{"id":2237046,"date":"2019-02-27T09:19:00","date_gmt":"2019-02-27T09:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2237046.html"},"modified":"2026-05-13T16:46:34","modified_gmt":"2026-05-13T16:46:34","slug":"helia-correia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2237046","title":{"rendered":"H\u00e9lia Correia"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/553113\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"helia.png\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21367389_A0Z2K.jpeg\" alt=\"helia.png\" width=\"500\" height=\"333\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Teresa Carvalho | <a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/553113\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal I<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>Escrever \u00e9 uma servid\u00e3o que eu agrade\u00e7o<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Reconhecida e justamente premiada sobretudo como romancista, H\u00e9lia Correia, revelada em 1981 com a novela\u00a0<em>O Separar das \u00c1guas<\/em>, a que logo fez seguir\u00a0<em>O N\u00famero dos Vivos\u00a0<\/em>(1982), privilegia declina\u00e7\u00f5es discretas da sua exist\u00eancia de escritora.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<div><\/p>\n<section id=\"corpo\"><\/p>\n<p>H\u00e9lia: um nome suficientemente evocativo da Gr\u00e9cia Antiga, uma geografia que, embora n\u00e3o alheia ao enigma e aos signos do obscuro, se imp\u00f5e pela sua luminosidade. Uma predestina\u00e7\u00e3o, se pensarmos que a autora cedo se enamorou dos Gregos e da cultura hel\u00e9nica, com a qual tem mantido um di\u00e1logo \u00edntimo e continuado. Mas tamb\u00e9m uma ironia, pois \u00e9 conhecida a incompatibilidade de H\u00e9lia Correia (Lisboa, 1949), Pr\u00e9mio Cam\u00f5es 2015, com o sol: os seus livros, sens\u00edveis \u00e0s condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, apenas aceitam ser trabalhados em dias de chuva.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Reconhecida e justamente premiada sobretudo como romancista, H\u00e9lia Correia, revelada em 1981 com a novela\u00a0<em>O Separar das \u00c1guas<\/em>, a que logo fez seguir\u00a0<em>O N\u00famero dos Vivos\u00a0<\/em>(1982), privilegia declina\u00e7\u00f5es discretas da sua exist\u00eancia de escritora. As suas primeiras experi\u00eancias liter\u00e1rias situam-se no campo da poesia, a come\u00e7o dispersamente publicada em jornais e revistas, embora se tenha encaminhado depois para a fic\u00e7\u00e3o narrativa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"cutid1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"ljcut\" text=\"Ler mais...\"><\/p>\n<p>A nota final do volume\u00a0<em>Contos<\/em>\u00a0(2008), livro onde ent\u00e3o reduzia a sua produ\u00e7\u00e3o cont\u00edstica ao essencial (\u00abDos contos que escrevi, s\u00f3 gosto destes\u00bb) diz bem quer da sua exig\u00eancia (e desarmante sinceridade), quer de um gesto de depura\u00e7\u00e3o frequente no dom\u00ednio da poesia, mas raro em ficcionistas. Essa exig\u00eancia manifesta-se tamb\u00e9m na superf\u00edcie textual das fic\u00e7\u00f5es sobreviventes, trabalhadas com extremo cuidado, como se a autora de\u00a0<em>Vinte Degraus e Outros Contos<\/em>\u00a0(2014), livro pelo qual recebeu o Grande Pr\u00e9mio de Conto Camilo Castelo Branco, sopesasse cada frase, cada met\u00e1fora, cada palavra.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Lillias Fraser<\/em>\u00a0(2001) e\u00a0<em>Adoecer<\/em>\u00a0(2010), romances muito aplaudidos pela cr\u00edtica, ocupam na literatura portuguesa um lugar marcante. O primeiro, distinguido com o Pr\u00e9mio de Fic\u00e7\u00e3o PEN Clube 2001 e o Pr\u00e9mio D. Dinis 2002, acompanha a vida de uma rapariga dotada de estranhos poderes de vid\u00eancia, desde a fuga da sua Esc\u00f3cia natal at\u00e9 \u00e0 chegada a Portugal, onde se depara com o terramoto de 1755, descrevendo as suas terr\u00edveis consequ\u00eancias. O segundo, que combina habilmente espessura e nitidez, registo biogr\u00e1fico e efabula\u00e7\u00e3o poderosa, sem d\u00favida um dos melhores que a literatura portuguesa conheceu neste in\u00edcio de s\u00e9culo, come\u00e7a por ser a hist\u00f3ria de uma fascina\u00e7\u00e3o: a fascina\u00e7\u00e3o de H\u00e9lia Correia por Lizzie, Elizabeth Siddal (1829-1862), uma das musas dos pintores Pr\u00e9-Rafaelitas, para quem posou em quadros c\u00e9lebres como\u00a0<em>Of\u00e9lia<\/em>, de John Everett Millais, ou\u00a0<em>Beata Beatrix<\/em>, de Dante Gabriel Rossetti. \u00abNada dela me \u00e9 estranho\u00bb, escreveu a autora, que leu todos os livros que se escreveram sobre a modelo ruiva, que seguiu todos os seus passos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O exerc\u00edcio seguro da sua escrita irradia uma aura estranha, inquietante e uma atrac\u00e7\u00e3o irreprim\u00edvel por situa\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas, a instalarem-se por vezes no quotidiano, que a t\u00eam aproximado quer da poesia, que, em boa verdade nunca se ausenta dos seus livros, quer da literatura fant\u00e1stica (<em>Montedemo<\/em>, 1987;\u00a0<em>A Casa Eterna<\/em>, 1991), quer de uma atmosfera de loucura (<em>Ins\u00e2nia<\/em>, 1996).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Escritora de pessoal\u00edssima dic\u00e7\u00e3o, licenciada em Filologia Rom\u00e2nica, H\u00e9lia Correia \u00e9 tamb\u00e9m criadora de uma nova esp\u00e9cie de harmonia, situada para l\u00e1 da vontade humana de quem escreve. Como se a escrita adquirisse m\u00fasica e vida pr\u00f3pria e irradiasse uma energia m\u00e1gica cujos ecos se repercutem e amplificam ao longo dos tempos, lugares e personagens, abrindo horizontes sempre novos e surpreendentes.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>A Terceira Mis\u00e9ria<\/em>, livro que valeu \u00e0 autora o Pr\u00e9mio de Poesia PEN Clube 2012 e o Pr\u00e9mio Correntes d\u2019Escritas \/ Casino da P\u00f3voa 2013, marca o seu regresso \u00e0 poesia e aos cl\u00e1ssicos, numa d\u00edvida confessada na \u00faltima p\u00e1gina deste livro, onde figuram v\u00e1rios nomes, de \u00c9squilo a Maria Gabriela Llansol, passando por Nietzsche e Friedrich Holderlin. Este longo poema, porque de um s\u00f3 se trata, parte justamente da c\u00e9lebre e devastadora pergunta de H\u00f6lderlin: \u00abPara que servem os poetas em tempo de indig\u00eancia?\u00bb<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>\u00c9 durante a sua breve participa\u00e7\u00e3o na pe\u00e7a\u00a0<\/em><em>\u00c9dipo Rei<\/em><em>\u00a0que, em 1988, H\u00e9lia Correia se aventura no seu primeiro texto dram\u00e1tico,\u00a0<\/em><em>Perdi\u00e7\u00e3o<\/em><em>,\u00a0<\/em><em>Exerc\u00edcio sobre\u00a0<\/em><em>Ant\u00edgona, publicado tr\u00eas anos mais tarde e levado \u00e0 cena em 1993 pela companhia que a iniciara nas artes do palco, a Comuna. Escrevia assim a primeira de uma trilogia que, privilegiando grandes figuras femininas da antiguidade cl\u00e1ssica, testemunhava o seu fasc\u00ednio pelo teatro grego. Seguiram-se\u00a0<\/em><em>O Rancor, Exerc\u00edcio sobre Helena<\/em><em>\u00a0(2000),<\/em>\u00a0<em>e\u00a0<\/em><em>Desmesura, Exerc\u00edcio com Medeia<\/em><em>\u00a0(2006). Ainda no dom\u00ednio do teatro, a autora publicou\u00a0<\/em><em>Florbela\u00a0<\/em><em>(1991), uma pe\u00e7a que lida com a criatividade feminina no contexto dos condicionalismos do c\u00e2none masculino.<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Produto da sua \u00abrela\u00e7\u00e3o amorosa\u00bb com a Gr\u00e9cia \u00e9 tamb\u00e9m\u00a0<\/em><em>Mopsos, o Pequeno Grego<\/em>.\u00a0<em>O Ouro de Delfos<\/em>, a marcar o in\u00edcio de uma colec\u00e7\u00e3o de aventuras onde o pequeno neto de Tir\u00e9sias, o mais destacado dos adivinhos gregos, assume a fun\u00e7\u00e3o de conduzir a curiosidade de um p\u00fablico infantil no desvendar dos tesouros insuspeitados da cultura grega \u2013 um conto para todas as idades, ilustrado por Henrique Cayatte e conduzido pela m\u00e3o \u00e1gil e sens\u00edvel de H\u00e9lia Correia, que em 2013 foi distinguida com o Pr\u00e9mio Virg\u00edlio Ferreira pelo conjunto da sua obra.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00c9 sabido que a sua vida, os gatos ocupam, a par da escrita, um importante lugar. Eis as duas sujei\u00e7\u00f5es que H\u00e9lia Correia h\u00e1 muito tornou p\u00fablicas. Ambos instalaram dentro da sua vida um \u00abtrono vital\u00edcio\u00bb, comportando-se com igual sobranceria: \u00abV\u00eam se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convoc\u00e1-los, n\u00e3o me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam \u00e0s horas mais desconfort\u00e1veis. L\u00e1 me levanto, \u00e0s quatro da manh\u00e3, ou para escrever ou para deitar\u00a0<em>whiskas<\/em>\u00a0no prato. A retribui\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa pouca: um ro\u00e7ar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condi\u00e7\u00e3o, renunciando \u00e0 dignidade humana, agrade\u00e7o a bondade do inc\u00f3modo.\u00bb<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h4 class=\"referenceString selectable\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><em>: H\u00e9lia Correia. \u00abEscrever \u00e9 uma servid\u00e3o que eu agrade\u00e7o.\u00bb<\/em>. (2019).\u00a0<em>ionline<\/em>. Retrieved 27 February 2019, from <a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/553113\">https:\/\/ionline.sapo.pt\/553113<\/a><\/span><\/h4>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 14pt;\">Conte\u00fado relacionado:<\/span><\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2015\/06\/17\/culturaipsilon\/noticia\/helia-correia-e-a-vencedora-do-premio-camoes-1699305#gs.l3a3kk7n\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia \u00e9 a vencedora do Pr\u00e9mio Cam\u00f5es<\/a> | jornal p\u00fablico<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/www.postal.pt\/2019\/01\/entrevista-a-helia-correia-a-escrita-como-abrigo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Entrevista a H\u00e9lia Correia: a escrita como abrigo<\/a> | postal<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H%C3%A9lia_Correia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia<\/a> | wikip\u00e9dia<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/$helia-correia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia<\/a> | infop\u00e9dia<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"http:\/\/alumni.letras.ulisboa.pt\/memorias-vivas\/biografias\/decada-70?id=639\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia<\/a> | faculdade de letras da ulisboa<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2017\/05\/12\/helia-correia-distinguida-como-escritora-galega-universal-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia distinguida como Escritora Galega Universal\u00a02017<\/a> | jornal observador<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/sol.sapo.pt\/artigo\/631952\/helia-correia-estamos-doentes-de-abund-ncia-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia: \u00abEstamos doentes de abund\u00e2ncia\u00bb<\/a> | jornal sol<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/fg7VN_MwSHY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c0 conversa com&#8230; H\u00e9lia Correia, sobre o livro &#8220;Um bailarino na Batalha&#8221;<\/a>\u00a0(v\u00eddeo) | livraria arquivo<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/grA53Oc0zfg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ler Mais, Ler Melhor &#8211; A Terceira Mis\u00e9ria, H\u00e9lia Correia, Rel\u00f3gio D&#8217;\u00c1gua<\/a> (v\u00eddeo)<\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li><span style=\"font-size: 12pt;\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/5xOY0RniHCE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lia Correia e Nuno J\u00fadice no FIC 2017<\/a> (v\u00eddeo) | leya portugal<\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/section>\n<p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresa Carvalho | Jornal I \u00a0 Escrever \u00e9 uma servid\u00e3o que eu agrade\u00e7o \u00a0 Reconhecida e justamente premiada sobretudo como romancista, H\u00e9lia Correia, revelada em 1981 com a novela\u00a0O Separar das \u00c1guas, a que logo fez seguir\u00a0O N\u00famero dos Vivos\u00a0(1982), privilegia declina\u00e7\u00f5es discretas da sua exist\u00eancia de escritora.\u00a0 \u00a0 H\u00e9lia: um nome suficientemente evocativo da Gr\u00e9cia Antiga, uma geografia que, embora n\u00e3o alheia ao enigma e aos signos do obscuro, se imp\u00f5e pela sua luminosidade. Uma predestina\u00e7\u00e3o, se pensarmos que a autora cedo se enamorou dos Gregos e da cultura hel\u00e9nica, com a qual tem mantido um di\u00e1logo \u00edntimo e continuado. Mas tamb\u00e9m uma ironia, pois \u00e9 conhecida a incompatibilidade de H\u00e9lia Correia (Lisboa, 1949), Pr\u00e9mio Cam\u00f5es 2015, com o sol: os seus livros, sens\u00edveis \u00e0s condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, apenas aceitam ser trabalhados em dias de chuva. \u00a0 Reconhecida e justamente premiada sobretudo como romancista, H\u00e9lia Correia, revelada em 1981 com a novela\u00a0O Separar das \u00c1guas, a que logo fez seguir\u00a0O N\u00famero dos Vivos\u00a0(1982), privilegia declina\u00e7\u00f5es discretas da sua exist\u00eancia de escritora. As suas primeiras experi\u00eancias liter\u00e1rias situam-se no campo da poesia, a come\u00e7o dispersamente publicada em jornais e revistas, embora se tenha encaminhado depois para a fic\u00e7\u00e3o narrativa. \u00a0 \u00a0 A nota final do volume\u00a0Contos\u00a0(2008), livro onde ent\u00e3o reduzia a sua produ\u00e7\u00e3o cont\u00edstica ao essencial (\u00abDos contos que escrevi, s\u00f3 gosto destes\u00bb) diz bem quer da sua exig\u00eancia (e desarmante sinceridade), quer de um gesto de depura\u00e7\u00e3o frequente no dom\u00ednio da poesia, mas raro em ficcionistas. Essa exig\u00eancia manifesta-se tamb\u00e9m na superf\u00edcie textual das fic\u00e7\u00f5es sobreviventes, trabalhadas com extremo cuidado, como se a autora de\u00a0Vinte Degraus e Outros Contos\u00a0(2014), livro pelo qual recebeu o Grande Pr\u00e9mio de Conto Camilo Castelo Branco, sopesasse cada frase, cada met\u00e1fora, cada palavra. \u00a0 Lillias Fraser\u00a0(2001) e\u00a0Adoecer\u00a0(2010), romances muito aplaudidos pela cr\u00edtica, ocupam na literatura portuguesa um lugar marcante. O primeiro, distinguido com o Pr\u00e9mio de Fic\u00e7\u00e3o PEN Clube 2001 e o Pr\u00e9mio D. Dinis 2002, acompanha a vida de uma rapariga dotada de estranhos poderes de vid\u00eancia, desde a fuga da sua Esc\u00f3cia natal at\u00e9 \u00e0 chegada a Portugal, onde se depara com o terramoto de 1755, descrevendo as suas terr\u00edveis consequ\u00eancias. O segundo, que combina habilmente espessura e nitidez, registo biogr\u00e1fico e efabula\u00e7\u00e3o poderosa, sem d\u00favida um dos melhores que a literatura portuguesa conheceu neste in\u00edcio de s\u00e9culo, come\u00e7a por ser a hist\u00f3ria de uma fascina\u00e7\u00e3o: a fascina\u00e7\u00e3o de H\u00e9lia Correia por Lizzie, Elizabeth Siddal (1829-1862), uma das musas dos pintores Pr\u00e9-Rafaelitas, para quem posou em quadros c\u00e9lebres como\u00a0Of\u00e9lia, de John Everett Millais, ou\u00a0Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti. \u00abNada dela me \u00e9 estranho\u00bb, escreveu a autora, que leu todos os livros que se escreveram sobre a modelo ruiva, que seguiu todos os seus passos. \u00a0 O exerc\u00edcio seguro da sua escrita irradia uma aura estranha, inquietante e uma atrac\u00e7\u00e3o irreprim\u00edvel por situa\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas, a instalarem-se por vezes no quotidiano, que a t\u00eam aproximado quer da poesia, que, em boa verdade nunca se ausenta dos seus livros, quer da literatura fant\u00e1stica (Montedemo, 1987;\u00a0A Casa Eterna, 1991), quer de uma atmosfera de loucura (Ins\u00e2nia, 1996). \u00a0 Escritora de pessoal\u00edssima dic\u00e7\u00e3o, licenciada em Filologia Rom\u00e2nica, H\u00e9lia Correia \u00e9 tamb\u00e9m criadora de uma nova esp\u00e9cie de harmonia, situada para l\u00e1 da vontade humana de quem escreve. Como se a escrita adquirisse m\u00fasica e vida pr\u00f3pria e irradiasse uma energia m\u00e1gica cujos ecos se repercutem e amplificam ao longo dos tempos, lugares e personagens, abrindo horizontes sempre novos e surpreendentes. \u00a0 A Terceira Mis\u00e9ria, livro que valeu \u00e0 autora o Pr\u00e9mio de Poesia PEN Clube 2012 e o Pr\u00e9mio Correntes d\u2019Escritas \/ Casino da P\u00f3voa 2013, marca o seu regresso \u00e0 poesia e aos cl\u00e1ssicos, numa d\u00edvida confessada na \u00faltima p\u00e1gina deste livro, onde figuram v\u00e1rios nomes, de \u00c9squilo a Maria Gabriela Llansol, passando por Nietzsche e Friedrich Holderlin. Este longo poema, porque de um s\u00f3 se trata, parte justamente da c\u00e9lebre e devastadora pergunta de H\u00f6lderlin: \u00abPara que servem os poetas em tempo de indig\u00eancia?\u00bb \u00a0 \u00c9 durante a sua breve participa\u00e7\u00e3o na pe\u00e7a\u00a0\u00c9dipo Rei\u00a0que, em 1988, H\u00e9lia Correia se aventura no seu primeiro texto dram\u00e1tico,\u00a0Perdi\u00e7\u00e3o,\u00a0Exerc\u00edcio sobre\u00a0Ant\u00edgona, publicado tr\u00eas anos mais tarde e levado \u00e0 cena em 1993 pela companhia que a iniciara nas artes do palco, a Comuna. Escrevia assim a primeira de uma trilogia que, privilegiando grandes figuras femininas da antiguidade cl\u00e1ssica, testemunhava o seu fasc\u00ednio pelo teatro grego. Seguiram-se\u00a0O Rancor, Exerc\u00edcio sobre Helena\u00a0(2000),\u00a0e\u00a0Desmesura, Exerc\u00edcio com Medeia\u00a0(2006). Ainda no dom\u00ednio do teatro, a autora publicou\u00a0Florbela\u00a0(1991), uma pe\u00e7a que lida com a criatividade feminina no contexto dos condicionalismos do c\u00e2none masculino. \u00a0 Produto da sua \u00abrela\u00e7\u00e3o amorosa\u00bb com a Gr\u00e9cia \u00e9 tamb\u00e9m\u00a0Mopsos, o Pequeno Grego.\u00a0O Ouro de Delfos, a marcar o in\u00edcio de uma colec\u00e7\u00e3o de aventuras onde o pequeno neto de Tir\u00e9sias, o mais destacado dos adivinhos gregos, assume a fun\u00e7\u00e3o de conduzir a curiosidade de um p\u00fablico infantil no desvendar dos tesouros insuspeitados da cultura grega \u2013 um conto para todas as idades, ilustrado por Henrique Cayatte e conduzido pela m\u00e3o \u00e1gil e sens\u00edvel de H\u00e9lia Correia, que em 2013 foi distinguida com o Pr\u00e9mio Virg\u00edlio Ferreira pelo conjunto da sua obra. \u00a0 \u00c9 sabido que a sua vida, os gatos ocupam, a par da escrita, um importante lugar. Eis as duas sujei\u00e7\u00f5es que H\u00e9lia Correia h\u00e1 muito tornou p\u00fablicas. Ambos instalaram dentro da sua vida um \u00abtrono vital\u00edcio\u00bb, comportando-se com igual sobranceria: \u00abV\u00eam se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convoc\u00e1-los, n\u00e3o me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam \u00e0s horas mais desconfort\u00e1veis. L\u00e1 me levanto, \u00e0s quatro da manh\u00e3, ou para escrever ou para deitar\u00a0whiskas\u00a0no prato. A retribui\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa pouca: um ro\u00e7ar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condi\u00e7\u00e3o, renunciando \u00e0 dignidade humana, agrade\u00e7o a bondade do inc\u00f3modo.\u00bb \u00a0 \u00a0 Refer\u00eancia: H\u00e9lia Correia. \u00abEscrever \u00e9 uma servid\u00e3o que eu agrade\u00e7o.\u00bb. (2019).\u00a0ionline. Retrieved 27 February 2019, from https:\/\/ionline.sapo.pt\/553113 \u00a0 Conte\u00fado relacionado: H\u00e9lia Correia \u00e9 a vencedora do Pr\u00e9mio Cam\u00f5es | jornal p\u00fablico Entrevista a H\u00e9lia Correia: a escrita como abrigo | postal H\u00e9lia Correia | wikip\u00e9dia H\u00e9lia Correia | infop\u00e9dia H\u00e9lia Correia | faculdade de letras da ulisboa H\u00e9lia Correia distinguida como Escritora Galega Universal\u00a02017 | jornal observador H\u00e9lia Correia: \u00abEstamos doentes de abund\u00e2ncia\u00bb | jornal sol \u00c0 conversa com&#8230; H\u00e9lia Correia, sobre o livro &#8220;Um bailarino na Batalha&#8221;\u00a0(v\u00eddeo) | livraria arquivo Ler Mais, Ler Melhor &#8211; A Terceira Mis\u00e9ria, H\u00e9lia Correia, Rel\u00f3gio D&#8217;\u00c1gua (v\u00eddeo) H\u00e9lia Correia e Nuno J\u00fadice no FIC 2017 (v\u00eddeo) | leya portugal<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[109,111],"tags":[],"class_list":["post-2237046","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-autores","category-literatura-portuguesa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2237046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2237046"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2237046\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3089089,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2237046\/revisions\/3089089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2237046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2237046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2237046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}