edssimo comum do que por qualquer coisa que envolva fake news\u201d (p. 242).\u00a0 Concluindo Pontos de vista err\u00f3neos n\u00e3o se corrigem com mais informa\u00e7\u00e3o, mas refletindo sobre como pensamos. A educa\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo baseado em exemplos reais da Psicologia e da Neuroci\u00eancia facilitam este processo. \u201cApesar da nossa vis\u00e3o do mundo baseada na realidade estar cada vez mais em risco, h\u00e1 coisas que podemos fazer\u201d (p. 252), como: Cultivar um saud\u00e1vel ceticismo, duvidando e desconfiando das primeiras impress\u00f5es; Cultivar uma certa in\u00e9rcia, n\u00e3o correndo atr\u00e1s da \u00faltima novidade, cuja informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi estabilizada; Consumir not\u00edcias transitando da recetividade passiva para a reflex\u00e3o ativa (quem, o qu\u00ea, onde, quando, para qu\u00ea esta not\u00edcia?), desenvolvendo a leitura lateral usada pelos verificadores de factos. Exercitar um pensamento\/a\u00e7\u00e3o lento, com consci\u00eancia e inten\u00e7\u00e3o. O pensamento r\u00e1pido, instintivo, n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel, pois tende a multiplicar os erros cognitivos. O livro Pensar Depressa e Devagar de Daniel Kahneman demonstra que a rapidez modifica a forma como compreendemos o mundo, definimos as nossas prioridades e nos comportamos e \u00e9 prejudicial para o desenvolvimento. \u00c9 importante tomar consci\u00eancia de que os c\u00e9rebros humanos s\u00e3o t\u00edpicos, previs\u00edveis e que estas s\u00e3o ilus\u00f5es sistem\u00e1ticas e que h\u00e1 pessoas que intencionalmente as exploram para as manipular e retirar benef\u00edcio pr\u00f3prio.\u00a0 Estas pessoas \u201cconstituem um risco real para a sociedade\u201d (p. 13) porque nos afastam de uma vis\u00e3o objetiva e rigorosa da realidade, de um pensamento e a\u00e7\u00e3o livres. Entre elas destacam-se os programadores de tecnologias digitais, redes socais e IA, os influenciadores e os pol\u00edticos. O uso cont\u00ednuo de ferramentas digitais e IA alimenta autom\u00e1tica e exponencialmente este sistema natural de ilus\u00f5es, sem disso termos consci\u00eancia, pelo que urge intervirmos.\u00a0 * Sobre o autor Duffy \u00e9 professor de pol\u00edticas p\u00fablicas e diretor do Policy Institute no King&#8217;s College de Londres. Anteriormente foi diretor de pesquisa global do IPSOS [1], Instituto com 50 anos de hist\u00f3ria e l\u00edder mundial em investiga\u00e7\u00e3o social que publica anualmente e em acesso livre Os Perigos da Perce\u00e7\u00e3o\/Perils of Perception e o \u00cdndice de Confian\u00e7a Global\/Global Trustworthiness Index, entre outros estudos. Refer\u00eancias 1. Duffy, Bobby. (2025). Os Perigos da Percep\u00e7\u00e3o. Zigurate2. Ipsos Portugal. (s.d.). Ipsos Portugal. https:\/\/www.ipsos.com\/pt-pt\u00a03. Read Across the Aisle. (s.d.). 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