{"id":2923903,"date":"2025-02-04T09:00:00","date_gmt":"2025-02-04T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2923903.html"},"modified":"2026-05-14T09:00:25","modified_gmt":"2026-05-14T09:00:25","slug":"o-lugar-do-morto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2923903","title":{"rendered":"O lugar do morto"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"1.png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/blogs.sl.pt\/cloud\/thumb\/1a44a2c597da688a0ed21ef60e7bdccc\/bibliotecasescolares\/2025\/1.png?size=l\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>O sil\u00eancio da biblioteca ilumina-se com a chegada de um novo dia, os livros descansam nas estantes ou espalhados nas mesas de aparato para novidades, onde repousam tamb\u00e9m o jogo de xadrez do Harry Potter e o arranjo floral. L\u00e1 fora, as cristas das serras de Santa Justa, Pias e Casti\u00e7al recortam o c\u00e9u em suaves ondas, os raios de sol declinam a densa vegeta\u00e7\u00e3o das encostas e uns caminhos retorcidos assinalam a presen\u00e7a humana naqueles santu\u00e1rios naturais. Daqui a pouco chegar\u00e3o os jovens em tr\u00e2nsito de aulas, porque a biblioteca escolar n\u00e3o pode ser t\u00e3o sagrada como as outras, os deuses da biblioteca n\u00e3o riscam nada se n\u00e3o descerem dos pedestais e se misturarem com o povo, quem sabe levando na m\u00e3o um telem\u00f3vel topo de gama para impressionar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Alguns alunos ocupar\u00e3o a zona dos jornais e revistas sem prestarem grande aten\u00e7\u00e3o ao entorno, antes concentrando-se na conversa sussurrada ou nos m\u00eames do <em>TikTok.<\/em> Um ou outro percorrer\u00e1 as estantes por curiosidade, outros deter-se-\u00e3o sobre uma capa atrativa, um t\u00edtulo chamejante. Um e outro requisitar\u00e1 ou renovar\u00e1 um livro obrigatoriamente escolhido para o projeto de leitura. H\u00e1 muito que os telem\u00f3veis invadiram a biblioteca e a biblioteca n\u00e3o os pode ignorar, ainda que se debata diariamente sobre a maneira mais eficaz de usar esta ferramenta na m\u00e3o dos seus utilizadores e servir-se dela para promover e difundir as vantagens de viajar no lugar do morto, que \u00e9 como quem diz os benef\u00edcios que adv\u00eam da observa\u00e7\u00e3o da paisagem, da frui\u00e7\u00e3o do tempo da viagem, da sonoridade do sil\u00eancio, do inesperado momento c\u00f3mico ou assombroso, da saudade antecipada disso tudo e da mem\u00f3ria recortada que ressurgir\u00e1 sabe-se l\u00e1 porqu\u00ea, sabe-se l\u00e1 quando.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Com o uso do telem\u00f3vel, o lugar do condutor ficou sobrevalorizado e, sem d\u00favida, mais apetecido. Para al\u00e9m de n\u00e3o exigir carta de condu\u00e7\u00e3o, permite viajar para qualquer o lado, \u00e0 velocidade limite ou maior ainda, tudo na palma da m\u00e3o, t\u00e3o depressa e t\u00e3o diversificado, t\u00e3o deslumbrante e t\u00e3o descart\u00e1vel.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>E \u00e9 nesse contexto que os deuses da biblioteca devem atuar, lembrando ao condutor que s\u00e3o companheiros de viagem e est\u00e3o mesmo ao seu ao lado para lhe mostrar os fasc\u00ednios da paisagem, conhecida ou ignota, e lhe lembrar a necessidade da pausa e do sil\u00eancio. N\u00e3o o temido sil\u00eancio do esquecimento e da ignor\u00e2ncia, aquele que faz da biblioteca um lugar morto, mas <strong>o sil\u00eancio da descoberta e do encantamento a que todos t\u00eam direito.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Clarinda Santos, professora bibliotec\u00e1ria,<br \/>Escola Secund\u00e1ria de S\u00e3o Pedro da Cova &#8211; Gondomar<\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\ud83d\udcf7\u00a0leekris de Getty Images Pro, vi@ <a href=\"https:\/\/www.canva.com\/\">https:\/\/www.canva.com\/<\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<div><\/p>\n<p><span><strong>__________________________________________________________________________________________________________________<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"3.jpg\" class=\"lazyload-item lazyload-item\" height=\"54\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22691350_giZ3J.jpeg\" width=\"730\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ol><\/p>\n<li>Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra\u00a0<a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/apoio\/artigos\/$retalhos-da-vida-de-um-medico\" rel=\"noopener\">Retalhos da vida de um m\u00e9dico<\/a>, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora.<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias.<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Se \u00e9 professor bibliotec\u00e1rio e gostaria de partilhar um \u201cretalho\u201d, poder\u00e1 faz\u00ea-lo, submetendo\u00a0<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSc5afn6N2wiyMUUt2SeWXWWIEDXwf6wwUJafLwjDDmTA6phjw\/viewform\" rel=\"noopener\">este formul\u00e1rio<\/a>.<\/li>\n<p><\/ol>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sil\u00eancio da biblioteca ilumina-se com a chegada de um novo dia, os livros descansam nas estantes ou espalhados nas mesas de aparato para novidades, onde repousam tamb\u00e9m o jogo de xadrez do Harry Potter e o arranjo floral. L\u00e1 fora, as cristas das serras de Santa Justa, Pias e Casti\u00e7al recortam o c\u00e9u em suaves ondas, os raios de sol declinam a densa vegeta\u00e7\u00e3o das encostas e uns caminhos retorcidos assinalam a presen\u00e7a humana naqueles santu\u00e1rios naturais. Daqui a pouco chegar\u00e3o os jovens em tr\u00e2nsito de aulas, porque a biblioteca escolar n\u00e3o pode ser t\u00e3o sagrada como as outras, os deuses da biblioteca n\u00e3o riscam nada se n\u00e3o descerem dos pedestais e se misturarem com o povo, quem sabe levando na m\u00e3o um telem\u00f3vel topo de gama para impressionar. Alguns alunos ocupar\u00e3o a zona dos jornais e revistas sem prestarem grande aten\u00e7\u00e3o ao entorno, antes concentrando-se na conversa sussurrada ou nos m\u00eames do TikTok. Um ou outro percorrer\u00e1 as estantes por curiosidade, outros deter-se-\u00e3o sobre uma capa atrativa, um t\u00edtulo chamejante. Um e outro requisitar\u00e1 ou renovar\u00e1 um livro obrigatoriamente escolhido para o projeto de leitura. H\u00e1 muito que os telem\u00f3veis invadiram a biblioteca e a biblioteca n\u00e3o os pode ignorar, ainda que se debata diariamente sobre a maneira mais eficaz de usar esta ferramenta na m\u00e3o dos seus utilizadores e servir-se dela para promover e difundir as vantagens de viajar no lugar do morto, que \u00e9 como quem diz os benef\u00edcios que adv\u00eam da observa\u00e7\u00e3o da paisagem, da frui\u00e7\u00e3o do tempo da viagem, da sonoridade do sil\u00eancio, do inesperado momento c\u00f3mico ou assombroso, da saudade antecipada disso tudo e da mem\u00f3ria recortada que ressurgir\u00e1 sabe-se l\u00e1 porqu\u00ea, sabe-se l\u00e1 quando. Com o uso do telem\u00f3vel, o lugar do condutor ficou sobrevalorizado e, sem d\u00favida, mais apetecido. Para al\u00e9m de n\u00e3o exigir carta de condu\u00e7\u00e3o, permite viajar para qualquer o lado, \u00e0 velocidade limite ou maior ainda, tudo na palma da m\u00e3o, t\u00e3o depressa e t\u00e3o diversificado, t\u00e3o deslumbrante e t\u00e3o descart\u00e1vel. E \u00e9 nesse contexto que os deuses da biblioteca devem atuar, lembrando ao condutor que s\u00e3o companheiros de viagem e est\u00e3o mesmo ao seu ao lado para lhe mostrar os fasc\u00ednios da paisagem, conhecida ou ignota, e lhe lembrar a necessidade da pausa e do sil\u00eancio. N\u00e3o o temido sil\u00eancio do esquecimento e da ignor\u00e2ncia, aquele que faz da biblioteca um lugar morto, mas o sil\u00eancio da descoberta e do encantamento a que todos t\u00eam direito. Clarinda Santos, professora bibliotec\u00e1ria,Escola Secund\u00e1ria de S\u00e3o Pedro da Cova &#8211; Gondomar \ud83d\udcf7\u00a0leekris de Getty Images Pro, vi@ https:\/\/www.canva.com\/ __________________________________________________________________________________________________________________ Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra\u00a0Retalhos da vida de um m\u00e9dico, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias. 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