{"id":2559941,"date":"2022-02-14T09:00:00","date_gmt":"2022-02-14T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2559941.html"},"modified":"2026-05-13T14:54:02","modified_gmt":"2026-05-13T14:54:02","slug":"porque-e-necessario-ler-jose-saramago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2559941","title":{"rendered":"Porque \u00e9 necess\u00e1rio ler Jos\u00e9 Saramago?"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"2022-02-14.png\" height=\"480\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/22244759_GNunJ.png\" style=\"width: 960px; padding: 10px 10px;\" width=\"960\" \/><span><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para al\u00e9m de um prazer e consolo, ler Jos\u00e9 Saramago \u00e9 uma necessidade e dever interior porque gera inquieta\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o cr\u00edtica e vontade de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Vis\u00edvel na sua interven\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica, sobretudo atrav\u00e9s de cr\u00f3nicas, entrevistas e romances, Saramago considera \u201cque o mundo precisa de ser mais humano\u201d e que \u201cFalham os que mandam e falham os que se deixam mandar\u201d (Aguilera: 153) [<strong>1<\/strong>].<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Voz indignada perante o desconcerto e o espet\u00e1culo do mundo e as atitudes de indiferen\u00e7a, passividade, resigna\u00e7\u00e3o, apar\u00eancia, <em>status quo,<\/em> competi\u00e7\u00e3o. Cegueira branca ou mal branco que resulta da incapacidade mental das pessoas se desassossegarem e agirem perante quem sofre.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Assume uma atitude comprometida com o seu tempo e instiga, concidad\u00e3os e leitores, \u00e0 consciencializa\u00e7\u00e3o, \u00e0 coer\u00eancia e \u00e0 mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o &#8211; \u201cO que uma pessoa faz\u201d (Aguilera: 51) &#8211; define quem somos, a nossa identidade, o nosso nome.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Advoga sentido de respeito e responsabilidade perante os outros e a comunidade, que devem ser tidos em conta em todas as a\u00e7\u00f5es, individuais e coletivas. \u201cO mundo precisa de uma forma diferente de entender as rela\u00e7\u00f5es humanas e \u00e9 a isso que eu chamo <em>insurrei\u00e7\u00e3o \u00e9tica<\/em>. Uma pessoa tem de perguntar a si pr\u00f3pria: o que \u00e9 que estou eu a fazer neste mundo?\u201d (Aguilera: 121).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A insatisfa\u00e7\u00e3o perante todas as coisas traduz-se em elevada exig\u00eancia perante si pr\u00f3prio: \u201cN\u00e3o te permitas nunca ser menos do que aquilo que \u00e9s\u201d (Aguilera: 51).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Arte e literatura, tal como conhecimento e tecnologia, n\u00e3o s\u00e3o neutros, devem contribuir para uma exist\u00eancia c\u00edvica e humanista.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Dessacralizou a literatura e o trabalho de escritor, pois onde vai o escritor vai o cidad\u00e3o e a ambos interessam todas as coisas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O v\u00ednculo espont\u00e2neo aos animais, \u00e1rvores e paisagem de menino tornou-o voz ativa em prol da prote\u00e7\u00e3o e defesa dos ecossistemas naturais e equil\u00edbrio ambiental, advogando um humanismo que inclui todas as pessoas, seres vivos, animais e minerais.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Sobretudo a partir de <em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em> (1995), assume como objetivo indagar sobre a condi\u00e7\u00e3o do ser humano contempor\u00e2neo &#8211; o que somos, o que afeta a sociedade, o que nos rodeia \u2013 assumindo-se como voz universal. Nos seus romances os personagens \u2013 Jos\u00e9, Blimunda, mulher do m\u00e9dico, c\u00e3o das l\u00e1grimas \u2013 s\u00e3o amplos\/ gerais e complexos, n\u00e3o se deixando reduzir a uma \u00fanica caracter\u00edstica ou circunst\u00e2ncia. A sua escrita torna-se depurada e austera, como se estivesse \u201cmais interessado na pedra de que a est\u00e1tua \u00e9 feita\u201d, do que nas suas roupagens.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A estrutura concetual dos seus romances, aproxima-os do ensaio filos\u00f3fico. Cultiva espanto, d\u00favida, interroga\u00e7\u00e3o, atitudes que aproximam a sua escrita da filosofia, que considera dever ser direito humano universal.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A sua vida \u00e9 mat\u00e9ria liter\u00e1ria pois, tal como Alexandre O\u2019Neill, \u201cA vida interessa-me, o que n\u00e3o me interessa \u00e9 a vidinha\u201d [<strong>2<\/strong>].<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A sua mem\u00f3ria e ra\u00edzes \u00e9 marcada pelo mundo das coisas pequenas e concretas da aldeia simples da Azinhaga (Goleg\u00e3, Ribatejo) onde nasceu e \u00e0 qual regressaria nas f\u00e9rias todos os anos da sua juventude. O Casalinho dos seus av\u00f3s maternos, Josefa Caixinha e Jer\u00f3nimo Melrinho, os primos, os primeiros amores e a comunidade, o rio Almonda, lagartos, porcos, r\u00e3s, ninhos, olivais, milheirais, os seus p\u00e9s descal\u00e7os que caminhavam sozinhos ao acaso. Expressa-o literariamente, sobretudo em <em>As pequenas mem\u00f3rias<\/em> (2006) e em cr\u00f3nicas como <em>A bagagem do viajante<\/em> (1973) ou <em>Deste mundo e do outro<\/em> (1971). \u201cApenas via as coisas do mundo e gostava de v\u00ea-las. Nunca fui de pequenas imagina\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o me interessava por fantasias, mas pelo que ocorria\u201d, recorda (Aguilera: 29).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Mudou-se com a fam\u00edlia para Lisboa ao ano e meio, esteve em dez moradas em pouco mais de dez anos. Em adolescente \u201cS\u00f3 pude fazer dois anos de liceu [Gil Vicente], depois tirei um curso de serralharia mec\u00e2nica na Escola Afonso Domingues. Ainda exerci [numa oficina de autom\u00f3veis]; depois fui desenhador t\u00e9cnico, depois entrei para as burocracias do Estado; depois trabalhei durante doze anos na Editorial Est\u00fadios Cor [\u2026]. Depois vieram os jornais\u2026\u201d (Aguilera: 78, 79): Di\u00e1rio de Lisboa (editorialista) e Di\u00e1rio de Not\u00edcias (diretor-adjunto).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cSou autodidata. [\u2026] A minha educa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria foi feita nas bibliotecas p\u00fablicas [sobretudo na Biblioteca Pal\u00e1cio das Galveias], porque na minha casa n\u00e3o tinha um \u00fanico livro, a minha m\u00e3e era analfabeta\u201d (Aguilera: 91).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Vendo \u201cconcretizar-se o cen\u00e1rio de pesadelo anunciado pela fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: algu\u00e9m encerrado no seu apartamento, isolado de todos e de tudo, na mais angustiosa solid\u00e3o, mas ligado por internet e em comunica\u00e7\u00e3o com todo o planeta\u201d, sente nostalgia desta biblioteca do Campo Pequeno (Lisboa) em que a rela\u00e7\u00e3o com o conhecimento passava por um mediador, o bibliotec\u00e1rio e por uma comunica\u00e7\u00e3o direta entre pessoas unidas com o mesmo prop\u00f3sito [<strong>3<\/strong>].<\/p>\n<p><\/p>\n<p>As suas origens humildes e forma\u00e7\u00e3o irregular f\u00e1-lo descobrir tardiamente &#8211; a partir de <em>Levantado do Ch\u00e3o<\/em> (1980), com cinquenta e oito anos &#8211; a sua pr\u00f3pria voz liter\u00e1ria.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Aos 63 anos encontra o amor da sua vida, P\u00edlar de R\u00edo, jornalista de 36 anos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Das pequenas coisas chega-se \u00e0s grandes coisas e, a 8 de outubro de 1998, a Academia Sueca atribui a Jos\u00e9 Saramago o Pr\u00e9mio Nobel da Literatura. No discurso que profere critica o n\u00e3o efetiva\u00e7\u00e3o da <em>Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos<\/em> [<strong>4<\/strong>] e anuncia a <em>Carta Universal de Deveres e Obriga\u00e7\u00f5es dos Seres Humanos<\/em> [<strong>5<\/strong>].<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do cuidado e proje\u00e7\u00e3o da sua obra, a Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago, criada em 2007 e presidida por Pilar, tem como des\u00edgnio, por vontade expressa do escritor: \u201cque a funda\u00e7\u00e3o intervenha na vida. Ser\u00e1 uma pequena voz, eu sei. N\u00e3o poder\u00e1 mudar nada, tamb\u00e9m sei. Mas queremos que funcione como se tivesse nascido para mudar tudo\u201d (Aguilera: 94).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Com o mesmo prop\u00f3sito da casa da obra de Saramago, a biblioteca escolar enquanto casa da leitura, imagina\u00e7\u00e3o e curiosidade, pretende abrir, a todas as crian\u00e7as e jovens, as portas para a compreens\u00e3o do mundo e de si pr\u00f3prias (Aguilera: 162) para uma vida livre e \u00e9tica, em que cada um possa realizar as suas potencialidades.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>1<\/strong>. Aguilera, F. (2010, nov.). <em>Jos\u00e9 Saramago nas suas palavras<\/em> (2.\u00aa Ed.). Editorial Caminho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>2.<\/strong> Alves, C. (1986, 23 ago.). O&#8217;Neill: &#8220;N\u00e3o me interessa a vidinha&#8221;, in: Expresso [jornal, p. 16]. n\u00ba 721.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>3.<\/strong> Saramago, J. (2004). Informa\u00e7\u00e3o: A quadratura do c\u00edrculo. EFE, in: Clube de Jornalistas (2010, 30 jun.). <em>Saramago, o jornalismo e a quadratura do c\u00edrculo<\/em>. CJ. <a href=\"https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=2860\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=2860<\/a> [Semin\u00e1rio organizado pela ag\u00eancia de not\u00edcias EFE &#8211; Espanha, 2004]<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>4<\/strong>. Saramago, J. (1998, 7 dez.). <em>Jos\u00e9 Saramago \u2013 Nobel Lecture: De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz<\/em>. The Nobel Prize. <a href=\"https:\/\/www.nobelprize.org\/prizes\/literature\/1998\/saramago\/25345-jose-saramago-nobel-lecture-1998\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.nobelprize.org\/prizes\/literature\/1998\/saramago\/25345-jose-saramago-nobel-lecture-1998\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Outras vers\u00f5es do discurso de Jos\u00e9 Saramago na entrega do pr\u00e9mio Nobel da Literatura na Academia Sueca, em Estocolmo, a 7 de dezembro de 1998:<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Saramago, J. (2018). <em>Discursos de Estocolmo <\/em>[Texto]. Porto Editora. <a href=\"https:\/\/www.portoeditora.pt\/responsive\/landing-pages\/saramago\/imagens\/pdf\/saramago_discursos_de_estocolmo.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.portoeditora.pt\/responsive\/landing-pages\/saramago\/imagens\/pdf\/saramago_discursos_de_estocolmo.pdf<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Saramago, J. (2018). <em>Discursos de Estocolmo <\/em>[V\u00eddeo]. Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago.\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0F-fupSNmJk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0F-fupSNmJk<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>5<\/strong>. Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. (2017). <em>Carta Universal de Deveres e Obriga\u00e7\u00f5es dos Seres Humanos.<\/em> <a href=\"https:\/\/www.josesaramago.org\/carta-universal-dos-deveres-e-obrigacoes-dos-seres-humanos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.josesaramago.org\/carta-universal-dos-deveres-e-obrigacoes-dos-seres-humanos\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>6<\/strong>. Fonte da imagem: Saramago, J. (2008). <em>Biografia<\/em>. Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. <a href=\"https:\/\/www.josesaramago.org\/biografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.josesaramago.org\/biografia\/<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m de um prazer e consolo, ler Jos\u00e9 Saramago \u00e9 uma necessidade e dever interior porque gera inquieta\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o cr\u00edtica e vontade de transforma\u00e7\u00e3o. Vis\u00edvel na sua interven\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica, sobretudo atrav\u00e9s de cr\u00f3nicas, entrevistas e romances, Saramago considera \u201cque o mundo precisa de ser mais humano\u201d e que \u201cFalham os que mandam e falham os que se deixam mandar\u201d (Aguilera: 153) [1]. Voz indignada perante o desconcerto e o espet\u00e1culo do mundo e as atitudes de indiferen\u00e7a, passividade, resigna\u00e7\u00e3o, apar\u00eancia, status quo, competi\u00e7\u00e3o. Cegueira branca ou mal branco que resulta da incapacidade mental das pessoas se desassossegarem e agirem perante quem sofre. Assume uma atitude comprometida com o seu tempo e instiga, concidad\u00e3os e leitores, \u00e0 consciencializa\u00e7\u00e3o, \u00e0 coer\u00eancia e \u00e0 mudan\u00e7a. A a\u00e7\u00e3o &#8211; \u201cO que uma pessoa faz\u201d (Aguilera: 51) &#8211; define quem somos, a nossa identidade, o nosso nome. Advoga sentido de respeito e responsabilidade perante os outros e a comunidade, que devem ser tidos em conta em todas as a\u00e7\u00f5es, individuais e coletivas. \u201cO mundo precisa de uma forma diferente de entender as rela\u00e7\u00f5es humanas e \u00e9 a isso que eu chamo insurrei\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Uma pessoa tem de perguntar a si pr\u00f3pria: o que \u00e9 que estou eu a fazer neste mundo?\u201d (Aguilera: 121). A insatisfa\u00e7\u00e3o perante todas as coisas traduz-se em elevada exig\u00eancia perante si pr\u00f3prio: \u201cN\u00e3o te permitas nunca ser menos do que aquilo que \u00e9s\u201d (Aguilera: 51). Arte e literatura, tal como conhecimento e tecnologia, n\u00e3o s\u00e3o neutros, devem contribuir para uma exist\u00eancia c\u00edvica e humanista. Dessacralizou a literatura e o trabalho de escritor, pois onde vai o escritor vai o cidad\u00e3o e a ambos interessam todas as coisas. O v\u00ednculo espont\u00e2neo aos animais, \u00e1rvores e paisagem de menino tornou-o voz ativa em prol da prote\u00e7\u00e3o e defesa dos ecossistemas naturais e equil\u00edbrio ambiental, advogando um humanismo que inclui todas as pessoas, seres vivos, animais e minerais. Sobretudo a partir de Ensaio sobre a Cegueira (1995), assume como objetivo indagar sobre a condi\u00e7\u00e3o do ser humano contempor\u00e2neo &#8211; o que somos, o que afeta a sociedade, o que nos rodeia \u2013 assumindo-se como voz universal. Nos seus romances os personagens \u2013 Jos\u00e9, Blimunda, mulher do m\u00e9dico, c\u00e3o das l\u00e1grimas \u2013 s\u00e3o amplos\/ gerais e complexos, n\u00e3o se deixando reduzir a uma \u00fanica caracter\u00edstica ou circunst\u00e2ncia. A sua escrita torna-se depurada e austera, como se estivesse \u201cmais interessado na pedra de que a est\u00e1tua \u00e9 feita\u201d, do que nas suas roupagens. A estrutura concetual dos seus romances, aproxima-os do ensaio filos\u00f3fico. Cultiva espanto, d\u00favida, interroga\u00e7\u00e3o, atitudes que aproximam a sua escrita da filosofia, que considera dever ser direito humano universal. A sua vida \u00e9 mat\u00e9ria liter\u00e1ria pois, tal como Alexandre O\u2019Neill, \u201cA vida interessa-me, o que n\u00e3o me interessa \u00e9 a vidinha\u201d [2]. A sua mem\u00f3ria e ra\u00edzes \u00e9 marcada pelo mundo das coisas pequenas e concretas da aldeia simples da Azinhaga (Goleg\u00e3, Ribatejo) onde nasceu e \u00e0 qual regressaria nas f\u00e9rias todos os anos da sua juventude. O Casalinho dos seus av\u00f3s maternos, Josefa Caixinha e Jer\u00f3nimo Melrinho, os primos, os primeiros amores e a comunidade, o rio Almonda, lagartos, porcos, r\u00e3s, ninhos, olivais, milheirais, os seus p\u00e9s descal\u00e7os que caminhavam sozinhos ao acaso. Expressa-o literariamente, sobretudo em As pequenas mem\u00f3rias (2006) e em cr\u00f3nicas como A bagagem do viajante (1973) ou Deste mundo e do outro (1971). \u201cApenas via as coisas do mundo e gostava de v\u00ea-las. Nunca fui de pequenas imagina\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o me interessava por fantasias, mas pelo que ocorria\u201d, recorda (Aguilera: 29). Mudou-se com a fam\u00edlia para Lisboa ao ano e meio, esteve em dez moradas em pouco mais de dez anos. Em adolescente \u201cS\u00f3 pude fazer dois anos de liceu [Gil Vicente], depois tirei um curso de serralharia mec\u00e2nica na Escola Afonso Domingues. Ainda exerci [numa oficina de autom\u00f3veis]; depois fui desenhador t\u00e9cnico, depois entrei para as burocracias do Estado; depois trabalhei durante doze anos na Editorial Est\u00fadios Cor [\u2026]. Depois vieram os jornais\u2026\u201d (Aguilera: 78, 79): Di\u00e1rio de Lisboa (editorialista) e Di\u00e1rio de Not\u00edcias (diretor-adjunto). \u201cSou autodidata. [\u2026] A minha educa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria foi feita nas bibliotecas p\u00fablicas [sobretudo na Biblioteca Pal\u00e1cio das Galveias], porque na minha casa n\u00e3o tinha um \u00fanico livro, a minha m\u00e3e era analfabeta\u201d (Aguilera: 91). Vendo \u201cconcretizar-se o cen\u00e1rio de pesadelo anunciado pela fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: algu\u00e9m encerrado no seu apartamento, isolado de todos e de tudo, na mais angustiosa solid\u00e3o, mas ligado por internet e em comunica\u00e7\u00e3o com todo o planeta\u201d, sente nostalgia desta biblioteca do Campo Pequeno (Lisboa) em que a rela\u00e7\u00e3o com o conhecimento passava por um mediador, o bibliotec\u00e1rio e por uma comunica\u00e7\u00e3o direta entre pessoas unidas com o mesmo prop\u00f3sito [3]. As suas origens humildes e forma\u00e7\u00e3o irregular f\u00e1-lo descobrir tardiamente &#8211; a partir de Levantado do Ch\u00e3o (1980), com cinquenta e oito anos &#8211; a sua pr\u00f3pria voz liter\u00e1ria. Aos 63 anos encontra o amor da sua vida, P\u00edlar de R\u00edo, jornalista de 36 anos. Das pequenas coisas chega-se \u00e0s grandes coisas e, a 8 de outubro de 1998, a Academia Sueca atribui a Jos\u00e9 Saramago o Pr\u00e9mio Nobel da Literatura. No discurso que profere critica o n\u00e3o efetiva\u00e7\u00e3o da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos [4] e anuncia a Carta Universal de Deveres e Obriga\u00e7\u00f5es dos Seres Humanos [5]. Para al\u00e9m do cuidado e proje\u00e7\u00e3o da sua obra, a Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago, criada em 2007 e presidida por Pilar, tem como des\u00edgnio, por vontade expressa do escritor: \u201cque a funda\u00e7\u00e3o intervenha na vida. Ser\u00e1 uma pequena voz, eu sei. N\u00e3o poder\u00e1 mudar nada, tamb\u00e9m sei. Mas queremos que funcione como se tivesse nascido para mudar tudo\u201d (Aguilera: 94). Com o mesmo prop\u00f3sito da casa da obra de Saramago, a biblioteca escolar enquanto casa da leitura, imagina\u00e7\u00e3o e curiosidade, pretende abrir, a todas as crian\u00e7as e jovens, as portas para a compreens\u00e3o do mundo e de si pr\u00f3prias (Aguilera: 162) para uma vida livre e \u00e9tica, em que cada um possa realizar as suas potencialidades. \u00a0 Refer\u00eancias 1. Aguilera, F. (2010, nov.). Jos\u00e9 Saramago nas suas palavras (2.\u00aa Ed.). Editorial Caminho.\u00a0 2. Alves, C. (1986, 23 ago.). O&#8217;Neill: &#8220;N\u00e3o me interessa a vidinha&#8221;, in: Expresso [jornal, p. 16]. n\u00ba 721. 3. Saramago, J. (2004). Informa\u00e7\u00e3o: A quadratura do c\u00edrculo. EFE, in: Clube de Jornalistas (2010, 30 jun.). Saramago, o jornalismo e a quadratura do c\u00edrculo. CJ. https:\/\/www.clubedejornalistas.pt\/?p=2860 [Semin\u00e1rio organizado pela ag\u00eancia de not\u00edcias EFE &#8211; Espanha, 2004] 4. Saramago, J. (1998, 7 dez.). Jos\u00e9 Saramago \u2013 Nobel Lecture: De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz. The Nobel Prize. https:\/\/www.nobelprize.org\/prizes\/literature\/1998\/saramago\/25345-jose-saramago-nobel-lecture-1998\/ Outras vers\u00f5es do discurso de Jos\u00e9 Saramago na entrega do pr\u00e9mio Nobel da Literatura na Academia Sueca, em Estocolmo, a 7 de dezembro de 1998: Saramago, J. (2018). Discursos de Estocolmo [Texto]. Porto Editora. https:\/\/www.portoeditora.pt\/responsive\/landing-pages\/saramago\/imagens\/pdf\/saramago_discursos_de_estocolmo.pdf Saramago, J. (2018). Discursos de Estocolmo [V\u00eddeo]. Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago.\u00a0 https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0F-fupSNmJk 5. Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. (2017). Carta Universal de Deveres e Obriga\u00e7\u00f5es dos Seres Humanos. https:\/\/www.josesaramago.org\/carta-universal-dos-deveres-e-obrigacoes-dos-seres-humanos\/ 6. Fonte da imagem: Saramago, J. (2008). Biografia. Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. https:\/\/www.josesaramago.org\/biografia\/<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[109,42,118],"tags":[],"class_list":["post-2559941","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-autores","category-cidadania","category-parcerias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2559941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2559941"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2559941\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3087350,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2559941\/revisions\/3087350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2559941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2559941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2559941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}