{"id":2747796,"date":"2023-08-11T09:00:00","date_gmt":"2023-08-11T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2747796.html"},"modified":"2026-05-13T14:07:27","modified_gmt":"2026-05-13T14:07:27","slug":"azul-sem-chuva-1-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2747796","title":{"rendered":"Azul sem chuva [1]"},"content":{"rendered":"<div class=\"data\">Republica\u00e7\u00e3o do artigo de Seg |<span>\u00a0<\/span><span class=\"dia\">09<\/span>.01.23<\/div>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2023-01 PQ.png\" class=\"lazyload-item\" height=\"400\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22414777_NRbtE.png\" width=\"800\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Escrevo, num dia de chuva, sobre a biblioteca da escola onde exer\u00e7o fun\u00e7\u00f5es de professora bibliotec\u00e1ria h\u00e1 cinco anos, com muito gosto, apesar das eventuais escolhas, ou n\u00e3o tivesse assumido o cargo em nome da fugidia criatividade docente e do amor aos livros. A cor-base desta biblioteca \u00e9 o azul, presente na parede lateral da sala de entrada, no pilar que separa esta sala da zona dos computadores e do trabalho de grupo, nas cadeiras, nas pernas das mesas, nos var\u00f5es laterais das estantes que se dispersam pelas duas salas seguintes e nos<span>\u00a0<\/span><em>placards<\/em><span>\u00a0<\/span>de exposi\u00e7\u00e3o. Alguns dir\u00e3o que o azul-ferrete predomina, mas na verdade \u00e9 o \u201cazul do nada\/com que se fazem os deuses e a poesia\u201d[2] que se manifesta. Sim, porque o espa\u00e7o e as suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas s\u00e3o intr\u00ednsecos ao movimento que re\u00fane corpos, objetos, livros, emo\u00e7\u00f5es, pensamentos, ideias, virtualidades e pessoas, como a requalifica\u00e7\u00e3o recente da nossa biblioteca evidenciou.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nas arruma\u00e7\u00f5es e desarruma\u00e7\u00f5es que temos encetado, destaco a vida que tem sido insuflada \u00e0 nossa cole\u00e7\u00e3o. As tentativas de organizar o caos e de criar fios orientadores de quem \u00e9 convidado a entrar no labirinto, os alunos, em primeiro lugar, t\u00eam permitido ir al\u00e9m da tranquilidade da CDU. As exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias que organizamos, o Clube de Leitura e outras formas de socializa\u00e7\u00e3o da leitura promovem novos encontros enriquecedores entre os livros e os seus jovens leitores, que tamb\u00e9m colaboram na renova\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o, dando sugest\u00f5es de aquisi\u00e7\u00e3o e participando nas atividades ou, t\u00e3o-s\u00f3, usufruindo de tudo o que se lhes oferece, aprendendo, ainda que de maneira n\u00e3o formal. J\u00e1 organiz\u00e1mos mostras de livros antigos da cole\u00e7\u00e3o, oriundos das escolas que antecederam a atual e da qual esta \u00e9 herdeira, de livros proibidos ou de defesa da cultura e da liberdade \u2013 As Novas Cartas Portuguesas e a Cole\u00e7\u00e3o Cosmos \u2013; destacamos regularmente as novidades, incluindo obras da chamada<span>\u00a0<\/span><em>young adult literature<\/em>, ou livros relacionados com datas significativas, por exemplo com o Centen\u00e1rio de Jos\u00e9 Saramago ou os Direitos Humanos. Assim, paulatinamente, vamos construindo uma identidade racional e afetiva da biblioteca, dentro desse espa\u00e7o mais alargado que \u00e9 a escola, feita de di\u00e1logos prof\u00edcuos entre tempos, indiv\u00edduos e culturas diferentes, mediados pelos livros.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Poderia, claro est\u00e1, referir muitas outras a\u00e7\u00f5es e atividades em que a biblioteca participa ou organiza, sob supervis\u00e3o da professora bibliotec\u00e1ria, quer no cumprimento dos planos de melhoria e das orienta\u00e7\u00f5es da RBE, quer na colabora\u00e7\u00e3o no contexto da vida escolar, todavia quis assinalar a relev\u00e2ncia que a promo\u00e7\u00e3o da leitura continua a ter na a\u00e7\u00e3o da biblioteca escolar, considerando o papel tradicional da escola na forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os livres e acreditando que a leitura \u00e9 uma via para a liberdade e a felicidade, t\u00e3o misteriosa como o amor e t\u00e3o perturbadora que, como nos lembra Alberto Manguel, \u00e9 perseguida por todas as formas de totalitarismo:<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p>Claro que a literatura talvez n\u00e3o seja capaz de salvar ningu\u00e9m da injusti\u00e7a, nem das tenta\u00e7\u00f5es da cobi\u00e7a, nem das mis\u00e9rias do poder. Mas algo nela tem de ser perigosamente eficaz, se todos os ditadores, todos os governos totalit\u00e1rios, todos os funcion\u00e1rios amea\u00e7ados tentam livrar-se dela, queimando livros, proibindo livros, censurando livros, tributando livros, defendendo com palavras ocas a causa da literacia, insinuando que ler \u00e9 uma atividade elitista.[3]<\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span>Ana Eust\u00e1quio<\/span><br \/><span>Professora bibliotec\u00e1ria<\/span><br \/><span>Escola Secund\u00e1ria Dami\u00e3o de Goes, Alenquer<\/span><br \/><span>13\/12\/2022<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span><strong>Notas<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>[1] Esta express\u00e3o descreve a Biblioteca de Alexandria, de acordo com Charles Kingsley, citado por Alberto Manguel: \u201cAli se erguia, maravilha do mundo, o seu telhado branco e cintilando contra o azul sem chuva e, al\u00e9m, entre os cumes e front\u00f5es de edif\u00edcios nobres, vista aberta sobre o azul brilhante do mar.\u201d In Alberto Manguel. (2018).<span>\u00a0<\/span><em>Embalando a minha Biblioteca<\/em>. Lisboa: Tinta da China. p. 34.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>[2] Cf. \u201cReabre o c\u00e9u depois de uma chuvada\/ no azul do dia.\/ \u00c9 o azul do nada\/ com que se fazem os deuses e a poesia.\u201d In Verg\u00edlio Ferreira. (s.d.).<span>\u00a0<\/span><em>Uma Esplanada sobre o Mar<\/em>. Lisboa: Difel. p. 19.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>[3] Alberto Manguel. (2018).<span>\u00a0<\/span><em>Embalando a minha Biblioteca. Lisboa<\/em>: Tinta da China. p. 132.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Retalhos2.png\" class=\"lazyload-item\" height=\"56\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22414791_AHdFQ.png\" width=\"800\" \/><span><\/span><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>1. *Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/apoio\/artigos\/$retalhos-da-vida-de-um-medico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Retalhos da vida de um m\u00e9dico<\/a>, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>3. Se \u00e9 professor bibliotec\u00e1rio e gostaria de partilhar um \u201cretalho\u201d, poder\u00e1 faz\u00ea-lo, submetendo<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSc5afn6N2wiyMUUt2SeWXWWIEDXwf6wwUJafLwjDDmTA6phjw\/viewform\" rel=\"noopener\">este formul\u00e1rio<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Republica\u00e7\u00e3o do artigo de Seg |\u00a009.01.23 Escrevo, num dia de chuva, sobre a biblioteca da escola onde exer\u00e7o fun\u00e7\u00f5es de professora bibliotec\u00e1ria h\u00e1 cinco anos, com muito gosto, apesar das eventuais escolhas, ou n\u00e3o tivesse assumido o cargo em nome da fugidia criatividade docente e do amor aos livros. A cor-base desta biblioteca \u00e9 o azul, presente na parede lateral da sala de entrada, no pilar que separa esta sala da zona dos computadores e do trabalho de grupo, nas cadeiras, nas pernas das mesas, nos var\u00f5es laterais das estantes que se dispersam pelas duas salas seguintes e nos\u00a0placards\u00a0de exposi\u00e7\u00e3o. Alguns dir\u00e3o que o azul-ferrete predomina, mas na verdade \u00e9 o \u201cazul do nada\/com que se fazem os deuses e a poesia\u201d[2] que se manifesta. Sim, porque o espa\u00e7o e as suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas s\u00e3o intr\u00ednsecos ao movimento que re\u00fane corpos, objetos, livros, emo\u00e7\u00f5es, pensamentos, ideias, virtualidades e pessoas, como a requalifica\u00e7\u00e3o recente da nossa biblioteca evidenciou. Nas arruma\u00e7\u00f5es e desarruma\u00e7\u00f5es que temos encetado, destaco a vida que tem sido insuflada \u00e0 nossa cole\u00e7\u00e3o. As tentativas de organizar o caos e de criar fios orientadores de quem \u00e9 convidado a entrar no labirinto, os alunos, em primeiro lugar, t\u00eam permitido ir al\u00e9m da tranquilidade da CDU. As exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias que organizamos, o Clube de Leitura e outras formas de socializa\u00e7\u00e3o da leitura promovem novos encontros enriquecedores entre os livros e os seus jovens leitores, que tamb\u00e9m colaboram na renova\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o, dando sugest\u00f5es de aquisi\u00e7\u00e3o e participando nas atividades ou, t\u00e3o-s\u00f3, usufruindo de tudo o que se lhes oferece, aprendendo, ainda que de maneira n\u00e3o formal. J\u00e1 organiz\u00e1mos mostras de livros antigos da cole\u00e7\u00e3o, oriundos das escolas que antecederam a atual e da qual esta \u00e9 herdeira, de livros proibidos ou de defesa da cultura e da liberdade \u2013 As Novas Cartas Portuguesas e a Cole\u00e7\u00e3o Cosmos \u2013; destacamos regularmente as novidades, incluindo obras da chamada\u00a0young adult literature, ou livros relacionados com datas significativas, por exemplo com o Centen\u00e1rio de Jos\u00e9 Saramago ou os Direitos Humanos. Assim, paulatinamente, vamos construindo uma identidade racional e afetiva da biblioteca, dentro desse espa\u00e7o mais alargado que \u00e9 a escola, feita de di\u00e1logos prof\u00edcuos entre tempos, indiv\u00edduos e culturas diferentes, mediados pelos livros. Poderia, claro est\u00e1, referir muitas outras a\u00e7\u00f5es e atividades em que a biblioteca participa ou organiza, sob supervis\u00e3o da professora bibliotec\u00e1ria, quer no cumprimento dos planos de melhoria e das orienta\u00e7\u00f5es da RBE, quer na colabora\u00e7\u00e3o no contexto da vida escolar, todavia quis assinalar a relev\u00e2ncia que a promo\u00e7\u00e3o da leitura continua a ter na a\u00e7\u00e3o da biblioteca escolar, considerando o papel tradicional da escola na forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os livres e acreditando que a leitura \u00e9 uma via para a liberdade e a felicidade, t\u00e3o misteriosa como o amor e t\u00e3o perturbadora que, como nos lembra Alberto Manguel, \u00e9 perseguida por todas as formas de totalitarismo: \u00a0 Claro que a literatura talvez n\u00e3o seja capaz de salvar ningu\u00e9m da injusti\u00e7a, nem das tenta\u00e7\u00f5es da cobi\u00e7a, nem das mis\u00e9rias do poder. Mas algo nela tem de ser perigosamente eficaz, se todos os ditadores, todos os governos totalit\u00e1rios, todos os funcion\u00e1rios amea\u00e7ados tentam livrar-se dela, queimando livros, proibindo livros, censurando livros, tributando livros, defendendo com palavras ocas a causa da literacia, insinuando que ler \u00e9 uma atividade elitista.[3] \u00a0 Ana Eust\u00e1quioProfessora bibliotec\u00e1riaEscola Secund\u00e1ria Dami\u00e3o de Goes, Alenquer13\/12\/2022 \u00a0 Notas [1] Esta express\u00e3o descreve a Biblioteca de Alexandria, de acordo com Charles Kingsley, citado por Alberto Manguel: \u201cAli se erguia, maravilha do mundo, o seu telhado branco e cintilando contra o azul sem chuva e, al\u00e9m, entre os cumes e front\u00f5es de edif\u00edcios nobres, vista aberta sobre o azul brilhante do mar.\u201d In Alberto Manguel. (2018).\u00a0Embalando a minha Biblioteca. Lisboa: Tinta da China. p. 34. [2] Cf. \u201cReabre o c\u00e9u depois de uma chuvada\/ no azul do dia.\/ \u00c9 o azul do nada\/ com que se fazem os deuses e a poesia.\u201d In Verg\u00edlio Ferreira. (s.d.).\u00a0Uma Esplanada sobre o Mar. Lisboa: Difel. p. 19. [3] Alberto Manguel. (2018).\u00a0Embalando a minha Biblioteca. Lisboa: Tinta da China. p. 132. \u00a0 1. *Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra\u00a0Retalhos da vida de um m\u00e9dico, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora. 2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias. 3. Se \u00e9 professor bibliotec\u00e1rio e gostaria de partilhar um \u201cretalho\u201d, poder\u00e1 faz\u00ea-lo, submetendo\u00a0este formul\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2747796","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2747796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2747796"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2747796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3086508,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2747796\/revisions\/3086508"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2747796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2747796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2747796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}