{"id":2562391,"date":"2022-02-21T09:00:00","date_gmt":"2022-02-21T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2562391.html"},"modified":"2026-05-13T14:53:23","modified_gmt":"2026-05-13T14:53:23","slug":"uivemos-disse-o-cao-livro-das-vozes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2562391","title":{"rendered":"\u201cUivemos, disse o c\u00e3o \u2013 Livro das Vozes\u201d"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2022-02-22.png\" height=\"400\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22250036_nhk1z.png\" style=\"width: 800px; padding: 10px 10px;\" width=\"800\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago tem uma vis\u00e3o cr\u00edtica do jornalismo e media, decorrente da sua profunda experi\u00eancia, vida inteira ligada \u00e0 imprensa escrita:<\/p>\n<p><\/p>\n<p>&#8211; Entre 1968 e 1978 publicou cr\u00f3nicas liter\u00e1rias e pol\u00edticas, principalmente em A Capital, Jornal do Fund\u00e3o e Di\u00e1rio de Lisboa [1];<br \/>&#8211; Exerceu fun\u00e7\u00f5es de editorialista (Di\u00e1rio de Lisboa, 1973) e de diretor-adjunto (Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 1975); <br \/>&#8211; Deu in\u00fameras entrevistas em todo o mundo: \u201cCreio que me fizeram todas as perguntas poss\u00edveis. Eu pr\u00f3prio, se fosse jornalista, n\u00e3o saberia o que perguntar-me\u201d [2].<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por nunca ter trabalhado exclusivamente como jornalista de reda\u00e7\u00e3o, considera que \u201cnunca fui um verdadeiro jornalista. Nunca escrevi uma not\u00edcia, nunca fiz uma entrevista, nunca fiz uma reportagem.\u201d (Aguilera, 2010 [p. 85]). <\/p>\n<p><\/p>\n<p>O romance Ensaio sobre a Lucidez aborda jornalismo e media num cen\u00e1rio dist\u00f3pico: a maioria da popula\u00e7\u00e3o vota em branco. <br \/>Trata-se de uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a sociedade atual que levanta quest\u00f5es:<br \/>&#8211;<strong> Quest\u00f5es sobre a natureza ego\u00edsta, passiva e indiferente do ser humano:<\/strong> \u201cvotei [em branco] como me apeteceu dentro da lei, agora voc\u00eas que se amanhem\u201d [3]:<br \/>Quando todos os candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam qualidade para o cargo que pretendem vir a ocupar, \u00e9 l\u00facido votar-se? <br \/>N\u00e3o se respeitando e cumprindo um direito (por exemplo, ao voto), atrav\u00e9s do dever respetivo, esse direito continua a existir? <br \/>Os direitos humanos s\u00e3o individuais e formais?<br \/>Que estrat\u00e9gias devemos adotar para a valoriza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica e institui\u00e7\u00f5es?<br \/>A participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (dar voz) integrada\/ multidimensional dos cidad\u00e3os, atrav\u00e9s da discuss\u00e3o de problemas de \u00e2mbito local, fortalece a democracia?<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cMovidos pela compreens\u00edvel ansiedade de disparar e ca\u00e7ar em todas as dire\u00e7\u00f5es, houve jornais que pensaram poder lutar contra o absentismo dos compradores salpicando as suas p\u00e1ginas de corpos despidos em novos jardins das del\u00edcias [\u2026 mas os leitores] continuaram pelo alheamento, pela indiferen\u00e7a e at\u00e9 mesmo pela n\u00e1usea, a fazer descer tiragens e vendas.\u201d (Saramago, 2020 [p. 49]). <br \/>Como \u00e9 que pode haver interesse pelo jornalismo quando as empresas jornal\u00edsticas\u2026<br \/>\u2026 Vivem da procura de audi\u00eancias\/ likes, atrav\u00e9s do sensacionalismo e da pol\u00e9mica? <br \/>\u201cOs t\u00edtulos de abertura atra\u00edam a aten\u00e7\u00e3o dos curiosos, eram enormes, garrafais, outros, nas p\u00e1ginas interiores, de tamanho normal, mas todos pareciam ter nascido da cabe\u00e7a de um mesmo g\u00e9nio da s\u00edntese titulativa\u201d (Saramago, 2020 [p. 109]).<br \/>\u2026 Atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o in\u00fatil e de entretenimento, impedem o leitor de focar-se e pensar criticamente os problemas, a realidade?<br \/>\u201cPrecisamente o que, arrebatados por entusiasmo profissional e de impar\u00e1vel ansiedade informativa, j\u00e1 andam a fazer os jornalistas da imprensa, da r\u00e1dio e da televis\u00e3o, correndo de um lado para o outro, metendo gravadores e microfones \u00e0 cara das pessoas, perguntando, Que foi que o fez sair de casa \u00e0s quatro horas para ir votar, n\u00e3o lhe parece incr\u00edvel que toda a gente tenha descido \u00e0 rua ao mesmo tempo, ouvindo respostas secas ou agressivas como [\u2026] Quanto lhe pagam para fazer perguntas est\u00fapidas\u201d (Saramago, 2020 [p. 23]).<br \/>\u201c[\u2026] o que importa \u00e9 que a not\u00edcia da comunica\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds seja anunciada j\u00e1 e repetida minuto a minuto\u201d (Saramago, 2020 [p. 168]).<br \/>Estas estrat\u00e9gias, a par da desinforma\u00e7\u00e3o (fake news), s\u00e3o novas formas de censura &#8211; controlo, manipula\u00e7\u00e3o e silenciamento?<br \/>Como tornar os jornalistas respons\u00e1veis pela denuncia dos problemas sociais e melhoria do planeta?<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Ensaio sobre a Lucidez<\/em> (2004) tem por cen\u00e1rio a cidade de <em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em> (1995), inclui personagens comuns, como a Mulher do M\u00e9dico e os seus acontecimentos ocorrem quatro anos depois da situa\u00e7\u00e3o de cegueira branca, apesar de ter sido escrito nove anos mais tarde.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cUivemos, diz o c\u00e3o\u201d \u00e9 a ep\u00edgrafe do <em>Ensaio sobre a Lucidez<\/em> retirada de um livro imagin\u00e1rio, o<em> Livro das Vozes<\/em>, que instiga o leitor \u00e0 reflex\u00e3o e envolvimento.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><br \/><span style=\"font-size: 10pt;\">1. As cr\u00f3nicas de Jos\u00e9 Saramago est\u00e3o reunidas nos livros: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opini\u00f5es que o DL Teve (1974), Os Apontamentos (1976), Folhas Pol\u00edticas (1999).<\/span><br \/><span style=\"font-size: 10pt;\">2. Aguilera, F. (2010, nov.). Jos\u00e9 Saramago nas suas palavras (2,\u00aa Ed., p. 13). Alfragide: Editorial Caminho.<\/span><br \/><span style=\"font-size: 10pt;\">3. Saramago, J. (2020). Ensaio sobre a Lucidez (6.\u00aa Ed., p. 133). Lisboa: Porto Editora. <\/span><br \/><span style=\"font-size: 10pt;\">4. Welsh, D. (2019, 17 nov.). Unsplash. <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/photos\/zBU8dMscx4M\">https:\/\/unsplash.com\/photos\/zBU8dMscx4M<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Saramago tem uma vis\u00e3o cr\u00edtica do jornalismo e media, decorrente da sua profunda experi\u00eancia, vida inteira ligada \u00e0 imprensa escrita: &#8211; Entre 1968 e 1978 publicou cr\u00f3nicas liter\u00e1rias e pol\u00edticas, principalmente em A Capital, Jornal do Fund\u00e3o e Di\u00e1rio de Lisboa [1];&#8211; Exerceu fun\u00e7\u00f5es de editorialista (Di\u00e1rio de Lisboa, 1973) e de diretor-adjunto (Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 1975); &#8211; Deu in\u00fameras entrevistas em todo o mundo: \u201cCreio que me fizeram todas as perguntas poss\u00edveis. Eu pr\u00f3prio, se fosse jornalista, n\u00e3o saberia o que perguntar-me\u201d [2]. Por nunca ter trabalhado exclusivamente como jornalista de reda\u00e7\u00e3o, considera que \u201cnunca fui um verdadeiro jornalista. Nunca escrevi uma not\u00edcia, nunca fiz uma entrevista, nunca fiz uma reportagem.\u201d (Aguilera, 2010 [p. 85]). O romance Ensaio sobre a Lucidez aborda jornalismo e media num cen\u00e1rio dist\u00f3pico: a maioria da popula\u00e7\u00e3o vota em branco. Trata-se de uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a sociedade atual que levanta quest\u00f5es:&#8211; Quest\u00f5es sobre a natureza ego\u00edsta, passiva e indiferente do ser humano: \u201cvotei [em branco] como me apeteceu dentro da lei, agora voc\u00eas que se amanhem\u201d [3]:Quando todos os candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam qualidade para o cargo que pretendem vir a ocupar, \u00e9 l\u00facido votar-se? N\u00e3o se respeitando e cumprindo um direito (por exemplo, ao voto), atrav\u00e9s do dever respetivo, esse direito continua a existir? Os direitos humanos s\u00e3o individuais e formais?Que estrat\u00e9gias devemos adotar para a valoriza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica e institui\u00e7\u00f5es?A participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (dar voz) integrada\/ multidimensional dos cidad\u00e3os, atrav\u00e9s da discuss\u00e3o de problemas de \u00e2mbito local, fortalece a democracia? \u201cMovidos pela compreens\u00edvel ansiedade de disparar e ca\u00e7ar em todas as dire\u00e7\u00f5es, houve jornais que pensaram poder lutar contra o absentismo dos compradores salpicando as suas p\u00e1ginas de corpos despidos em novos jardins das del\u00edcias [\u2026 mas os leitores] continuaram pelo alheamento, pela indiferen\u00e7a e at\u00e9 mesmo pela n\u00e1usea, a fazer descer tiragens e vendas.\u201d (Saramago, 2020 [p. 49]). Como \u00e9 que pode haver interesse pelo jornalismo quando as empresas jornal\u00edsticas\u2026\u2026 Vivem da procura de audi\u00eancias\/ likes, atrav\u00e9s do sensacionalismo e da pol\u00e9mica? \u201cOs t\u00edtulos de abertura atra\u00edam a aten\u00e7\u00e3o dos curiosos, eram enormes, garrafais, outros, nas p\u00e1ginas interiores, de tamanho normal, mas todos pareciam ter nascido da cabe\u00e7a de um mesmo g\u00e9nio da s\u00edntese titulativa\u201d (Saramago, 2020 [p. 109]).\u2026 Atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o in\u00fatil e de entretenimento, impedem o leitor de focar-se e pensar criticamente os problemas, a realidade?\u201cPrecisamente o que, arrebatados por entusiasmo profissional e de impar\u00e1vel ansiedade informativa, j\u00e1 andam a fazer os jornalistas da imprensa, da r\u00e1dio e da televis\u00e3o, correndo de um lado para o outro, metendo gravadores e microfones \u00e0 cara das pessoas, perguntando, Que foi que o fez sair de casa \u00e0s quatro horas para ir votar, n\u00e3o lhe parece incr\u00edvel que toda a gente tenha descido \u00e0 rua ao mesmo tempo, ouvindo respostas secas ou agressivas como [\u2026] Quanto lhe pagam para fazer perguntas est\u00fapidas\u201d (Saramago, 2020 [p. 23]).\u201c[\u2026] o que importa \u00e9 que a not\u00edcia da comunica\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds seja anunciada j\u00e1 e repetida minuto a minuto\u201d (Saramago, 2020 [p. 168]).Estas estrat\u00e9gias, a par da desinforma\u00e7\u00e3o (fake news), s\u00e3o novas formas de censura &#8211; controlo, manipula\u00e7\u00e3o e silenciamento?Como tornar os jornalistas respons\u00e1veis pela denuncia dos problemas sociais e melhoria do planeta? Ensaio sobre a Lucidez (2004) tem por cen\u00e1rio a cidade de Ensaio sobre a Cegueira (1995), inclui personagens comuns, como a Mulher do M\u00e9dico e os seus acontecimentos ocorrem quatro anos depois da situa\u00e7\u00e3o de cegueira branca, apesar de ter sido escrito nove anos mais tarde. \u201cUivemos, diz o c\u00e3o\u201d \u00e9 a ep\u00edgrafe do Ensaio sobre a Lucidez retirada de um livro imagin\u00e1rio, o Livro das Vozes, que instiga o leitor \u00e0 reflex\u00e3o e envolvimento. Refer\u00eancias1. As cr\u00f3nicas de Jos\u00e9 Saramago est\u00e3o reunidas nos livros: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opini\u00f5es que o DL Teve (1974), Os Apontamentos (1976), Folhas Pol\u00edticas (1999).2. Aguilera, F. (2010, nov.). Jos\u00e9 Saramago nas suas palavras (2,\u00aa Ed., p. 13). Alfragide: Editorial Caminho.3. Saramago, J. (2020). Ensaio sobre a Lucidez (6.\u00aa Ed., p. 133). Lisboa: Porto Editora. 4. Welsh, D. (2019, 17 nov.). 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