{"id":2238612,"date":"2019-03-02T10:00:00","date_gmt":"2019-03-02T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2238612.html"},"modified":"2026-05-14T09:13:36","modified_gmt":"2026-05-14T09:13:36","slug":"teolinda-gersao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2238612","title":{"rendered":"Teolinda Gers\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"Teolinda.jpg\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21370216_WoJmd.jpeg\" alt=\"Teolinda.jpg\" width=\"500\" height=\"295\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>in<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/2017\/teolinda-gersao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/a> |<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h1 class=\"entry-title\"><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>\u00abA morte n\u00e3o me assusta nada\u00bb<\/strong><\/span><\/h1>\n<p><\/p>\n<p><strong>Come\u00e7ou a publicar regularmente s\u00f3 aos 41 anos, quando a vida familiar e a profissional lhe deram as tr\u00e9guas e a concentra\u00e7\u00e3o de que precisava para escrever. A cada livro novo foram juntando-se pr\u00e9mios. Agora, aos 77 anos, recebe o Pr\u00e9mio Verg\u00edlio Ferreira 2017. Entre as qualidades de Teolinda Gers\u00e3o destaca-se, diz o j\u00fari, \u00aba independ\u00eancia relativamente a todas as modas ou tend\u00eancias que, de alguma forma, condicionam os caminhos da literatura contempor\u00e2nea\u00bb. Uma independ\u00eancia que se revela tamb\u00e9m nesta conversa, que come\u00e7a com livros mas avan\u00e7a rapidamente para outros temas. Sem tabus, d\u00e1-nos a sua vis\u00e3o sobre o pa\u00eds e o mundo, as quest\u00f5es \u00e9ticas e quotidianas, o envelhecimento, a morte e a vida.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nasceu em Coimbra, em 1940, mas escolheu Lisboa, em 1965, quando come\u00e7ou a dar aulas na Faculdade de Letras. \u00c0 capital, casa desde ent\u00e3o, dedicou o livro\u00a0<em>Cidade de Ulisses<\/em>, um entre os muitos que tem publicados e premiados. O romance mais recente,\u00a0<em>Passagens,<\/em>\u00a0valeu-lhe o Pr\u00e9mio Fernando Namora 2015 e, o conjunto da obra, o Pr\u00e9mio Verg\u00edlio Ferreira, que ser\u00e1 entregue a 1 de mar\u00e7o. As rela\u00e7\u00f5es humanas, por um lado, e a individualidade de cada ser humano, por outro, alimentam uma obra constru\u00edda na fic\u00e7\u00e3o e na escrita \u2013 sempre \u00e0 luz da antiga grafia, anterior ao Acordo Ortogr\u00e1fico. Formada em German\u00edstica, Roman\u00edstica e Angl\u00edstica, defende que a perda da etimologia latina das palavras em portugu\u00eas \u00abn\u00e3o faz sentido\u00bb. Assim como n\u00e3o o fazem a posi\u00e7\u00e3o de Portugal em rela\u00e7\u00e3o a Almaraz ou outras coisas que se passam atualmente no mundo e que v\u00ea com apreens\u00e3o e realismo redobrado. N\u00e3o costuma olhar para tr\u00e1s, viveu tudo o que podia e intensamente. Parte dessa vida est\u00e1 nos seus livros.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Que livros come\u00e7ou por ler?<\/strong><br \/>O meu percurso foi, mais ou menos, os de todas as crian\u00e7as e adolescentes. Contos tradicionais, em crian\u00e7a, depois a Condessa de S\u00e9gur de que gostava imenso, sobretudo dos livros que tinham que ver com a R\u00fassia. Havia o General Dourakine, que era o meu preferido, bondoso, mas irasc\u00edvel e desequilibrado. Uma figura extraordin\u00e1ria que me parecia imposs\u00edvel que existisse na realidade, mas que se enquadrava naquele ambiente, porque era um mundo completamente diferente.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"cutid1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"ljcut\" text=\"Ler mais...\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E a grande literatura, quando aparece na sua vida?<\/strong><br \/>Cedo, porque havia livros l\u00e1 em casa. Comecei a ler E\u00e7a de Queir\u00f3s muito cedo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Autor que \u00e0s vezes a deixa irritada.<\/strong><br \/>[Risos] \u00c0s vezes, um pouco, naquele aspeto em que ele viveu muito fora de Portugal e tem uma rela\u00e7\u00e3o com o seu pa\u00eds que \u00e9 um pouco idealizada. Ele ora o v\u00ea todo em sombra ora o v\u00ea todo luminoso. A\u00a0<em>Cidade e as Serras<\/em>\u00a0\u00e9 o deslumbramento, mas de resto Portugal \u00e9 a choldra, o pa\u00eds horr\u00edvel, onde tudo falha. As pessoas s\u00e3o todas falhadas, terr\u00edveis, e a sociedade \u00e9 horr\u00edvel. Mas a escrita dele \u00e9 que me fascinou desde sempre, porque era de uma ironia e de uma sedu\u00e7\u00e3o imensa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Como olha para o pa\u00eds hoje?<\/strong><br \/>Tenho uma perspetiva de que as coisas podem mudar. No E\u00e7a h\u00e1 um certo fatalismo. Ele n\u00e3o acredita na mudan\u00e7a da mentalidade portuguesa, eu acredito. Penso que estamos a mudar e Portugal, nos \u00faltimos quarenta anos, mudou visivelmente, embora ainda haja muitos preconceitos, que acabar\u00e3o por passar. Temos de chegar \u00e0 maturidade em todos os aspetos. Ainda temos um complexo de inferioridade.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Do que \u00e9 que ainda n\u00e3o conseguimos libertar-nos? Em\u00a0<em>A Cidade de Ulisses<\/em>, o narrador fala do pa\u00eds e de Lisboa, nos anos 1980. Parece que est\u00e1 a falar-nos dos dias de hoje, n\u00e3o h\u00e1 muitas diferen\u00e7as.<\/strong><br \/>Pois n\u00e3o. J\u00e1 por duas vezes, desde o 25 de Abril, estivemos \u00e0 beira da bancarrota. Porqu\u00ea? Uma revolu\u00e7\u00e3o tem custos brutais e, hoje, olhando para tr\u00e1s, penso no \u00abromantismo\u00bb da Revolu\u00e7\u00e3o, acredit\u00e1vamos que tudo ia mudar de repente e que entr\u00e1vamos noutro mundo. De facto n\u00e3o \u00e9 assim, hoje vejo isso com mais nitidez. E houve, depois, muitos erros. No fim da ditadura, t\u00ednhamos os cofres cheios e n\u00e3o sabemos para onde isso foi. Desapareceu tudo. Houve ali uma \u00e9poca de grande caos e de muitas coisas mal feitas. Uma descoloniza\u00e7\u00e3o apressada que n\u00e3o acautelou os direitos dos portugueses. \u00c9 outra das nossas falhas, n\u00e3o acautelamos os interesses do pa\u00eds suficientemente.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<\/strong><br \/>Por exemplo, agora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o de Almaraz. Portugal fez papel de morto durante d\u00e9cadas. Essa quest\u00e3o tem d\u00e9cadas, quando Espanha come\u00e7ou a fazer a central nuclear perto da fronteira. Deix\u00e1mos as coisas acontecerem at\u00e9 que de repente somos confrontados com uma realidade que \u00e9 inaceit\u00e1vel. Depois o povo paga, mas h\u00e1 respons\u00e1veis. Por outro lado, a Justi\u00e7a \u00e9 lent\u00edssima. Mas a mentalidade est\u00e1 a mudar, estamos a ter consci\u00eancia desses problemas e a exigir que eles n\u00e3o se repitam, porque n\u00e3o queremos continuar sempre \u00e0 beira da desgra\u00e7a. Queremos transformar-nos num pa\u00eds normal, onde h\u00e1 regras, responsabilizando quem prevarica, sobretudo os grandes. A grande influ\u00eancia na sociedade n\u00e3o vem dos pequeninos, vem sempre dos grandes \u2013 esses \u00e9 que t\u00eam poder, for\u00e7a e dinheiro.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-25448\" src=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_02.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_02.jpg 640w, https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_02-300x177.jpg 300w\" alt=\"teolinda_02\" width=\"640\" height=\"377\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O seu romance\u00a0<em>Passagens<\/em>\u00a0reflete o tema da velhice. Como \u00e9 escrever sobre o envelhecimento enquanto se est\u00e1 a viver esse processo?<\/strong><br \/>Eu escrevi, sobretudo, vendo desaparecer pessoas muito pr\u00f3ximas. Quando perdi o meu pai, tinha 42 anos. A minha m\u00e3e morreu h\u00e1 cinco anos, com 100 anos, e eu acompanhei o decl\u00ednio dela e o processo de envelhecimento. Assumo essa realidade, vivo-a, sofro-a, partilho-a com todos os outros. Tamb\u00e9m penso que n\u00e3o estamos a proteger os idosos como eles precisam. H\u00e1 muitas pessoas a viverem sozinhas, a n\u00e3o terem os cuidados m\u00e9dicos que precisam, a serem pressionadas para sa\u00edrem das suas casas porque algu\u00e9m quer fazer dali um hostel ou um neg\u00f3cio \u00e0 custa da fragilidade. Os lares n\u00e3o funcionam, levam pre\u00e7os exorbitantes e o que fornecem s\u00e3o os cuidados m\u00ednimos. Quanto ao meu pr\u00f3prio envelhecimento, ainda n\u00e3o o sinto e fa\u00e7o os poss\u00edveis por n\u00e3o pensar muito nele. Quando desaparecer, desapareci. Espero que seja de uma maneira r\u00e1pida e indolor, uma coisa fulminante como foi o caso do meu pai, que tinha problemas card\u00edacos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m sofreu um enfarte, aos 66 anos.<\/strong><br \/>Sim, mas fiquei \u00f3tima, sem sequelas. Fui eu que diagnostiquei, porque tinha assistido ao primeiro enfarte do meu pai.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Pensa na morte?<\/strong><br \/>N\u00e3o. Tenho medo do sofrimento, da degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica, da dor, mas da morte em si n\u00e3o. N\u00e3o me assusta nada, mesmo que do outro lado n\u00e3o exista nada, existe, pelo menos, o ciclo da natureza. Voltamos \u00e0 terra, \u00e0 \u00e1gua, ao fogo, ao vento, aos elementos. Fazemos parte de um ciclo, n\u00e3o somos nada nem ningu\u00e9m neste universo enorme, em que n\u00e3o sabemos se somos os \u00fanicos seres inteligentes ou se haver\u00e1 outros al\u00e9m de n\u00f3s.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Falou na solid\u00e3o dos velhos. Teme-a nesta fase da sua vida?<\/strong><br \/>Pessoalmente n\u00e3o, porque gosto muito de pessoas e tenho facilidade em estabelecer contacto e em relacionar-me. Mas sei que \u00e9 um problema que existe e que n\u00e3o tenho tempo para estar com toda a gente com quem gostaria de estar. Encontro muitas vezes pessoas a precisar de ajuda e pessoas que leram os meus livros e de repente me escrevem como se eu pudesse resolver as suas vidas. Obviamente que n\u00e3o posso, mas sou solid\u00e1ria e compreendo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>\u00c9 a favor da eutan\u00e1sia.<\/strong><br \/>Sim, embora seja um tema muito sens\u00edvel, que tem de ser tratado com pin\u00e7as, porque pode dar origem a muitos abusos. H\u00e1 muita viol\u00eancia na nossa sociedade, degrada\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas. Acredito que poder\u00e1 haver facilmente abusos, pessoas que t\u00eam idosos a seu cargo querem ver-se livres deles e os convencem de que se calhar \u00e9 essa a melhor solu\u00e7\u00e3o, e pessoas que se tornam muito fr\u00e1geis e que s\u00e3o influenci\u00e1veis, a tal solid\u00e3o dos idosos, que pode levar a uma grande viol\u00eancia contra eles. Tem de se estabelecer uma linha em que prevale\u00e7a a vontade do pr\u00f3prio e n\u00e3o dos familiares. Em rela\u00e7\u00e3o a mim, sei o que vou escolher quando chegar a hora.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>\u00c0 medida que se envelhece, como \u00e9 que se lida com os erros que n\u00e3o j\u00e1 se pode corrigir ou remediar?<\/strong><br \/>N\u00e3o me preocupo. N\u00e3o me culpabilizo, n\u00e3o estou em luta comigo pr\u00f3pria, nem com o mundo, nem com nada. Nunca olho para tr\u00e1s. O que n\u00e3o se pode remediar, remediado est\u00e1. O melhor \u00e9 n\u00e3o pensar e andar para a frente.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Tem algum tipo de f\u00e9?<\/strong><br \/>Acredito que existe algum princ\u00edpio criador por detr\u00e1s disto. Mas se n\u00e3o existir, pelo menos h\u00e1 essa ideia de que somos seres morais, sabemos o que \u00e9 o bem e o mal. Em toda esta evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u2013 pod\u00edamos n\u00e3o ter evolu\u00eddo mais do que as baratas \u2013 cheg\u00e1mos \u00e0 consci\u00eancia que temos hoje e que \u00e9 tamb\u00e9m uma consci\u00eancia \u00e9tica. O \u00fanico progresso que interessa \u00e9 o progresso \u00e9tico. Infelizmente, estamos a regredir para uma \u00e9poca de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_05.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-25451\" src=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_05.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_05.jpg 640w, https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_05-300x177.jpg 300w\" alt=\"teolinda_05\" width=\"640\" height=\"377\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Na sua p\u00e1gina do Facebook p\u00f4s um texto que escreveu no dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, e que leu na entrega do Pr\u00e9mio Fernando Namora, onde diz que encarou o brexit como \u00abum fort\u00edssimo voto de censura \u00e0 Uni\u00e3o Europeia\u00bb e que assistiu \u00abcom entusiasmo \u00e0 candidatura de Bernie Sanders\u00bb. Mas depois acrescenta que n\u00e3o consegue falar do que est\u00e1 a acontecer, por ser \u00abdemasiado vasto e imprevis\u00edvel\u00bb. Porqu\u00ea?<\/strong><br \/>Eu vi, de facto, o brexit como uma grande cr\u00edtica \u00e0 Uni\u00e3o Europeia [UE], porque ela foi uma dece\u00e7\u00e3o imensa. N\u00e3o era nada disto que n\u00f3s quer\u00edamos nem nada disto que nos tinham falado. Aderimos a uma coisa que n\u00e3o sab\u00edamos o que era e que se est\u00e1 a revelar completamente dececionante. Mas agora vamos passar tempos dif\u00edceis e vamos ver o que se passa com a Inglaterra. N\u00e3o penso que o caminho para Portugal fosse tamb\u00e9m sair da UE porque somos muito fr\u00e1geis e n\u00e3o podemos bater com a porta assim. Esperamos que a Europa mostre algum bom senso e ganhe um rumo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Trump, nos EUA, \u00e9 absolutamente assustadora. Ele disse que aceitava a tortura como meio eficaz para vencer o inimigo, aquele muro contra o M\u00e9xico, que v\u00e3o ser os mexicanos a pagar, o protecionismo\u2026 O presidente Trump est\u00e1 completamente fora da realidade.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Ele, por sua vez, acusa outros de estarem fora da realidade dos americanos. H\u00e1 este confronto, pela desilus\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es, e um sentimento de distanciamento em grande parte da popula\u00e7\u00e3o, que se sente esquecida.<\/strong><br \/>As pessoas sentem-se esquecidas, sim. Eu fui professora convidada na Universidade de Berkeley, na Calif\u00f3rnia, em 2004. A Calif\u00f3rnia \u00e9 o estado americano mais rico e o que mais me chocou foi a pobreza que encontrei. Havia uma percentagem enorme de sem-abrigo, embora seja verdade que, como o clima \u00e9 melhor, a maioria dos sem-abrigo deseja ir para l\u00e1 e sempre que pode vai. Isso chocou-me. E o facto de n\u00e3o haver cuidados de sa\u00fade como n\u00f3s temos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m viveu na Alemanha e no Brasil. Que mem\u00f3rias guarda?<\/strong><br \/>Foram muito importantes. Comecei por ir para a Alemanha, tinha terminado o curso e ganhei uma bolsa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. E foi a partir da Alemanha que vi Portugal com outros olhos, mais positivos. Comecei a ver o nosso lado bom quando comecei a ver os defeitos dos alem\u00e3es, que s\u00e3o muitos. \u00c9 um pa\u00eds de que eu gosto, admiro, mas onde nunca gostaria de viver. Aquela sociedade n\u00e3o me diz nada. Prefiro a nossa. Ali\u00e1s, eles tamb\u00e9m [risos]. Gostam da nossa espontaneidade, da abertura. S\u00e3o muito fechados, custa-lhes falar com desconhecidos. N\u00f3s temos um calor humano que a eles lhes falta e falamos de muitas coisas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m viveu no Brasil.<\/strong><br \/>Calhou ser S\u00e3o Paulo, a megal\u00f3pole, em que a vida \u00e9 muito dura, as dist\u00e2ncias enormes, tudo muito desumanizado, muito americanizado, as diferen\u00e7as sociais e econ\u00f3micas brutais, muito maiores do que na Europa. E isso tamb\u00e9m me chocou. Por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es entre patr\u00f5es e empregados, a come\u00e7ar pelas rela\u00e7\u00f5es com as empregadas dom\u00e9sticas, s\u00e3o muito dif\u00edceis, porque elas, \u00e0 partida, t\u00eam tamb\u00e9m aquele preconceito de que v\u00e3o ser exploradas e de que o patr\u00e3o \u00e9 sempre mau.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Diz que a literatura pode resgatar-nos para os grandes valores humanos. Mas se as pessoas leem pouco, como \u00e9 que isso vai acontecer?<\/strong><br \/>Nada matou a literatura. Pode ser lida\u00a0<em>online<\/em>, n\u00e3o ser em papel, mas continua e continuar\u00e1 a existir. Precisamos dela e queremos hist\u00f3rias. O que eu acho \u00e9 que o ensino \u00e9 deficiente e mata o desejo de ler. \u00c9 t\u00e3o aborrecido e ensina-se tanta coisa in\u00fatil, tanto palavreado supostamente erudito que n\u00e3o serve para nada, tanto conceito vazio, tanta gram\u00e1tica descritiva que n\u00e3o tem nada que ver com a realidade quotidiana.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O facto de hoje o Plano Nacional de Leitura ter livros e autores mais atuais pode ser um incentivo para que as crian\u00e7as e os jovens leiam mais?<\/strong><br \/>Mas \u00e9 que n\u00e3o t\u00eam tempo para ler quase nada porque t\u00eam tanta mat\u00e9ria para decorar, quando se fala tanto contra decorar. Eu acho que decorar \u00e9 muito bom, aprende-se imenso. E a fazer reda\u00e7\u00f5es. O meu neto mais velho uma vez teve de escrever uma reda\u00e7\u00e3o que era uma carta, e ele teve uma atitude muito criativa. Foi buscar uma personagem de um livro que lia muito, p\u00f4s-se no papel dessa personagem e escreveu uma carta a um amigo. E a professora riscou tudo e disse: \u00abFoste buscar uma personagem e n\u00e3o era isso que era pedido. Era uma carta tua a um amigo teu.\u00bb Isto n\u00e3o faz sentido nenhum.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-25447\" src=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_01.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_01.jpg 640w, https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_01-300x177.jpg 300w\" alt=\"teolinda_01\" width=\"640\" height=\"377\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Come\u00e7ou a escrever livros de forma mais regular a partir dos 41 anos\u2026<\/strong><br \/>Sim. Sempre escrevi, mas comecei a publicar em 1981, e na altura tinha 41 anos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Em parte, porque as suas filhas j\u00e1 estavam mais crescidas e tamb\u00e9m j\u00e1 tinha terminado o doutoramento.<\/strong><br \/>Exato. Arranjei um espa\u00e7o de acalmia em que me pude dedicar \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o sem grandes interrup\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Os seus livros tamb\u00e9m abordam a maternidade sob diferentes aspetos. \u00c9 um tema que lhe diz particularmente?<\/strong><br \/>Sim, mexe comigo porque tamb\u00e9m o vivi e as mulheres sentem sempre uma certa culpabilidade, que as faz sofrer, porque \u00e9 muito dif\u00edcil conciliar o trabalho, que \u00e9 intenso e muit\u00edssimo exigente, e as crian\u00e7as, que precisam de aten\u00e7\u00e3o e de presen\u00e7a. N\u00e3o se pode pagar a algu\u00e9m para amar as crian\u00e7as. A mulher est\u00e1 muito s\u00f3 perante este dilema que a dilacera. Sentia-me muito culpada a trabalhar e tamb\u00e9m a escrever. Se se diz a uma crian\u00e7a, \u00abdeixa-me um bocadinho porque estou a trabalhar, n\u00e3o me podes interromper\u00bb, ela traduz para \u00abn\u00e3o gostas de mim\u00bb.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Acontecia com as suas filhas?<\/strong><br \/>Sim. E muitas vezes elas saltaram para os livros. Nos<em>\u00a0Guarda-Chuvas Cintilantes<\/em>\u00a0h\u00e1 di\u00e1logos reais com as minhas filhas. Uma delas diz: \u00abN\u00e3o gosto de gram\u00e1tica. Porque \u00e9 que as pessoas da gram\u00e1tica n\u00e3o morrem todas?\u00bb Ou: \u00abSe eu tivesse olhos azuis, via as coisas de outra cor? E de que cor s\u00e3o os olhos de Deus?\u00bb As crian\u00e7as dizem coisas espetaculares.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Elas sentiram avers\u00e3o pelos livros por tomarem tanto tempo \u00e0 m\u00e3e?<\/strong><br \/>Na adolesc\u00eancia, quando havia conflitos, a pior coisa que me podiam dizer, e que por vezes diziam, era: \u00abA m\u00e3e n\u00e3o se rala nada comigo, s\u00f3 pensa nos seus livros!\u00bb [risos]. Enfurecia-me porque n\u00e3o era verdade, mas eu compreendo o ponto de vista delas. Se calhar uma m\u00e3e intelectual n\u00e3o \u00e9 o ideal. Mas n\u00e3o h\u00e1 m\u00e3es ideais. Talvez quanto mais simples a rela\u00e7\u00e3o, mais direta e baseada no exemplo, melhor. Sem grandes filosofias ou sem filosofias nenhumas. [Leia tamb\u00e9m a entrevista de Teolinda Gers\u00e3o ao Delas.pt:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.delas.pt\/teolinda-gersao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00abHoje aparece quase como um feito her\u00f3ico uma mulher ter um filho\u00bb<\/a>]<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Quando surgiu o interesse pelo ensino?<\/strong><br \/>\u00c9 uma coisa um pouco da minha fam\u00edlia. O meu av\u00f4 era professor prim\u00e1rio, o meu pai era m\u00e9dico mas tinha duas irm\u00e3s que eram professoras. Havia um certo jeito, talvez, para ensinar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>No outro dia, no Facebook partilhou uma fotografia de inf\u00e2ncia, com a sua prima, na praia. Duas crian\u00e7as, na d\u00e9cada de 1940, felizes na praia, num pa\u00eds, \u00e0 \u00e9poca, j\u00e1 bastante cinzento. Al\u00e9m do momento, ela retrata tamb\u00e9m uma inf\u00e2ncia feliz?<\/strong><br \/>Foi em 1949, na Figueira da Foz, o \u00faltimo ano em que esteve a nossa av\u00f3. Eu estava com a minha prima. Foi uma inf\u00e2ncia feliz. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos consci\u00eancia de que est\u00e1vamos a viver numa ditadura, nem em casa o ambiente era politizado, nem se falava propriamente de pol\u00edtica. Adorei a escola prim\u00e1ria, tinha uma fam\u00edlia muito numerosa, em que havia muitos afetos, que se juntava, e tudo isso era um ambiente alegre.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Quando \u00e9 que se come\u00e7ou a aperceber da realidade do pa\u00eds?<\/strong><br \/>No liceu. Havia pessoas que vinham de outros meios sociais e que tinham muitas dificuldades econ\u00f3micas, menos acesso \u00e0 cultura. A\u00ed percebi que havia uma grande diferen\u00e7a e que muita coisa estava mal.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Isso despertou-a para a pol\u00edtica, para algum tipo de ativismo?<\/strong><br \/>Sim, mas sobretudo na universidade. A\u00ed sim. E depois na Alemanha. Porque nos anos de grande ebuli\u00e7\u00e3o estudantil eu estava na Alemanha, em 1963. Na universidade havia uma grande consci\u00eancia pol\u00edtica e todo o tipo de reuni\u00f5es.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Nessa mesma fotografia, h\u00e1 um coment\u00e1rio de um dos seus amigos, fala da sua express\u00e3o um pouco altiva, o sobrolho erguido. Em crian\u00e7a questionava muito?<\/strong><br \/>Fazia muitas perguntas, mas os meus pais davam-me sempre respostas e eu sentia-me livre para falar do que quisesse. E era muito curiosa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 que lhe despertava mais interesse nessa altura? Lembra-se?<\/strong><br \/>Adorava as hist\u00f3rias de bruxas e de almas do outro mundo que as empregadas dom\u00e9sticas contavam, sobretudo as da aldeia. As tradi\u00e7\u00f5es e as festas religiosas, a religi\u00e3o em si, tudo isso me despertava curiosidade e marcou-me bastante. Gosto muito da cultura tradicional. Conheci-a muito diretamente, tamb\u00e9m pelo facto de conhecer muito bem a vida do campo, que me influenciou, tendo eu vivido sempre na cidade.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Diz que \u00e9 tamb\u00e9m a curiosidade pela vida que a mant\u00e9m ativa. O que \u00e9 que hoje lhe suscita particular interesse?<\/strong><br \/>Acho que tudo [risos]. Sempre adorei cinema, teatro. De viajar. Interessa-me a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Saber mais sobre a origem do mundo, das esp\u00e9cies, os avan\u00e7os da medicina. Tudo isso me interessa muito e o espa\u00e7o que as novas tecnologias conquistaram. Depois h\u00e1 tamb\u00e9m as quest\u00f5es \u00e9ticas que tudo isso levanta. E a prioridade \u00e9 a Terra. Resolvam primeiro a fome no mundo, o problema dos refugiados e das pessoas desalojadas, etc. O espa\u00e7o pode esperar. J\u00e1 l\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 milh\u00f5es de anos. As pessoas n\u00e3o, est\u00e3o a morrer. Portanto, a prioridade \u00e9 a Terra.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>E para si o que \u00e9 n\u00e3o pode esperar?<\/strong><br \/>N\u00e3o posso esperar parar no tempo. Sei que vou ter um n\u00famero de anos pela frente \u2013 n\u00e3o sei quantos \u2013 de vida \u00fatil. Porque quando a vida deixar de ser \u00fatil e deixar de ser eu pr\u00f3pria, deixa de me interessar. Mas sei que esse tempo \u00e9 limitado e, portanto, procuro aproveit\u00e1-lo ao m\u00e1ximo. E n\u00e3o posso esperar que ele seja muito longo porque sou realista.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Preza o livre pensamento e n\u00e3o gosta que a condicionem. Sempre conseguiu viver de acordo com essas premissas?<\/strong><br \/>Quando vim para Lisboa fiz parte da reda\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Via Latina<\/em>\u00a0e public\u00e1mos um artigo de um leitor alem\u00e3o em que a universidade portuguesa era criticada. Houve um professor que se sentiu lesado e conseguiu que o leitor alem\u00e3o tivesse o contrato rescindido a meio do ano e fosse mandado embora. Eu assumi que tinha sido a pessoa que lhe pediu para escrever o artigo e a PIDE n\u00e3o me chateou. O professor, que era considerado um grande democrata, pregou-me uma descompostura e eu disse: \u00abAqui n\u00e3o h\u00e1 nenhum erro. \u00c9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 delitos de opini\u00e3o.\u00bb O Fernando Assis Pacheco fazia parte do nosso curso, lembro-me dele em p\u00e9, em cima de uma cadeira, a dizer: \u00abIsto n\u00e3o se faz nem a um c\u00e3o. Ele n\u00e3o pode ser despedido!\u00bb Mas foi e eu achei que nunca iria trabalhar com aquele professor. N\u00e3o me arrependi.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Diz que para escrever \u00e9 preciso ler muito e viver muito. Viveu tudo o que queria viver?<\/strong><br \/>Pelo menos, vivi muito. Todos poder\u00edamos ou gostar\u00edamos de ter vivido mais. Talvez a literatura tamb\u00e9m funcione como universos imagin\u00e1rios em que vivemos de uma maneira ficcionada. A imagina\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o tem limites e o que n\u00f3s desejar\u00edamos tamb\u00e9m n\u00e3o. Mas considero que n\u00e3o me posso queixar porque vivi muito e com muita intensidade.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Esta entrevista \u00e9 reproduzida respeitando o novo Acordo Ortogr\u00e1fico, tal como ocorre com todos os artigos da Not\u00edcias Magazine. Teolinda Gers\u00e3o escreve seguindo as regras da antiga ortografia.<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_04.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-25450\" src=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_04.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_04.jpg 640w, https:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/02\/Teolinda_04-300x177.jpg 300w\" alt=\"teolinda_04\" width=\"640\" height=\"377\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>\u00abAS PESSOAS INTERESSAM-ME\u00bb<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong>Autora sobretudo de romances, Teolinda Gers\u00e3o tem v\u00e1rios livros adaptados ao teatro em pa\u00edses como Portugal, Alemanha e Rom\u00e9nia, ou ao cinema, com obras a dar origem a curtas-metragens e, recentemente, a uma longa-metragem \u2013 ainda em prepara\u00e7\u00e3o e baseada no romance Passagens.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Entre os grandes temas da sua obra, Teolinda Gers\u00e3o destaca as rela\u00e7\u00f5es humanas, que p\u00f5e \u00absempre em primeiro lugar\u00bb e que trata tanto nas suas express\u00f5es mais \u00edntimas, atrav\u00e9s do amor e do sexo, como numa perspetiva intergeracional e social.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00abAs pessoas interessam-me e \u00e9 por isso que estou profundamente ligada \u00e0 fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e0 poesia\u00bb, justifica. A liga\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade concreta, das coisas que acontecem, que viu acontecer, que viveu ou que viu outras pessoas viver, s\u00e3o retratadas nos seus livros, aos quais, uma vez terminados, n\u00e3o tem por h\u00e1bito voltar. Teolinda Gers\u00e3o interessa-se tamb\u00e9m pela fragilidade do ser humano, pela solid\u00e3o e pelo facto de cada um de n\u00f3s ser \u00ab\u00fanico e irrepet\u00edvel\u00bb.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A isso junta a complexidade da vida e o \u00ababsurdo do mundo em que vivemos, cheio de conflitos e contradi\u00e7\u00f5es\u00bb e que aproximam a escritora do leitor: \u00abEstou no meio deles como toda a gente.\u00bb<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>OS LIVROS E OS PR\u00c9MIOS<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><em><strong>A CIDADE DE ULISSES<\/strong><\/em><br \/>Homenagem \u00e0 cidade que escolheu, Lisboa, e lan\u00e7ado em 2011, \u00e9 um dos seus livros mais conhecidos. Ganhou os pr\u00e9mios Ciranda e Funda\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio Quadros<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><em>A MULHER QUE PRENDEU A CHUVA<\/em><\/strong><br \/>O conto \u00e9 outro dos g\u00e9neros presentes na obra da escritora. Este livro (de 2007) re\u00fane 14 e recebeu os pr\u00e9mios M\u00e1xima de Literatura e Funda\u00e7\u00e3o In\u00eas de Castro.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em><strong>A \u00c1RVORE DAS PALAVRAS<\/strong><\/em><br \/>Inspirado em Mo\u00e7ambique, onde a autora passou algum tempo, \u00e9 lan\u00e7ado em 1997, fase em que j\u00e1 se dedica exclusivamente \u00e0 escrita.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em><strong>SIL\u00caNCIO<\/strong><\/em><br \/>\u00c9 o primeiro romance e primeiro livro de Teolinda Gers\u00e3o. Publicado em 1981, a obra conquistou a cr\u00edtica, sendo distinguida com o Pr\u00e9mio de Fic\u00e7\u00e3o do PEN Clube.<\/p>\n<p><\/p>\n<div class=\"fb-page fb_iframe_widget\">\u00a0<\/div>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<div class=\"fb-page fb_iframe_widget\">\u00a0<\/div>\n<p><\/p>\n<div class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><strong>Conte\u00fado relacionado:<\/strong><\/div>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-Y1MKNaYT_4&amp;feature=youtu.be\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teolinda Gers\u00e3o, Umas Palavras<\/a> | Rede Globo TV<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/JjNRTswVtB8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Teolinda Gers\u00e3o: &#8220;A velha&#8221;<\/span><\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/artigo\/323563\/teolinda-gersao-ha-experi-ncia-humana-que-so-esta-na-literatura-?seccao=isAdmin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teolinda Gers\u00e3o. &#8220;H\u00e1 experi\u00eancia humana que s\u00f3 est\u00e1 na literatura&#8221;<\/a> | jornal i<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.isleep.pt\/os-sonhos-parecem-literatura-em-estado-puro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cOs sonhos parecem literatura em estado puro&#8221;<\/a> | isleep<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/porque-teolinda-gersao-escreveu-a-cidade-de-ulisses\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Porque Teolinda Gers\u00e3o escreveu &#8220;A Cidade de Ulisses&#8221;<\/a> | ensina rtp<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2016\/12\/21\/escritora-teolinda-gersao-conquista-premio-literario-vergilio-ferreira-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Escritora Teolinda Gers\u00e3o conquista pr\u00e9mio liter\u00e1rio Verg\u00edlio Ferreira\u00a02017<\/a> | observador<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/ilcao.cedilha.net\/arquivo\/6326\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teolinda Gers\u00e3o faz uma declara\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 L\u00edngua portuguesa<\/a> <\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teolinda_Gers%C3%A3o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teolinda Gers\u00e3o<\/a> | wikip\u00e9dia<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"fb-page fb_iframe_widget\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/teolindagersao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teolinda Gers\u00e3o<\/a> | site oficial<\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>in\u00a0Di\u00e1rio de Not\u00edcias | \u00a0 \u00abA morte n\u00e3o me assusta nada\u00bb Come\u00e7ou a publicar regularmente s\u00f3 aos 41 anos, quando a vida familiar e a profissional lhe deram as tr\u00e9guas e a concentra\u00e7\u00e3o de que precisava para escrever. A cada livro novo foram juntando-se pr\u00e9mios. Agora, aos 77 anos, recebe o Pr\u00e9mio Verg\u00edlio Ferreira 2017. Entre as qualidades de Teolinda Gers\u00e3o destaca-se, diz o j\u00fari, \u00aba independ\u00eancia relativamente a todas as modas ou tend\u00eancias que, de alguma forma, condicionam os caminhos da literatura contempor\u00e2nea\u00bb. Uma independ\u00eancia que se revela tamb\u00e9m nesta conversa, que come\u00e7a com livros mas avan\u00e7a rapidamente para outros temas. Sem tabus, d\u00e1-nos a sua vis\u00e3o sobre o pa\u00eds e o mundo, as quest\u00f5es \u00e9ticas e quotidianas, o envelhecimento, a morte e a vida. \u00a0 Nasceu em Coimbra, em 1940, mas escolheu Lisboa, em 1965, quando come\u00e7ou a dar aulas na Faculdade de Letras. \u00c0 capital, casa desde ent\u00e3o, dedicou o livro\u00a0Cidade de Ulisses, um entre os muitos que tem publicados e premiados. O romance mais recente,\u00a0Passagens,\u00a0valeu-lhe o Pr\u00e9mio Fernando Namora 2015 e, o conjunto da obra, o Pr\u00e9mio Verg\u00edlio Ferreira, que ser\u00e1 entregue a 1 de mar\u00e7o. As rela\u00e7\u00f5es humanas, por um lado, e a individualidade de cada ser humano, por outro, alimentam uma obra constru\u00edda na fic\u00e7\u00e3o e na escrita \u2013 sempre \u00e0 luz da antiga grafia, anterior ao Acordo Ortogr\u00e1fico. Formada em German\u00edstica, Roman\u00edstica e Angl\u00edstica, defende que a perda da etimologia latina das palavras em portugu\u00eas \u00abn\u00e3o faz sentido\u00bb. Assim como n\u00e3o o fazem a posi\u00e7\u00e3o de Portugal em rela\u00e7\u00e3o a Almaraz ou outras coisas que se passam atualmente no mundo e que v\u00ea com apreens\u00e3o e realismo redobrado. N\u00e3o costuma olhar para tr\u00e1s, viveu tudo o que podia e intensamente. Parte dessa vida est\u00e1 nos seus livros. \u00a0 Que livros come\u00e7ou por ler?O meu percurso foi, mais ou menos, os de todas as crian\u00e7as e adolescentes. Contos tradicionais, em crian\u00e7a, depois a Condessa de S\u00e9gur de que gostava imenso, sobretudo dos livros que tinham que ver com a R\u00fassia. Havia o General Dourakine, que era o meu preferido, bondoso, mas irasc\u00edvel e desequilibrado. Uma figura extraordin\u00e1ria que me parecia imposs\u00edvel que existisse na realidade, mas que se enquadrava naquele ambiente, porque era um mundo completamente diferente. \u00a0 \u00a0 E a grande literatura, quando aparece na sua vida?Cedo, porque havia livros l\u00e1 em casa. Comecei a ler E\u00e7a de Queir\u00f3s muito cedo. Autor que \u00e0s vezes a deixa irritada.[Risos] \u00c0s vezes, um pouco, naquele aspeto em que ele viveu muito fora de Portugal e tem uma rela\u00e7\u00e3o com o seu pa\u00eds que \u00e9 um pouco idealizada. Ele ora o v\u00ea todo em sombra ora o v\u00ea todo luminoso. A\u00a0Cidade e as Serras\u00a0\u00e9 o deslumbramento, mas de resto Portugal \u00e9 a choldra, o pa\u00eds horr\u00edvel, onde tudo falha. As pessoas s\u00e3o todas falhadas, terr\u00edveis, e a sociedade \u00e9 horr\u00edvel. Mas a escrita dele \u00e9 que me fascinou desde sempre, porque era de uma ironia e de uma sedu\u00e7\u00e3o imensa. \u00a0 Como olha para o pa\u00eds hoje?Tenho uma perspetiva de que as coisas podem mudar. No E\u00e7a h\u00e1 um certo fatalismo. Ele n\u00e3o acredita na mudan\u00e7a da mentalidade portuguesa, eu acredito. Penso que estamos a mudar e Portugal, nos \u00faltimos quarenta anos, mudou visivelmente, embora ainda haja muitos preconceitos, que acabar\u00e3o por passar. Temos de chegar \u00e0 maturidade em todos os aspetos. Ainda temos um complexo de inferioridade. \u00a0 Do que \u00e9 que ainda n\u00e3o conseguimos libertar-nos? Em\u00a0A Cidade de Ulisses, o narrador fala do pa\u00eds e de Lisboa, nos anos 1980. Parece que est\u00e1 a falar-nos dos dias de hoje, n\u00e3o h\u00e1 muitas diferen\u00e7as.Pois n\u00e3o. J\u00e1 por duas vezes, desde o 25 de Abril, estivemos \u00e0 beira da bancarrota. Porqu\u00ea? Uma revolu\u00e7\u00e3o tem custos brutais e, hoje, olhando para tr\u00e1s, penso no \u00abromantismo\u00bb da Revolu\u00e7\u00e3o, acredit\u00e1vamos que tudo ia mudar de repente e que entr\u00e1vamos noutro mundo. De facto n\u00e3o \u00e9 assim, hoje vejo isso com mais nitidez. E houve, depois, muitos erros. No fim da ditadura, t\u00ednhamos os cofres cheios e n\u00e3o sabemos para onde isso foi. Desapareceu tudo. Houve ali uma \u00e9poca de grande caos e de muitas coisas mal feitas. Uma descoloniza\u00e7\u00e3o apressada que n\u00e3o acautelou os direitos dos portugueses. \u00c9 outra das nossas falhas, n\u00e3o acautelamos os interesses do pa\u00eds suficientemente. \u00a0 Em que sentido?Por exemplo, agora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o de Almaraz. Portugal fez papel de morto durante d\u00e9cadas. Essa quest\u00e3o tem d\u00e9cadas, quando Espanha come\u00e7ou a fazer a central nuclear perto da fronteira. Deix\u00e1mos as coisas acontecerem at\u00e9 que de repente somos confrontados com uma realidade que \u00e9 inaceit\u00e1vel. Depois o povo paga, mas h\u00e1 respons\u00e1veis. Por outro lado, a Justi\u00e7a \u00e9 lent\u00edssima. Mas a mentalidade est\u00e1 a mudar, estamos a ter consci\u00eancia desses problemas e a exigir que eles n\u00e3o se repitam, porque n\u00e3o queremos continuar sempre \u00e0 beira da desgra\u00e7a. Queremos transformar-nos num pa\u00eds normal, onde h\u00e1 regras, responsabilizando quem prevarica, sobretudo os grandes. A grande influ\u00eancia na sociedade n\u00e3o vem dos pequeninos, vem sempre dos grandes \u2013 esses \u00e9 que t\u00eam poder, for\u00e7a e dinheiro. O seu romance\u00a0Passagens\u00a0reflete o tema da velhice. Como \u00e9 escrever sobre o envelhecimento enquanto se est\u00e1 a viver esse processo?Eu escrevi, sobretudo, vendo desaparecer pessoas muito pr\u00f3ximas. Quando perdi o meu pai, tinha 42 anos. A minha m\u00e3e morreu h\u00e1 cinco anos, com 100 anos, e eu acompanhei o decl\u00ednio dela e o processo de envelhecimento. Assumo essa realidade, vivo-a, sofro-a, partilho-a com todos os outros. Tamb\u00e9m penso que n\u00e3o estamos a proteger os idosos como eles precisam. H\u00e1 muitas pessoas a viverem sozinhas, a n\u00e3o terem os cuidados m\u00e9dicos que precisam, a serem pressionadas para sa\u00edrem das suas casas porque algu\u00e9m quer fazer dali um hostel ou um neg\u00f3cio \u00e0 custa da fragilidade. Os lares n\u00e3o funcionam, levam pre\u00e7os exorbitantes e o que fornecem s\u00e3o os cuidados m\u00ednimos. Quanto ao meu pr\u00f3prio envelhecimento, ainda n\u00e3o o sinto e fa\u00e7o os poss\u00edveis por n\u00e3o pensar muito nele. Quando desaparecer, desapareci. Espero que seja de uma maneira r\u00e1pida e indolor, uma coisa fulminante como foi o caso do meu pai, que tinha problemas card\u00edacos. \u00a0 Tamb\u00e9m sofreu um enfarte, aos 66 anos.Sim, mas fiquei \u00f3tima, sem sequelas. Fui eu que diagnostiquei, porque tinha assistido ao primeiro enfarte do meu pai. \u00a0 Pensa na morte?N\u00e3o. Tenho medo do sofrimento, da degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica, da dor, mas da morte em si n\u00e3o. N\u00e3o me assusta nada, mesmo que do outro lado n\u00e3o exista nada, existe, pelo menos, o ciclo da natureza. Voltamos \u00e0 terra, \u00e0 \u00e1gua, ao fogo, ao vento, aos elementos. Fazemos parte de um ciclo, n\u00e3o somos nada nem ningu\u00e9m neste universo enorme, em que n\u00e3o sabemos se somos os \u00fanicos seres inteligentes ou se haver\u00e1 outros al\u00e9m de n\u00f3s. \u00a0 Falou na solid\u00e3o dos velhos. Teme-a nesta fase da sua vida?Pessoalmente n\u00e3o, porque gosto muito de pessoas e tenho facilidade em estabelecer contacto e em relacionar-me. Mas sei que \u00e9 um problema que existe e que n\u00e3o tenho tempo para estar com toda a gente com quem gostaria de estar. Encontro muitas vezes pessoas a precisar de ajuda e pessoas que leram os meus livros e de repente me escrevem como se eu pudesse resolver as suas vidas. Obviamente que n\u00e3o posso, mas sou solid\u00e1ria e compreendo. \u00a0 \u00c9 a favor da eutan\u00e1sia.Sim, embora seja um tema muito sens\u00edvel, que tem de ser tratado com pin\u00e7as, porque pode dar origem a muitos abusos. H\u00e1 muita viol\u00eancia na nossa sociedade, degrada\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas. Acredito que poder\u00e1 haver facilmente abusos, pessoas que t\u00eam idosos a seu cargo querem ver-se livres deles e os convencem de que se calhar \u00e9 essa a melhor solu\u00e7\u00e3o, e pessoas que se tornam muito fr\u00e1geis e que s\u00e3o influenci\u00e1veis, a tal solid\u00e3o dos idosos, que pode levar a uma grande viol\u00eancia contra eles. Tem de se estabelecer uma linha em que prevale\u00e7a a vontade do pr\u00f3prio e n\u00e3o dos familiares. Em rela\u00e7\u00e3o a mim, sei o que vou escolher quando chegar a hora. \u00a0 \u00c0 medida que se envelhece, como \u00e9 que se lida com os erros que n\u00e3o j\u00e1 se pode corrigir ou remediar?N\u00e3o me preocupo. N\u00e3o me culpabilizo, n\u00e3o estou em luta comigo pr\u00f3pria, nem com o mundo, nem com nada. Nunca olho para tr\u00e1s. O que n\u00e3o se pode remediar, remediado est\u00e1. O melhor \u00e9 n\u00e3o pensar e andar para a frente. \u00a0 Tem algum tipo de f\u00e9?Acredito que existe algum princ\u00edpio criador por detr\u00e1s disto. Mas se n\u00e3o existir, pelo menos h\u00e1 essa ideia de que somos seres morais, sabemos o que \u00e9 o bem e o mal. Em toda esta evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u2013 pod\u00edamos n\u00e3o ter evolu\u00eddo mais do que as baratas \u2013 cheg\u00e1mos \u00e0 consci\u00eancia que temos hoje e que \u00e9 tamb\u00e9m uma consci\u00eancia \u00e9tica. O \u00fanico progresso que interessa \u00e9 o progresso \u00e9tico. Infelizmente, estamos a regredir para uma \u00e9poca de barb\u00e1rie. Na sua p\u00e1gina do Facebook p\u00f4s um texto que escreveu no dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, e que leu na entrega do Pr\u00e9mio Fernando Namora, onde diz que encarou o brexit como \u00abum fort\u00edssimo voto de censura \u00e0 Uni\u00e3o Europeia\u00bb e que assistiu \u00abcom entusiasmo \u00e0 candidatura de Bernie Sanders\u00bb. Mas depois acrescenta que n\u00e3o consegue falar do que est\u00e1 a acontecer, por ser \u00abdemasiado vasto e imprevis\u00edvel\u00bb. Porqu\u00ea?Eu vi, de facto, o brexit como uma grande cr\u00edtica \u00e0 Uni\u00e3o Europeia [UE], porque ela foi uma dece\u00e7\u00e3o imensa. N\u00e3o era nada disto que n\u00f3s quer\u00edamos nem nada disto que nos tinham falado. Aderimos a uma coisa que n\u00e3o sab\u00edamos o que era e que se est\u00e1 a revelar completamente dececionante. Mas agora vamos passar tempos dif\u00edceis e vamos ver o que se passa com a Inglaterra. N\u00e3o penso que o caminho para Portugal fosse tamb\u00e9m sair da UE porque somos muito fr\u00e1geis e n\u00e3o podemos bater com a porta assim. Esperamos que a Europa mostre algum bom senso e ganhe um rumo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Trump, nos EUA, \u00e9 absolutamente assustadora. Ele disse que aceitava a tortura como meio eficaz para vencer o inimigo, aquele muro contra o M\u00e9xico, que v\u00e3o ser os mexicanos a pagar, o protecionismo\u2026 O presidente Trump est\u00e1 completamente fora da realidade. \u00a0 Ele, por sua vez, acusa outros de estarem fora da realidade dos americanos. H\u00e1 este confronto, pela desilus\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es, e um sentimento de distanciamento em grande parte da popula\u00e7\u00e3o, que se sente esquecida.As pessoas sentem-se esquecidas, sim. Eu fui professora convidada na Universidade de Berkeley, na Calif\u00f3rnia, em 2004. A Calif\u00f3rnia \u00e9 o estado americano mais rico e o que mais me chocou foi a pobreza que encontrei. Havia uma percentagem enorme de sem-abrigo, embora seja verdade que, como o clima \u00e9 melhor, a maioria dos sem-abrigo deseja ir para l\u00e1 e sempre que pode vai. Isso chocou-me. E o facto de n\u00e3o haver cuidados de sa\u00fade como n\u00f3s temos. \u00a0 Tamb\u00e9m viveu na Alemanha e no Brasil. Que mem\u00f3rias guarda?Foram muito importantes. Comecei por ir para a Alemanha, tinha terminado o curso e ganhei uma bolsa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. E foi a partir da Alemanha que vi Portugal com outros olhos, mais positivos. Comecei a ver o nosso lado bom quando comecei a ver os defeitos dos alem\u00e3es, que s\u00e3o muitos. \u00c9 um pa\u00eds de que eu gosto, admiro, mas onde nunca gostaria de viver. Aquela sociedade n\u00e3o me diz nada. Prefiro a nossa. Ali\u00e1s, eles tamb\u00e9m [risos]. Gostam da nossa espontaneidade, da abertura. S\u00e3o muito fechados, custa-lhes falar com desconhecidos. N\u00f3s temos um calor humano que a eles lhes falta e falamos de muitas coisas. \u00a0 Tamb\u00e9m viveu no Brasil.Calhou ser S\u00e3o Paulo, a megal\u00f3pole, em que a vida \u00e9 muito dura, as dist\u00e2ncias enormes, tudo muito desumanizado, muito americanizado, as diferen\u00e7as sociais e econ\u00f3micas brutais, muito maiores do que na Europa. E isso tamb\u00e9m me chocou. Por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es entre patr\u00f5es e empregados, a come\u00e7ar pelas rela\u00e7\u00f5es com as empregadas dom\u00e9sticas, s\u00e3o muito dif\u00edceis, porque elas, \u00e0 partida, t\u00eam tamb\u00e9m aquele preconceito de que v\u00e3o ser exploradas e de que o patr\u00e3o \u00e9 sempre mau. \u00a0 Diz que a literatura pode resgatar-nos para os grandes valores humanos. Mas se as pessoas leem pouco, como \u00e9 que isso vai acontecer?Nada matou a literatura. Pode ser lida\u00a0online, n\u00e3o ser em papel, mas continua e continuar\u00e1 a existir. Precisamos dela e queremos hist\u00f3rias. O que eu acho \u00e9 que o ensino \u00e9 deficiente e mata o desejo de ler. \u00c9 t\u00e3o aborrecido e ensina-se tanta coisa in\u00fatil, tanto palavreado supostamente erudito que n\u00e3o serve para nada, tanto conceito vazio, tanta gram\u00e1tica descritiva que n\u00e3o tem nada que ver com a realidade quotidiana. \u00a0 O facto de hoje o Plano Nacional de Leitura ter livros e autores mais atuais pode ser um incentivo para que as crian\u00e7as e os jovens leiam mais?Mas \u00e9 que n\u00e3o t\u00eam tempo para ler quase nada porque t\u00eam tanta mat\u00e9ria para decorar, quando se fala tanto contra decorar. Eu acho que decorar \u00e9 muito bom, aprende-se imenso. E a fazer reda\u00e7\u00f5es. O meu neto mais velho uma vez teve de escrever uma reda\u00e7\u00e3o que era uma carta, e ele teve uma atitude muito criativa. Foi buscar uma personagem de um livro que lia muito, p\u00f4s-se no papel dessa personagem e escreveu uma carta a um amigo. E a professora riscou tudo e disse: \u00abFoste buscar uma personagem e n\u00e3o era isso que era pedido. Era uma carta tua a um amigo teu.\u00bb Isto n\u00e3o faz sentido nenhum. Come\u00e7ou a escrever livros de forma mais regular a partir dos 41 anos\u2026Sim. Sempre escrevi, mas comecei a publicar em 1981, e na altura tinha 41 anos. \u00a0 Em parte, porque as suas filhas j\u00e1 estavam mais crescidas e tamb\u00e9m j\u00e1 tinha terminado o doutoramento.Exato. Arranjei um espa\u00e7o de acalmia em que me pude dedicar \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o sem grandes interrup\u00e7\u00f5es. \u00a0 Os seus livros tamb\u00e9m abordam a maternidade sob diferentes aspetos. \u00c9 um tema que lhe diz particularmente?Sim, mexe comigo porque tamb\u00e9m o vivi e as mulheres sentem sempre uma certa culpabilidade, que as faz sofrer, porque \u00e9 muito dif\u00edcil conciliar o trabalho, que \u00e9 intenso e muit\u00edssimo exigente, e as crian\u00e7as, que precisam de aten\u00e7\u00e3o e de presen\u00e7a. N\u00e3o se pode pagar a algu\u00e9m para amar as crian\u00e7as. A mulher est\u00e1 muito s\u00f3 perante este dilema que a dilacera. Sentia-me muito culpada a trabalhar e tamb\u00e9m a escrever. Se se diz a uma crian\u00e7a, \u00abdeixa-me um bocadinho porque estou a trabalhar, n\u00e3o me podes interromper\u00bb, ela traduz para \u00abn\u00e3o gostas de mim\u00bb. \u00a0 Acontecia com as suas filhas?Sim. E muitas vezes elas saltaram para os livros. Nos\u00a0Guarda-Chuvas Cintilantes\u00a0h\u00e1 di\u00e1logos reais com as minhas filhas. Uma delas diz: \u00abN\u00e3o gosto de gram\u00e1tica. Porque \u00e9 que as pessoas da gram\u00e1tica n\u00e3o morrem todas?\u00bb Ou: \u00abSe eu tivesse olhos azuis, via as coisas de outra cor? E de que cor s\u00e3o os olhos de Deus?\u00bb As crian\u00e7as dizem coisas espetaculares. \u00a0 Elas sentiram avers\u00e3o pelos livros por tomarem tanto tempo \u00e0 m\u00e3e?Na adolesc\u00eancia, quando havia conflitos, a pior coisa que me podiam dizer, e que por vezes diziam, era: \u00abA m\u00e3e n\u00e3o se rala nada comigo, s\u00f3 pensa nos seus livros!\u00bb [risos]. Enfurecia-me porque n\u00e3o era verdade, mas eu compreendo o ponto de vista delas. Se calhar uma m\u00e3e intelectual n\u00e3o \u00e9 o ideal. Mas n\u00e3o h\u00e1 m\u00e3es ideais. Talvez quanto mais simples a rela\u00e7\u00e3o, mais direta e baseada no exemplo, melhor. Sem grandes filosofias ou sem filosofias nenhumas. [Leia tamb\u00e9m a entrevista de Teolinda Gers\u00e3o ao Delas.pt:\u00a0\u00abHoje aparece quase como um feito her\u00f3ico uma mulher ter um filho\u00bb] \u00a0 Quando surgiu o interesse pelo ensino?\u00c9 uma coisa um pouco da minha fam\u00edlia. O meu av\u00f4 era professor prim\u00e1rio, o meu pai era m\u00e9dico mas tinha duas irm\u00e3s que eram professoras. Havia um certo jeito, talvez, para ensinar. \u00a0 No outro dia, no Facebook partilhou uma fotografia de inf\u00e2ncia, com a sua prima, na praia. Duas crian\u00e7as, na d\u00e9cada de 1940, felizes na praia, num pa\u00eds, \u00e0 \u00e9poca, j\u00e1 bastante cinzento. Al\u00e9m do momento, ela retrata tamb\u00e9m uma inf\u00e2ncia feliz?Foi em 1949, na Figueira da Foz, o \u00faltimo ano em que esteve a nossa av\u00f3. Eu estava com a minha prima. Foi uma inf\u00e2ncia feliz. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos consci\u00eancia de que est\u00e1vamos a viver numa ditadura, nem em casa o ambiente era politizado, nem se falava propriamente de pol\u00edtica. Adorei a escola prim\u00e1ria, tinha uma fam\u00edlia muito numerosa, em que havia muitos afetos, que se juntava, e tudo isso era um ambiente alegre. \u00a0 Quando \u00e9 que se come\u00e7ou a aperceber da realidade do pa\u00eds?No liceu. Havia pessoas que vinham de outros meios sociais e que tinham muitas dificuldades econ\u00f3micas, menos acesso \u00e0 cultura. A\u00ed percebi que havia uma grande diferen\u00e7a e que muita coisa estava mal. \u00a0 Isso despertou-a para a pol\u00edtica, para algum tipo de ativismo?Sim, mas sobretudo na universidade. A\u00ed sim. E depois na Alemanha. Porque nos anos de grande ebuli\u00e7\u00e3o estudantil eu estava na Alemanha, em 1963. Na universidade havia uma grande consci\u00eancia pol\u00edtica e todo o tipo de reuni\u00f5es. \u00a0 Nessa mesma fotografia, h\u00e1 um coment\u00e1rio de um dos seus amigos, fala da sua express\u00e3o um pouco altiva, o sobrolho erguido. Em crian\u00e7a questionava muito?Fazia muitas perguntas, mas os meus pais davam-me sempre respostas e eu sentia-me livre para falar do que quisesse. E era muito curiosa. \u00a0 O que \u00e9 que lhe despertava mais interesse nessa altura? Lembra-se?Adorava as hist\u00f3rias de bruxas e de almas do outro mundo que as empregadas dom\u00e9sticas contavam, sobretudo as da aldeia. As tradi\u00e7\u00f5es e as festas religiosas, a religi\u00e3o em si, tudo isso me despertava curiosidade e marcou-me bastante. Gosto muito da cultura tradicional. Conheci-a muito diretamente, tamb\u00e9m pelo facto de conhecer muito bem a vida do campo, que me influenciou, tendo eu vivido sempre na cidade. \u00a0 Diz que \u00e9 tamb\u00e9m a curiosidade pela vida que a mant\u00e9m ativa. O que \u00e9 que hoje lhe suscita particular interesse?Acho que tudo [risos]. Sempre adorei cinema, teatro. De viajar. Interessa-me a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. 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