{"id":2277855,"date":"2019-07-23T23:42:00","date_gmt":"2019-07-23T23:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2277855.html"},"modified":"2026-05-13T16:27:31","modified_gmt":"2026-05-13T16:27:31","slug":"antonio-damasio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2277855","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 496px; padding: 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"adamas.png\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21517240_cGhpw.png\" alt=\"adamas.png\" width=\"544\" height=\"557\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<address class=\"byline__author\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Isabel Lucas (Texto) e Rui Gaud\u00eancio (Fotografia)<\/span><\/address>\n<address class=\"byline__author\">\u00a0<\/address>\n<p><\/p>\n<h2 class=\"sapomedia images\"><strong>&#8220;Quando me perguntam qual \u00e9 o maior cientista de sempre, respondo: na minha \u00e1rea, \u00e9 Shakespeare&#8221;<\/strong><\/h2>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">Cada vez mais bi\u00f3logo e menos neurocientista, Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio insiste nas humanidades para formar homens e cientistas. No seu mais recente livro d\u00e1 primazia aos sentimentos como formadores de consci\u00eancia e motor da ci\u00eancia, e refere a necessidade de um pacto global sobre educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O que leva um estudante a levantar a m\u00e3o quando o professor lhe fala de um tema que o intimida? Como reagir\u00e3o as gera\u00e7\u00f5es que cresceram com as redes sociais, quando precisarem de tempo, mais tempo, do que o imediato? Estamos a viver uma crise na actual condi\u00e7\u00e3o humana diz Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio no seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas, que d\u00e1 prioridade aos sentimentos. Na vida, na ci\u00eancia, na cultura. Horas depois de aterrar em Lisboa n\u00e3o esconde a emo\u00e7\u00e3o perante a edi\u00e7\u00e3o portuguesa da Temas e Debates. Sorri. Pega no livro de quase 400 p\u00e1ginas, olha a contracapa e retrai a vontade imediata de ver tudo ali. Mais tarde confessar\u00e1 que \u00e9 um chato com o portugu\u00eas. Escreve em ingl\u00eas, pensa em ingl\u00eas, mas o portugu\u00eas \u00e9 a sua l\u00edngua. Quando, ao longo da conversa, na oralidade, lhe sai um voc\u00e1bulo em ingl\u00eas trata de arranjar a tradu\u00e7\u00e3o certa, sobretudo se for para descrever um sentimento. \u00c9 que s\u00e3o os sentimentos o que est\u00e1 antes de tudo no livro que dedica \u00e0 sua mulher, Hanna Dam\u00e1sio, e na conversa onde haver\u00e1 de dizer, j\u00e1 desligado o gravador, que tamb\u00e9m fala alem\u00e3o e namora em italiano. &#8220;\u00c9 a l\u00edngua do amor&#8221;, refere. Como aprendeu? &#8220;A ouvir as \u00f3peras de Verdi.&#8221;\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"cutid1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"ljcut\" text=\"Ler mais...\"><\/p>\n<p>Os irm\u00e3os Morgado levaram a cidade para dentro da Casa do Av\u00f4 Martinho<br \/>Come\u00e7a este livro, que vem na continuidade dos anteriores, por esclarecer o que chama de uma \u201cideia simples\u201d, \u201ccomo usamos os sentimentos para construir a nossa personalidade\u201d. Pe\u00e7o-lhe que descreva, brevemente, o protagonista deste\u00a0A Estranha Ordem das Coisas, os sentimentos?<br \/>H\u00e1 a realidade cient\u00edfica daquilo que penso que s\u00e3o os sentimentos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma mais alargada ligada a um tema que estamos [com a mulher, Hanna Dam\u00e1sio] a tratar por estes dias para uma confer\u00eancia sobre \u00e9tica. Parte dos sentimentos que temos como experi\u00eancia t\u00eam a ver com as coisas mais valiosas da nossa vida; com todas as coisas sobre as quais podemos ter uma val\u00eancia, as que verdadeiramente contam: vida, doen\u00e7a, dor, sofrimento, morte, desejo, amor, cuidado com o outros [to care]. E, ao mesmo tempo, crimes, medos, raivas, \u00f3dios, que t\u00eam a ver com o contr\u00e1rio das boas coisas da vida e que podem levar \u00e0 perda [da vida], e, se n\u00e3o \u00e0 perda da vida, ao sofrimento. Praticamente todas as coisas que governam ou desgovernam a nossa vida s\u00e3o normalmente transmitidas por uma val\u00eancia de bom ou mau; de agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, de recompensa ou puni\u00e7\u00e3o. S\u00e3o essas que constituem o grande personagem dos sentimentos. Os sentimentos s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es do estado da nossa vida, mas representa\u00e7\u00f5es qualificadas. Um dos problemas que mais me inquietam\u00a0\u00e9 essa impossibilidade que as pessoas t\u00eam tido de perceber que a intelig\u00eancia \u2013 ou a nossa mente \u2013 vai s\u00f3 at\u00e9 um certo ponto e a partir da\u00ed tem de ter uma qualifica\u00e7\u00e3o. Essa qualifica\u00e7\u00e3o aparece em termos de agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, de bom ou de mau, e \u00e9 isso que faz a grande distin\u00e7\u00e3o entre a intelig\u00eancia humana no sentido mais completo e a mente humana. \u00c0 intelig\u00eancia artificial, por exemplo, falta isso. Infelizmente as pessoas n\u00e3o se t\u00eam dado conta. Sou um adepto de intelig\u00eancia artificial e tudo o que esse campo de tecnologia e de ci\u00eancia nos tem trazido, mas \u00e9 pena que poucas pessoas dentro desse mundo tenham compreendido que a intelig\u00eancia artificial tal como \u00e9 compreendida \u00e9 uma p\u00e1lida ideia daquilo que \u00e9 a intelig\u00eancia humana no seu real.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Ou seja, o humano, muito por via dos sentimentos, n\u00e3o pode ser replicado artificialmente.<br \/>De certeza que n\u00e3o pode ser nem simulado! H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre simula\u00e7\u00e3o e duplica\u00e7\u00e3o. O que a intelig\u00eancia artificial faz, e muito bem, \u00e9 uma simula\u00e7\u00e3o, e com capacidades extraordin\u00e1rias, muito superiores \u00e0quelas que temos. A capacidade de intelig\u00eancia no sentido mais directo e algor\u00edtmico que temos hoje em dia em mat\u00e9ria de mem\u00f3ria, de estrat\u00e9gias de racioc\u00ednio \u00e9 extraordin\u00e1ria. Faltam \u00e9 essas outras qualidades que temos na nossa intelig\u00eancia e que s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rias e extremamente realistas, porque t\u00eam a ver com aquilo que a vida \u00e9. Enquanto a vida concebida no sentido da intelig\u00eancia artificial n\u00e3o tem nada a ver com aquilo que a vida \u00e9. A vida \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>E o que \u00e9 a vida?<br \/>\u00c9 uma coisa vener\u00e1vel, confusa, efusiva. A\u00a0grande arte d\u00e1-nos isso e a grande literatura d\u00e1 isso extraordinariamente. Quando n\u00e3o se inclui essa componente de confus\u00e3o, efusividade, aquilo que pode ser qualific\u00e1vel de bom ou de mau, perde-se uma grande parte do que \u00e9 a vida. Por isso, e para acrescentar uma nota \u00e0 sua pergunta anterior, os sentimentos como personagem s\u00e3o as representa\u00e7\u00f5es, aquilo que est\u00e1 na nossa experi\u00eancia mental quando estamos a viver uma vida real. E ao mesmo tempo uma forma de nos alertarem para aquilo que est\u00e1 a correr bem ou mal no sentido mais amplo do termo: a vida dentro de um organismo. Um organismo vivo, que tem bons momentos e maus momentos, que tem todas as varia\u00e7\u00f5es e flutua\u00e7\u00f5es que v\u00eam do seu metabolismo e que, porque tem mente e tem consci\u00eancia \u2013 que \u00e9 uma coisa que n\u00f3s temos e as bact\u00e9rias n\u00e3o \u2013 vai poder ter acesso a esse relato daquilo que est\u00e1 a correr bem ou mal.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>No livro, fala da consci\u00eancia da morte como definidor dessa humanidade, o sentimento de fim, que faz com que o homem encare a dor de outra maneira. A consci\u00eancia da finitude \u00e9, desse modo, formadora n\u00e3o apenas de uma maneira de estar socialmente, como tamb\u00e9m criadora de uma linguagem. Como \u00e9 que se transp\u00f5e esse saber da morte, muito vezes olhado como transcend\u00eancia, para a ci\u00eancia e muito concretamente para a biologia?\u00a0\u00a0<br \/>Tem sido dif\u00edcil tratar essa quest\u00e3o. Uma das grandes barreiras \u00e9 que a ci\u00eancia, com a sua natural preocupa\u00e7\u00e3o com a objectividade, teve enorme dificuldade em aceitar coisas que parecem extremamente subjectivas e confusas, com muitas varia\u00e7\u00f5es, que \u00e9 dif\u00edcil de agarrar no sentido mais objectivo do termo. O facto de que os sentimentos s\u00e3o naturalmente subjectivos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A ci\u00eancia, com a sua natural preocupa\u00e7\u00e3o com a objectividade, teve enorme dificuldade em aceitar coisas que parecem extremamente subjectivas e confusas, com muitas varia\u00e7\u00f5es<br \/>Isso tem sido mat\u00e9ria dos seus livros.<br \/>Sim,\u00a0ando h\u00e1 20 anos a explicar que sentimentos n\u00e3o s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 extraordin\u00e1ria a resist\u00eancia. As coisas espantosas que dizem&#8230; falam de\u00a0hearts and minds! Esperem um pouco:\u00a0hearts and minds?\u00a0O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o, mas querem mesmo dizer cora\u00e7\u00e3o? E querem mesmo dizer mente sem cora\u00e7\u00e3o? As confus\u00f5es s\u00e3o extraordin\u00e1rias. Mas talvez o ponto mais importante \u00e9 que as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o p\u00fablicas. Quando est\u00e1 contente e se ri, ou quando est\u00e1 triste, quando est\u00e1 irritada tudo isso aparece na sua m\u00e1scara. Aparece no rosto e no corpo. Quando se sente irritada ou triste ou alegre isso aparece unicamente em si. Voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica pessoa que tem acesso a essa informa\u00e7\u00e3o no sentido real. \u00c9 uma experi\u00eancia privada. Voc\u00ea pode simular a representa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas essa distin\u00e7\u00e3o explica em grande parte porque \u00e9 que as pessoas est\u00e3o muito mais confort\u00e1veis quando falam de emo\u00e7\u00e3o: porque \u00e9 p\u00fablico, porque \u00e9 observ\u00e1vel, enquanto os sentimentos t\u00eam de ser observ\u00e1veis por dentro. Mas n\u00e3o est\u00e3o de forma alguma fora do campo da ci\u00eancia. \u00c9 poss\u00edvel a cada um de n\u00f3s fazer as observa\u00e7\u00f5es, fazer o resumo dessas observa\u00e7\u00f5es que \u00e9 um campo cient\u00edfico e filos\u00f3fico a que se chama fenomenologia. Portanto, temos a possibilidade de fazer as nossas pr\u00f3prias observa\u00e7\u00f5es, partilh\u00e1-las com os outros, fazer compara\u00e7\u00f5es e fazer descri\u00e7\u00f5es o mais completas poss\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 qualquer limita\u00e7\u00e3o do ponto de vista cient\u00edfico. N\u00e3o h\u00e1 limita\u00e7\u00e3o da objectividade com que se pode estudar a subjectividade. E \u00e9 isso que as pessoas n\u00e3o compreendem.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Sintetizando, fala de sentimentos e consci\u00eancia, de emo\u00e7\u00f5es, de sensa\u00e7\u00f5es.<br \/>Tr\u00eas coisas diferentes. Sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 o que permite detectar a presen\u00e7a de um est\u00edmulo \u2013 e que as bact\u00e9rias e as plantas tamb\u00e9m t\u00eam\u00a0\u2013 e que gera uma resposta. Depois h\u00e1 certas respostas mais complexas. Em organismos simples, se tocar na criatura ela retrai-se. \u00c9 a mesma reac\u00e7\u00e3o que ter\u00e1 se algu\u00e9m a assustar, uma reac\u00e7\u00e3o emocional. H\u00e1 reac\u00e7\u00f5es conservadas ao longo de bili\u00f5es de anos e que s\u00e3o emocionais, reac\u00e7\u00f5es de movimento. O centro da palavra\u00a0emotion\u00a0\u00e9\u00a0motion. Se algu\u00e9m lhe perguntar a diferen\u00e7a entre emo\u00e7\u00e3o e sentimento agarre-se \u00e0 palavra\u00a0motion; o movimento est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es e se est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es est\u00e1-se do lado daquilo que \u00e9 vis\u00edvel para os outros. Sensa\u00e7\u00e3o, no seu b\u00e1sico, n\u00e3o tem nada a ver com a emo\u00e7\u00e3o propriamente dita. A emo\u00e7\u00e3o \u00e9 uma reposta complexa de movimento em rela\u00e7\u00e3o a um est\u00edmulo que foi sentido e depois h\u00e1 o sentimento, que \u00e9 a experi\u00eancia mental daquilo que se passou no organismo quando houve sensa\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tr\u00eas graus. Um \u00e9 extremamente simples, outro j\u00e1 \u00e9 mais complexo, em que h\u00e1 uma resposta, e ainda um outro em que h\u00e1 o apreender consciente e mental daquilo que foi a resposta e que se passou no organismo. S\u00e3o mundos diferentes.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Se algu\u00e9m lhe perguntar a diferen\u00e7a entre emo\u00e7\u00e3o e sentimento agarre-se \u00e0 palavra &#8216;motion&#8217;; o movimento est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es e se est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es est\u00e1-se do lado daquilo que \u00e9 vis\u00edvel para os outros<br \/>Podemos dizer que estamos no campo da subjectividade. \u00c9 isso que o estimula do ponto de vista cient\u00edfico?<br \/>Sim, \u00e9 extremamente importante. O que eu quero \u00e9 dar objectividade cient\u00edfica \u00e0quilo que \u00e9 uma coisa subjectiva, que \u00e9 no fundo a defini\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Grande parte do problema da consci\u00eancia \u00e9 o problema da subjectividade. \u00c9 por isso, ali\u00e1s, que \u00e9 t\u00e3o extraordinariamente dif\u00edcil de perceber; \u00e9 por isso que as pessoas t\u00eam enormes conflitos e desacordos sobre o que \u00e9 a consci\u00eancia. Cada vez mais estou absolutamente convencido que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir tecnicamente sentimento e consci\u00eancia.\u00a0O sentimento, muito possivelmente, foi o princ\u00edpio da consci\u00eancia do ponto de vista evolutivo. O\u00a0sentimento\u00a0com a sua natural subjectividade e tudo isso se estendeu a outras subjectividades: subjectividade do que est\u00e1 no exterior \u2013 eu tenho subjectividade em rela\u00e7\u00e3o a si neste momento, mas tamb\u00e9m tenho subjectividade em rela\u00e7\u00e3o ao meu interior. Por exemplo, sei neste momento que estou um bocado cansado, fiz uma viagem de 15 horas e estou fora da hora em que deveria estar. Tenho essa subjectividade. E tenho a subjectividade em rela\u00e7\u00e3o a si, \u00e0s paredes desta sala, ao que estou a ouvir atr\u00e1s de mim. O que temos \u00e9 uma grande possibilidade, muito rica, de juntar subjectividades dentro da nossa mente. A nossa mente \u00e9 toda feita de subjectividades.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Esse \u00e9 tamb\u00e9m o campo da arte.<br \/>Sim. E eu sou um apaixonado da literatura. A literatura \u00e9 o modo mais rico, de todos os que temos, de entrar dentro da subjectividade de outra pessoa e de nos fazer perceber o que pode ser a outra pessoa, muito mais do que o cinema, do que o teatro, porque a situa\u00e7\u00e3o em que estamos a ler \u00e9&#8230; devemos estar sozinhos e com um texto que podemos parar a qualquer altura. Pode ler um par\u00e1grafo e parar e pensar e retomar e reler. N\u00e3o pode fazer isso com um filme a n\u00e3o ser que estrague tudo. Tecnicamente pode, mas ningu\u00e9m v\u00ea um filme dessa maneira. A parte da experi\u00eancia de ver um filme \u00e9 v\u00ea-lo na continuidade de um determinado per\u00edodo de tempo.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Como cientista, a literatura pode ser-lhe \u00fatil \u2013 pese a ambiguidade da palavra \u2013 neste estudo?\u00a0 \u00a0\u00a0<br \/>Absolutamente. Tudo \u00e9 \u00fatil, umas coisas mais do que outras, mas a literatura \u00e9 extraordinariamente \u00fatil porque \u00e9 uma entrada muito rica na mente, uma entrada que utiliza a vida subjectiva, os sentimentos. \u00c9 muito curioso, quando se olha para as humanidades de uma forma geral, e para as artes v\u00ea-se como t\u00eam sido laborat\u00f3rios de estudos. As pessoas n\u00e3o se aperceberam ainda de que uma boa parte do que se passa no mundo da grande arte \u00e9 uma esp\u00e9cie de pref\u00e1cio para o estudo cient\u00edfico dos seres humanos. Quando n\u00e3o havia uma estrutura laboratorial cient\u00edfica, as pessoas j\u00e1 estavam a&#8230;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Elaborar?<br \/>A elaborar. E a literatura tem sido um grande contributo. Quando me perguntam qual \u00e9 o maior cientista de sempre respondo: na minha \u00e1rea, \u00e9 Shakespeare.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Est\u00e1 l\u00e1 tudo?<br \/>Praticamente tudo. Pelo menos esbo\u00e7ado. O que se tem \u00e9 de desenvolver. Quer sejam as pe\u00e7as hist\u00f3ricas, as trag\u00e9dias ou as com\u00e9dias, a pr\u00f3pria poesia. Praticamente tudo aquilo que interessa, todos os grandes temas, est\u00e3o l\u00e1. Entre as milhares de coisas que gostaria de escrever \u2013 se calhar n\u00e3o terei tempo \u2013, seria fazer qualquer coisa com a neuroci\u00eancia ou a neurobiologia cognitiva vistas atrav\u00e9s do\u00a0Hamlet\u00a0e do\u00a0Otelo. O\u00a0Hamlet\u00a0\u00e9 praticamente suficiente. \u00c9 t\u00e3o rico e est\u00e1 t\u00e3o cheio daquilo que conta&#8230; E talvez meter o Falstaff pelo meio para ficar mais completo.[risos]<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Praticamente tudo aquilo que interessa, todos os grandes temas, est\u00e3o l\u00e1 [Shakespeare]. Entre as milhares de coisas que gostaria de escrever \u2013 se calhar n\u00e3o terei tempo \u2013, seria fazer qualquer coisa com a neuroci\u00eancia ou a neurobiologia cognitiva vistas atrav\u00e9s do Hamlet e do Otelo<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Um dos cap\u00edtulos do livro \u00e9 sobre a crise do actual, \u201ca actual condi\u00e7\u00e3o humana\u201d. Escreve: \u201cConsiderar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estiv\u00e9ssemos muito distra\u00eddos\u201d. Esta \u201ccrise\u201d tamb\u00e9m \u00e9 causa de uma certa resist\u00eancia de parte de muitos cientistas em incluir as humanidades nas suas investiga\u00e7\u00f5es?<br \/>A resposta \u00e9 que h\u00e1 essa resist\u00eancia, mas n\u00e3o da parte de todos. H\u00e1 tamb\u00e9m quem adopte, quem veja o valor, o interesse, muitas vezes talvez porque na sua pr\u00f3pria vida pessoal percebem que \u00e9 importante e acabam por ser seduzidos por essas possibilidades. Se as pessoas trabalham em \u00e1reas muito microsc\u00f3picas daquilo que \u00e9 a ci\u00eancia, mesmo que seja ci\u00eancia humana, \u00e9 mais dif\u00edcil fazer a passagem directa. E n\u00e3o \u00e9 uma coisa que se deva sequer criticar. \u00c9 perfeitamente compreens\u00edvel. Mas certas pessoas da minha gera\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 de algumas gera\u00e7\u00f5es a seguir, t\u00eam um enorme apre\u00e7o pelas humanidades dentro da ci\u00eancia. N\u00e3o se devem fazer generaliza\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 verdade que tem havido uma certa resist\u00eancia e tamb\u00e9m alguma resist\u00eancia militante. Em certas \u00e1reas, quando pessoas das humanidades olham para o contributo da teoria da evolu\u00e7\u00e3o ou da gen\u00e9tica&#8230; h\u00e1 tantos erros, tanta complica\u00e7\u00e3o, por exemplo a forma como parte desses conhecimentos levou a teorias sobre os seres humanos, da eugenia at\u00e9 aos extremos piores da explora\u00e7\u00e3o racista. Claro que h\u00e1 raz\u00f5es para as pessoas terem tido durante algum tempo uma certa rejei\u00e7\u00e3o e depois muitas vezes tamb\u00e9m t\u00eam o pavor do reducionismo. \u00c9 um grande pavor tamb\u00e9m da parte das humanidades e, portanto, rejeitam que a ci\u00eancia possa trazer alguma coisa de t\u00e3o importante como aquilo que as humanidades t\u00eam trazido em mat\u00e9ria de compreender o que s\u00e3o os seres humanos.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Neste livro levanta duas ou tr\u00eas vezes esse problema&#8230;<br \/>Porque eu n\u00e3o tenho qualquer esp\u00e9cie de desejo de reduzir aquilo que s\u00e3o os seres humanos no seu mais sublime \u00e0 ci\u00eancia abstracta. Pelo contr\u00e1rio. Aquilo que acho, e cada vez acho mais e neste livro \u00e9 a primeira vez que me apercebo, \u00e9 isto: quando se ligam sentimentos \u00e0 cultura, por um lado, e sentimentos \u00e0 homeostasia e aos princ\u00edpios da vida, o que estamos a fazer \u00e9 a enriquecer a liga\u00e7\u00e3o entre a cultura e a vida. Ao contr\u00e1rio de reduzir, estamos a aumentar, a fazer com que esse fio seja mais vis\u00edvel.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A palavra homeostasia cruza todo o livro. Ela \u00e9 completamente definidora do que \u00e9 o humano?<br \/>\u00c9 completamente definidora do que \u00e9 um ser vivo.O ser humano precisa de ter n\u00e3o s\u00f3 os imperativos da homeostasia nos seus aspectos mais complexos, mas tamb\u00e9m desenvolvimentos que v\u00eam com a\u00a0multicelularidade, o aparecimento dos sistemas nervosos e depois o extraordin\u00e1rio desenvolvimento da capacidade dos sentimentos, consci\u00eancia de mente com imagens&#8230;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Sobre a capacidade de criar imagens, escreve que \u201ctodas as imagens do mundo exterior s\u00e3o processadas de forma paralela \u00e0s rea\u00e7\u00f5es afectivas&#8230; &#8220;, e depois apela a um exerc\u00edcio: \u201cpensemos na maravilha alcan\u00e7ada pelo nosso c\u00e9rebro ao lidar com imagens de tantas variedades sensoriais, de origem externa e interna, ao ser capaz de as transformar nos filmes da nossa mente. Em compara\u00e7\u00e3o, a montagem de um filme \u00e9 uma simples brincadeira.\u201d<br \/>Exacto. Mas fa\u00e7o essencialmente uma abordagem cr\u00edtica. Quando no in\u00edcio de tudo me falou da genealogia deste livro, h\u00e1 v\u00e1rios temas que venho a tratar h\u00e1 muitos anos, mas que agora me parecem, alguns, perfeitamente claros, e em que tamb\u00e9m tenho a coragem de dizer exactamente aquilo que penso sem estar com rodeios por poder ofender algu\u00e9m que achasse que era pateta e novo de mais para estar a dizer coisas. Agora j\u00e1 posso dizer tudo o que me apetece.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pode-se dizer que os sentimentos s\u00e3o fundadores da ci\u00eancia?<br \/>Possivelmente s\u00e3o. S\u00e3o pelo menos motivadores. Neste livro h\u00e1 tr\u00eas pap\u00e9is que dou aos sentimentos, ou ao afecto em geral. Primeiro, motivadores, depois monitores e depois negociadores. Os sentimentos interv\u00eam nesses tr\u00eas pontos. S\u00e3o coisas diferentes. Uma \u00e9 motivar, outra \u00e9 a monitoriza\u00e7\u00e3o e a outra \u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o de quando as coisas correm mal ou bem de mais. H\u00e1 constantemente ajustes. H\u00e1 pessoas que perante dois advogados a discutirem um contrato ou dois pol\u00edticos a discutirem um tratado s\u00e3o capazes de pensar que isso est\u00e1 a acontecer num plano puramente intelectual; n\u00e3o est\u00e1. Acontece num plano intelectual e acontece com toda a mir\u00edade de altera\u00e7\u00f5es que t\u00eam a ver com a forma como uma das pessoas apresenta o argumento e como a outra o recebe. Tudo isso \u00e9 uma negocia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a ser feita n\u00e3o s\u00f3 num plano de conhecimento e raz\u00e3o, coisas que se podem dizer objectivas e frias, mas tamb\u00e9m nesse outro plano que tem a ver com a forma como a negocia\u00e7\u00e3o est\u00e1 a correr do ponto de vista afectivo. Essa \u00e9 a realidade. Tem o exemplo espectacular do que se tem estado a passar nestes \u00faltimos dois anos com movimentos de populismo, de racismo em toda a parte. Muitas vezes, a forma como esses problemas s\u00e3o apresentados gera reac\u00e7\u00f5es de zanga e protesto puramente emocionais. Uma das coisas extraordinariamente curiosas \u00e9 que quando as pessoas falam de emo\u00e7\u00f5es falam quase sempre do ponto de vista negativo das emo\u00e7\u00f5es. Muitas vezes acham que h\u00e1 o lado objectivo, o do bom racioc\u00ednio, e depois as emo\u00e7\u00f5es, m\u00e1s, que tornam as coisas irracionais. \u00c9 um disparate completo, porque \u00e9 limitar o \u00e2mbito das emo\u00e7\u00f5es ao negativo. H\u00e1 emo\u00e7\u00f5es muito positivas; ter compaix\u00e3o, gratid\u00e3o, desejo de ajudar, cooperar. O amor! o desejo pelo amante, o amor pela crian\u00e7a que se est\u00e1 a criar.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Muitas vezes acham que h\u00e1 o lado objectivo, o do bom racioc\u00ednio, e depois as emo\u00e7\u00f5es, m\u00e1s, que tornam as coisas irracionais. \u00c9 um disparate completo, porque \u00e9 limitar o \u00e2mbito das emo\u00e7\u00f5es ao negativo<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00c9 desse preconceito que vem a distin\u00e7\u00e3o entre intelig\u00eancia e intelig\u00eancia emocional?<br \/>Sim. As emo\u00e7\u00f5es muitas vezes ajudam a tomar a decis\u00e3o e muitas vezes trazem o conhecimento, o discernimento, o destilar de uma s\u00e9rie de conhecimentos que temos, uma vez que foram aplicados e qualificados. A intui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma maneira de fazer linha recta para a solu\u00e7\u00e3o do problema sem andar por todas as fases interm\u00e9dias. Essa intui\u00e7\u00e3o vem de uma forma emocional. Tudo isto tem imensa gra\u00e7a. As pessoas que descobriram o\u00a0big data\u00a0falam de como um grupo de computadores pode ler uma enorme quantidade de dados e tirar uma conclus\u00e3o extremamente nova, verificando que aquilo \u00e9 o que se deve fazer. Mas isso que o computador est\u00e1 a fazer \u00e9 aquilo que a intui\u00e7\u00e3o humana faz h\u00e1 milh\u00f5es de anos. O nosso c\u00e9rebro \u00e9 um\u00a0big data system\u00a0que tem imenso conhecimento do que \u00e9 a nossa vida interior fisiol\u00f3gica e sobre o que \u00e9, e tem sido, a nossa vida em geral. E esse\u00a0big data system\u00a0est\u00e1 constantemente a dar-nos um dado institucional que \u00e9 extremamente importante para a nossa vida. Tudo isso vem do lado das emo\u00e7\u00f5es e faz parte do que se poderia chamar intelig\u00eancia emocional. N\u00e3o uso o nome porque n\u00e3o acho que haja uma intelig\u00eancia emocional e uma n\u00e3o emocional. H\u00e1 intelig\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Come\u00e7a o cap\u00edtulo dedicado \u00e0 crise actual dizendo que nunca tivemos tanta informa\u00e7\u00e3o\u00a0nem tanta possibilidade de sermos felizes, mas&#8230; E critica os\u00a0media\u00a0p\u00fablicos e o seu modelo lucrativo de neg\u00f3cio, reduzindo a qualidade de informa\u00e7\u00e3o; questiona o valor de entretenimento aplicado \u00e0 hist\u00f3ria jornal\u00edstica e afirma: &#8220;Embora a literacia cient\u00edfica e t\u00e9cnica nunca tenha estado t\u00e3o desenvolvida, o p\u00fablico dedica muito pouco tempo \u00e0 leitura de romances ou de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na com\u00e9dia e no drama da exist\u00eancia, e de ter oportunidade de reflectir sobre aquilo que somos ou podemos vir a ser. Ao que parece n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder com a quest\u00e3o pouco lucrativa de, pura e simplesmente, ser.\u201d Que cultura \u00e9 esta que parece rejeitar a cria\u00e7\u00e3o de pensamento e se fica pela emo\u00e7\u00e3o?<br \/>Historicamente, quando se v\u00ea o que tem sido a marcha dos seres vivos, h\u00e1 coisas que s\u00e3o previs\u00edveis e outras que n\u00e3o s\u00e3o. E depois h\u00e1 certas coisas que acontecem, em que as pessoas n\u00e3o apreendem nem prev\u00eaem as consequ\u00eancias. O que se est\u00e1 a passar, por exemplo com a Internet e as redes sociais, \u00e9 uma entrada extremamente larga dentro das mentes. \u00c9 uma coisa que entra dentro de n\u00f3s e que tem o poder de modificar a forma como pensamos e nos comportamos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A sociabiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>Exacto. H\u00e1 uma entrada dentro do que somos do ponto de vista mental a um n\u00edvel completamente diferente de outras tecnologias. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente\u00a0um telefone. \u00c9 o telefone e a possibilidade de entrar num mundo de conhecimento de forma imediata. Ter essa informa\u00e7\u00e3o toda \u00e9 extraordin\u00e1rio mas o que temos de pensar \u00e9 o que acontece com as pessoas que s\u00f3 t\u00eam vivido com isso e n\u00e3o tiveram a possibilidade de se desenvolver com mais dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao que se est\u00e1 a passar nessa rapidez de tecnologia. H\u00e1\u00a0tamb\u00e9m o problema do que vai acontecer quando as pessoas ficarem sem tempo para reflectir sobre o que est\u00e3o a viver. V\u00e3o ter a possibilidade de ter tudo muito rapidamente, a quantidade de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme e a maneira de resolver os conflitos tem de ser diferente. E vai ser mais complicada porque n\u00e3o h\u00e1 tempo para o discernimento. \u00c9 poss\u00edvel fazer o contra-argumento: \u00e9 o problema que temos por sermos de uma gera\u00e7\u00e3o anterior e n\u00e3o termos crescido com isso, e os c\u00e9rebros das pessoas que j\u00e1 cresceram com isso est\u00e3o adaptados. Isso \u00e9 verdade em parte, mas n\u00e3o quer dizer que essas novas pessoas que cresceram dessa maneira n\u00e3o tenham ao mesmo tempo reduzido a sua possibilidade de olhar para o mundo de uma forma mais calma e mais completa e reflectida. \u00c9 um problema em aberto, que tem de ser estudado, e n\u00e3o o tem sido porque tudo est\u00e1 a acontecer agora.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Usa as express\u00f5es \u201cbancarrota espiritual\u201d e \u201cbancarrota moral\u201d para classificar o que est\u00e1 a acontecer.\u00a0<br \/>E poderia juntar aqui a\u00a0trigger warning,\u00a0que est\u00e1 ligada a tudo isso. Por exemplo, numa aula pode haver uma discuss\u00e3o sobre viol\u00eancia ou sobre sexo e um aluno levanta a m\u00e3o a dizer\u00a0trigger warning, i dont feel safe anymore. \u00c9 uma concep\u00e7\u00e3o da vida como se a pessoa pudesse viver protegida de tudo o que n\u00e3o \u00e9 conveniente e, ao mesmo tempo, ficar sem a possibilidade de perceber o que se est\u00e1 a passar e de se defender inteligentemente. O presidente actual da Universidade de Chicago tem escrito sobre isso e diz que eles rejeitam isso ao abrigo do\u00a0trigger warning\u00a0e isso \u00e9 uma remo\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e n\u00f3s, como universidade, n\u00e3o vamos deixar que os nossos estudantes sejam amputados e fiquem sem a possibilidade de responder inteligentemente \u00e0s amea\u00e7as. Tudo isto s\u00e3o problemas para serem estudados. \u00c9 relativamente f\u00e1cil olhar para a situa\u00e7\u00e3o e reconhecer que o progresso \u00e9 extraordin\u00e1rio, as possibilidades s\u00e3o magn\u00edficas e ao mesmo tempo tamb\u00e9m temos de reconhecer que precisam de ser estudadas para ver se podem correr melhor. As raz\u00f5es pelas quais as coisas n\u00e3o correm bem ser\u00e3o imensas mas h\u00e1 possibilidades. A quest\u00e3o que referia h\u00e1 pouco, do ser, \u00e9 t\u00e3o importante e parte do pressuposto de se conseguir estar consigo pr\u00f3prio e observar a maravilha da exist\u00eancia sem preocupa\u00e7\u00f5es com aquilo que vem antes ou depois. \u00c9 uma capacidade unicamente humana.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Estamos h\u00e1 muito tempo a conversar e pergunto-lhe o que \u00e9 que isto tudo tem a ver com biologia?<br \/>H\u00e1 biologia em variad\u00edssimas \u00e1reas. A biologia no que diz respeito \u00e0 nossa viol\u00eancia ancestral. Somos primatas, a nossa heran\u00e7a \u00e9 a de animais&#8230; e trazemos a autodestrui\u00e7\u00e3o connosco. Falo de Freud e da ideia de auto-destrui\u00e7\u00e3o. Ele chama a aten\u00e7\u00e3o para uma coisa que \u00e9 muito real\u00a0 e que as pessoas muitas vezes querem esquecer: a ideia de que somos capazes de viol\u00eancia. E h\u00e1 uma ideia que \u00e9 consequente a essa e tem a ver com a educa\u00e7\u00e3o, com o facto de que a \u00fanica maneira de resolver o problema da nossa viol\u00eancia natural e de como naturalmente as pessoas querem estar com aqueles que s\u00e3o parecidos e n\u00e3o com os diferentes. Tem de haver um plano de educa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1rio, uma esp\u00e9cie de super-plano de investimento global que n\u00e3o tem sido feito por raz\u00f5es que s\u00e3o tamb\u00e9m hist\u00f3ricas e sociopol\u00edticas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O mundo \u00e9 dividido, depois h\u00e1 uma crise econ\u00f3mica, uma crise pol\u00edtica que leva a migra\u00e7\u00f5es, essas migra\u00e7\u00f5es trazem dificuldades e h\u00e1 reac\u00e7\u00f5es contra e n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de coordenar globalmente um plano educacional. Para mim n\u00e3o \u00e9 uma ideia m\u00edtica, acho poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel s\u00f3 com as Na\u00e7\u00f5es Unidas. Tem sido poss\u00edvel em certos per\u00edodos. Os Estados Unidos, com todos os seus problemas, tiveram uma ac\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria no p\u00f3s-guerra. H\u00e1 um per\u00edodo que n\u00e3o \u00e9 de paz completa, em que houve um investimento em reconstruir pa\u00edses e permitir que houvesse um alargamento da educa\u00e7\u00e3o e da maneira de compreender outros que s\u00e3o diferentes. \u00c9 uma grande projecto que, em parte, funcionou, tem funcionado, mas que neste momento est\u00e1 a ser amea\u00e7ado.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>J\u00e1 viveu no Iowa, em Chicago, agora vive em Los Angeles. Da sua experi\u00eancia pessoal, as diferen\u00e7as acentuaram-se entre esses tr\u00eas mundos geogr\u00e1ficos. H\u00e1 um pa\u00eds muito dividido. Um centro que se sente esquecido e as margens liberais.<br \/>H\u00e1 muitas semelhan\u00e7as com as experi\u00eancias europeias. Nos EUA \u00e9 uma coisa mais org\u00e2nica. Sempre tiveram enormes divis\u00f5es geogr\u00e1ficas. H\u00e1 uma narrativa hist\u00f3rica que conseguiu compensar e impor um bom funcionamento em conjunto \u00e0 volta de certos mitos e neste momento h\u00e1 uma fragilidade das rela\u00e7\u00f5es, h\u00e1 fen\u00f3menos econ\u00f3micos extraordinariamente importantes e h\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o de tempos diferentes em diversas comunidades. Mas veja a Europa, encontra exactamente os mesmos problemas \u2013 que na Europa s\u00e3o muito velhos e um pouco esquecidos. Isso est\u00e1 dentro do que s\u00e3o os seres humanos; os seres humanos a criarem um grupo, uma hist\u00f3ria com determinados h\u00e1bitos, determinadas prefer\u00eancias e a forma como aceitam, ou n\u00e3o, que isso possa ser suplantando.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong>: Isabel Lucas, R. (2019).\u00a0&#8220;Quando me perguntam qual \u00e9 o maior cientista de sempre, respondo: na minha \u00e1rea, \u00e9 Shakespeare&#8221;.\u00a0P\u00daBLICO. Retrieved 23 July 2019, from <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2017\/11\/05\/ciencia\/entrevista\/antonio-damasio-1791116\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.publico.pt\/2017\/11\/05\/ciencia\/entrevista\/antonio-damasio-1791116<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/rede-de-bibliotecas-escolares\/embed\/episodes\/Antonio-Damasio---A-diferenca-entre-emocao-e-sentimento-e4n86v\" width=\"400px\" height=\"102px\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" loading=\"lazy\"><\/iframe><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Conte\u00fado relacionado:<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2017-11-05-A-vida-dos-sentimentos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A vida dos sentimentos<\/a> | expresso<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.rtp.pt\/noticias\/pais\/antonio-damasio-visita-escola-homonima_v878788\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio visita escola hom\u00f3nima<\/a> | rtp<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2010\/10\/18\/ciencia\/noticia\/antonio-damasio-o-neurocientista-poe-a-mao-na-consciencia-1461526\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio: o neurocientista p\u00f5e a m\u00e3o na consci\u00eancia<\/a> | p\u00fablico<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"\/rbe\/Ant%C3%83%EF%BF%BD%C3%86%EF%BF%BD%C3%83%EF%BF%BD%C3%82%EF%BF%BDnio%20Dam%C3%83%EF%BF%BD%C3%86%EF%BF%BD%C3%83%EF%BF%BD%C3%82%C2%A1sio%20na%20Wikip%C3%83%EF%BF%BD%C3%86%EF%BF%BD%C3%83%EF%BF%BD%C3%82%C2%A9dia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio<\/a> na Wikip\u00e9dia<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.rtp.pt\/noticias\/pais\/antonio-damasio-diz-que-a-tecnologia-esta-a-mudar-o-nosso-cerebro_v742011\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio diz que a tecnologia est\u00e1 a mudar o nosso c\u00e9rebro<\/a> | rtp<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.ipv.pt\/millenium\/ect2_mjf.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">AN\u00c1LISE CR\u00cdTICA DA OBRA DE ANT\u00d3NIO DAM\u00c1SIO &#8220;O ERRO DE DESCARTES&#8221;<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/li>\n<p><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Lucas (Texto) e Rui Gaud\u00eancio (Fotografia) \u00a0 &#8220;Quando me perguntam qual \u00e9 o maior cientista de sempre, respondo: na minha \u00e1rea, \u00e9 Shakespeare&#8221; Cada vez mais bi\u00f3logo e menos neurocientista, Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio insiste nas humanidades para formar homens e cientistas. No seu mais recente livro d\u00e1 primazia aos sentimentos como formadores de consci\u00eancia e motor da ci\u00eancia, e refere a necessidade de um pacto global sobre educa\u00e7\u00e3o. O que leva um estudante a levantar a m\u00e3o quando o professor lhe fala de um tema que o intimida? Como reagir\u00e3o as gera\u00e7\u00f5es que cresceram com as redes sociais, quando precisarem de tempo, mais tempo, do que o imediato? Estamos a viver uma crise na actual condi\u00e7\u00e3o humana diz Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio no seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas, que d\u00e1 prioridade aos sentimentos. Na vida, na ci\u00eancia, na cultura. Horas depois de aterrar em Lisboa n\u00e3o esconde a emo\u00e7\u00e3o perante a edi\u00e7\u00e3o portuguesa da Temas e Debates. Sorri. Pega no livro de quase 400 p\u00e1ginas, olha a contracapa e retrai a vontade imediata de ver tudo ali. Mais tarde confessar\u00e1 que \u00e9 um chato com o portugu\u00eas. Escreve em ingl\u00eas, pensa em ingl\u00eas, mas o portugu\u00eas \u00e9 a sua l\u00edngua. Quando, ao longo da conversa, na oralidade, lhe sai um voc\u00e1bulo em ingl\u00eas trata de arranjar a tradu\u00e7\u00e3o certa, sobretudo se for para descrever um sentimento. \u00c9 que s\u00e3o os sentimentos o que est\u00e1 antes de tudo no livro que dedica \u00e0 sua mulher, Hanna Dam\u00e1sio, e na conversa onde haver\u00e1 de dizer, j\u00e1 desligado o gravador, que tamb\u00e9m fala alem\u00e3o e namora em italiano. &#8220;\u00c9 a l\u00edngua do amor&#8221;, refere. Como aprendeu? &#8220;A ouvir as \u00f3peras de Verdi.&#8221;\u00a0 \u00a0 Os irm\u00e3os Morgado levaram a cidade para dentro da Casa do Av\u00f4 MartinhoCome\u00e7a este livro, que vem na continuidade dos anteriores, por esclarecer o que chama de uma \u201cideia simples\u201d, \u201ccomo usamos os sentimentos para construir a nossa personalidade\u201d. Pe\u00e7o-lhe que descreva, brevemente, o protagonista deste\u00a0A Estranha Ordem das Coisas, os sentimentos?H\u00e1 a realidade cient\u00edfica daquilo que penso que s\u00e3o os sentimentos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma mais alargada ligada a um tema que estamos [com a mulher, Hanna Dam\u00e1sio] a tratar por estes dias para uma confer\u00eancia sobre \u00e9tica. Parte dos sentimentos que temos como experi\u00eancia t\u00eam a ver com as coisas mais valiosas da nossa vida; com todas as coisas sobre as quais podemos ter uma val\u00eancia, as que verdadeiramente contam: vida, doen\u00e7a, dor, sofrimento, morte, desejo, amor, cuidado com o outros [to care]. E, ao mesmo tempo, crimes, medos, raivas, \u00f3dios, que t\u00eam a ver com o contr\u00e1rio das boas coisas da vida e que podem levar \u00e0 perda [da vida], e, se n\u00e3o \u00e0 perda da vida, ao sofrimento. Praticamente todas as coisas que governam ou desgovernam a nossa vida s\u00e3o normalmente transmitidas por uma val\u00eancia de bom ou mau; de agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, de recompensa ou puni\u00e7\u00e3o. S\u00e3o essas que constituem o grande personagem dos sentimentos. Os sentimentos s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es do estado da nossa vida, mas representa\u00e7\u00f5es qualificadas. Um dos problemas que mais me inquietam\u00a0\u00e9 essa impossibilidade que as pessoas t\u00eam tido de perceber que a intelig\u00eancia \u2013 ou a nossa mente \u2013 vai s\u00f3 at\u00e9 um certo ponto e a partir da\u00ed tem de ter uma qualifica\u00e7\u00e3o. Essa qualifica\u00e7\u00e3o aparece em termos de agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, de bom ou de mau, e \u00e9 isso que faz a grande distin\u00e7\u00e3o entre a intelig\u00eancia humana no sentido mais completo e a mente humana. \u00c0 intelig\u00eancia artificial, por exemplo, falta isso. Infelizmente as pessoas n\u00e3o se t\u00eam dado conta. Sou um adepto de intelig\u00eancia artificial e tudo o que esse campo de tecnologia e de ci\u00eancia nos tem trazido, mas \u00e9 pena que poucas pessoas dentro desse mundo tenham compreendido que a intelig\u00eancia artificial tal como \u00e9 compreendida \u00e9 uma p\u00e1lida ideia daquilo que \u00e9 a intelig\u00eancia humana no seu real.\u00a0\u00a0 Ou seja, o humano, muito por via dos sentimentos, n\u00e3o pode ser replicado artificialmente.De certeza que n\u00e3o pode ser nem simulado! H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre simula\u00e7\u00e3o e duplica\u00e7\u00e3o. O que a intelig\u00eancia artificial faz, e muito bem, \u00e9 uma simula\u00e7\u00e3o, e com capacidades extraordin\u00e1rias, muito superiores \u00e0quelas que temos. A capacidade de intelig\u00eancia no sentido mais directo e algor\u00edtmico que temos hoje em dia em mat\u00e9ria de mem\u00f3ria, de estrat\u00e9gias de racioc\u00ednio \u00e9 extraordin\u00e1ria. Faltam \u00e9 essas outras qualidades que temos na nossa intelig\u00eancia e que s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rias e extremamente realistas, porque t\u00eam a ver com aquilo que a vida \u00e9. Enquanto a vida concebida no sentido da intelig\u00eancia artificial n\u00e3o tem nada a ver com aquilo que a vida \u00e9. A vida \u00e9 outra coisa. E o que \u00e9 a vida?\u00c9 uma coisa vener\u00e1vel, confusa, efusiva. A\u00a0grande arte d\u00e1-nos isso e a grande literatura d\u00e1 isso extraordinariamente. Quando n\u00e3o se inclui essa componente de confus\u00e3o, efusividade, aquilo que pode ser qualific\u00e1vel de bom ou de mau, perde-se uma grande parte do que \u00e9 a vida. Por isso, e para acrescentar uma nota \u00e0 sua pergunta anterior, os sentimentos como personagem s\u00e3o as representa\u00e7\u00f5es, aquilo que est\u00e1 na nossa experi\u00eancia mental quando estamos a viver uma vida real. E ao mesmo tempo uma forma de nos alertarem para aquilo que est\u00e1 a correr bem ou mal no sentido mais amplo do termo: a vida dentro de um organismo. Um organismo vivo, que tem bons momentos e maus momentos, que tem todas as varia\u00e7\u00f5es e flutua\u00e7\u00f5es que v\u00eam do seu metabolismo e que, porque tem mente e tem consci\u00eancia \u2013 que \u00e9 uma coisa que n\u00f3s temos e as bact\u00e9rias n\u00e3o \u2013 vai poder ter acesso a esse relato daquilo que est\u00e1 a correr bem ou mal.\u00a0 No livro, fala da consci\u00eancia da morte como definidor dessa humanidade, o sentimento de fim, que faz com que o homem encare a dor de outra maneira. A consci\u00eancia da finitude \u00e9, desse modo, formadora n\u00e3o apenas de uma maneira de estar socialmente, como tamb\u00e9m criadora de uma linguagem. Como \u00e9 que se transp\u00f5e esse saber da morte, muito vezes olhado como transcend\u00eancia, para a ci\u00eancia e muito concretamente para a biologia?\u00a0\u00a0Tem sido dif\u00edcil tratar essa quest\u00e3o. Uma das grandes barreiras \u00e9 que a ci\u00eancia, com a sua natural preocupa\u00e7\u00e3o com a objectividade, teve enorme dificuldade em aceitar coisas que parecem extremamente subjectivas e confusas, com muitas varia\u00e7\u00f5es, que \u00e9 dif\u00edcil de agarrar no sentido mais objectivo do termo. O facto de que os sentimentos s\u00e3o naturalmente subjectivos. A ci\u00eancia, com a sua natural preocupa\u00e7\u00e3o com a objectividade, teve enorme dificuldade em aceitar coisas que parecem extremamente subjectivas e confusas, com muitas varia\u00e7\u00f5esIsso tem sido mat\u00e9ria dos seus livros.Sim,\u00a0ando h\u00e1 20 anos a explicar que sentimentos n\u00e3o s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 extraordin\u00e1ria a resist\u00eancia. As coisas espantosas que dizem&#8230; falam de\u00a0hearts and minds! Esperem um pouco:\u00a0hearts and minds?\u00a0O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o, mas querem mesmo dizer cora\u00e7\u00e3o? E querem mesmo dizer mente sem cora\u00e7\u00e3o? As confus\u00f5es s\u00e3o extraordin\u00e1rias. Mas talvez o ponto mais importante \u00e9 que as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o p\u00fablicas. Quando est\u00e1 contente e se ri, ou quando est\u00e1 triste, quando est\u00e1 irritada tudo isso aparece na sua m\u00e1scara. Aparece no rosto e no corpo. Quando se sente irritada ou triste ou alegre isso aparece unicamente em si. Voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica pessoa que tem acesso a essa informa\u00e7\u00e3o no sentido real. \u00c9 uma experi\u00eancia privada. Voc\u00ea pode simular a representa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas essa distin\u00e7\u00e3o explica em grande parte porque \u00e9 que as pessoas est\u00e3o muito mais confort\u00e1veis quando falam de emo\u00e7\u00e3o: porque \u00e9 p\u00fablico, porque \u00e9 observ\u00e1vel, enquanto os sentimentos t\u00eam de ser observ\u00e1veis por dentro. Mas n\u00e3o est\u00e3o de forma alguma fora do campo da ci\u00eancia. \u00c9 poss\u00edvel a cada um de n\u00f3s fazer as observa\u00e7\u00f5es, fazer o resumo dessas observa\u00e7\u00f5es que \u00e9 um campo cient\u00edfico e filos\u00f3fico a que se chama fenomenologia. Portanto, temos a possibilidade de fazer as nossas pr\u00f3prias observa\u00e7\u00f5es, partilh\u00e1-las com os outros, fazer compara\u00e7\u00f5es e fazer descri\u00e7\u00f5es o mais completas poss\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 qualquer limita\u00e7\u00e3o do ponto de vista cient\u00edfico. N\u00e3o h\u00e1 limita\u00e7\u00e3o da objectividade com que se pode estudar a subjectividade. E \u00e9 isso que as pessoas n\u00e3o compreendem. Sintetizando, fala de sentimentos e consci\u00eancia, de emo\u00e7\u00f5es, de sensa\u00e7\u00f5es.Tr\u00eas coisas diferentes. Sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 o que permite detectar a presen\u00e7a de um est\u00edmulo \u2013 e que as bact\u00e9rias e as plantas tamb\u00e9m t\u00eam\u00a0\u2013 e que gera uma resposta. Depois h\u00e1 certas respostas mais complexas. Em organismos simples, se tocar na criatura ela retrai-se. \u00c9 a mesma reac\u00e7\u00e3o que ter\u00e1 se algu\u00e9m a assustar, uma reac\u00e7\u00e3o emocional. H\u00e1 reac\u00e7\u00f5es conservadas ao longo de bili\u00f5es de anos e que s\u00e3o emocionais, reac\u00e7\u00f5es de movimento. O centro da palavra\u00a0emotion\u00a0\u00e9\u00a0motion. Se algu\u00e9m lhe perguntar a diferen\u00e7a entre emo\u00e7\u00e3o e sentimento agarre-se \u00e0 palavra\u00a0motion; o movimento est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es e se est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es est\u00e1-se do lado daquilo que \u00e9 vis\u00edvel para os outros. Sensa\u00e7\u00e3o, no seu b\u00e1sico, n\u00e3o tem nada a ver com a emo\u00e7\u00e3o propriamente dita. A emo\u00e7\u00e3o \u00e9 uma reposta complexa de movimento em rela\u00e7\u00e3o a um est\u00edmulo que foi sentido e depois h\u00e1 o sentimento, que \u00e9 a experi\u00eancia mental daquilo que se passou no organismo quando houve sensa\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tr\u00eas graus. Um \u00e9 extremamente simples, outro j\u00e1 \u00e9 mais complexo, em que h\u00e1 uma resposta, e ainda um outro em que h\u00e1 o apreender consciente e mental daquilo que foi a resposta e que se passou no organismo. S\u00e3o mundos diferentes. Se algu\u00e9m lhe perguntar a diferen\u00e7a entre emo\u00e7\u00e3o e sentimento agarre-se \u00e0 palavra &#8216;motion&#8217;; o movimento est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es e se est\u00e1 do lado das emo\u00e7\u00f5es est\u00e1-se do lado daquilo que \u00e9 vis\u00edvel para os outrosPodemos dizer que estamos no campo da subjectividade. \u00c9 isso que o estimula do ponto de vista cient\u00edfico?Sim, \u00e9 extremamente importante. O que eu quero \u00e9 dar objectividade cient\u00edfica \u00e0quilo que \u00e9 uma coisa subjectiva, que \u00e9 no fundo a defini\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Grande parte do problema da consci\u00eancia \u00e9 o problema da subjectividade. \u00c9 por isso, ali\u00e1s, que \u00e9 t\u00e3o extraordinariamente dif\u00edcil de perceber; \u00e9 por isso que as pessoas t\u00eam enormes conflitos e desacordos sobre o que \u00e9 a consci\u00eancia. Cada vez mais estou absolutamente convencido que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir tecnicamente sentimento e consci\u00eancia.\u00a0O sentimento, muito possivelmente, foi o princ\u00edpio da consci\u00eancia do ponto de vista evolutivo. O\u00a0sentimento\u00a0com a sua natural subjectividade e tudo isso se estendeu a outras subjectividades: subjectividade do que est\u00e1 no exterior \u2013 eu tenho subjectividade em rela\u00e7\u00e3o a si neste momento, mas tamb\u00e9m tenho subjectividade em rela\u00e7\u00e3o ao meu interior. Por exemplo, sei neste momento que estou um bocado cansado, fiz uma viagem de 15 horas e estou fora da hora em que deveria estar. Tenho essa subjectividade. E tenho a subjectividade em rela\u00e7\u00e3o a si, \u00e0s paredes desta sala, ao que estou a ouvir atr\u00e1s de mim. O que temos \u00e9 uma grande possibilidade, muito rica, de juntar subjectividades dentro da nossa mente. A nossa mente \u00e9 toda feita de subjectividades.\u00a0 Esse \u00e9 tamb\u00e9m o campo da arte.Sim. E eu sou um apaixonado da literatura. A literatura \u00e9 o modo mais rico, de todos os que temos, de entrar dentro da subjectividade de outra pessoa e de nos fazer perceber o que pode ser a outra pessoa, muito mais do que o cinema, do que o teatro, porque a situa\u00e7\u00e3o em que estamos a ler \u00e9&#8230; devemos estar sozinhos e com um texto que podemos parar a qualquer altura. Pode ler um par\u00e1grafo e parar e pensar e retomar e reler. N\u00e3o pode fazer isso com um filme a n\u00e3o ser que estrague tudo. Tecnicamente pode, mas ningu\u00e9m v\u00ea um filme dessa maneira. A parte da experi\u00eancia de ver um filme \u00e9 v\u00ea-lo na continuidade de um determinado per\u00edodo de tempo.\u00a0 Como cientista, a literatura pode ser-lhe \u00fatil \u2013 pese a ambiguidade da palavra \u2013 neste estudo?\u00a0 \u00a0\u00a0Absolutamente. Tudo \u00e9 \u00fatil, umas coisas mais do que outras, mas a literatura \u00e9 extraordinariamente \u00fatil porque \u00e9 uma entrada muito rica na mente, uma entrada que utiliza a vida subjectiva, os sentimentos. \u00c9 muito curioso, quando se olha para as humanidades de uma forma geral, e para as artes v\u00ea-se como t\u00eam sido laborat\u00f3rios de estudos. As pessoas n\u00e3o se aperceberam ainda de que uma boa parte do que se passa no mundo da grande arte \u00e9 uma esp\u00e9cie de pref\u00e1cio para o estudo cient\u00edfico dos seres humanos. Quando n\u00e3o havia uma estrutura laboratorial cient\u00edfica, as pessoas j\u00e1 estavam a&#8230; Elaborar?A elaborar. E a literatura tem sido um grande contributo. Quando me perguntam qual \u00e9 o maior cientista de sempre respondo: na minha \u00e1rea, \u00e9 Shakespeare.\u00a0 Est\u00e1 l\u00e1 tudo?Praticamente tudo. Pelo menos esbo\u00e7ado. O que se tem \u00e9 de desenvolver. Quer sejam as pe\u00e7as hist\u00f3ricas, as trag\u00e9dias ou as com\u00e9dias, a pr\u00f3pria poesia. Praticamente tudo aquilo que interessa, todos os grandes temas, est\u00e3o l\u00e1. Entre as milhares de coisas que gostaria de escrever \u2013 se calhar n\u00e3o terei tempo \u2013, seria fazer qualquer coisa com a neuroci\u00eancia ou a neurobiologia cognitiva vistas atrav\u00e9s do\u00a0Hamlet\u00a0e do\u00a0Otelo. O\u00a0Hamlet\u00a0\u00e9 praticamente suficiente. \u00c9 t\u00e3o rico e est\u00e1 t\u00e3o cheio daquilo que conta&#8230; E talvez meter o Falstaff pelo meio para ficar mais completo.[risos] Praticamente tudo aquilo que interessa, todos os grandes temas, est\u00e3o l\u00e1 [Shakespeare]. Entre as milhares de coisas que gostaria de escrever \u2013 se calhar n\u00e3o terei tempo \u2013, seria fazer qualquer coisa com a neuroci\u00eancia ou a neurobiologia cognitiva vistas atrav\u00e9s do Hamlet e do Otelo Um dos cap\u00edtulos do livro \u00e9 sobre a crise do actual, \u201ca actual condi\u00e7\u00e3o humana\u201d. Escreve: \u201cConsiderar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estiv\u00e9ssemos muito distra\u00eddos\u201d. Esta \u201ccrise\u201d tamb\u00e9m \u00e9 causa de uma certa resist\u00eancia de parte de muitos cientistas em incluir as humanidades nas suas investiga\u00e7\u00f5es?A resposta \u00e9 que h\u00e1 essa resist\u00eancia, mas n\u00e3o da parte de todos. H\u00e1 tamb\u00e9m quem adopte, quem veja o valor, o interesse, muitas vezes talvez porque na sua pr\u00f3pria vida pessoal percebem que \u00e9 importante e acabam por ser seduzidos por essas possibilidades. Se as pessoas trabalham em \u00e1reas muito microsc\u00f3picas daquilo que \u00e9 a ci\u00eancia, mesmo que seja ci\u00eancia humana, \u00e9 mais dif\u00edcil fazer a passagem directa. E n\u00e3o \u00e9 uma coisa que se deva sequer criticar. \u00c9 perfeitamente compreens\u00edvel. Mas certas pessoas da minha gera\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 de algumas gera\u00e7\u00f5es a seguir, t\u00eam um enorme apre\u00e7o pelas humanidades dentro da ci\u00eancia. N\u00e3o se devem fazer generaliza\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 verdade que tem havido uma certa resist\u00eancia e tamb\u00e9m alguma resist\u00eancia militante. Em certas \u00e1reas, quando pessoas das humanidades olham para o contributo da teoria da evolu\u00e7\u00e3o ou da gen\u00e9tica&#8230; h\u00e1 tantos erros, tanta complica\u00e7\u00e3o, por exemplo a forma como parte desses conhecimentos levou a teorias sobre os seres humanos, da eugenia at\u00e9 aos extremos piores da explora\u00e7\u00e3o racista. Claro que h\u00e1 raz\u00f5es para as pessoas terem tido durante algum tempo uma certa rejei\u00e7\u00e3o e depois muitas vezes tamb\u00e9m t\u00eam o pavor do reducionismo. \u00c9 um grande pavor tamb\u00e9m da parte das humanidades e, portanto, rejeitam que a ci\u00eancia possa trazer alguma coisa de t\u00e3o importante como aquilo que as humanidades t\u00eam trazido em mat\u00e9ria de compreender o que s\u00e3o os seres humanos.\u00a0 Neste livro levanta duas ou tr\u00eas vezes esse problema&#8230;Porque eu n\u00e3o tenho qualquer esp\u00e9cie de desejo de reduzir aquilo que s\u00e3o os seres humanos no seu mais sublime \u00e0 ci\u00eancia abstracta. Pelo contr\u00e1rio. Aquilo que acho, e cada vez acho mais e neste livro \u00e9 a primeira vez que me apercebo, \u00e9 isto: quando se ligam sentimentos \u00e0 cultura, por um lado, e sentimentos \u00e0 homeostasia e aos princ\u00edpios da vida, o que estamos a fazer \u00e9 a enriquecer a liga\u00e7\u00e3o entre a cultura e a vida. Ao contr\u00e1rio de reduzir, estamos a aumentar, a fazer com que esse fio seja mais vis\u00edvel. A palavra homeostasia cruza todo o livro. Ela \u00e9 completamente definidora do que \u00e9 o humano?\u00c9 completamente definidora do que \u00e9 um ser vivo.O ser humano precisa de ter n\u00e3o s\u00f3 os imperativos da homeostasia nos seus aspectos mais complexos, mas tamb\u00e9m desenvolvimentos que v\u00eam com a\u00a0multicelularidade, o aparecimento dos sistemas nervosos e depois o extraordin\u00e1rio desenvolvimento da capacidade dos sentimentos, consci\u00eancia de mente com imagens&#8230; Sobre a capacidade de criar imagens, escreve que \u201ctodas as imagens do mundo exterior s\u00e3o processadas de forma paralela \u00e0s rea\u00e7\u00f5es afectivas&#8230; &#8220;, e depois apela a um exerc\u00edcio: \u201cpensemos na maravilha alcan\u00e7ada pelo nosso c\u00e9rebro ao lidar com imagens de tantas variedades sensoriais, de origem externa e interna, ao ser capaz de as transformar nos filmes da nossa mente. Em compara\u00e7\u00e3o, a montagem de um filme \u00e9 uma simples brincadeira.\u201dExacto. Mas fa\u00e7o essencialmente uma abordagem cr\u00edtica. Quando no in\u00edcio de tudo me falou da genealogia deste livro, h\u00e1 v\u00e1rios temas que venho a tratar h\u00e1 muitos anos, mas que agora me parecem, alguns, perfeitamente claros, e em que tamb\u00e9m tenho a coragem de dizer exactamente aquilo que penso sem estar com rodeios por poder ofender algu\u00e9m que achasse que era pateta e novo de mais para estar a dizer coisas. Agora j\u00e1 posso dizer tudo o que me apetece. Pode-se dizer que os sentimentos s\u00e3o fundadores da ci\u00eancia?Possivelmente s\u00e3o. S\u00e3o pelo menos motivadores. Neste livro h\u00e1 tr\u00eas pap\u00e9is que dou aos sentimentos, ou ao afecto em geral. Primeiro, motivadores, depois monitores e depois negociadores. Os sentimentos interv\u00eam nesses tr\u00eas pontos. S\u00e3o coisas diferentes. Uma \u00e9 motivar, outra \u00e9 a monitoriza\u00e7\u00e3o e a outra \u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o de quando as coisas correm mal ou bem de mais. H\u00e1 constantemente ajustes. H\u00e1 pessoas que perante dois advogados a discutirem um contrato ou dois pol\u00edticos a discutirem um tratado s\u00e3o capazes de pensar que isso est\u00e1 a acontecer num plano puramente intelectual; n\u00e3o est\u00e1. Acontece num plano intelectual e acontece com toda a mir\u00edade de altera\u00e7\u00f5es que t\u00eam a ver com a forma como uma das pessoas apresenta o argumento e como a outra o recebe. Tudo isso \u00e9 uma negocia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a ser feita n\u00e3o s\u00f3 num plano de conhecimento e raz\u00e3o, coisas que se podem dizer objectivas e&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[109,82],"tags":[],"class_list":["post-2277855","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-autores","category-ciencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2277855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2277855"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2277855\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3088813,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2277855\/revisions\/3088813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2277855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2277855"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2277855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}