{"id":2852567,"date":"2024-06-21T09:00:00","date_gmt":"2024-06-21T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2852567.html"},"modified":"2026-05-13T13:39:33","modified_gmt":"2026-05-13T13:39:33","slug":"sempre-imaginei-o-paraiso-como-uma-especie-de-biblioteca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2852567","title":{"rendered":"\u201cSempre imaginei o para\u00edso como uma esp\u00e9cie de biblioteca.\u201d*"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Vozes.png\" height=\"479\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22653447_zteEi.png\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: left;\"><strong>\u201cSempre imaginei o para\u00edso como uma esp\u00e9cie de biblioteca.\u201d*<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: left;\">Esta frase de Borges aquilata, sem margem para d\u00favidas, a relev\u00e2ncia da biblioteca e, claro, da biblioteca escolar, como espa\u00e7o de informa\u00e7\u00e3o, de aprendizagem, de conhecimento &#8211; numa perspectiva mais funcional &#8211; mas, igualmente, de prazer, de bem-estar de apaziguamento, de desconex\u00e3o, de crescimento e de tranquilidade \u2013 numa perspectiva mais simb\u00f3lica. Todas estas formas de viver e de fruir a biblioteca se ajustam \u00e0 escola e \u00e0 miss\u00e3o da escola junto da comunidade que a orbita.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Quem ama os livros e a leitura \u2013 \u00e9 crucial que a palavra amor seja aqui declinada \u2013 ama igualmente as palavras e quer conhec\u00ea-las. Biblioteca \u00e9 uma palavra composta de dois voc\u00e1bulos gregos: <em>biblion <\/em>(livro) e <em>teke <\/em>(caixa ou dep\u00f3sito). No caso vertente, a etimologia desilude, como se uma biblioteca pudesse ser apenas uma dep\u00f3sito, ou uma caixa de livros, que remete para a ideia de arrumos de coisas inertes! Para mim, palavras (e os conceitos que elas arrastam), como lugar; livre acesso; paisagem; ref\u00fagio; vozes; esp\u00edritos; cultura; di\u00e1logo; viagem; empatia; mito; tempo; mem\u00f3ria; mist\u00e9rio; claridade\u2026 sempre fizeram parte do campo sem\u00e2ntico da biblioteca. Estas que escolhi tra\u00e7am em breves apontamentos a converg\u00eancia do meu ide\u00e1rio com o de Borges. Um lugar onde seja poss\u00edvel ter, sentir e fazer o que estas palavras prefiguram \u00e9, se n\u00e3o um para\u00edso, um lugar ideal, que existe e existe na escola.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Como lugar de livre \u2013 digam a palavra como quem a saboreia \u2013 acesso, a biblioteca \u00e9 democr\u00e1tica, acolhe todos os que amam os livros, mas igualmente os que os entendem como objectos ma\u00e7adores, procurando a\u00ed o digital e o livre acesso a outras formas de conservar e de aceder \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e ao conhecimento. O livre acesso \u00e9 gratuito, logo a biblioteca promove a igualdade, atenuando assimetrias que noutros espa\u00e7os se tornam mais n\u00edtidas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>H\u00e1 poucas paisagens t\u00e3o emocionantes como a sucess\u00e3o de estantes carregadas de livros, mimese da ordem do universo, cujas entradas codificadas s\u00e3o como mapas, podemos ir pelo autor, pelo t\u00edtulo, pelo g\u00e9nero, ou podemos simplesmente perder-nos, percorrer com as pontas dos dedos as lombadas dos livros, permitindo que um deles, por fim, nos interpele e nos convoque \u00e0 comunh\u00e3o com o autor e as suas palavras. \u00c9 igualmente uma paisagem que nos permite fugir da dureza do quotidiano, da barb\u00e1rie, do medo e da ang\u00fastia. Mergulhar na leitura de um livro, est\u00e1 provado cientificamente, acalma o esp\u00edrito, desvanece as ang\u00fastias, liberta-nos das tens\u00f5es, tem quase o efeito de uma noite bem dormida. Se nos entregarmos \u00e0 leitura por alguns instantes, o nosso esp\u00edrito fortalece-se, serena e come\u00e7amos a respirar melhor. P\u00e9rez-Reverte, numa entrevista, bel\u00edssima, concedida a um jornal portugu\u00eas, dizia que, quando o mundo se lhe tornava insuport\u00e1vel, refugiava-se na sua biblioteca e relia os seus autores preferidos, entre eles Pessoa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Tenho quase a certeza que, se fic\u00e1ssemos, por acidente, fechados numa biblioteca durante a noite, no sil\u00eancio profundo, e se soub\u00e9ssemos escutar, ouvir\u00edamos o murm\u00fario dos muitos autores a\u00ed guardados, em di\u00e1logo constante, numa espiral que se alimenta de si mesmo e que se alarga como os c\u00edrculos na \u00e1gua, simultaneamente soma e multiplica\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o \u00e9 conveniente que fiquemos fechados numa biblioteca, para abrir esse portal de acesso a um mundo fant\u00e1stico, onde convivem fora do tempo e do espa\u00e7o, autores de ontem e de hoje, ideias velhas que se mant\u00eam frescas e ideias novas cujo fulgor brilha com mais intensidade por serem resultado das muitas ideias que as precederam, porque tudo \u00e9 mem\u00f3ria, para tudo isso, basta a aventura, o risco de abrir um livro, melhor se forem muitos livros, e de nos abandonarmos a eles. Viajaremos at\u00e9 lugares reais e fant\u00e1sticos, experimentaremos todas as sensa\u00e7\u00f5es, conheceremos todos os sentimentos. Fechado o livro, seremos maiores e melhores do que \u00e9ramos antes daquele livro, porque a leitura nos torna maiores do que somos, mais livres, mais esclarecidos, mais emp\u00e1ticos, mais conhecedores.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Regresso a Borges, que tamb\u00e9m disse: \u201cchega-se a ser grande por aquilo que se l\u00ea e n\u00e3o por aquilo que se escreve.\u201d, que \u00e9 um pensamento bel\u00edssimo e que atribui ao leitor, ao sujeito de curiosidade, de aprendizagem, uma dimens\u00e3o inaugural, pois que , sem leitor, o livro est\u00e1 morto. Este poder, de ser, de fazer, de sentir, existe nesse lugar m\u00e1gico, pr\u00f3ximo, de livre acesso, que \u00e9 a biblioteca e, se for escolar, mais ainda. A\u00ed poderemos incluir todos os alunos, independentemente da sua origem e do seu contexto, a\u00ed poderemos cuidar da sa\u00fade mental das nossas crian\u00e7as e jovens, a\u00ed poderemos lev\u00e1-los a aprender e a cultivar os valores de uma cidadania esclarecida, democr\u00e1tica, tolerante e aberta ao outro, a\u00ed poderemos ceder-lhes diferentes formas de informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, a\u00ed poderemos mostrar-lhe que a mem\u00f3ria e a cultura s\u00e3o inalien\u00e1veis, a\u00ed poderemos educar-nos para os direitos, a\u00ed poderemos cumprir a nossa miss\u00e3o, porque a biblioteca \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da escola.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Assim, as bibliotecas escolares do Agrupamento de Escolas de Cister s\u00e3o agentes de transforma\u00e7\u00e3o e de inclus\u00e3o, s\u00e3o parceiras inalien\u00e1veis na concretiza\u00e7\u00e3o dos objetivos do projeto educativo, s\u00e3o parte de todos os projetos que abra\u00e7amos, s\u00e3o inspira\u00e7\u00e3o para uma a\u00e7\u00e3o educativa flex\u00edvel, inovadora, humanista, tecnol\u00f3gica, \u00e9tica e est\u00e9tica. N\u00e3o imagino as nossas escolas sem as suas bibliotecas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Manuela Louren\u00e7o<br \/>Diretora do AE de Cister, Alcoba\u00e7a<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000; font-family: impact, sans-serif; font-size: 24pt;\">*<\/span>Jorge Lu\u00eds Borges<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSempre imaginei o para\u00edso como uma esp\u00e9cie de biblioteca.\u201d* Esta frase de Borges aquilata, sem margem para d\u00favidas, a relev\u00e2ncia da biblioteca e, claro, da biblioteca escolar, como espa\u00e7o de informa\u00e7\u00e3o, de aprendizagem, de conhecimento &#8211; numa perspectiva mais funcional &#8211; mas, igualmente, de prazer, de bem-estar de apaziguamento, de desconex\u00e3o, de crescimento e de tranquilidade \u2013 numa perspectiva mais simb\u00f3lica. Todas estas formas de viver e de fruir a biblioteca se ajustam \u00e0 escola e \u00e0 miss\u00e3o da escola junto da comunidade que a orbita. Quem ama os livros e a leitura \u2013 \u00e9 crucial que a palavra amor seja aqui declinada \u2013 ama igualmente as palavras e quer conhec\u00ea-las. Biblioteca \u00e9 uma palavra composta de dois voc\u00e1bulos gregos: biblion (livro) e teke (caixa ou dep\u00f3sito). No caso vertente, a etimologia desilude, como se uma biblioteca pudesse ser apenas uma dep\u00f3sito, ou uma caixa de livros, que remete para a ideia de arrumos de coisas inertes! Para mim, palavras (e os conceitos que elas arrastam), como lugar; livre acesso; paisagem; ref\u00fagio; vozes; esp\u00edritos; cultura; di\u00e1logo; viagem; empatia; mito; tempo; mem\u00f3ria; mist\u00e9rio; claridade\u2026 sempre fizeram parte do campo sem\u00e2ntico da biblioteca. Estas que escolhi tra\u00e7am em breves apontamentos a converg\u00eancia do meu ide\u00e1rio com o de Borges. Um lugar onde seja poss\u00edvel ter, sentir e fazer o que estas palavras prefiguram \u00e9, se n\u00e3o um para\u00edso, um lugar ideal, que existe e existe na escola. Como lugar de livre \u2013 digam a palavra como quem a saboreia \u2013 acesso, a biblioteca \u00e9 democr\u00e1tica, acolhe todos os que amam os livros, mas igualmente os que os entendem como objectos ma\u00e7adores, procurando a\u00ed o digital e o livre acesso a outras formas de conservar e de aceder \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e ao conhecimento. O livre acesso \u00e9 gratuito, logo a biblioteca promove a igualdade, atenuando assimetrias que noutros espa\u00e7os se tornam mais n\u00edtidas. H\u00e1 poucas paisagens t\u00e3o emocionantes como a sucess\u00e3o de estantes carregadas de livros, mimese da ordem do universo, cujas entradas codificadas s\u00e3o como mapas, podemos ir pelo autor, pelo t\u00edtulo, pelo g\u00e9nero, ou podemos simplesmente perder-nos, percorrer com as pontas dos dedos as lombadas dos livros, permitindo que um deles, por fim, nos interpele e nos convoque \u00e0 comunh\u00e3o com o autor e as suas palavras. \u00c9 igualmente uma paisagem que nos permite fugir da dureza do quotidiano, da barb\u00e1rie, do medo e da ang\u00fastia. Mergulhar na leitura de um livro, est\u00e1 provado cientificamente, acalma o esp\u00edrito, desvanece as ang\u00fastias, liberta-nos das tens\u00f5es, tem quase o efeito de uma noite bem dormida. Se nos entregarmos \u00e0 leitura por alguns instantes, o nosso esp\u00edrito fortalece-se, serena e come\u00e7amos a respirar melhor. P\u00e9rez-Reverte, numa entrevista, bel\u00edssima, concedida a um jornal portugu\u00eas, dizia que, quando o mundo se lhe tornava insuport\u00e1vel, refugiava-se na sua biblioteca e relia os seus autores preferidos, entre eles Pessoa. Tenho quase a certeza que, se fic\u00e1ssemos, por acidente, fechados numa biblioteca durante a noite, no sil\u00eancio profundo, e se soub\u00e9ssemos escutar, ouvir\u00edamos o murm\u00fario dos muitos autores a\u00ed guardados, em di\u00e1logo constante, numa espiral que se alimenta de si mesmo e que se alarga como os c\u00edrculos na \u00e1gua, simultaneamente soma e multiplica\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o \u00e9 conveniente que fiquemos fechados numa biblioteca, para abrir esse portal de acesso a um mundo fant\u00e1stico, onde convivem fora do tempo e do espa\u00e7o, autores de ontem e de hoje, ideias velhas que se mant\u00eam frescas e ideias novas cujo fulgor brilha com mais intensidade por serem resultado das muitas ideias que as precederam, porque tudo \u00e9 mem\u00f3ria, para tudo isso, basta a aventura, o risco de abrir um livro, melhor se forem muitos livros, e de nos abandonarmos a eles. Viajaremos at\u00e9 lugares reais e fant\u00e1sticos, experimentaremos todas as sensa\u00e7\u00f5es, conheceremos todos os sentimentos. Fechado o livro, seremos maiores e melhores do que \u00e9ramos antes daquele livro, porque a leitura nos torna maiores do que somos, mais livres, mais esclarecidos, mais emp\u00e1ticos, mais conhecedores. Regresso a Borges, que tamb\u00e9m disse: \u201cchega-se a ser grande por aquilo que se l\u00ea e n\u00e3o por aquilo que se escreve.\u201d, que \u00e9 um pensamento bel\u00edssimo e que atribui ao leitor, ao sujeito de curiosidade, de aprendizagem, uma dimens\u00e3o inaugural, pois que , sem leitor, o livro est\u00e1 morto. Este poder, de ser, de fazer, de sentir, existe nesse lugar m\u00e1gico, pr\u00f3ximo, de livre acesso, que \u00e9 a biblioteca e, se for escolar, mais ainda. A\u00ed poderemos incluir todos os alunos, independentemente da sua origem e do seu contexto, a\u00ed poderemos cuidar da sa\u00fade mental das nossas crian\u00e7as e jovens, a\u00ed poderemos lev\u00e1-los a aprender e a cultivar os valores de uma cidadania esclarecida, democr\u00e1tica, tolerante e aberta ao outro, a\u00ed poderemos ceder-lhes diferentes formas de informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, a\u00ed poderemos mostrar-lhe que a mem\u00f3ria e a cultura s\u00e3o inalien\u00e1veis, a\u00ed poderemos educar-nos para os direitos, a\u00ed poderemos cumprir a nossa miss\u00e3o, porque a biblioteca \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da escola. Assim, as bibliotecas escolares do Agrupamento de Escolas de Cister s\u00e3o agentes de transforma\u00e7\u00e3o e de inclus\u00e3o, s\u00e3o parceiras inalien\u00e1veis na concretiza\u00e7\u00e3o dos objetivos do projeto educativo, s\u00e3o parte de todos os projetos que abra\u00e7amos, s\u00e3o inspira\u00e7\u00e3o para uma a\u00e7\u00e3o educativa flex\u00edvel, inovadora, humanista, tecnol\u00f3gica, \u00e9tica e est\u00e9tica. N\u00e3o imagino as nossas escolas sem as suas bibliotecas. 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