{"id":2327712,"date":"2020-01-26T23:15:00","date_gmt":"2020-01-26T23:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2327712.html"},"modified":"2026-05-13T15:59:39","modified_gmt":"2026-05-13T15:59:39","slug":"dia-internacional-em-memoria-das-vitimas-do-holocausto-27-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2327712","title":{"rendered":"Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto | 27 de janeiro"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 557px; padding: 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"holo.jpg\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21676435_47ock.jpeg\" alt=\"holo.jpg\" width=\"700\" height=\"321\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Tr\u00eas crian\u00e7as judias aguardam numa esta\u00e7\u00e3o de comboio em Londres ap\u00f3s viagem no chamado &#8220;Kindertransport&#8221;<\/span><\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\" style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">[<em>Texto de<\/em> Tiago Palma | Observador]<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"article-head-content-headline-lead\"><strong>O mais sangrento dos campos de concentra\u00e7\u00e3o foi libertado h\u00e1 71 anos. \u00c9 hoje o Dia Internacional da Lembran\u00e7a do Holocausto. E poucos como Primo Levi escreveram sobre ele. Viveu-o. Sobreviveu-lhe.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p><em>Isto \u00e9 o inferno. Hoje, nos nossos dias, o inferno deve ser assim: uma sala grande e vazia, e n\u00f3s, cansados, de p\u00e9, diante de uma torneira gotejante mas que n\u00e3o tem \u00e1gua pot\u00e1vel, esperando algo certamente terr\u00edvel, e nada acontece, e continua a n\u00e3o acontecer nada. Como \u00e9 poss\u00edvel pensar? N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel; \u00e9 como se estiv\u00e9ssemos mortos. Alguns sentam-se no ch\u00e3o. O tempo passa, gota a gota.<\/em>\u00a0<strong>Primo Levi, \u201cSe Isto \u00e9 um Homem\u201d (1947)<\/strong><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p>11 de abril de 1987. Na manh\u00e3 em que Primo Levi morreu \u2013 o relat\u00f3rio da pol\u00edcia italiana aponta para uma tese de suic\u00eddio, relatando que Levi se atirou mortalmente do terceiro andar de casa, em Turim \u2013, Elie Wiesel, autor de \u201cA Noite\u201d (tamb\u00e9m sobre a experi\u00eancia de horrores vivida num campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi) e pr\u00e9mio Nobel da Paz em 1986, escreveu: \u201cPrimo Levi n\u00e3o morreu hoje. Morreu h\u00e1 quarenta anos, em Auschwitz.\u201d Levi tinha 67 anos \u00e0 data do suicido.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 (nem nunca foi) uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o por parte de Wiesel diz\u00ea-lo. \u00c9 antes a constata\u00e7\u00e3o de que o homem-Levi, qu\u00edmico, resistente anti-fascista na frente de guerra, n\u00e3o voltou de\u00a0Auschwitz homem, mas apenas um corpo, com mem\u00f3ria e uma\u00a0m\u00e3o com que escrever.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Aos 24 anos foi transportado para\u00a0Auschwitz. Ele e outros seiscentos e cinquenta judeus italianos. Est\u00e1vamos em fevereiro de 1944. Deles, s\u00f3 vinte sobreviveram \u2014 Levi inclu\u00eddo. Quando se viu, enfim, libertado pelo ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico, a\u00a027 de janeiro de 1945, ao fim de 11 meses de priva\u00e7\u00e3o e indignidade humana, Levi havia envelhecido, n\u00e3o 11 meses, mas d\u00e9cadas. N\u00e3o s\u00f3 fisicamente.\u00a0Mas serviu-lhe a experi\u00eancia, de morte, n\u00e3o a sua mas a que testemunhou dia-a-dia \u00e0 sua frente, todos os dias, a experi\u00eancia de sobreviver quase miraculosamente \u2014 a resili\u00eancia fez o resto \u2013, essa experi\u00eancia-limite permitiu-lhe escrever, por exemplo,\u00a0\u201cSe Isto \u00e9 Um Homem\u201d (a\u00a0<em>trilog\u00eda de Auschwitz<\/em>\u00a0completa-se com \u201cA Tr\u00e9gua\u201d e \u201cOs que Sucumbem e os que se Salvam\u201d).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nem s\u00f3 sobre o holocausto escreveu Primo Levi, mas quando o fez, mais do que procurar culpados ou explica\u00e7\u00f5es, narrou. Simplesmente isso: narrou o horror, sem artif\u00edcios, com crueza, a vida no mais sangrento dos campos de concentra\u00e7\u00e3o do Terceiro Reich. O campo foi libertado h\u00e1 71 anos. E tamb\u00e9m por isso se assinalada, nesta data e desde 2005, o Dia Internacional da Lembran\u00e7a do Holocausto.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Mais do que ler a n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o de autores como Levi, Wiesel ou Imre Kert\u00e8sz, mais do que ver no cinema ou em casa \u201cA Lista de Schindler\u201d e, mais recente, \u201cFilho de Saul\u201d, de Laszlo Nemes (o filme recebeu o Grande Pr\u00e9mio de Cannes e o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro),\u00a0mais importante que isso \u00e9 ler os relatos, sem polimentos liter\u00e1rios ou de realiza\u00e7\u00e3o, como os que Levi (a par com Leonardo de Benedetti) escreveu em \u201cAssim foi Auschwitz\u201d. Em 1945, no rescaldo do fim da Guerra e da liberta\u00e7\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o pelos aliados, o ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico pediu a Primo Levi e a Benedetti, seu companheiro de campo, que redigissem, em detalhe, como eram as condi\u00e7\u00f5es de vida l\u00e1. O resultado foi um dos primeiros relat\u00f3rios alguma vez realizados sobre os campos de exterm\u00ednio. Os textos de Levi, in\u00e9ditos, finalmente trazidos \u00e0 estampa no \u00faltimo ano, t\u00eam um valor hist\u00f3rico e humano t\u00e3o importante hoje,\u00a071 anos volvidos sobre o fim da Segunda Guerra, como quando este os escreveu.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>L\u00e1, Levi escreveu \u2014 o mesmo Levi que, em \u201cSe Isto \u00e9 Um Homem\u201d, sentia mais culpa por ter sobrevivo (e os outros n\u00e3o) do que culpava os nazis pelo extermino \u2014 que \u201ca responsabilidade repousa colectivamente sobre todos os\u00a0soldados, sargentos e oficiais da SS destacados em\u00a0Auschwitz\u201d. O livro\u00a0\u201cAssim foi Auschwitz\u201d\u00a0serviu tamb\u00e9m para, ao longo das d\u00e9cadas \u2014 e ainda nos nossos dias \u2013, trazer ex-carrascos aos tribunais. Julg\u00e1-los. Para que a hist\u00f3ria os recorde como isso: carrascos. Por outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m importante perceber que Primo Levi considera que, mais do que o mero extermino de judeus, os campos de concentra\u00e7\u00e3o serviam para impulsionar a pr\u00f3pria economia da Alemanha.<\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p>Escrevia Levi: \u201cOs campos n\u00e3o eram um fen\u00f3meno marginal: a ind\u00fastria alem\u00e3 baseava-se\u00a0neles; eram uma institui\u00e7\u00e3o fundamental do fascismo na Europa e os nazis n\u00e3o o escondiam: mais do que mant\u00ea-los, alargavam-nos e aperfei\u00e7oavam-nos.\u201d<\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p>Num s\u00e1bado, dia 11 de Abril, em 1987, por volta das 10 horas da manh\u00e3, a porteira de um\u00a0pr\u00e9dio na avenida\u00a0Corso Rei Umberto, em Turim, tocou \u00e0 porta do 3.\u00ba andar para, como em todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu-lhe e recebeu-o. Voltou a entrar em casa. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente. Primo Levi sobreviveu ao holocausto no pior dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sobreviveu aos dias fora dele \u2014 mas com ele por dentro, vivo, a remoer-lhe.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong>:\u00a0Palma, T. (2020).\u00a0<em>O horror de Auschwitz e do holocausto por quem o escreveu na primeira pessoa: Primo Levi \u2013 Observador<\/em>.\u00a0<em>Observador.pt<\/em>. Retrieved 26 January 2020, from <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2016\/01\/27\/horror-auschwitz-do-holocausto-escreveu-na-primeira-pessoa-primo-levi\/\" rel=\"noopener\">https:\/\/observador.pt\/2016\/01\/27\/horror-auschwitz-do-holocausto-escreveu-na-primeira-pessoa-primo-levi\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/449ZOWbUkf0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" loading=\"lazy\"><\/iframe><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Conte\u00fado relacionado:<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/no-silencio-de-auschwitz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No sil\u00eancio de Auschwitz<\/a> | rtp ensina<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.rtve.es\/noticias\/20200127\/grito-desesperado-auschwitz\/1996465.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El grito desesperado de Auschwitz <\/a>| rtve<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/seccao\/cultura\/historia\/holocausto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tudo sobre o Holocausto<\/a> | observador<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.parismatch.com\/Actu\/Politique\/Simone-Veil-a-Auschwitz-son-temoignage-pour-l-Histoire-1296899?fbclid=IwAR1Javuhe9fmd8dV8tQIk2_2JsHoH7CQiVgf9gVX1bb3fQkobAHkkEsBOcc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Simone Veil \u00e0 Auschwitz, son t\u00e9moignage pour l&#8217;Histoire<\/a> | paris match<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2020\/01\/27\/actualidad\/1580141933_308645.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El diario de una superviviente de Auschwitz sale a la luz 75 a\u00f1os despu\u00e9s <\/a>| el pa\u00eds<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/internacional\/2020-01-27-Auschwitz-o-lugar-onde-se-entra-mas-do-qual-nao-se-sai-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Auschwitz: o lugar onde se entra mas do qual n\u00e3o se sai <\/a>| expresso<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/visao.sapo.pt\/atualidade\/mundo\/2020-01-27-auschwitz-ha-75-anos-os-portoes-abriam-se-para-a-liberdade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Auschwitz: h\u00e1 75 anos, os port\u00f5es abriam-se para a liberdade<\/a> | vis\u00e3o<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.sabado.pt\/fotografias\/detalhe\/libertacao-de-auschwitz-foi-ha-75-anos?\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Liberta\u00e7\u00e3o de Auschwitz foi h\u00e1 75 anos<\/a> | s\u00e1bado<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.rtp.pt\/noticias\/mundo\/papa-sublinha-que-e-dever-lembrar-o-holocausto-e-inadmissivel-a-indiferenca_n1200671\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Papa sublinha que \u00e9 dever lembrar o Holocausto e inadmiss\u00edvel a indiferen\u00e7a<\/a> | rtp<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/a-tr%C3%A1gica-jornada-de-crian%C3%A7as-para-fugir-do-holocausto\/a-49529999\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A tr\u00e1gica jornada de crian\u00e7as para fugir do Holocausto<\/a> | dw<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.ushmm.org\/remember\/days-of-remembrance\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Days of Remembrance<\/a> | holocaust museum<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><a href=\"https:\/\/www.history.co.uk\/search\/node\/holocaust\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O Holocausto no Canal Hist\u00f3ria<\/span><\/a>\u00a0<span style=\"font-size: 12pt;\">[ing]<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/fcit.usf.edu\/holocaust\/People\/Rescuer.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A teacher\u00b4s guide to the Holocaust<\/a><\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.tes.com\/news\/power-witness-testimony-holocaust-education\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The power of witness testimony in Holocaust education<\/a> | tes<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/elpais.com\/cultura\/2020\/01\/14\/babelia\/1579022302_584315.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El historiador que cambi\u00f3 la forma de comprender el Holocausto<\/a> | el pa\u00eds<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/elpais.com\/cultura\/2019\/05\/02\/actualidad\/1556754168_677128.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00bfEs l\u00edcito contar el Holocausto en Instagram?<\/a> | el pa\u00eds<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.dge.mec.pt\/noticias\/27-de-janeiro-dia-internacional-em-memoria-das-vitimas-do-holocausto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">27 de janeiro &#8211; Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto<\/a> | dge<\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<div id=\"gtx-trans\"><\/p>\n<div class=\"gtx-trans-icon\">\u00a0<\/div>\n<p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas crian\u00e7as judias aguardam numa esta\u00e7\u00e3o de comboio em Londres ap\u00f3s viagem no chamado &#8220;Kindertransport&#8221; [Texto de Tiago Palma | Observador] \u00a0 O mais sangrento dos campos de concentra\u00e7\u00e3o foi libertado h\u00e1 71 anos. \u00c9 hoje o Dia Internacional da Lembran\u00e7a do Holocausto. E poucos como Primo Levi escreveram sobre ele. Viveu-o. Sobreviveu-lhe. Isto \u00e9 o inferno. Hoje, nos nossos dias, o inferno deve ser assim: uma sala grande e vazia, e n\u00f3s, cansados, de p\u00e9, diante de uma torneira gotejante mas que n\u00e3o tem \u00e1gua pot\u00e1vel, esperando algo certamente terr\u00edvel, e nada acontece, e continua a n\u00e3o acontecer nada. Como \u00e9 poss\u00edvel pensar? N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel; \u00e9 como se estiv\u00e9ssemos mortos. Alguns sentam-se no ch\u00e3o. O tempo passa, gota a gota.\u00a0Primo Levi, \u201cSe Isto \u00e9 um Homem\u201d (1947) 11 de abril de 1987. Na manh\u00e3 em que Primo Levi morreu \u2013 o relat\u00f3rio da pol\u00edcia italiana aponta para uma tese de suic\u00eddio, relatando que Levi se atirou mortalmente do terceiro andar de casa, em Turim \u2013, Elie Wiesel, autor de \u201cA Noite\u201d (tamb\u00e9m sobre a experi\u00eancia de horrores vivida num campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi) e pr\u00e9mio Nobel da Paz em 1986, escreveu: \u201cPrimo Levi n\u00e3o morreu hoje. Morreu h\u00e1 quarenta anos, em Auschwitz.\u201d Levi tinha 67 anos \u00e0 data do suicido. N\u00e3o \u00e9 (nem nunca foi) uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o por parte de Wiesel diz\u00ea-lo. \u00c9 antes a constata\u00e7\u00e3o de que o homem-Levi, qu\u00edmico, resistente anti-fascista na frente de guerra, n\u00e3o voltou de\u00a0Auschwitz homem, mas apenas um corpo, com mem\u00f3ria e uma\u00a0m\u00e3o com que escrever. Aos 24 anos foi transportado para\u00a0Auschwitz. Ele e outros seiscentos e cinquenta judeus italianos. Est\u00e1vamos em fevereiro de 1944. Deles, s\u00f3 vinte sobreviveram \u2014 Levi inclu\u00eddo. Quando se viu, enfim, libertado pelo ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico, a\u00a027 de janeiro de 1945, ao fim de 11 meses de priva\u00e7\u00e3o e indignidade humana, Levi havia envelhecido, n\u00e3o 11 meses, mas d\u00e9cadas. N\u00e3o s\u00f3 fisicamente.\u00a0Mas serviu-lhe a experi\u00eancia, de morte, n\u00e3o a sua mas a que testemunhou dia-a-dia \u00e0 sua frente, todos os dias, a experi\u00eancia de sobreviver quase miraculosamente \u2014 a resili\u00eancia fez o resto \u2013, essa experi\u00eancia-limite permitiu-lhe escrever, por exemplo,\u00a0\u201cSe Isto \u00e9 Um Homem\u201d (a\u00a0trilog\u00eda de Auschwitz\u00a0completa-se com \u201cA Tr\u00e9gua\u201d e \u201cOs que Sucumbem e os que se Salvam\u201d). Nem s\u00f3 sobre o holocausto escreveu Primo Levi, mas quando o fez, mais do que procurar culpados ou explica\u00e7\u00f5es, narrou. Simplesmente isso: narrou o horror, sem artif\u00edcios, com crueza, a vida no mais sangrento dos campos de concentra\u00e7\u00e3o do Terceiro Reich. O campo foi libertado h\u00e1 71 anos. E tamb\u00e9m por isso se assinalada, nesta data e desde 2005, o Dia Internacional da Lembran\u00e7a do Holocausto. Mais do que ler a n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o de autores como Levi, Wiesel ou Imre Kert\u00e8sz, mais do que ver no cinema ou em casa \u201cA Lista de Schindler\u201d e, mais recente, \u201cFilho de Saul\u201d, de Laszlo Nemes (o filme recebeu o Grande Pr\u00e9mio de Cannes e o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro),\u00a0mais importante que isso \u00e9 ler os relatos, sem polimentos liter\u00e1rios ou de realiza\u00e7\u00e3o, como os que Levi (a par com Leonardo de Benedetti) escreveu em \u201cAssim foi Auschwitz\u201d. Em 1945, no rescaldo do fim da Guerra e da liberta\u00e7\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o pelos aliados, o ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico pediu a Primo Levi e a Benedetti, seu companheiro de campo, que redigissem, em detalhe, como eram as condi\u00e7\u00f5es de vida l\u00e1. O resultado foi um dos primeiros relat\u00f3rios alguma vez realizados sobre os campos de exterm\u00ednio. Os textos de Levi, in\u00e9ditos, finalmente trazidos \u00e0 estampa no \u00faltimo ano, t\u00eam um valor hist\u00f3rico e humano t\u00e3o importante hoje,\u00a071 anos volvidos sobre o fim da Segunda Guerra, como quando este os escreveu. L\u00e1, Levi escreveu \u2014 o mesmo Levi que, em \u201cSe Isto \u00e9 Um Homem\u201d, sentia mais culpa por ter sobrevivo (e os outros n\u00e3o) do que culpava os nazis pelo extermino \u2014 que \u201ca responsabilidade repousa colectivamente sobre todos os\u00a0soldados, sargentos e oficiais da SS destacados em\u00a0Auschwitz\u201d. O livro\u00a0\u201cAssim foi Auschwitz\u201d\u00a0serviu tamb\u00e9m para, ao longo das d\u00e9cadas \u2014 e ainda nos nossos dias \u2013, trazer ex-carrascos aos tribunais. Julg\u00e1-los. Para que a hist\u00f3ria os recorde como isso: carrascos. Por outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m importante perceber que Primo Levi considera que, mais do que o mero extermino de judeus, os campos de concentra\u00e7\u00e3o serviam para impulsionar a pr\u00f3pria economia da Alemanha. Escrevia Levi: \u201cOs campos n\u00e3o eram um fen\u00f3meno marginal: a ind\u00fastria alem\u00e3 baseava-se\u00a0neles; eram uma institui\u00e7\u00e3o fundamental do fascismo na Europa e os nazis n\u00e3o o escondiam: mais do que mant\u00ea-los, alargavam-nos e aperfei\u00e7oavam-nos.\u201d Num s\u00e1bado, dia 11 de Abril, em 1987, por volta das 10 horas da manh\u00e3, a porteira de um\u00a0pr\u00e9dio na avenida\u00a0Corso Rei Umberto, em Turim, tocou \u00e0 porta do 3.\u00ba andar para, como em todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu-lhe e recebeu-o. Voltou a entrar em casa. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente. Primo Levi sobreviveu ao holocausto no pior dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sobreviveu aos dias fora dele \u2014 mas com ele por dentro, vivo, a remoer-lhe. \u00a0 Refer\u00eancia:\u00a0Palma, T. (2020).\u00a0O horror de Auschwitz e do holocausto por quem o escreveu na primeira pessoa: Primo Levi \u2013 Observador.\u00a0Observador.pt. Retrieved 26 January 2020, from https:\/\/observador.pt\/2016\/01\/27\/horror-auschwitz-do-holocausto-escreveu-na-primeira-pessoa-primo-levi\/ \u00a0 Conte\u00fado relacionado: No sil\u00eancio de Auschwitz | rtp ensina El grito desesperado de Auschwitz | rtve Tudo sobre o Holocausto | observador Simone Veil \u00e0 Auschwitz, son t\u00e9moignage pour l&#8217;Histoire | paris match El diario de una superviviente de Auschwitz sale a la luz 75 a\u00f1os despu\u00e9s | el pa\u00eds Auschwitz: o lugar onde se entra mas do qual n\u00e3o se sai | expresso Auschwitz: h\u00e1 75 anos, os port\u00f5es abriam-se para a liberdade | vis\u00e3o Liberta\u00e7\u00e3o de Auschwitz foi h\u00e1 75 anos | s\u00e1bado Papa sublinha que \u00e9 dever lembrar o Holocausto e inadmiss\u00edvel a indiferen\u00e7a | rtp A tr\u00e1gica jornada de crian\u00e7as para fugir do Holocausto | dw Days of Remembrance | holocaust museum O Holocausto no Canal Hist\u00f3ria\u00a0[ing] A teacher\u00b4s guide to the Holocaust The power of witness testimony in Holocaust education | tes El historiador que cambi\u00f3 la forma de comprender el Holocausto | el pa\u00eds \u00bfEs l\u00edcito contar el Holocausto en Instagram? | el pa\u00eds 27 de janeiro &#8211; Dia Internacional em Mem\u00f3ria das V\u00edtimas do Holocausto | dge \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42,33],"tags":[],"class_list":["post-2327712","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidadania","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2327712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2327712"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2327712\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3088457,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2327712\/revisions\/3088457"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2327712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2327712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2327712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}