{"id":2835873,"date":"2024-05-02T09:00:00","date_gmt":"2024-05-02T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2835873.html"},"modified":"2026-05-13T13:44:05","modified_gmt":"2026-05-13T13:44:05","slug":"acrescentar-inteligencia-antropologica-a-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2835873","title":{"rendered":"Acrescentar Intelig\u00eancia Antropol\u00f3gica \u00e0 IA"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2024-05-02.jpg\" height=\"480\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22634930_VkhWU.jpeg\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong style=\"color: #ff0000; font-size: 14pt;\">1. Abordagem de IA centrada no humano<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>A comunidade internacional estabelece a ado\u00e7\u00e3o de uma abordagem de IA (Intelig\u00eancia Artificial) \u201ccentrada no ser humano\u201d, isto \u00e9, \u201cao servi\u00e7o do desenvolvimento das capacidades humanas para um futuro inclusivo, justo e sustent\u00e1vel\u201c, orientado pela \u201cnecessidade de proteger a dignidade humana e a diversidade cultural\u201d (UNESCO, 2023, p. 17).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A Lei Europeia tamb\u00e9m defende uma \u201c<em>Human-centric approach to AI<\/em>\u201d, no \u00e2mbito da qual o ser humano deve ser o \u00fanico que fornece os comandos\/<em>propmpts<\/em> e que faz o acompanhamento e controlo\/verifica\u00e7\u00e3o da resposta de IA, sendo o seu \u00fanico respons\u00e1vel (European Parliament, 2023, p. 2).<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>2. A necessidade de acrescentar Intelig\u00eancia Antropol\u00f3gica \u00e0 IA<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio <em>New Horizons in Digital Anthropology<\/em> (UNESCO &amp; Liiv Cnter, 2023), para evitar uma vis\u00e3o parcial e preconceituosa da vida humana digital <strong>\u00e9 necess\u00e1rio acrescentar \u00e0 abordagem quantitativa, bin\u00e1ria e fixa do digital, informa\u00e7\u00e3o qualitativa e descritiva, que informe, por exemplo, sobre as <em>nuances, <\/em>os pontos cegos ou sil\u00eancios (vazios no discurso) e os preconceitos das diversas comunidades humanas digitais<\/strong>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O Relat\u00f3rio defende e apresenta exemplos de todo o mundo, baseados em 4 relat\u00f3rios regionais (\u00c1sia e Estados do Pac\u00edfico, Am\u00e9rica Latina e Cara\u00edbas, \u00c1frica e Estados \u00c1rabes e Europa e Am\u00e9rica do Norte), sobre a import\u00e2ncia de se associar m\u00e9todos qualitativos da Antropologia e das Humanidades ao campo dos Big\/ Hard Data, destacando a import\u00e2ncia destas \u00e1reas para observar e compreender as pessoas e as comunidades <em>online<\/em>. A inova\u00e7\u00e3o digital passa por acrescentar Intelig\u00eancia Antropol\u00f3gica \u00e0 IA.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>3. M\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o <\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>As principais abordagens da Antropologia Digital s\u00e3o a Etnografia Digital, a Netnografia (pesquisa no terreno digital), a observa\u00e7\u00e3o, o question\u00e1rio, a entrevista e a an\u00e1lise documental digital.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Adota uma perspetiva reflexiva e interdisciplinar\/colaborativa, trabalhando com especialistas de diferentes \u00e1reas, como historiadores, linguistas, soci\u00f3logos, psic\u00f3logos, artistas e decisores pol\u00edticos e influenciadores locais. Por exemplo, cinema e fotografia documental podem constituir formas de observa\u00e7\u00e3o participante, em que o investigador est\u00e1 presente e se envolve localmente com as pessoas da comunidade em estudo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m carece de envolvimento dos cidad\u00e3os &#8211; <strong>Etnografia Cidad\u00e3<\/strong> &#8211; e de materiais educativos, pelo que o Liiv Center vai lan\u00e7ar neste m\u00eas um kit de materiais.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>4. Principais marcos da Antropologia Digital <\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>De acordo com a cronologia do Relat\u00f3rio (UNESCO &amp; Liiv Cnter, pp. 20 e segs.), a Antropologia surgiu como disciplina aut\u00f3noma na d\u00e9cada de 1920, visando o estudo dos aspetos culturais de comunidades marginalizadas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990 \u2013 2000 come\u00e7a a desenvolver-se a Antropologia Digital, atrav\u00e9s da migra\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos antropol\u00f3gicos tradicionais para o ambiente digital que, associados a ferramentas digitais, permitem estudar o seu objeto de estudo no espa\u00e7o digital. <em>Coming of Age in Second Life<\/em> de Tom Boellstorff, texto sobre o jogo\/simulador virtual <em>Second Life<\/em>, inaugura esta \u00e1rea de estudo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Outro marco fundamental \u00e9 Tricia Wang que, numa TED Talk, introduz o conceito de <em>dados espessos\/complexos<\/em> (<em>thick data<\/em>), \u201cdados valiosos de pessoas, como hist\u00f3rias, emo\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser quantificadas\u201d e reconhece que <strong>as respostas de IA sofrem de \u201cvi\u00e9s de quantifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a cren\u00e7a inconsciente de valorizar o mensur\u00e1vel sobre o imensur\u00e1vel\u201d<\/strong> (Tricia, 2016).<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Thick data<\/em> s\u00e3o dados qualitativos que podem ser recolhidos em fontes abertas, como as redes sociais e que revelam as perce\u00e7\u00f5es, os preconceitos e o contexto hol\u00edstico das pessoas reais. Apesar de constitu\u00edrem \u201cuma amostra muito pequena, oferecem uma profundidade de significado incr\u00edvel\u201d para o algoritmo, permitindo resultados e decis\u00f5es mais eficazes (Tricia, 2016).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Algoritmos h\u00edbridos integram dados quantitativos e qualitativos, baseiam-se em Big Data, dados j\u00e1 recolhidos e em <em>Thick Data<\/em>, dados criados especificamente para a aplica\u00e7\u00e3o de IA em causa. Tricia Wang d\u00e1 o exemplo do algoritmo de recomenda\u00e7\u00e3o da Netflix criado desta forma e que melhorou o neg\u00f3cio e a forma de consumir <em>media<\/em>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Imagem1.png\" height=\"253\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22634924_Ph1r1.png\" style=\"float: right; width: 247px; padding: 10px 10px;\" width=\"247\" \/>Outra refer\u00eancia fundamental em Antropologia Digital e Antropologia dos Neg\u00f3cios \u00e9 Gillian Tett (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p,\u00a027), jornalista brit\u00e2nica e autora, entre outros, do livro <em>Anthro-Vision: How Anthropology Can Explain Business and Life. <\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Na conversa ao Thought Economics, Gillian Tett considera que \u201ca experi\u00eancia de imers\u00e3o para compreender melhor o \u2018outro\u2019\u201d tamb\u00e9m deve contribuir para \u201cvirar essa lente para se examinar a si mesmo e \u00e0 pr\u00f3pria cultura e perceber como \u2013 em muitos aspetos \u2013 a sua vida pode parecer estranha para os outros\u201d &#8211; \u00e9 a <strong>Auto-Etnografia<\/strong>, em que o antrop\u00f3logo observa e reflete sobre si pr\u00f3prio (Vikas, 2023). Neste contexto, refere o prov\u00e9rbio chin\u00eas, <strong><em>um peixe n\u00e3o pode ver a \u00e1gua<\/em><\/strong>. Habitualmente cientistas e decisores pol\u00edticos t\u00eam dificuldade em sair do pr\u00f3prio aqu\u00e1rio, pois <strong>\u201cQuanto mais alto se sobe na hierarquia, maior \u00e9 o perigo de acabar a pensar que todas as pessoas pensam como voc\u00ea\u201d<\/strong> (Vikas, 2023). \u00c9 nesta medida que o conhecimento transmitido e as decis\u00f5es pol\u00edticas ao longo da Hist\u00f3ria t\u00eam sido parciais\/limitadas, refletindo e servindo a elite no poder e dominante no discurso.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>5. A cultura do tecno-solucionismo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>N\u00e3o obstante o potencial da Antropologia para a inova\u00e7\u00e3o digital, a crescente expans\u00e3o de redes sociais, digitaliza\u00e7\u00e3o, metaverso e intelig\u00eancia artificial (IA), sobretudo desde a pandemia, criou \u201ca cren\u00e7a de que a tecnologia pode, por si mesma, resolver quest\u00f5es sociais complexas\u201d ou a tend\u00eancia cultural do tecno-solucionismo (<em>techno-solutionism<\/em>) (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 51).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Exemplo recente foi \u201ca ditadura do confinamento baseada em dados m\u00e9dicos e que ignorou as desigualdades humanas\u201d e o contexto, agravando problemas como o da sa\u00fade mental e da viol\u00eancia dom\u00e9stica (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 51).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Outro exemplo, \u00e9 o investimento de \u201ctrili\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o e no acompanhamento de plataformas digitais e dados pessoais\u201d, enquanto se investe \u201cuma quantia chocantemente pequena na compreens\u00e3o dos valores, din\u00e2micas sociais, identidades e preconceitos das comunidades digitais\u201d (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 10).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Outras barreiras \u00e0 melhoria e expans\u00e3o da Antropologia Digital s\u00e3o a desigualdade digital global, a disparidade de investimentos e o patrim\u00f3nio cultural negativo (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 10). Aspetos facilitadores s\u00e3o o investimento em ferramentas tecnol\u00f3gicas e arquivos de acesso aberto.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Este artigo tem continua\u00e7\u00e3o. <a title=\"O pr\u00f3ximo artigo\" href=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/antropologia-digital-e-storytelling-2837334\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O pr\u00f3ximo artigo<\/a> \u00e9 sobre o contributo que as bibliotecas escolares e os jovens podem dar a esta \u00e1rea de inova\u00e7\u00e3o digital.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ol><\/p>\n<li>Fonte da imagem: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization &amp; LiiV Center for Innovation Digital Anthropology. (2023). <em>New Horizons in Digital Anthropology: Innovation for understanding humanity.<\/em> <a href=\"https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000382647\">https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000382647<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li>United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2023). <em>Guidance for generative AI in education and research. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization<\/em>. <a href=\"https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000386693\">https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000386693<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li>European Parliament. (2023). <em>Artificial intelligence act<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/BRIE\/2021\/698792\/EPRS_BRI(2021)698792_EN.pdf\">https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/BRIE\/2021\/698792\/EPRS_BRI(2021)698792_EN.pdf<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li>Wang, Tricia. (2016). <em>As perce\u00e7\u00f5es humanas que faltam no big data<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.ted.com\/talks\/tricia_wang_the_human_insights_missing_from_big_data\/transcript?language=pt-br\">https:\/\/www.ted.com\/talks\/tricia_wang_the_human_insights_missing_from_big_data\/transcript?language=pt-br<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span> <\/span>Shah, Vikas, (2023). <em>How Anthropology Can Explain Business and Life: A Conversation with Gillian Tett, Author of Anthro-Vision<\/em>. <a href=\"https:\/\/thoughteconomics.com\/gillian-tett\/\">https:\/\/thoughteconomics.com\/gillian-tett\/<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li>Tett, Gillian. (2021). <em>Anthro-Vision: How Anthropology Can Explain Business And Life<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.simonandschuster.com\/books\/Anthro-Vision\/Gillian-Tett\/9781982140977\">https:\/\/www.simonandschuster.com\/books\/Anthro-Vision\/Gillian-Tett\/9781982140977<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li>\ud83d\udcf7 1<\/li>\n<p><\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 1. Abordagem de IA centrada no humano A comunidade internacional estabelece a ado\u00e7\u00e3o de uma abordagem de IA (Intelig\u00eancia Artificial) \u201ccentrada no ser humano\u201d, isto \u00e9, \u201cao servi\u00e7o do desenvolvimento das capacidades humanas para um futuro inclusivo, justo e sustent\u00e1vel\u201c, orientado pela \u201cnecessidade de proteger a dignidade humana e a diversidade cultural\u201d (UNESCO, 2023, p. 17). A Lei Europeia tamb\u00e9m defende uma \u201cHuman-centric approach to AI\u201d, no \u00e2mbito da qual o ser humano deve ser o \u00fanico que fornece os comandos\/propmpts e que faz o acompanhamento e controlo\/verifica\u00e7\u00e3o da resposta de IA, sendo o seu \u00fanico respons\u00e1vel (European Parliament, 2023, p. 2). 2. A necessidade de acrescentar Intelig\u00eancia Antropol\u00f3gica \u00e0 IA Segundo o relat\u00f3rio New Horizons in Digital Anthropology (UNESCO &amp; Liiv Cnter, 2023), para evitar uma vis\u00e3o parcial e preconceituosa da vida humana digital \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar \u00e0 abordagem quantitativa, bin\u00e1ria e fixa do digital, informa\u00e7\u00e3o qualitativa e descritiva, que informe, por exemplo, sobre as nuances, os pontos cegos ou sil\u00eancios (vazios no discurso) e os preconceitos das diversas comunidades humanas digitais. O Relat\u00f3rio defende e apresenta exemplos de todo o mundo, baseados em 4 relat\u00f3rios regionais (\u00c1sia e Estados do Pac\u00edfico, Am\u00e9rica Latina e Cara\u00edbas, \u00c1frica e Estados \u00c1rabes e Europa e Am\u00e9rica do Norte), sobre a import\u00e2ncia de se associar m\u00e9todos qualitativos da Antropologia e das Humanidades ao campo dos Big\/ Hard Data, destacando a import\u00e2ncia destas \u00e1reas para observar e compreender as pessoas e as comunidades online. A inova\u00e7\u00e3o digital passa por acrescentar Intelig\u00eancia Antropol\u00f3gica \u00e0 IA. 3. M\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o As principais abordagens da Antropologia Digital s\u00e3o a Etnografia Digital, a Netnografia (pesquisa no terreno digital), a observa\u00e7\u00e3o, o question\u00e1rio, a entrevista e a an\u00e1lise documental digital. Adota uma perspetiva reflexiva e interdisciplinar\/colaborativa, trabalhando com especialistas de diferentes \u00e1reas, como historiadores, linguistas, soci\u00f3logos, psic\u00f3logos, artistas e decisores pol\u00edticos e influenciadores locais. Por exemplo, cinema e fotografia documental podem constituir formas de observa\u00e7\u00e3o participante, em que o investigador est\u00e1 presente e se envolve localmente com as pessoas da comunidade em estudo. Tamb\u00e9m carece de envolvimento dos cidad\u00e3os &#8211; Etnografia Cidad\u00e3 &#8211; e de materiais educativos, pelo que o Liiv Center vai lan\u00e7ar neste m\u00eas um kit de materiais. 4. Principais marcos da Antropologia Digital De acordo com a cronologia do Relat\u00f3rio (UNESCO &amp; Liiv Cnter, pp. 20 e segs.), a Antropologia surgiu como disciplina aut\u00f3noma na d\u00e9cada de 1920, visando o estudo dos aspetos culturais de comunidades marginalizadas. Na d\u00e9cada de 1990 \u2013 2000 come\u00e7a a desenvolver-se a Antropologia Digital, atrav\u00e9s da migra\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos antropol\u00f3gicos tradicionais para o ambiente digital que, associados a ferramentas digitais, permitem estudar o seu objeto de estudo no espa\u00e7o digital. Coming of Age in Second Life de Tom Boellstorff, texto sobre o jogo\/simulador virtual Second Life, inaugura esta \u00e1rea de estudo. Outro marco fundamental \u00e9 Tricia Wang que, numa TED Talk, introduz o conceito de dados espessos\/complexos (thick data), \u201cdados valiosos de pessoas, como hist\u00f3rias, emo\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser quantificadas\u201d e reconhece que as respostas de IA sofrem de \u201cvi\u00e9s de quantifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a cren\u00e7a inconsciente de valorizar o mensur\u00e1vel sobre o imensur\u00e1vel\u201d (Tricia, 2016). Thick data s\u00e3o dados qualitativos que podem ser recolhidos em fontes abertas, como as redes sociais e que revelam as perce\u00e7\u00f5es, os preconceitos e o contexto hol\u00edstico das pessoas reais. Apesar de constitu\u00edrem \u201cuma amostra muito pequena, oferecem uma profundidade de significado incr\u00edvel\u201d para o algoritmo, permitindo resultados e decis\u00f5es mais eficazes (Tricia, 2016). Algoritmos h\u00edbridos integram dados quantitativos e qualitativos, baseiam-se em Big Data, dados j\u00e1 recolhidos e em Thick Data, dados criados especificamente para a aplica\u00e7\u00e3o de IA em causa. Tricia Wang d\u00e1 o exemplo do algoritmo de recomenda\u00e7\u00e3o da Netflix criado desta forma e que melhorou o neg\u00f3cio e a forma de consumir media. Outra refer\u00eancia fundamental em Antropologia Digital e Antropologia dos Neg\u00f3cios \u00e9 Gillian Tett (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p,\u00a027), jornalista brit\u00e2nica e autora, entre outros, do livro Anthro-Vision: How Anthropology Can Explain Business and Life. Na conversa ao Thought Economics, Gillian Tett considera que \u201ca experi\u00eancia de imers\u00e3o para compreender melhor o \u2018outro\u2019\u201d tamb\u00e9m deve contribuir para \u201cvirar essa lente para se examinar a si mesmo e \u00e0 pr\u00f3pria cultura e perceber como \u2013 em muitos aspetos \u2013 a sua vida pode parecer estranha para os outros\u201d &#8211; \u00e9 a Auto-Etnografia, em que o antrop\u00f3logo observa e reflete sobre si pr\u00f3prio (Vikas, 2023). Neste contexto, refere o prov\u00e9rbio chin\u00eas, um peixe n\u00e3o pode ver a \u00e1gua. Habitualmente cientistas e decisores pol\u00edticos t\u00eam dificuldade em sair do pr\u00f3prio aqu\u00e1rio, pois \u201cQuanto mais alto se sobe na hierarquia, maior \u00e9 o perigo de acabar a pensar que todas as pessoas pensam como voc\u00ea\u201d (Vikas, 2023). \u00c9 nesta medida que o conhecimento transmitido e as decis\u00f5es pol\u00edticas ao longo da Hist\u00f3ria t\u00eam sido parciais\/limitadas, refletindo e servindo a elite no poder e dominante no discurso. 5. A cultura do tecno-solucionismo N\u00e3o obstante o potencial da Antropologia para a inova\u00e7\u00e3o digital, a crescente expans\u00e3o de redes sociais, digitaliza\u00e7\u00e3o, metaverso e intelig\u00eancia artificial (IA), sobretudo desde a pandemia, criou \u201ca cren\u00e7a de que a tecnologia pode, por si mesma, resolver quest\u00f5es sociais complexas\u201d ou a tend\u00eancia cultural do tecno-solucionismo (techno-solutionism) (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 51). Exemplo recente foi \u201ca ditadura do confinamento baseada em dados m\u00e9dicos e que ignorou as desigualdades humanas\u201d e o contexto, agravando problemas como o da sa\u00fade mental e da viol\u00eancia dom\u00e9stica (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 51). Outro exemplo, \u00e9 o investimento de \u201ctrili\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o e no acompanhamento de plataformas digitais e dados pessoais\u201d, enquanto se investe \u201cuma quantia chocantemente pequena na compreens\u00e3o dos valores, din\u00e2micas sociais, identidades e preconceitos das comunidades digitais\u201d (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 10). Outras barreiras \u00e0 melhoria e expans\u00e3o da Antropologia Digital s\u00e3o a desigualdade digital global, a disparidade de investimentos e o patrim\u00f3nio cultural negativo (UNESCO &amp; Liiv Center, 2023, p. 10). Aspetos facilitadores s\u00e3o o investimento em ferramentas tecnol\u00f3gicas e arquivos de acesso aberto. Este artigo tem continua\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3ximo artigo \u00e9 sobre o contributo que as bibliotecas escolares e os jovens podem dar a esta \u00e1rea de inova\u00e7\u00e3o digital. Refer\u00eancias Fonte da imagem: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization &amp; LiiV Center for Innovation Digital Anthropology. (2023). New Horizons in Digital Anthropology: Innovation for understanding humanity. https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000382647 United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2023). Guidance for generative AI in education and research. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000386693 European Parliament. (2023). Artificial intelligence act. https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/BRIE\/2021\/698792\/EPRS_BRI(2021)698792_EN.pdf Wang, Tricia. (2016). As perce\u00e7\u00f5es humanas que faltam no big data. https:\/\/www.ted.com\/talks\/tricia_wang_the_human_insights_missing_from_big_data\/transcript?language=pt-br Shah, Vikas, (2023). How Anthropology Can Explain Business and Life: A Conversation with Gillian Tett, Author of Anthro-Vision. https:\/\/thoughteconomics.com\/gillian-tett\/ Tett, Gillian. (2021). 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