{"id":2747194,"date":"2023-08-08T09:00:00","date_gmt":"2023-08-08T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2747194.html"},"modified":"2026-05-13T14:07:35","modified_gmt":"2026-05-13T14:07:35","slug":"bibliotecas-e-borboletas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2747194","title":{"rendered":"Bibliotecas e borboletas"},"content":{"rendered":"<div class=\"autor\"><span>Republica\u00e7\u00e3o do artigo de Seg |\u00a0<\/span><span class=\"dia\">05<\/span><span>.12.22<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2022-12-05 PQ.png\" class=\"lazyload-item\" height=\"400\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22395293_4IJbV.png\" width=\"800\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>H\u00e1 algumas semanas, uma aluna perguntou-me pela obra<span>\u00a0<\/span><em>Retalhos da Vida de um M\u00e9dico<\/em>, de Fernando Namora. Pedi-lhe que me acompanhasse e retirei da estante um exemplar que lhe passei para a m\u00e3o, apressando-me a voltar ao balc\u00e3o de atendimento, sem explica\u00e7\u00f5es, apartes ou recomenda\u00e7\u00f5es; um pedido de alguma forma t\u00e3o inusitado, num raro dia de chuva de outubro, merecia o cuidado dispensado a uma borboleta: se entra na sala \u00e9 prudente ignorar a sua beleza.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Quando algum tempo depois surgiu a oportunidade de escrever um texto para a rubrica \u201cRetalhos da vida de um professor bibliotec\u00e1rio\u201d, n\u00e3o consegui evitar o sorriso. L\u00e1 estava o<span>\u00a0<\/span><em>acaso<\/em><span>\u00a0<\/span>a fazer das suas, a estabelecer conex\u00f5es, o \u201cgrande fazedor\u201d a mostrar que n\u00e3o tem reservas ou preceitos de grandeza e que tanto se imiscui nas mais v\u00e1lidas descobertas e realiza\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia ou da arte, quanto na \u00ednfima e curta prosa de um professor bibliotec\u00e1rio. O<span>\u00a0<\/span><em>acaso<\/em>, creio, merece certamente um espa\u00e7o reservado e exclusivo nos nossos planos de atividades, um dom\u00ednio no MABE. Como dizia Manuel Ant\u00f3nio Pina, \u201cas coisas melhores s\u00e3o feitas no ar\u201d\u2026<\/p>\n<p><\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo de quando li<span>\u00a0<\/span><em>Retalhos da Vida de um M\u00e9dico<\/em>. Provavelmente devo t\u00ea-lo feito depois do<span>\u00a0<\/span><em>Constantino, guardador de vacas e de sonhos<\/em>, dos<span>\u00a0<\/span><em>Contos<\/em>, de Almeida Garrett, ou da cole\u00e7\u00e3o 15, da Verbo. Depois de<span>\u00a0<\/span><em>Gaib\u00e9us, decerto..<\/em>. Mais tarde, fomos tomados pela consci\u00eancia de que, afinal, o que l\u00edamos nesses livros ainda refletia a nossa realidade e a dos nossos amigos numa pequena aldeia no extremo do Ribatejo &#8211; alguns deles, ap\u00f3s a 4.\u00aa classe, eram obrigados a trocar a escola pelas obras e, de um dia para o outro, passavam a beber minis no caf\u00e9 e a acompanhar com os \u201chomens\u201d. Foi ent\u00e3o que percebemos que a conjuntura e a a\u00e7\u00e3o vivida e praticada por aquele m\u00e9dico em aldeias do Alentejo e Beira Baixa eram, na sua g\u00e9nese, o retrato de um pa\u00eds analfabeto, isolado e cinzento que ainda resistia nesses idos anos 80, e que sua generosidade para com os mais pobres e humildes era, afinal, um valor humanista e universal.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>De alguma forma talvez tenha sido esta consci\u00eancia &#8211; ainda incipiente, mas j\u00e1 quase pol\u00edtica &#8211; que me fez associar as bibliotecas a este altru\u00edsmo que se manifestava sob a oferta de conhecimento, cultura e entretenimento. Porque desde as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que percorriam vilas, aldeias e lugarejos, e onde tantos de n\u00f3s inici\u00e1mos o gosto pela leitura, passando pelas bibliotecas de associa\u00e7\u00f5es e coletividades, at\u00e9 \u00e0s atuais bibliotecas municipais e escolares, sempre se manteve este esp\u00edrito de partilha, de acesso livre e de incentivo ao conhecimento. Uma fun\u00e7\u00e3o c\u00edvica, profundamente democr\u00e1tica e um compromisso para com o futuro: as bibliotecas como a mem\u00f3ria dos homens, de todas as suas a\u00e7\u00f5es, esp\u00edrito e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por isso, entendo que o nosso papel no apoio ao curr\u00edculo dever\u00e1 ir sempre al\u00e9m desse curr\u00edculo, que as nossas cole\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de conjuntos de t\u00edtulos de uma sele\u00e7\u00e3o nacional, dever\u00e3o ser diversas, disruptivas e inconformadas, cultivando d\u00favidas ao inv\u00e9s de certezas. Que devemos invocar com frequ\u00eancia os mortos das nossas prateleiras e trazer os vivos para que n\u00e3o acabem reduzidos a vizinhos de cota: RED, TOR, AND, PES, BEL, VIC. Bibliotecas que n\u00e3o querem a nobre linhagem do cora\u00e7\u00e3o, preferindo tornar-se pernas e m\u00e3os, espa\u00e7os informais de leitura e conv\u00edvio onde se cultivam plantas e se reparam coisas. Locais confort\u00e1veis onde todos os alunos possam desenvolver projetos e descobrir interesses pessoais.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para isso, o professor bibliotec\u00e1rio, nas suas desloca\u00e7\u00f5es pelos montes e vales da escola, pelas suas vilas, aldeias e lugarejos, n\u00e3o pode perder de vista os mais \u201dfracos\u201d e os menos populares, os que n\u00e3o figuram nos quadros de honra, escondem os seus talentos ou cultivam gostos inusitados. Porque, tanto tempo passado depois da publica\u00e7\u00e3o de<em><span>\u00a0<\/span>Retalhos da Vida de um M\u00e9dico<\/em>, continuam a ser estes os que mais necessitam de Namora&#8230; Perdoem-me, da biblioteca.<span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span>Lu\u00eds Germano, professor bibliotec\u00e1rio<br \/><\/span><span>Agrupamento de Escolas Josefa de \u00d3bidos, \u00d3bidos<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Retalhos2.png\" class=\"lazyload-item\" height=\"56\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22405371_CJZfD.png\" width=\"800\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ol><\/p>\n<li>*Qualquer semelhan\u00e7a entre o t\u00edtulo desta rubrica e a obra<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/apoio\/artigos\/$retalhos-da-vida-de-um-medico\" rel=\"noopener\">Retalhos da vida de um m\u00e9dico<\/a>, n\u00e3o \u00e9 pura coincid\u00eancia; \u00e9 uma v\u00e9nia a Fernando Namora.<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotec\u00e1rios, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, cient\u00edfica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de viv\u00eancias.<\/li>\n<p><\/p>\n<li>Se \u00e9 professor bibliotec\u00e1rio e gostaria de partilhar um \u201cretalho\u201d, poder\u00e1 faz\u00ea-lo, submetendo<span>\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSc5afn6N2wiyMUUt2SeWXWWIEDXwf6wwUJafLwjDDmTA6phjw\/viewform\" rel=\"noopener\">este formul\u00e1rio<\/a>.<\/li>\n<p><\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Republica\u00e7\u00e3o do artigo de Seg |\u00a005.12.22 H\u00e1 algumas semanas, uma aluna perguntou-me pela obra\u00a0Retalhos da Vida de um M\u00e9dico, de Fernando Namora. Pedi-lhe que me acompanhasse e retirei da estante um exemplar que lhe passei para a m\u00e3o, apressando-me a voltar ao balc\u00e3o de atendimento, sem explica\u00e7\u00f5es, apartes ou recomenda\u00e7\u00f5es; um pedido de alguma forma t\u00e3o inusitado, num raro dia de chuva de outubro, merecia o cuidado dispensado a uma borboleta: se entra na sala \u00e9 prudente ignorar a sua beleza. Quando algum tempo depois surgiu a oportunidade de escrever um texto para a rubrica \u201cRetalhos da vida de um professor bibliotec\u00e1rio\u201d, n\u00e3o consegui evitar o sorriso. L\u00e1 estava o\u00a0acaso\u00a0a fazer das suas, a estabelecer conex\u00f5es, o \u201cgrande fazedor\u201d a mostrar que n\u00e3o tem reservas ou preceitos de grandeza e que tanto se imiscui nas mais v\u00e1lidas descobertas e realiza\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia ou da arte, quanto na \u00ednfima e curta prosa de um professor bibliotec\u00e1rio. O\u00a0acaso, creio, merece certamente um espa\u00e7o reservado e exclusivo nos nossos planos de atividades, um dom\u00ednio no MABE. Como dizia Manuel Ant\u00f3nio Pina, \u201cas coisas melhores s\u00e3o feitas no ar\u201d\u2026 N\u00e3o me recordo de quando li\u00a0Retalhos da Vida de um M\u00e9dico. Provavelmente devo t\u00ea-lo feito depois do\u00a0Constantino, guardador de vacas e de sonhos, dos\u00a0Contos, de Almeida Garrett, ou da cole\u00e7\u00e3o 15, da Verbo. Depois de\u00a0Gaib\u00e9us, decerto&#8230; Mais tarde, fomos tomados pela consci\u00eancia de que, afinal, o que l\u00edamos nesses livros ainda refletia a nossa realidade e a dos nossos amigos numa pequena aldeia no extremo do Ribatejo &#8211; alguns deles, ap\u00f3s a 4.\u00aa classe, eram obrigados a trocar a escola pelas obras e, de um dia para o outro, passavam a beber minis no caf\u00e9 e a acompanhar com os \u201chomens\u201d. Foi ent\u00e3o que percebemos que a conjuntura e a a\u00e7\u00e3o vivida e praticada por aquele m\u00e9dico em aldeias do Alentejo e Beira Baixa eram, na sua g\u00e9nese, o retrato de um pa\u00eds analfabeto, isolado e cinzento que ainda resistia nesses idos anos 80, e que sua generosidade para com os mais pobres e humildes era, afinal, um valor humanista e universal. De alguma forma talvez tenha sido esta consci\u00eancia &#8211; ainda incipiente, mas j\u00e1 quase pol\u00edtica &#8211; que me fez associar as bibliotecas a este altru\u00edsmo que se manifestava sob a oferta de conhecimento, cultura e entretenimento. Porque desde as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que percorriam vilas, aldeias e lugarejos, e onde tantos de n\u00f3s inici\u00e1mos o gosto pela leitura, passando pelas bibliotecas de associa\u00e7\u00f5es e coletividades, at\u00e9 \u00e0s atuais bibliotecas municipais e escolares, sempre se manteve este esp\u00edrito de partilha, de acesso livre e de incentivo ao conhecimento. Uma fun\u00e7\u00e3o c\u00edvica, profundamente democr\u00e1tica e um compromisso para com o futuro: as bibliotecas como a mem\u00f3ria dos homens, de todas as suas a\u00e7\u00f5es, esp\u00edrito e cria\u00e7\u00e3o. Por isso, entendo que o nosso papel no apoio ao curr\u00edculo dever\u00e1 ir sempre al\u00e9m desse curr\u00edculo, que as nossas cole\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de conjuntos de t\u00edtulos de uma sele\u00e7\u00e3o nacional, dever\u00e3o ser diversas, disruptivas e inconformadas, cultivando d\u00favidas ao inv\u00e9s de certezas. Que devemos invocar com frequ\u00eancia os mortos das nossas prateleiras e trazer os vivos para que n\u00e3o acabem reduzidos a vizinhos de cota: RED, TOR, AND, PES, BEL, VIC. Bibliotecas que n\u00e3o querem a nobre linhagem do cora\u00e7\u00e3o, preferindo tornar-se pernas e m\u00e3os, espa\u00e7os informais de leitura e conv\u00edvio onde se cultivam plantas e se reparam coisas. Locais confort\u00e1veis onde todos os alunos possam desenvolver projetos e descobrir interesses pessoais. Para isso, o professor bibliotec\u00e1rio, nas suas desloca\u00e7\u00f5es pelos montes e vales da escola, pelas suas vilas, aldeias e lugarejos, n\u00e3o pode perder de vista os mais \u201dfracos\u201d e os menos populares, os que n\u00e3o figuram nos quadros de honra, escondem os seus talentos ou cultivam gostos inusitados. 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