{"id":2221915,"date":"2018-12-18T10:00:00","date_gmt":"2018-12-18T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2221915.html"},"modified":"2026-05-13T16:54:12","modified_gmt":"2026-05-13T16:54:12","slug":"quando-se-conta-um-conto-e-se-retira-um-ponto-artigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2221915","title":{"rendered":"Quando se conta um conto e se retira um ponto | artigo"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"mw-860.jpeg\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21284975_GE2w6.jpeg\" alt=\"mw-860.jpeg\" width=\"500\" height=\"409\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/em>: Helder Oliveira<\/span> | <span style=\"font-size: 10pt;\"><em>por<\/em> Raquel Albuquerque<\/span> | <span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"http:\/\/www.expresso.pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Expresso<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Linguagem \u201cpoliticamente incorreta\u201d de prov\u00e9rbios, contos ou can\u00e7\u00f5es deve ser discutida, mas n\u00e3o apagada<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<section class=\"content halfWidth content-top\"><\/p>\n<div class=\"fullArticle\"><\/p>\n<div class=\"articleContent\"><\/p>\n<p>H\u00e1 j\u00e1 algumas d\u00e9cadas que a hist\u00f3ria da Carochinha \u00e9 contada pela metade: o fim verdadeiro na vers\u00e3o original inclu\u00eda p\u00e1ssaros sem olhos e sem penas perante o desgosto da protagonista. Mas isso foi \u2018apagado\u2019. Nos \u00faltimos anos, outras hist\u00f3rias infantis, como o Capuchinho Vermelho ou Hansel e Gretel, t\u00eam sido adaptadas para retirar situa\u00e7\u00f5es consideradas violentas. Mas, defendem os especialistas, mais do que reescrever as hist\u00f3rias quando se tornam desadequadas ou politicamente incorretas, importa parar para as discutir.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cA l\u00edngua n\u00e3o muda \u00e0 mesma velocidade que a sociedade. Transformar os contos tradicionais n\u00e3o faz sentido. E n\u00e3o acho que, numa l\u00f3gica de cidadania, um prov\u00e9rbio ou outro tipo de express\u00e3o possa ser mudado por decis\u00e3o. Pode \u00e9 acabar por cair em desuso\u201d, defende Ant\u00f3nia Coutinho, linguista e professora na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Express\u00f5es como \u2018entre marido e mulher n\u00e3o se mete a colher\u2019, \u2018com um olho no burro, outro no cigano\u2019 ou \u2018mulher honrada n\u00e3o tem ouvidos\u2019 s\u00e3o outros exemplos. Passam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, arrastando os costumes e perce\u00e7\u00f5es das suas \u00e9pocas, mas tamb\u00e9m a viol\u00eancia, desigualdade social e discrimina\u00e7\u00e3o racial ent\u00e3o aceites.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cParar para pensar no que dizemos agudiza a nossa sensibilidade e faz-nos deixar de usar a l\u00edngua de forma mec\u00e2nica. Passamos a questionar o que j\u00e1 est\u00e1 enraizado e que \u00e9 necess\u00e1rio desnaturalizar\u201d, explica a investigadora do Centro de Lingu\u00edstica da UNL. Foi tamb\u00e9m esse o princ\u00edpio de base defendido pela PETA, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental de defesa dos animais, que lan\u00e7ou na semana passada, nos Estados Unidos, uma campanha sugerindo alternativas a prov\u00e9rbios antianimal. Tamb\u00e9m o PAN tem usado as redes sociais para sugerir alternativas a express\u00f5es de viol\u00eancia contra os animais, defendendo a import\u00e2ncia de a linguagem acompanhar a sociedade.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>ACABAR COM O MEDO<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>Nas novas vers\u00f5es \u201cpoliticamente corretas\u201d dos livros infantis, como o Capuchinho Vermelho, o lobo deixa de comer a av\u00f3. J\u00e1 a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os Hansel e Gretel, que quase acabam comidos por uma bruxa depois de se perderem na floresta, foi sendo aligeirada desde o s\u00e9culo XIX quando foi registada e publicada pelos irm\u00e3os Grimm.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Paulo Jorge Correia, um dos maiores especialistas nacionais em literatura de tradi\u00e7\u00e3o oral, critica o facto de se estar a retirar a sensa\u00e7\u00e3o de medo destas hist\u00f3rias. \u201cAs crian\u00e7as gostam desse lado dos contos\u201d, defende. \u201cMas hoje tamb\u00e9m t\u00eam menos tempo para ouvir hist\u00f3rias, porque socializam mais cedo e deixam o casulo familiar. Pior do que isso s\u00e3o os pedagogos que defendem que o medo e a viol\u00eancia devem ser cortados por fazerem mal aos mais novos. Essa ideia entrou no mercado do livro e as hist\u00f3rias t\u00eam sido adaptadas ao \u2018delicodoce\u2019.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O risco \u00e9 criar uma \u201csociedade ass\u00e9tica\u201d, defende o investigador. \u201cEsse mundo considerado violento, e desadequado \u00e0 realidade atual, est\u00e1 a ser rejeitado e higienizado. Se tivermos uma sociedade totalmente ass\u00e9tica, as crian\u00e7as pensam que n\u00e3o existe mal no mundo. E acho que isso est\u00e1 a acontecer\u201d, diz. \u201cDeve haver liberdade para perceber o mundo como ele realmente \u00e9. E os contos trazem algo \u00fanico: a natureza humana, por mais chocante que ela possa ser.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A viol\u00eancia dom\u00e9stica e a misoginia, ou seja, o desprezo e preconceito contra as mulheres, est\u00e3o presentes em muitos contos. \u201cS\u00e3o um retrato de uma civiliza\u00e7\u00e3o rural onde a ordem social consistia em ter o homem acima da mulher e apenas Deus acima do homem\u201d, afirma Paulo Jorge Correia, acrescentando que os contos se resumem \u00e0 luta entre \u201cvelhos e novos, homens e mulheres, ricos e pobres\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nas cantigas infantis a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia do homem sobre a mulher est\u00e1 presente. E algumas t\u00eam sido alvo de altera\u00e7\u00f5es (ver caixa). Para Jos\u00e9 Barata-Moura, ex-reitor da Universidade de Lisboa e tamb\u00e9m autor de c\u00e9lebres can\u00e7\u00f5es infantis, \u201ca cultura est\u00e1 sempre presente em qualquer cantiga infantil\u201d, podendo apenas ser diferente no \u00e2ngulo, g\u00e9nero, linguagem ou express\u00e3o do imagin\u00e1rio. \u201cNo meu entendimento, uma cantiga n\u00e3o \u00e9 um objeto de consumo imediato para entreter, \u00e9 uma ocasi\u00e3o de conversa e de aprofundar o di\u00e1logo entre os mais velhos e os mais novos.\u201d Ainda que admita que a produ\u00e7\u00e3o infantil foi durante muito tempo \u201cmenor e feita rapidamente para ser consumida no Natal\u201d, o fil\u00f3sofo e cantor considera que \u201carranjar alternativas \u00e0s cantigas \u00e9 uma forma pobre de lidar com um problema real\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>O PAPEL DA ESCOLA<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>Se estes prov\u00e9rbios, contos, hist\u00f3rias e cantigas realmente expressam formas de discrimina\u00e7\u00e3o racial ou viol\u00eancia dom\u00e9stica, devem ser ensinados nas escolas? \u201c\u00c9 claro que n\u00e3o devem ser postas nos manuais, mas n\u00e3o podem ser silenciados nas escolas, devem ser discutidas. \u00c9 papel da escola pegar nessas formas de dizer as coisas e desconstruir os seus significados\u201d, diz Jos\u00e9 Pacheco, presidente do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Minho.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Paulo Jorge Correia concorda. \u201cH\u00e1 o risco de esta literatura oral perpetuar esses arqu\u00e9tipos\u201d, sejam eles raciais ou sexistas. Admitindo que numa fase inicial e estrutural da educa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a, as formas de express\u00e3o mais discriminat\u00f3rias ou violentas possam ser omitidas, o professor da Universidade do Algarve defende, no entanto, que esta literatura n\u00e3o deixe de ser publicada tal e qual como \u00e9. \u201cAt\u00e9 mesmo para que estes cidad\u00e3os, quando estiverem formados, tenham acesso a esta tradi\u00e7\u00e3o oral e a conhe\u00e7am.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para a linguista e professora da UNL, o \u201cmais urgente\u201d \u00e9 discutir o assunto e sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o. \u201cA escola tem de ter essa fun\u00e7\u00e3o mas a responsabilidade recai sobre os professores, as editoras respons\u00e1veis pelos manuais escolares, os revisores de texto, os pais e a comunica\u00e7\u00e3o social. Tenho s\u00e9rias d\u00favidas de que a solu\u00e7\u00e3o seja limpar ou apagar a hist\u00f3ria e a cultura.\u201d O mesmo defende Jos\u00e9 Barata-Moura. \u201cA solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 impingir uma moralidade exterior, que se repete mecanicamente, mas antes apostar no di\u00e1logo. Embora seja muito mais f\u00e1cil despejar uma mensagem moralista e irmos dormir descansados.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Refer\u00eancia:\u00a0<em>Quando se conta um conto e se retira um ponto<\/em>. (2018).\u00a0<em>Jornal Expresso<\/em>. Retrieved 17 December 2018, from <a href=\"https:\/\/expresso.sapo.pt\/sociedade\/2018-12-16-Quando-se-conta-um-conto-e-se-retira-um-ponto#gs.z785HTw\">https:\/\/expresso.sapo.pt\/sociedade\/2018-12-16-Quando-se-conta-um-conto-e-se-retira-um-ponto<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/div>\n<p><\/div>\n<p><\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Helder Oliveira | por Raquel Albuquerque | Expresso \u00a0 Linguagem \u201cpoliticamente incorreta\u201d de prov\u00e9rbios, contos ou can\u00e7\u00f5es deve ser discutida, mas n\u00e3o apagada \u00a0 H\u00e1 j\u00e1 algumas d\u00e9cadas que a hist\u00f3ria da Carochinha \u00e9 contada pela metade: o fim verdadeiro na vers\u00e3o original inclu\u00eda p\u00e1ssaros sem olhos e sem penas perante o desgosto da protagonista. Mas isso foi \u2018apagado\u2019. Nos \u00faltimos anos, outras hist\u00f3rias infantis, como o Capuchinho Vermelho ou Hansel e Gretel, t\u00eam sido adaptadas para retirar situa\u00e7\u00f5es consideradas violentas. Mas, defendem os especialistas, mais do que reescrever as hist\u00f3rias quando se tornam desadequadas ou politicamente incorretas, importa parar para as discutir. \u201cA l\u00edngua n\u00e3o muda \u00e0 mesma velocidade que a sociedade. Transformar os contos tradicionais n\u00e3o faz sentido. E n\u00e3o acho que, numa l\u00f3gica de cidadania, um prov\u00e9rbio ou outro tipo de express\u00e3o possa ser mudado por decis\u00e3o. Pode \u00e9 acabar por cair em desuso\u201d, defende Ant\u00f3nia Coutinho, linguista e professora na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Express\u00f5es como \u2018entre marido e mulher n\u00e3o se mete a colher\u2019, \u2018com um olho no burro, outro no cigano\u2019 ou \u2018mulher honrada n\u00e3o tem ouvidos\u2019 s\u00e3o outros exemplos. Passam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, arrastando os costumes e perce\u00e7\u00f5es das suas \u00e9pocas, mas tamb\u00e9m a viol\u00eancia, desigualdade social e discrimina\u00e7\u00e3o racial ent\u00e3o aceites. \u201cParar para pensar no que dizemos agudiza a nossa sensibilidade e faz-nos deixar de usar a l\u00edngua de forma mec\u00e2nica. Passamos a questionar o que j\u00e1 est\u00e1 enraizado e que \u00e9 necess\u00e1rio desnaturalizar\u201d, explica a investigadora do Centro de Lingu\u00edstica da UNL. Foi tamb\u00e9m esse o princ\u00edpio de base defendido pela PETA, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental de defesa dos animais, que lan\u00e7ou na semana passada, nos Estados Unidos, uma campanha sugerindo alternativas a prov\u00e9rbios antianimal. Tamb\u00e9m o PAN tem usado as redes sociais para sugerir alternativas a express\u00f5es de viol\u00eancia contra os animais, defendendo a import\u00e2ncia de a linguagem acompanhar a sociedade. \u00a0 ACABAR COM O MEDO Nas novas vers\u00f5es \u201cpoliticamente corretas\u201d dos livros infantis, como o Capuchinho Vermelho, o lobo deixa de comer a av\u00f3. J\u00e1 a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os Hansel e Gretel, que quase acabam comidos por uma bruxa depois de se perderem na floresta, foi sendo aligeirada desde o s\u00e9culo XIX quando foi registada e publicada pelos irm\u00e3os Grimm. O antrop\u00f3logo Paulo Jorge Correia, um dos maiores especialistas nacionais em literatura de tradi\u00e7\u00e3o oral, critica o facto de se estar a retirar a sensa\u00e7\u00e3o de medo destas hist\u00f3rias. \u201cAs crian\u00e7as gostam desse lado dos contos\u201d, defende. \u201cMas hoje tamb\u00e9m t\u00eam menos tempo para ouvir hist\u00f3rias, porque socializam mais cedo e deixam o casulo familiar. Pior do que isso s\u00e3o os pedagogos que defendem que o medo e a viol\u00eancia devem ser cortados por fazerem mal aos mais novos. Essa ideia entrou no mercado do livro e as hist\u00f3rias t\u00eam sido adaptadas ao \u2018delicodoce\u2019.\u201d O risco \u00e9 criar uma \u201csociedade ass\u00e9tica\u201d, defende o investigador. \u201cEsse mundo considerado violento, e desadequado \u00e0 realidade atual, est\u00e1 a ser rejeitado e higienizado. Se tivermos uma sociedade totalmente ass\u00e9tica, as crian\u00e7as pensam que n\u00e3o existe mal no mundo. E acho que isso est\u00e1 a acontecer\u201d, diz. \u201cDeve haver liberdade para perceber o mundo como ele realmente \u00e9. E os contos trazem algo \u00fanico: a natureza humana, por mais chocante que ela possa ser.\u201d A viol\u00eancia dom\u00e9stica e a misoginia, ou seja, o desprezo e preconceito contra as mulheres, est\u00e3o presentes em muitos contos. \u201cS\u00e3o um retrato de uma civiliza\u00e7\u00e3o rural onde a ordem social consistia em ter o homem acima da mulher e apenas Deus acima do homem\u201d, afirma Paulo Jorge Correia, acrescentando que os contos se resumem \u00e0 luta entre \u201cvelhos e novos, homens e mulheres, ricos e pobres\u201d. Tamb\u00e9m nas cantigas infantis a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia do homem sobre a mulher est\u00e1 presente. E algumas t\u00eam sido alvo de altera\u00e7\u00f5es (ver caixa). Para Jos\u00e9 Barata-Moura, ex-reitor da Universidade de Lisboa e tamb\u00e9m autor de c\u00e9lebres can\u00e7\u00f5es infantis, \u201ca cultura est\u00e1 sempre presente em qualquer cantiga infantil\u201d, podendo apenas ser diferente no \u00e2ngulo, g\u00e9nero, linguagem ou express\u00e3o do imagin\u00e1rio. \u201cNo meu entendimento, uma cantiga n\u00e3o \u00e9 um objeto de consumo imediato para entreter, \u00e9 uma ocasi\u00e3o de conversa e de aprofundar o di\u00e1logo entre os mais velhos e os mais novos.\u201d Ainda que admita que a produ\u00e7\u00e3o infantil foi durante muito tempo \u201cmenor e feita rapidamente para ser consumida no Natal\u201d, o fil\u00f3sofo e cantor considera que \u201carranjar alternativas \u00e0s cantigas \u00e9 uma forma pobre de lidar com um problema real\u201d. \u00a0 O PAPEL DA ESCOLA Se estes prov\u00e9rbios, contos, hist\u00f3rias e cantigas realmente expressam formas de discrimina\u00e7\u00e3o racial ou viol\u00eancia dom\u00e9stica, devem ser ensinados nas escolas? \u201c\u00c9 claro que n\u00e3o devem ser postas nos manuais, mas n\u00e3o podem ser silenciados nas escolas, devem ser discutidas. \u00c9 papel da escola pegar nessas formas de dizer as coisas e desconstruir os seus significados\u201d, diz Jos\u00e9 Pacheco, presidente do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Minho. O antrop\u00f3logo Paulo Jorge Correia concorda. \u201cH\u00e1 o risco de esta literatura oral perpetuar esses arqu\u00e9tipos\u201d, sejam eles raciais ou sexistas. Admitindo que numa fase inicial e estrutural da educa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a, as formas de express\u00e3o mais discriminat\u00f3rias ou violentas possam ser omitidas, o professor da Universidade do Algarve defende, no entanto, que esta literatura n\u00e3o deixe de ser publicada tal e qual como \u00e9. \u201cAt\u00e9 mesmo para que estes cidad\u00e3os, quando estiverem formados, tenham acesso a esta tradi\u00e7\u00e3o oral e a conhe\u00e7am.\u201d Para a linguista e professora da UNL, o \u201cmais urgente\u201d \u00e9 discutir o assunto e sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o. \u201cA escola tem de ter essa fun\u00e7\u00e3o mas a responsabilidade recai sobre os professores, as editoras respons\u00e1veis pelos manuais escolares, os revisores de texto, os pais e a comunica\u00e7\u00e3o social. Tenho s\u00e9rias d\u00favidas de que a solu\u00e7\u00e3o seja limpar ou apagar a hist\u00f3ria e a cultura.\u201d O mesmo defende Jos\u00e9 Barata-Moura. \u201cA solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 impingir uma moralidade exterior, que se repete mecanicamente, mas antes apostar no di\u00e1logo. Embora seja muito mais f\u00e1cil despejar uma mensagem moralista e irmos dormir descansados.\u201d \u00a0 Refer\u00eancia:\u00a0Quando se conta um conto e se retira um ponto. (2018).\u00a0Jornal Expresso. Retrieved 17 December 2018, from https:\/\/expresso.sapo.pt\/sociedade\/2018-12-16-Quando-se-conta-um-conto-e-se-retira-um-ponto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[100,159,88,146],"tags":[],"class_list":["post-2221915","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-contos","category-educacao","category-literacias","category-literatura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2221915","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2221915"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2221915\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3089197,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2221915\/revisions\/3089197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2221915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2221915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2221915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}