{"id":2273542,"date":"2019-07-12T10:00:00","date_gmt":"2019-07-12T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2273542.html"},"modified":"2026-05-14T09:13:07","modified_gmt":"2026-05-14T09:13:07","slug":"joao-lobo-antunes-1944-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2273542","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Lobo Antunes | 1944-2016"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 351px; padding: 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"jla.jpg\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21505745_pWI4S.jpeg\" alt=\"jla.jpg\" width=\"860\" height=\"266\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><span style=\"font-size: 10pt;\">foto de Tiago Miranda | texto de Luciana Leiderfarb<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h4 class=\"sapomedia images\"><em><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">No princ\u00edpio era o verbo. Aos 72 anos, Jo\u00e3o Lobo Antunes voltou a ele como se volta a casa. No seu oitavo livro, defende a intensidade, a dec\u00eancia. A esperan\u00e7a. E com vertigem prepara os que h\u00e3o de vir<\/span><\/strong><\/em><\/h4>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Em sonhos ainda opera. V\u00ea-se na sala de opera\u00e7\u00f5es com uma coluna aberta e diz: sei fazer isto, mas estou cansado, n\u00e3o quero estar aqui. Quando acorda, verifica que era verdade. J\u00e1 n\u00e3o quer estar ali. Retirado desde junho, e \u201csem l\u00e1grimas\u201d, o que tinha a dizer nesse campo est\u00e1 dito e outras s\u00e3o as paisagens que agora lhe interessam. E onde se situam elas? Em que lugar do mapa? O livro que publicou h\u00e1 semanas, \u201cOuvir com Outros Olhos\u201d (Gradiva), cont\u00e9m parte da resposta. S\u00e3o ensaios curtos sobre temas que o \u201cobrigaram a pensar\u201d. Alguns deles cortam, como bisturis. Outros arrumam, ordenam o caos. Mas n\u00e3o est\u00e3o isolados. Inserem-se numa realidade de escrita mais plena que o autor sempre desejou e que uma profiss\u00e3o tentacular o foi deixando exercer at\u00e9 quase n\u00e3o se confundir dela \u2014 ele que \u00e9 um m\u00e9dico de palavras e um dos maiores neurocirurgi\u00f5es do mundo, um homem que jamais foge a uma pergunta, um professor, um ativo humanista e um ex-conselheiro de Estado, e mesmo assim, como generosamente afirma, um filho \u201cderrotado\u201d pelo pai.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Eis o presente de Jo\u00e3o Lobo Antunes, as palavras. As das mem\u00f3rias que anda a escrever e as de um \u2018projeto secreto\u2019: a tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas de 50 dos poemas em ingl\u00eas que a filha Margarida lhe remete diariamente desde que soube da sua doen\u00e7a. \u00c0s Janelas Verdes, no escrit\u00f3rio onde passa muitas das suas horas, Lobo Antunes dissecou esta nova condi\u00e7\u00e3o. A de ser m\u00e9dico e estar doente. A de ter mais tempo. E a de ser nutrido \u2014 porque sempre foi um bom aluno \u2014 pelas experi\u00eancias dos outros, dos que estavam do outro lado, sob as suas m\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Em \u201cOuvir com Outros Olhos\u201d, diz que temeu ficar empedernido com a idade e que os anos o tornaram mais sens\u00edvel. \u00c9 o relato de uma mudan\u00e7a? <\/strong><br \/>O t\u00edtulo do livro recorre a uma sinestesia que envolve dois sentidos diferentes, o visual e o auditivo. O que eu queria dizer \u00e9 que olho para as pessoas \u2014 e qualquer olhar \u00e9 uma intrus\u00e3o \u2014 com outra profundidade, para l\u00e1 da superf\u00edcie, tentando perceber a sua realidade, a sua identidade. Muita coisa \u00e9 dita com o olhar. H\u00e1 anos escrevi que n\u00e3o se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experi\u00eancia da doen\u00e7a que me tornou mais sens\u00edvel. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequ\u00eancia. Por isso, mais do que uma mudan\u00e7a sofri uma evolu\u00e7\u00e3o, que introduziu outra do\u00e7ura na rela\u00e7\u00e3o com as pessoas.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"cutid1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"ljcut\" text=\"Ler mais...\"><\/p>\n<p><strong>Uma do\u00e7ura que est\u00e1 em desuso? <\/strong><br \/>Esta \u00e9 uma mat\u00e9ria que me preocupa muito. Tenho refletido sobre a altera\u00e7\u00e3o da medicina, sobre a raz\u00e3o por que estamos cada vez mais longe dos doentes. E estamos afastados dos doentes pela intersec\u00e7\u00e3o das diferentes tecnologias, pela pulveriza\u00e7\u00e3o do saber, pelos m\u00faltiplos especialistas que s\u00e3o chamados a cuidar de algu\u00e9m. Aquilo que era uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica, um a um, perdeu-se.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Uma palavra que usa muitas vezes \u00e9 \u201ccompaix\u00e3o\u201d. <\/strong><br \/>Compasio \u00e9 mais do que a simples empatia, vai mais fundo. E cada vez mais interessa \u00e0s neuroci\u00eancias, pois parece que o nosso c\u00e9rebro est\u00e1 equipado para sentir compaix\u00e3o, ou seja, para viver o sofrimento do outro. Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnol\u00f3gica como a minha, nunca vi, n\u00e3o conhe\u00e7o arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que fa\u00e7a anular a necessidade da compaix\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E a crueza? Avisa logo o leitor de que esta pode ser a sua \u00faltima colet\u00e2nea. <\/strong><br \/>N\u00e3o \u00e9 crueza, tenho \u00e9 a no\u00e7\u00e3o do tempo que me ir\u00e1 faltar para escrever alguma coisa de semelhante. O Jos\u00e9 Cardoso Pires terminava o seu \u201cDe Profundis\u201d dizendo: acta fabula est. O que tinha para dizer est\u00e1 dito, e agora parti para outras paragens, fora da paisagem ensa\u00edstica. Publicar esta colet\u00e2nea era importante porque me custava acreditar que desapareceria deixando arquivados uma s\u00e9rie de textos que me obrigaram a pensar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<figure class=\"placement-\"><picture class=\"portrait\"><img decoding=\"async\" class=\" js-lazy-picture-loaded\" src=\"https:\/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-320\" sizes=\"(min-width: 1280px) 680px, (min-width: 768px) 75vw, 100vw\" srcset=\"\/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-240 240w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-320 320w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-480 480w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-680 680w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-768 768w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-960 960w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-1024 1024w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-1280 1280w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-1920 1920w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-lobo-antunes\/original\/mw-2048 2048w\" alt=\"\" \/><\/picture><figcaption><\/p>\n<p class=\"credits\">TIAGO MIRANDA<\/p>\n<p><\/figcaption><\/figure>\n<p><\/p>\n<p><strong>O livro d\u00e1-nos o ponto de vista de algu\u00e9m a quem s\u00f3 recorremos quando procuramos \u2014 como diz \u2014 a transa\u00e7\u00e3o que visa os seus servi\u00e7os. Mas esse encontro \u00e9 mais do que uma transa\u00e7\u00e3o e o m\u00e9dico \u00e9 uma pessoa. <\/strong><br \/>Isso \u00e9 curioso porque, quando comecei, o que pretendia era salvar vidas. Pensava que a morte ou a incapacidade eram uma derrota quase pessoal. Trabalhei uns anos, ainda era menino m\u00e9dico, numa casa de sa\u00fade de freiras, uma casa psiqui\u00e1trica onde havia muitas mulheres com processo de dem\u00eancia e decl\u00ednio mental. E eu queria mant\u00ea-las vivas a todo o custo. J\u00e1 para as freiras, se elas morressem, era uma alma que ia para o c\u00e9u \u2014 uma alma imaculada por n\u00e3o ter sequer o equipamento do mal para cometer o pecado. Com o tempo, a pessoa-m\u00e9dico que sou foi aprendendo a n\u00e3o lutar contra a natureza. Foi uma descoberta consoladora e tranquilizante. Porque esta \u00e9 uma \u00e1rea ingrata, em que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de compensa\u00e7\u00e3o ou de regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Descobriu que entre a doen\u00e7a e a cura existem grada\u00e7\u00f5es? <\/strong><br \/>Sim, e que a ideia triunfante de dominar a doen\u00e7a est\u00e1 impl\u00edcita nas met\u00e1foras guerreiras que usamos: a guerra contra o cancro, o combate, uma arma nova&#8230; A met\u00e1fora \u00e9 um instrumento indispens\u00e1vel para se transmitir o que se sente. E muitas vezes a linguagem metaf\u00f3rica do doente s\u00f3 \u00e9 bem compreendida quando o m\u00e9dico passou pela mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O doente pede a cura. E por vezes a cura \u00e9 ter mais tempo. <\/strong><br \/>Essa \u00e9 a grande trag\u00e9dia da morte. O Fernando Gil tem um ensaio magn\u00edfico intitulado \u201cMors certa, Hora Incerta\u201d, sobre o facto de a morte ser uma certeza sem remiss\u00e3o e o tempo um grande mist\u00e9rio. Montaigne diz que todos os dias conduzem \u00e0 morte e fala da morte final, ou seja, h\u00e1 muitas mortes. O que assusta \u00e9 a morte interromper a d\u00e1diva da vida. Por vezes, as pessoas pedem mais tempo para coisas que parecem triviais. Um doente pediu-me mais tr\u00eas meses para ver o campeonato do mundo de futebol. Viu-o e depois morreu. Outros pedem mais um Natal, casar mais uma filha. E h\u00e1 outro aspeto que eu pr\u00f3prio experimentei: a vida projeta-se no futuro e se o futuro parece opaco ou enevoado deixamos de fazer projetos. Da\u00ed a vertigem em ter colecionado estes ensaios e de escrever um pouco mais.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Fala das suas mem\u00f3rias? <\/strong><br \/>\u00c9 um relato para os meus netos saberem o que o av\u00f4 fez. Uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio escrito 40 anos depois, que termina quando regresso a Portugal. N\u00e3o quis avan\u00e7ar mais porque a partir da\u00ed tornei-me diferente, mais ativo como cidad\u00e3o. Nos Estados Unidos eu era m\u00e9dico e professor, um small fish in a big pond, com algum reconhecimento cl\u00ednico e uma razo\u00e1vel reputa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei que tipo de peixe sou agora, mas diria que a minha vida foi partida ao meio.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um antes e um depois dos EUA? <\/strong><br \/>H\u00e1 um antes e um depois de atingir a maturidade t\u00e9cnica, que significa o seguinte: se entrar por aquela porta algu\u00e9m com um problema complicado, como um tumor cerebral, eu com maior ou menor dificuldade ou sucesso sei o que fazer. \u00c9 uma liberdade \u00fanica, a liberdade de voar. Esses anos coincidiram tamb\u00e9m com um tempo de aprendizagem da democracia em Portugal, que est\u00e1 hoje muito maltratada. Mas n\u00e3o quero ir por a\u00ed.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea? <\/strong><br \/>Pela impureza das palavras que se dizem. O desrespeito pela verdade, a viol\u00eancia dos termos, o estarmos longe daquilo que algu\u00e9m chamou de \u2018democracia humilde\u2019, aquela que aceita o ponto de vista do outro, ouvindo-o. Fernando Gil falava muito da m\u00e1-f\u00e9, que \u00e9 um sentimento relacional e significa que a nossa posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. Passados os 70 anos tenho pena de estar a viver este tempo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Um tempo de m\u00e1-f\u00e9? <\/strong><br \/>Sim, um tempo de m\u00e1-f\u00e9.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>A prop\u00f3sito de ter descoberto o Portugal democr\u00e1tico ao voltar dos EUA, dez anos ap\u00f3s o 25 de Abril, disse numa entrevista: \u201cOs portugueses s\u00e3o os mesmos.\u201d Ainda acha isso? <\/strong><br \/>N\u00f3s aprendemos e codific\u00e1mos as regras da democracia. O processo est\u00e1 estabelecido, mas n\u00e3o chega. A liberdade e a democracia s\u00e3o uma esp\u00e9cie de oxig\u00e9nio, que serve para respirar num tempo t\u00e3o complexo como o nosso. Mas \u00e9 preciso mais, \u00e9 preciso construir. E temo que isso n\u00e3o seja poss\u00edvel com a polariza\u00e7\u00e3o do debate, com a falta de respeito por um sentimento t\u00e3o simples e elegante como \u00e9 a dec\u00eancia.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Se n\u00e3o se tivesse ido embora o seu percurso teria sido mais politizado? <\/strong><br \/>Estive muito envolvido na Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica e no jornal \u201cO Encontro\u201d, e tudo isso me permitia uma oposi\u00e7\u00e3o esclarecida ao Estado Novo. Os meus companheiros dessa altura tornaram-se grandes figuras da pol\u00edtica da Rep\u00fablica portuguesa. Enquanto eu fui s\u00f3 m\u00e9dico. Nunca pretendi ter uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a n\u00e3o ser em tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es presidenciais [foi mandat\u00e1rio de Jorge Sampaio em 2001 e de Cavaco Silva nas duas candidaturas]. De facto, aquilo que fa\u00e7o, ou que fazia, era ser cirurgi\u00e3o, acad\u00e9mico, professor.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Sendo isso tudo, que entendimento do ser humano lhe deu o facto de conhecer os seus processos mais escondidos?<\/strong><br \/>Com o tempo, fui valorizando o aspeto biol\u00f3gico do ser humano. Comecei a olhar para a motiva\u00e7\u00e3o do comportamento de cada um, para a necessidade de se reproduzir, de sobreviver. E este entendimento trouxe n\u00e3o diria um \u00e1libi, mas pelo menos uma benevol\u00eancia. Muitas vezes dou por mim a ouvir algu\u00e9m a expor os seus pontos de vista e penso: \u201cEst\u00e1 a falar o bicho.\u201d O bicho-pessoa, o \u201cbicho da terra\u201d do Cam\u00f5es. N\u00e3o sou diferente dele, percebo as suas motiva\u00e7\u00f5es. Acontece que al\u00e9m destas h\u00e1 outra coisa que s\u00e3o os valores, transcendentais e indispens\u00e1veis para dar coes\u00e3o \u00e0 sociedade dos homens. Na minha vis\u00e3o paracrist\u00e3, digamos, s\u00f3 h\u00e1 um pecado, que \u00e9 fazer mal ao outro. O resto s\u00e3o derivativos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O bicho humano \u00e9 complicado. Compreend\u00ea-lo n\u00e3o o fez alguma vez sentir omnipot\u00eancia? <\/strong><br \/>A primeira interven\u00e7\u00e3o que fiz sozinho foi a um tumor cerebral, em Nova Iorque, a uma mulher jovem. Era porto-riquenha e chamava-se Miriam, que \u00e9 o nome de uma neta minha. Foi um milagre ela acordar a mesma pessoa, intacta, depois de eu lhe ter tirado uma fatia razo\u00e1vel do c\u00e9rebro. Lembro-me da sensa\u00e7\u00e3o de exalta\u00e7\u00e3o, quase de felicidade absoluta, por n\u00e3o ter sido instrumento de uma transforma\u00e7\u00e3o, por ter recebido algu\u00e9m e a ter devolvido exatamente como estava, com um tumor a menos. A partir da\u00ed, essa sensa\u00e7\u00e3o manteve-se comigo: o milagre e a gratid\u00e3o a um ser supremo, que n\u00e3o sei se existe. Claro que tenho tamb\u00e9m a minha cole\u00e7\u00e3o de desastres. H\u00e1 um que me vem \u00e0 mem\u00f3ria com frequ\u00eancia. A doente ficou cega e eu percebi no ato cir\u00fargico que isso estava a acontecer. E n\u00e3o d\u00e1 para rebobinar o filme. Sabe, tamb\u00e9m tenho um lado de humildade, coisa que as pessoas por vezes n\u00e3o percebem. E que eu guardo para mim.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E o homem altivo e ligeiramente elitista que surge nas descri\u00e7\u00f5es que fazem de si? Existe? <\/strong><br \/>O Eduardo Prado Coelho, que era um grande amigo e colega de liceu, escreveu uma coisa sobre mim que me fez pensar: \u201cEste homem percebeu o que eu acho que sou.\u201d Entre outras coisas, disse que eu era fleum\u00e1tico. S\u00f3 a absoluta estupidez e uma cegueira total em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios defeitos \u00e9 que permitiriam a algu\u00e9m que teve uma li\u00e7\u00e3o de vida como a minha ser vaidoso. A profiss\u00e3o despejou-me baldes de humildade.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>A profiss\u00e3o moldou-o? <\/strong><br \/>A medicina fez-me m\u00e9dico. N\u00f3s aprendemos o b\u00e1sico, a parte artesanal da profiss\u00e3o. \u00c9 onde muitas vezes falhamos, embora eu tenha sido muito bem educado. Aquilo em que me tornei \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o brilhante da virtude da educa\u00e7\u00e3o, do que chamo o \u2018curr\u00edculo silencioso\u2019, que passa por osmose, informalmente, em s\u00edtios t\u00e3o diversos como o restaurante do hospital ou o servi\u00e7o de urg\u00eancia. Se eu quisesse apontar a minha qualidade maior, o meu maior talento, diria que fui sempre um bom aluno. At\u00e9 ao dia de hoje, em que comparo a minha experi\u00eancia como doente com o que observei ao longo da vida e tento aproveitar isso para a minha melhoria, para a minha toler\u00e2ncia, e at\u00e9 para outra coisa sobre a qual tenho escrito muito que \u00e9 a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 Jo\u00e3o Lobo Antunes doente? Qual a sua narrativa? <\/strong><br \/>Somos todos diferentes e o reconhecimento dessa diferen\u00e7a \u00e9 fundamental para o ato m\u00e9dico. Saber com quem \u00e9 que estamos a falar. No meu caso, saber como sou na doen\u00e7a. E eu diria que tenho a necessidade de manter um certo pudor, de n\u00e3o me despir completamente e de conter o medo. Quando adquirimos uma certa pr\u00e1tica em ouvir a narrativa, percebemos que nem sempre \u00e9 \u00fatil destapar o medo. \u00c0s vezes \u00e9 melhor abord\u00e1-lo pela porta do fundo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea? <\/strong><br \/>Porque falar do medo torna-o real. E se n\u00e3o falarmos nas coisas elas n\u00e3o assumem uma realidade t\u00e3o dolorosa. Podemos usar at\u00e9 o argumento da autoridade, que hoje caiu de moda, e dizer: \u201cO senhor n\u00e3o vai sofrer porque eu n\u00e3o vou deixar\u201d. Eu disse isto ao meu pai. De forma velada, estava a dizer-lhe at\u00e9 onde iria para ele n\u00e3o sofrer. Ele era um homem muito orgulhoso da sua coragem f\u00edsica e ficou tranquilo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Essa assertividade pode n\u00e3o corresponder \u00e0 realidade. O m\u00e9dico n\u00e3o controla tudo. <\/strong><br \/>Mas n\u00e3o deixa de ser uma afirma\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. \u00c9 a verdade, eu n\u00e3o vou deixar que sofra.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O seu pai era neurologista. Como lida com a doen\u00e7a quem a conhece por dentro? <\/strong><br \/>\u00c9 assustador. Falo do medo do doente mas posso tamb\u00e9m falar do medo do m\u00e9dico. Um dia perguntei a um dos melhores neurocirurgi\u00f5es do s\u00e9culo XX se alguma vez tinha tido medo. \u00c9 uma pergunta indiscreta. Ele disse: \u201cMedo? P\u00e2nico!\u201d Lembra-me de quando estava a nadar na praia do Meco e percebi que n\u00e3o conseguia voltar para terra. Pensei: \u201cJ\u00e1 te viste em apuros destes na sala de opera\u00e7\u00f5es e n\u00e3o perdeste a cabe\u00e7a.\u201d N\u00f3s muitas vezes sabemos que o inimigo que vamos enfrentar mete medo, mas no momento do confronto o medo desaparece. Antes, podemos nem dormir, e depois vem a exaust\u00e3o. Vinha, isso j\u00e1 pertence ao meu passado, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o meu presente.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Permita-me insistir: at\u00e9 que ponto seria prefer\u00edvel o desconhecimento? <\/strong><br \/>Sabe, eu nunca quis saber muito acerca das minhas doen\u00e7as. Nunca tive curiosidade m\u00e9dica em rela\u00e7\u00e3o a mim pr\u00f3prio. Era muito novo quando fui operado \u00e0 coluna e nunca vi os meus exames. O que \u00e9 paradoxal, porque era o meu p\u00e3o com manteiga. Agora, o papel da minha mulher, que \u00e9 m\u00e9dica, \u00e9 gerir a minha doen\u00e7a.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Deixa isso nas m\u00e3os dela? <\/strong><br \/>Ela \u00e9 o meu int\u00e9rprete junto dos m\u00e9dicos. Estamos juntos e o m\u00e9dico fala-lhe, como se eu n\u00e3o existisse. Uma vez por outra isso irritou-me um bocadinho. Mas as instru\u00e7\u00f5es eram-lhe dadas porque ela exercia sobre mim essa autoridade. Vivo confort\u00e1vel com isso.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>No livro, cita Virginia Woolf quando ela escreve que a doen\u00e7a estabelece uma nova \u201chierarquia das paix\u00f5es\u201d. \u00c9 o que lhe aconteceu? <\/strong><br \/>A vida normal \u00e9 um caos desorganizado de projetos, emo\u00e7\u00f5es, sentimentos, interesses culturais, familiares, profissionais. N\u00f3s vivemos nesse caos. O que faz a doen\u00e7a? Arruma o caos. Fica tudo dominado por uma voz, um c\u00e2ntico mon\u00f3tono. Um cantoch\u00e3o que destr\u00f3i aquilo que \u00e9 a vida.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<figure class=\"placement-\"><picture class=\"portrait\"><img decoding=\"async\" class=\" js-lazy-picture-loaded\" src=\"https:\/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-320\" sizes=\"(min-width: 1280px) 680px, (min-width: 768px) 75vw, 100vw\" srcset=\"\/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-240 240w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-320 320w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-480 480w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-680 680w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-768 768w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-960 960w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-1024 1024w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-1280 1280w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-1920 1920w, \/\/images.impresa.pt\/expresso\/2015-12-28-Lobo-Antunes\/original\/mw-2048 2048w\" alt=\"\" \/><\/picture><figcaption><\/p>\n<p class=\"credits\">TIAGO MIRANDA<\/p>\n<p><\/figcaption><\/figure>\n<p><\/p>\n<p><strong>Que envenena, no sentido de Tolstoi no \u201cIvan Ilitch\u201d?<\/strong><br \/>Escrevi, pensei e li muito sobre a doen\u00e7a, e de um modo geral o que Tolstoi descreve \u00e9 exatamente o que se passa. Ou seja, foi preciso que um ficcionista \u2014 um homem genial \u2014 tratasse o assunto desta maneira. Como \u00e9 que ele soube tudo isto? Algu\u00e9m lhe contou? Observou? Percebeu? Adivinhou? O grande mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 como se processa essa alquimia, a transforma\u00e7\u00e3o da vida numa narrativa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>A narrativa e a vida t\u00eam tempos diferentes. A doen\u00e7a acelera a vida? <\/strong><br \/>Uma das caracter\u00edsticas de uma pessoa se ter retirado da vida ativa \u00e9 deixar de saber em que dia est\u00e1. Se me perguntar que dia \u00e9 hoje n\u00e3o lhe sei responder. Mas posso dizer que as duas noites que passei na unidade de cuidados intensivos me fizeram ver como o tempo tem velocidades diferentes. Passa t\u00e3o lentamente&#8230; Mandei tirar o rel\u00f3gio que estava na parede.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Incomodava-o? <\/strong><br \/>Imenso. O tempo \u2018coisificado\u2019 n\u00e3o me apetecia.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>No livro fala da \u201cimunologia da esperan\u00e7a\u201d. Como se esperar fizesse parte da cura. <\/strong><br \/>A esperan\u00e7a \u00e9 um sentimento. Pascal trata-a como um privil\u00e9gio dos crist\u00e3os. E a gest\u00e3o da esperan\u00e7a \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis na pr\u00e1tica m\u00e9dica, do ponto de vista \u00e9tico e moral. A esperan\u00e7a prolonga-se num tempo em que v\u00e3o acontecer coisas melhores. Estamos a viver uma experi\u00eancia que nos derrota e faz sofrer, e vamos projetando no tempo a transforma\u00e7\u00e3o dessa viv\u00eancia em algo que \u00e9 bom e que nos traz felicidade. Se forem pequeninos pacotes de felicidade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mau. Naquilo que eu fa\u00e7o, ou fazia, a esperan\u00e7a est\u00e1 ligada ao desfecho de uma luta. A exist\u00eancia dessa luta alimenta a esperan\u00e7a, baixar os bra\u00e7os mata-a. Quando a pessoa acha que vai ficar melhor, isso ajuda o processo de cura. Portanto, o pessimismo \u00e9 uma profecia que se cumpre.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E quando a esperan\u00e7a aponta para tr\u00e1s, para voltar a ser-se o que se era? A\u00ed pode ser destruidora. <\/strong><br \/>Pode haver um sentimento nost\u00e1lgico \u2014 como eu era e como estou agora. Ali\u00e1s, volto ao Fernando Gil, que morreu com uma doen\u00e7a oncol\u00f3gica e r\u00e1pida. Num e-mail, ele disse-me: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o posso ouvir que estou com bom aspeto!\u201d Este \u00e9 o tratamento superficial da esperan\u00e7a, uma esp\u00e9cie de pomadinha. Est\u00e1s com t\u00e3o boa cara, nunca te vi t\u00e3o bem! E a pessoa sente-se miser\u00e1vel. Para algu\u00e9m que est\u00e1 doente isso \u00e9 negar a doen\u00e7a, \u00e9 muito desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma mentira?<\/strong><br \/>\u00c9 uma mentira. Nesse texto do Tolstoi, a certa altura chega um cunhado que o protagonista n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. E quando o cunhado olha para ele, a sua face \u00e9 um espelho. Ele v\u00ea na rea\u00e7\u00e3o do cunhado quanto mudou. \u00c9 muito forte esta ideia de que a face do outro \u00e9 um espelho do nosso estado.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Disse um dia que o ideal da cirurgia \u00e9 sair com a bata imaculada. Na vida isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Tem arrependimentos, remorsos? <\/strong><br \/>N\u00e3o tenho arrependimentos, tenho coisas que preferia n\u00e3o ter feito. Guardo-as para mim, com vergonha. E consigo recuar \u00e0 minha inf\u00e2ncia. H\u00e1 epis\u00f3dios da minha inf\u00e2ncia em que n\u00e3o fui aut\u00eantico, em que fiz mal. Por\u00e9m, se me perguntar se no percurso da vida quereria ter feito de outra maneira, respondo-lhe que n\u00e3o. Por uma raz\u00e3o: acho que fui mais um barco de papel deitado ao rio do que um barco com remos a tomar uma dire\u00e7\u00e3o. Deixei-me ir na corrente das coisas que me aconteciam. N\u00e3o ficou nada por fazer, a n\u00e3o ser falar alem\u00e3o, tocar um instrumento como piano, violoncelo ou clarinete, ou ver as terras que gostaria de ter visto e que agora, velho, j\u00e1 n\u00e3o verei. Gostei muito de \u00c1frica e gostaria de ter conhecido as outras \u00c1fricas, mas fui sempre muito absorvido pelo meu trabalho. A vida chupou-me o tempo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>A met\u00e1fora do barco de papel n\u00e3o se adequa ao estudante obsessivo e focado que foi.<\/strong><br \/>Isso fui eu a aprender a andar. Depois, um dia, veio c\u00e1 um senhor americano, convidou-me para ir a Nova Iorque, fiz as malas e fui. Deixei que as coisas me acontecessem e aproveitei as oportunidades que surgiram.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Disse uma vez: \u201cSou das pessoas mais benevolentes que conhe\u00e7o\u201d. N\u00e3o disse bondosa. Qual \u00e9 a diferen\u00e7a? <\/strong><br \/>A benevol\u00eancia surge da capacidade de reconhecer nos outros os nossos defeitos. Da irmandade secreta entre as faltas que os outros cometem e as que cometemos. Mas tem limites. H\u00e1 coisas com que j\u00e1 n\u00e3o sou assim t\u00e3o tolerante. Nomeadamente, algumas falhas de car\u00e1cter. N\u00e3o que isto tenha m\u00e9rito moral \u2014 n\u00e3o tem nenhum.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>J\u00e1 o Yascha Heifetz teve aquela tirada: \u201cH\u00e1 quem venha aos meus concertos para ver se toco uma nota errada.\u201d Teve de lidar com a inveja, sentimento que \u2014 dizem \u2014 \u00e9 muito portugu\u00eas? <\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Eu sou portugu\u00eas, e o Schadenfreude n\u00e3o \u00e9 um conceito nosso. O regozijo pelo azar do outro est\u00e1 na natureza humana. N\u00e3o sei por que raz\u00e3o foi preciso acrescentar esse condimento t\u00e3o azedo ao ser humano. No entanto, se me perguntam se fico satisfeito quando o Benfica perde, tenho de dizer que sim. O Gore Vidal tinha uma frase extraordin\u00e1ria: \u201cCom o triunfo dos meus amigos morre sempre um bocadinho de mim.\u201d Mas isso eram rivalidades entre escritores, que como sabe \u00e9 uma coisa violenta. Agora, se sinto regozijo pelos azares dos outros, acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E os outros com os seus? <\/strong><br \/>Pergunte-lhes. Tenho alguma evid\u00eancia de que n\u00e3o fui imune a cal\u00fanias, algumas delas grav\u00edssimas e perturbadoras. Por\u00e9m, a inveja \u00e9 um sentimento que se autocastiga, quem a sente deve passar t\u00e3o mal que nem vale a pena preocuparmo-nos com isso.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Nas mem\u00f3rias que est\u00e1 a escrever, como decidiu o que iria incluir? Que retrato de si pr\u00f3prio vai da\u00ed resultar?<\/strong><br \/>\u00c9 o retrato de uma trajet\u00f3ria, cujo t\u00edtulo em ingl\u00eas seria sem d\u00favida \u201cOn the Making Of a Neurosurgeon\u201d. Numa palavra, como \u00e9 que fui feito. Sempre me interessou desmontar os mecanismos da minha pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o: como me fiz assim, quem me fez assim, quando, onde. N\u00e3o fiz um relato cronol\u00f3gico, fi-lo por blocos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Fala do seu pai? <\/strong><br \/>Falo do meu pai. J\u00e1 escrevi dois textos sobre o meu pai \u2014 um deles chama-se \u201cHist\u00f3ria de um velho\u201d. Foi uma figura importante para os seis filhos, com tudo o que isso implica de bom e de mau, de alegria, de partilha, de sofrimento, de ang\u00fastia. Eu tive com ele uma rela\u00e7\u00e3o muito complexa. Mas, sabe, quando a alma \u00e9 bem formada a biologia acaba por vencer. Neste caso, o pai derrotou o filho. Quando percebi que assim era, fiquei em paz. Soube que ia perder, porque n\u00e3o estava equipado para a \u00faltima revolta, para matar o pai.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Dele, o que mais o marcou? <\/strong><br \/>O rigor. Era a pessoa que estudava nas fontes, que conferia a cita\u00e7\u00e3o correta, que procurava a verdade cient\u00edfica, n\u00e3o deixando pedra nenhuma por virar. Era de uma exig\u00eancia enorme. E depois tinha outra dimens\u00e3o extremamente desagrad\u00e1vel: era de uma enorme arrog\u00e2ncia intelectual. Muitas vezes me rebelei contra isso. Por exemplo, ele detestava o Montaigne e eu idolatrava-o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Fez o contr\u00e1rio, como pai? <\/strong><br \/>Tentei passar \u00e0s minhas filhas o sentimento de terem uma rede, de que sempre que elas ca\u00edssem eu estaria c\u00e1 em baixo para as segurar. Acho que o que elas sentem em rela\u00e7\u00e3o ao pai \u00e9 uma extraordin\u00e1ria seguran\u00e7a. E toler\u00e2ncia. Cada uma fez o que lhe apeteceu. H\u00e1 uma frase de Tolstoi que gosto muito de citar: \u201cTout comprendre c\u2019est tout pardonner.\u201d Esta foi a divisa na rela\u00e7\u00e3o com as minhas filhas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Sente saudades de operar? <\/strong><br \/>Retirei-me em junho. Foi muito emotivo para os que trabalhavam comigo. Para mim, naquele dia, sa\u00ed de cena, baixou o pano. Sem l\u00e1grimas, n\u00e3o senti nada. Tenho sonhos em que estou a operar, em geral a medula \u2014 um trabalho meticuloso que eu era muito bom a fazer. Se falhar, a pessoa fica paralisada. No sonho, entro na sala de opera\u00e7\u00f5es e digo: estou cansado, n\u00e3o quero estar aqui. Por vezes, imagino que tenho uma coluna aberta e penso: d\u00e1 c\u00e1 os instrumentos que eu sei fazer isto. Sei, mas j\u00e1 passou.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado na edi\u00e7\u00e3o de 24 de dezembro da Revista E<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h4 class=\"referenceString selectable\">\u00a0<\/h4>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<h4 class=\"referenceString selectable\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Refer\u00eancia: <\/strong><em>Jo\u00e3o Lobo Antunes: \u201cO pessimismo \u00e9 uma profecia que se cumpre\u201d<\/em>. (2019).\u00a0<em>Jornal Expresso<\/em>. Retrieved 10 July 2019, from <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2015-12-31-Joao-Lobo-Antunes-O-pessimismo-e-uma-profecia-que-se-cumpre\" rel=\"noopener\">https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2015-12-31-Joao-Lobo-Antunes-O-pessimismo-e-uma-profecia-que-se-cumpre<\/a><\/span><\/h4>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/rede-de-bibliotecas-escolares\/embed\/episodes\/Os-livros-da-vida-de-Joo-Lobo-Antunes-e4k3dc\" width=\"400px\" height=\"102px\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" loading=\"lazy\"><\/iframe><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Conte\u00fado relacionado:<\/span><\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/ouvir-com-outros-olhos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ouvir com outros olhos<\/a> | observador<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/anabelamotaribeiro.pt\/joao-lobo-antunes-68646\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Lobo Antunes <\/a>| anabela mota ribeiro<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.sabado.pt\/vida\/detalhe\/especial-sabado-os-fabulosos-irmaos-lobo-antunes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os fabulosos irm\u00e3os Lobo Antunes<\/a> | s\u00e1bado<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2016\/10\/27\/joao-lobo-antunes-11-reflexoes-sobre-a-vida-a-doenca-e-a-morte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Lobo Antunes: 11 reflex\u00f5es sobre a vida, a doen\u00e7a e a\u00a0morte<\/a> | observador<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.patriarcado-lisboa.pt\/site\/index.php?cont_=40&amp;id=7023&amp;tem=378\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Homilia na Missa exequial do Prof. Jo\u00e3o Lobo Antunes<\/a> | patriarcado de lisboa<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/7IXtpND5P-I\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os livros da vida de Jo\u00e3o Lobo Antunes<\/a> | ler mais, ler melhor\u00a0 [v\u00eddeo]<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/ni4x9GdJz9M\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">XXII CONGRESSO NACIONAL DE MEDICINA INTERNA | V CONGRESSO IB\u00c9RICO DE MEDICINA INTERNA<\/a><br \/><a href=\"https:\/\/youtu.be\/ni4x9GdJz9M\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NOVA MEDICINA, NOVA \u00c9TICA<\/a> \u2013 Jo\u00e3o Lobo Antunes [v\u00eddeo]<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2019\/04\/19\/ultimas-memorias-de-joao-lobo-antunes-um-homem-que-a-medicina-fez-medico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00daltimas mem\u00f3rias de Jo\u00e3o Lobo Antunes, um homem que \u201ca Medicina fez m\u00e9dico\u201d<\/a> | observador<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/tag\/joao-lobo-antunes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Lobo Antunes<\/a> | dn<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_Lobo_Antunes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Lobo Antunes<\/a> na Wikip\u00e9dia<\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>foto de Tiago Miranda | texto de Luciana Leiderfarb \u00a0 No princ\u00edpio era o verbo. Aos 72 anos, Jo\u00e3o Lobo Antunes voltou a ele como se volta a casa. No seu oitavo livro, defende a intensidade, a dec\u00eancia. A esperan\u00e7a. E com vertigem prepara os que h\u00e3o de vir \u00a0 Em sonhos ainda opera. V\u00ea-se na sala de opera\u00e7\u00f5es com uma coluna aberta e diz: sei fazer isto, mas estou cansado, n\u00e3o quero estar aqui. Quando acorda, verifica que era verdade. J\u00e1 n\u00e3o quer estar ali. Retirado desde junho, e \u201csem l\u00e1grimas\u201d, o que tinha a dizer nesse campo est\u00e1 dito e outras s\u00e3o as paisagens que agora lhe interessam. E onde se situam elas? Em que lugar do mapa? O livro que publicou h\u00e1 semanas, \u201cOuvir com Outros Olhos\u201d (Gradiva), cont\u00e9m parte da resposta. S\u00e3o ensaios curtos sobre temas que o \u201cobrigaram a pensar\u201d. Alguns deles cortam, como bisturis. Outros arrumam, ordenam o caos. Mas n\u00e3o est\u00e3o isolados. Inserem-se numa realidade de escrita mais plena que o autor sempre desejou e que uma profiss\u00e3o tentacular o foi deixando exercer at\u00e9 quase n\u00e3o se confundir dela \u2014 ele que \u00e9 um m\u00e9dico de palavras e um dos maiores neurocirurgi\u00f5es do mundo, um homem que jamais foge a uma pergunta, um professor, um ativo humanista e um ex-conselheiro de Estado, e mesmo assim, como generosamente afirma, um filho \u201cderrotado\u201d pelo pai. \u00a0 Eis o presente de Jo\u00e3o Lobo Antunes, as palavras. As das mem\u00f3rias que anda a escrever e as de um \u2018projeto secreto\u2019: a tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas de 50 dos poemas em ingl\u00eas que a filha Margarida lhe remete diariamente desde que soube da sua doen\u00e7a. \u00c0s Janelas Verdes, no escrit\u00f3rio onde passa muitas das suas horas, Lobo Antunes dissecou esta nova condi\u00e7\u00e3o. A de ser m\u00e9dico e estar doente. A de ter mais tempo. E a de ser nutrido \u2014 porque sempre foi um bom aluno \u2014 pelas experi\u00eancias dos outros, dos que estavam do outro lado, sob as suas m\u00e3os. \u00a0 Em \u201cOuvir com Outros Olhos\u201d, diz que temeu ficar empedernido com a idade e que os anos o tornaram mais sens\u00edvel. \u00c9 o relato de uma mudan\u00e7a? O t\u00edtulo do livro recorre a uma sinestesia que envolve dois sentidos diferentes, o visual e o auditivo. O que eu queria dizer \u00e9 que olho para as pessoas \u2014 e qualquer olhar \u00e9 uma intrus\u00e3o \u2014 com outra profundidade, para l\u00e1 da superf\u00edcie, tentando perceber a sua realidade, a sua identidade. Muita coisa \u00e9 dita com o olhar. H\u00e1 anos escrevi que n\u00e3o se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experi\u00eancia da doen\u00e7a que me tornou mais sens\u00edvel. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequ\u00eancia. Por isso, mais do que uma mudan\u00e7a sofri uma evolu\u00e7\u00e3o, que introduziu outra do\u00e7ura na rela\u00e7\u00e3o com as pessoas. \u00a0 \u00a0 Uma do\u00e7ura que est\u00e1 em desuso? Esta \u00e9 uma mat\u00e9ria que me preocupa muito. Tenho refletido sobre a altera\u00e7\u00e3o da medicina, sobre a raz\u00e3o por que estamos cada vez mais longe dos doentes. E estamos afastados dos doentes pela intersec\u00e7\u00e3o das diferentes tecnologias, pela pulveriza\u00e7\u00e3o do saber, pelos m\u00faltiplos especialistas que s\u00e3o chamados a cuidar de algu\u00e9m. Aquilo que era uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica, um a um, perdeu-se. \u00a0 Uma palavra que usa muitas vezes \u00e9 \u201ccompaix\u00e3o\u201d. Compasio \u00e9 mais do que a simples empatia, vai mais fundo. E cada vez mais interessa \u00e0s neuroci\u00eancias, pois parece que o nosso c\u00e9rebro est\u00e1 equipado para sentir compaix\u00e3o, ou seja, para viver o sofrimento do outro. Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnol\u00f3gica como a minha, nunca vi, n\u00e3o conhe\u00e7o arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que fa\u00e7a anular a necessidade da compaix\u00e3o. \u00a0 E a crueza? Avisa logo o leitor de que esta pode ser a sua \u00faltima colet\u00e2nea. N\u00e3o \u00e9 crueza, tenho \u00e9 a no\u00e7\u00e3o do tempo que me ir\u00e1 faltar para escrever alguma coisa de semelhante. O Jos\u00e9 Cardoso Pires terminava o seu \u201cDe Profundis\u201d dizendo: acta fabula est. O que tinha para dizer est\u00e1 dito, e agora parti para outras paragens, fora da paisagem ensa\u00edstica. Publicar esta colet\u00e2nea era importante porque me custava acreditar que desapareceria deixando arquivados uma s\u00e9rie de textos que me obrigaram a pensar. \u00a0 TIAGO MIRANDA O livro d\u00e1-nos o ponto de vista de algu\u00e9m a quem s\u00f3 recorremos quando procuramos \u2014 como diz \u2014 a transa\u00e7\u00e3o que visa os seus servi\u00e7os. Mas esse encontro \u00e9 mais do que uma transa\u00e7\u00e3o e o m\u00e9dico \u00e9 uma pessoa. Isso \u00e9 curioso porque, quando comecei, o que pretendia era salvar vidas. Pensava que a morte ou a incapacidade eram uma derrota quase pessoal. Trabalhei uns anos, ainda era menino m\u00e9dico, numa casa de sa\u00fade de freiras, uma casa psiqui\u00e1trica onde havia muitas mulheres com processo de dem\u00eancia e decl\u00ednio mental. E eu queria mant\u00ea-las vivas a todo o custo. J\u00e1 para as freiras, se elas morressem, era uma alma que ia para o c\u00e9u \u2014 uma alma imaculada por n\u00e3o ter sequer o equipamento do mal para cometer o pecado. Com o tempo, a pessoa-m\u00e9dico que sou foi aprendendo a n\u00e3o lutar contra a natureza. Foi uma descoberta consoladora e tranquilizante. Porque esta \u00e9 uma \u00e1rea ingrata, em que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de compensa\u00e7\u00e3o ou de regenera\u00e7\u00e3o. \u00a0 Descobriu que entre a doen\u00e7a e a cura existem grada\u00e7\u00f5es? Sim, e que a ideia triunfante de dominar a doen\u00e7a est\u00e1 impl\u00edcita nas met\u00e1foras guerreiras que usamos: a guerra contra o cancro, o combate, uma arma nova&#8230; A met\u00e1fora \u00e9 um instrumento indispens\u00e1vel para se transmitir o que se sente. E muitas vezes a linguagem metaf\u00f3rica do doente s\u00f3 \u00e9 bem compreendida quando o m\u00e9dico passou pela mesma situa\u00e7\u00e3o. \u00a0 O doente pede a cura. E por vezes a cura \u00e9 ter mais tempo. Essa \u00e9 a grande trag\u00e9dia da morte. O Fernando Gil tem um ensaio magn\u00edfico intitulado \u201cMors certa, Hora Incerta\u201d, sobre o facto de a morte ser uma certeza sem remiss\u00e3o e o tempo um grande mist\u00e9rio. Montaigne diz que todos os dias conduzem \u00e0 morte e fala da morte final, ou seja, h\u00e1 muitas mortes. O que assusta \u00e9 a morte interromper a d\u00e1diva da vida. Por vezes, as pessoas pedem mais tempo para coisas que parecem triviais. Um doente pediu-me mais tr\u00eas meses para ver o campeonato do mundo de futebol. Viu-o e depois morreu. Outros pedem mais um Natal, casar mais uma filha. E h\u00e1 outro aspeto que eu pr\u00f3prio experimentei: a vida projeta-se no futuro e se o futuro parece opaco ou enevoado deixamos de fazer projetos. Da\u00ed a vertigem em ter colecionado estes ensaios e de escrever um pouco mais. \u00a0 Fala das suas mem\u00f3rias? \u00c9 um relato para os meus netos saberem o que o av\u00f4 fez. Uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio escrito 40 anos depois, que termina quando regresso a Portugal. N\u00e3o quis avan\u00e7ar mais porque a partir da\u00ed tornei-me diferente, mais ativo como cidad\u00e3o. Nos Estados Unidos eu era m\u00e9dico e professor, um small fish in a big pond, com algum reconhecimento cl\u00ednico e uma razo\u00e1vel reputa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei que tipo de peixe sou agora, mas diria que a minha vida foi partida ao meio. \u00a0 H\u00e1 um antes e um depois dos EUA? H\u00e1 um antes e um depois de atingir a maturidade t\u00e9cnica, que significa o seguinte: se entrar por aquela porta algu\u00e9m com um problema complicado, como um tumor cerebral, eu com maior ou menor dificuldade ou sucesso sei o que fazer. \u00c9 uma liberdade \u00fanica, a liberdade de voar. Esses anos coincidiram tamb\u00e9m com um tempo de aprendizagem da democracia em Portugal, que est\u00e1 hoje muito maltratada. Mas n\u00e3o quero ir por a\u00ed. \u00a0 Porqu\u00ea? Pela impureza das palavras que se dizem. O desrespeito pela verdade, a viol\u00eancia dos termos, o estarmos longe daquilo que algu\u00e9m chamou de \u2018democracia humilde\u2019, aquela que aceita o ponto de vista do outro, ouvindo-o. Fernando Gil falava muito da m\u00e1-f\u00e9, que \u00e9 um sentimento relacional e significa que a nossa posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. Passados os 70 anos tenho pena de estar a viver este tempo. \u00a0 Um tempo de m\u00e1-f\u00e9? Sim, um tempo de m\u00e1-f\u00e9. \u00a0 A prop\u00f3sito de ter descoberto o Portugal democr\u00e1tico ao voltar dos EUA, dez anos ap\u00f3s o 25 de Abril, disse numa entrevista: \u201cOs portugueses s\u00e3o os mesmos.\u201d Ainda acha isso? N\u00f3s aprendemos e codific\u00e1mos as regras da democracia. O processo est\u00e1 estabelecido, mas n\u00e3o chega. A liberdade e a democracia s\u00e3o uma esp\u00e9cie de oxig\u00e9nio, que serve para respirar num tempo t\u00e3o complexo como o nosso. Mas \u00e9 preciso mais, \u00e9 preciso construir. E temo que isso n\u00e3o seja poss\u00edvel com a polariza\u00e7\u00e3o do debate, com a falta de respeito por um sentimento t\u00e3o simples e elegante como \u00e9 a dec\u00eancia. \u00a0 Se n\u00e3o se tivesse ido embora o seu percurso teria sido mais politizado? Estive muito envolvido na Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica e no jornal \u201cO Encontro\u201d, e tudo isso me permitia uma oposi\u00e7\u00e3o esclarecida ao Estado Novo. Os meus companheiros dessa altura tornaram-se grandes figuras da pol\u00edtica da Rep\u00fablica portuguesa. Enquanto eu fui s\u00f3 m\u00e9dico. Nunca pretendi ter uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a n\u00e3o ser em tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es presidenciais [foi mandat\u00e1rio de Jorge Sampaio em 2001 e de Cavaco Silva nas duas candidaturas]. De facto, aquilo que fa\u00e7o, ou que fazia, era ser cirurgi\u00e3o, acad\u00e9mico, professor. \u00a0 Sendo isso tudo, que entendimento do ser humano lhe deu o facto de conhecer os seus processos mais escondidos?Com o tempo, fui valorizando o aspeto biol\u00f3gico do ser humano. Comecei a olhar para a motiva\u00e7\u00e3o do comportamento de cada um, para a necessidade de se reproduzir, de sobreviver. E este entendimento trouxe n\u00e3o diria um \u00e1libi, mas pelo menos uma benevol\u00eancia. Muitas vezes dou por mim a ouvir algu\u00e9m a expor os seus pontos de vista e penso: \u201cEst\u00e1 a falar o bicho.\u201d O bicho-pessoa, o \u201cbicho da terra\u201d do Cam\u00f5es. N\u00e3o sou diferente dele, percebo as suas motiva\u00e7\u00f5es. Acontece que al\u00e9m destas h\u00e1 outra coisa que s\u00e3o os valores, transcendentais e indispens\u00e1veis para dar coes\u00e3o \u00e0 sociedade dos homens. Na minha vis\u00e3o paracrist\u00e3, digamos, s\u00f3 h\u00e1 um pecado, que \u00e9 fazer mal ao outro. O resto s\u00e3o derivativos. \u00a0 O bicho humano \u00e9 complicado. Compreend\u00ea-lo n\u00e3o o fez alguma vez sentir omnipot\u00eancia? A primeira interven\u00e7\u00e3o que fiz sozinho foi a um tumor cerebral, em Nova Iorque, a uma mulher jovem. Era porto-riquenha e chamava-se Miriam, que \u00e9 o nome de uma neta minha. Foi um milagre ela acordar a mesma pessoa, intacta, depois de eu lhe ter tirado uma fatia razo\u00e1vel do c\u00e9rebro. Lembro-me da sensa\u00e7\u00e3o de exalta\u00e7\u00e3o, quase de felicidade absoluta, por n\u00e3o ter sido instrumento de uma transforma\u00e7\u00e3o, por ter recebido algu\u00e9m e a ter devolvido exatamente como estava, com um tumor a menos. A partir da\u00ed, essa sensa\u00e7\u00e3o manteve-se comigo: o milagre e a gratid\u00e3o a um ser supremo, que n\u00e3o sei se existe. Claro que tenho tamb\u00e9m a minha cole\u00e7\u00e3o de desastres. H\u00e1 um que me vem \u00e0 mem\u00f3ria com frequ\u00eancia. A doente ficou cega e eu percebi no ato cir\u00fargico que isso estava a acontecer. E n\u00e3o d\u00e1 para rebobinar o filme. Sabe, tamb\u00e9m tenho um lado de humildade, coisa que as pessoas por vezes n\u00e3o percebem. E que eu guardo para mim. \u00a0 E o homem altivo e ligeiramente elitista que surge nas descri\u00e7\u00f5es que fazem de si? Existe? O Eduardo Prado Coelho, que era um grande amigo e colega de liceu, escreveu uma coisa sobre mim que me fez pensar: \u201cEste homem percebeu o que eu acho que sou.\u201d Entre outras coisas, disse que eu era fleum\u00e1tico. S\u00f3 a absoluta estupidez e uma cegueira total em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios defeitos \u00e9 que permitiriam a algu\u00e9m que teve uma li\u00e7\u00e3o de vida como a minha ser vaidoso. A profiss\u00e3o despejou-me baldes de humildade. \u00a0 A profiss\u00e3o moldou-o? A medicina fez-me m\u00e9dico. N\u00f3s aprendemos o b\u00e1sico, a parte artesanal da profiss\u00e3o. \u00c9 onde muitas vezes falhamos, embora eu tenha sido muito bem educado. Aquilo em que me tornei \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o brilhante da virtude da educa\u00e7\u00e3o, do que chamo o \u2018curr\u00edculo silencioso\u2019, que passa por osmose, informalmente, em s\u00edtios t\u00e3o diversos como o restaurante do hospital ou o servi\u00e7o de urg\u00eancia. Se eu quisesse apontar a minha qualidade maior, o meu maior talento, diria que fui sempre um bom aluno. At\u00e9 ao dia de hoje, em que comparo a minha experi\u00eancia como doente com o que observei ao longo da vida e tento aproveitar isso para a minha melhoria, para a minha toler\u00e2ncia, e at\u00e9 para outra coisa sobre a qual tenho escrito muito que \u00e9 a esperan\u00e7a. \u00a0 Como \u00e9 Jo\u00e3o Lobo Antunes doente? Qual a sua narrativa? Somos todos diferentes e o reconhecimento dessa diferen\u00e7a \u00e9 fundamental para o ato m\u00e9dico. Saber com quem \u00e9 que estamos a falar. No meu caso, saber como sou na doen\u00e7a. E eu diria que tenho a necessidade de manter um certo pudor, de n\u00e3o me despir completamente e de conter o medo. Quando adquirimos uma certa pr\u00e1tica em ouvir a narrativa, percebemos que nem sempre \u00e9 \u00fatil destapar o medo. \u00c0s vezes \u00e9 melhor abord\u00e1-lo pela porta do fundo. \u00a0 Porqu\u00ea? Porque falar do medo torna-o real. E se n\u00e3o falarmos nas coisas elas n\u00e3o assumem uma realidade t\u00e3o dolorosa. Podemos usar at\u00e9 o argumento da autoridade, que hoje caiu de moda, e dizer: \u201cO senhor n\u00e3o vai sofrer porque eu n\u00e3o vou deixar\u201d. Eu disse isto ao meu pai. De forma velada, estava a dizer-lhe at\u00e9 onde iria para ele n\u00e3o sofrer. Ele era um homem muito orgulhoso da sua coragem f\u00edsica e ficou tranquilo. \u00a0 Essa assertividade pode n\u00e3o corresponder \u00e0 realidade. O m\u00e9dico n\u00e3o controla tudo. Mas n\u00e3o deixa de ser uma afirma\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. \u00c9 a verdade, eu n\u00e3o vou deixar que sofra. \u00a0 O seu pai era neurologista. Como lida com a doen\u00e7a quem a conhece por dentro? \u00c9 assustador. Falo do medo do doente mas posso tamb\u00e9m falar do medo do m\u00e9dico. Um dia perguntei a um dos melhores neurocirurgi\u00f5es do s\u00e9culo XX se alguma vez tinha tido medo. \u00c9 uma pergunta indiscreta. Ele disse: \u201cMedo? P\u00e2nico!\u201d Lembra-me de quando estava a nadar na praia do Meco e percebi que n\u00e3o conseguia voltar para terra. Pensei: \u201cJ\u00e1 te viste em apuros destes na sala de opera\u00e7\u00f5es e n\u00e3o perdeste a cabe\u00e7a.\u201d N\u00f3s muitas vezes sabemos que o inimigo que vamos enfrentar mete medo, mas no momento do confronto o medo desaparece. Antes, podemos nem dormir, e depois vem a exaust\u00e3o. Vinha, isso j\u00e1 pertence ao meu passado, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o meu presente. \u00a0 Permita-me insistir: at\u00e9 que ponto seria prefer\u00edvel o desconhecimento? Sabe, eu nunca quis saber muito acerca das minhas doen\u00e7as. Nunca tive curiosidade m\u00e9dica em rela\u00e7\u00e3o a mim pr\u00f3prio. Era muito novo quando fui operado \u00e0 coluna e nunca vi os meus exames. O que \u00e9 paradoxal, porque era o meu p\u00e3o com manteiga. Agora, o papel da minha mulher, que \u00e9 m\u00e9dica, \u00e9 gerir a minha doen\u00e7a. \u00a0 Deixa isso nas m\u00e3os dela? Ela \u00e9 o meu int\u00e9rprete junto dos m\u00e9dicos. Estamos juntos e o m\u00e9dico fala-lhe, como se eu n\u00e3o existisse. Uma vez por outra isso irritou-me um bocadinho. Mas as instru\u00e7\u00f5es eram-lhe dadas porque ela exercia sobre mim essa autoridade. Vivo confort\u00e1vel com isso. \u00a0 No livro, cita Virginia Woolf quando ela escreve que a doen\u00e7a estabelece uma nova \u201chierarquia das paix\u00f5es\u201d. \u00c9 o que lhe aconteceu? A vida normal \u00e9 um caos desorganizado de projetos, emo\u00e7\u00f5es, sentimentos, interesses culturais, familiares, profissionais. N\u00f3s vivemos nesse caos. O que faz a doen\u00e7a? Arruma o caos. Fica tudo dominado por uma voz, um c\u00e2ntico mon\u00f3tono. Um cantoch\u00e3o que destr\u00f3i aquilo que \u00e9 a vida. \u00a0 TIAGO MIRANDA Que envenena, no sentido de Tolstoi no \u201cIvan Ilitch\u201d?Escrevi, pensei e li muito sobre a doen\u00e7a, e de um modo geral o que Tolstoi descreve \u00e9 exatamente o que se passa. Ou seja, foi preciso que um ficcionista \u2014 um homem genial \u2014 tratasse o assunto desta maneira. Como \u00e9 que ele soube tudo isto? Algu\u00e9m lhe contou? Observou? Percebeu? Adivinhou? O grande mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 como se processa essa alquimia, a transforma\u00e7\u00e3o da vida numa narrativa. \u00a0 A narrativa e a vida t\u00eam tempos diferentes. A doen\u00e7a acelera a vida? Uma das caracter\u00edsticas de uma pessoa se ter retirado da vida ativa \u00e9 deixar de saber em que dia est\u00e1. Se me perguntar que dia \u00e9 hoje n\u00e3o lhe sei responder. Mas posso dizer que as duas noites que passei na unidade de cuidados intensivos me fizeram ver como o tempo tem velocidades diferentes. Passa t\u00e3o lentamente&#8230; Mandei tirar o rel\u00f3gio que estava na parede. \u00a0 Incomodava-o? Imenso. O tempo \u2018coisificado\u2019 n\u00e3o me apetecia. \u00a0 No livro fala da \u201cimunologia da esperan\u00e7a\u201d. Como se esperar fizesse parte da cura. A esperan\u00e7a \u00e9 um sentimento. Pascal trata-a como um privil\u00e9gio dos crist\u00e3os. E a gest\u00e3o da esperan\u00e7a \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis na pr\u00e1tica m\u00e9dica, do ponto de vista \u00e9tico e moral. A esperan\u00e7a prolonga-se num tempo em que v\u00e3o acontecer coisas melhores. Estamos a viver uma experi\u00eancia que nos derrota e faz sofrer, e vamos projetando no tempo a transforma\u00e7\u00e3o dessa viv\u00eancia em algo que \u00e9 bom e que nos traz felicidade. Se forem pequeninos pacotes de felicidade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mau. Naquilo que eu fa\u00e7o, ou fazia, a esperan\u00e7a est\u00e1 ligada ao desfecho de uma luta. A exist\u00eancia dessa luta alimenta a esperan\u00e7a, baixar os bra\u00e7os mata-a. Quando a pessoa acha que vai ficar melhor, isso ajuda o processo de cura. Portanto, o pessimismo \u00e9 uma profecia que se cumpre. \u00a0 E quando a esperan\u00e7a aponta para tr\u00e1s, para voltar a ser-se o que se era? A\u00ed pode ser destruidora. Pode haver um sentimento nost\u00e1lgico \u2014 como eu era e como estou agora. Ali\u00e1s, volto ao Fernando Gil, que morreu com uma doen\u00e7a oncol\u00f3gica e r\u00e1pida. Num e-mail,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[109,111,59],"tags":[],"class_list":["post-2273542","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-autores","category-literatura-portuguesa","category-podcast"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2273542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2273542"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2273542\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3088840,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2273542\/revisions\/3088840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2273542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2273542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2273542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}