{"id":2200828,"date":"2018-10-07T16:43:00","date_gmt":"2018-10-07T16:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2200828.html"},"modified":"2026-05-13T17:04:07","modified_gmt":"2026-05-13T17:04:07","slug":"a-ultima-carta-de-saramago-20-anos-depois-do-nobel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2200828","title":{"rendered":"A \u00faltima carta de Saramago | 20 anos depois do nobel"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"saramago.png\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/21194939_Ol4lZ.png\" alt=\"saramago.png\" width=\"421\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<span style=\"font-size: 10pt;\"><em>por<\/em> Isabel Lucas<\/span> | <span style=\"font-size: 10pt;\">Ler no<\/span>\u00a0<span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2018\/10\/07\/culturaipsilon\/noticia\/quando-o-tempo-comecou-a-contar-faz-20-anos-1846366\" target=\"_blank\">P\u00fablico<\/a><\/span>| <span style=\"font-size: 10pt;\"><em>foto<\/em>: Luis Davilla\/Getty Images<\/span><\/p>\n<p><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>20 Anos depois do Nobel<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>A \u00faltima carta de Saramago<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2 class=\"kicker\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Vinte anos de Nobel e um in\u00e9dito para celebrar.\u00a0<em>\u00daltimo Caderno<\/em>, a publicar esta segunda-feira, \u00e9 a derradeira obra de Jos\u00e9 Saramago. \u201c\u00c9 uma carta que nos deixou\u201d, diz Pilar del R\u00edo. Com ela vamos lendo esse di\u00e1rio de 1998, tentando entender ideias, preencher faltas, contradi\u00e7\u00f5es e um legado que ela assumiu, como miss\u00e3o, preservar como muito mais do que mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><\/p>\n<div class=\"story__blurb lead\"><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Se os dias do Nobel tivessem uma imagem \u00edntima seria a de um homem adormecido numa poltrona, os p\u00e9s cruzados em cima da mesa, e de uma mulher deitada no sof\u00e1 ao lado, tapada por jornais. Ela dorme e apoia o rosto na m\u00e3o esquerda que tem junto ao queixo. Ele, sentado, como se estivesse a pensar, m\u00e3o direita semiaberta, o indicador na testa e o polegar junto \u00e0 orelha. Parece numa pausa de conversa. E \u00e9, mas inusitada. A fotografia a preto e branco, est\u00e1 pendurada numa das paredes da casa de Lisboa de Jos\u00e9 Saramago e Pilar del R\u00edo. Tem a data de 14 de Novembro de 1998 e foi tirada noutra sala, de outra casa de Jos\u00e9 e Pilar, em Lanzarote por um jornalista que os entrevistava. \u201cT\u00ednhamos chegado do primeiro compromisso p\u00fablico entre o an\u00fancio do Nobel e a cerim\u00f3nia em Estocolmo. T\u00ednhamos regressado de Paris. Ele tinha ido \u00e0 Sorbonne e \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian [delega\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a]. Estava connosco um jornalista a fazer uma reportagem para um suplemento cultural de um jornal de Espanha. Est\u00e1vamos a falar com ele e, primeiro, foi o Jos\u00e9. P\u00f4s os p\u00e9s na mesa e adormeceu. Eu, que estava a ler um jornal, adormeci a seguir. A fotografia somos os dois a dormir, cada um no seu s\u00edtio; eu toda tapada com jornais, com uma cadela aos p\u00e9s. Sim, essa \u00e9 uma imagem desses dias\u201d, afirma Pilar del R\u00edo enquanto olha a fotografia com um sorriso.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>N\u00e3o se falou disso, mas h\u00e1 uma breve nota sobre esse dia no di\u00e1rio rec\u00e9m-descoberto de Jos\u00e9 Saramago. Assim: \u201cLanzarote. Entrevista Anders Lange, Morgenavien.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Passaram 20 anos. Est\u00e1 uma manh\u00e3 de sol num bairro tranquilo do centro de Lisboa. O mesmo sol que ilumina, luz filtrada pela janela, a fotografia e o rosto de Pilar quando a aponta. \u00c9 s\u00e1bado e quase n\u00e3o h\u00e1 ru\u00eddos junto \u00e0 casa azul baptizada com o nome de uma das personagens mais emblem\u00e1ticas da obra de Saramago. A casa chama-se Blimunda, a protagonista vision\u00e1ria de\u00a0<em>Memorial do Convento<\/em>. Nela vive agora Pilar del R\u00edo, a ex-jornalista, mulher do escritor durante 22 anos, tradutora de parte da sua obra para castelhano, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. Perto do dedo de Pilar h\u00e1 uma folha emoldurada. Chama a aten\u00e7\u00e3o para ela. \u00c9 branca e nela destaca-se uma impressa express\u00e3o\u00a0<em>Uff;\u00a0<\/em>terminara o\u00a0<em>Ensaio sobre a Cegueira.\u00a0<\/em>A luz ainda n\u00e3o comeu a tinta. H\u00e1 mais fotografias. Muitas. Em quase nenhuma o escritor aparece a rir. \u201cEle n\u00e3o gostava das fotografias em que aparecia a sorrir\u201d, conta Pilar que confirma, no entanto, um grande sentido de humor. \u201cEle tinha muita ironia e dizia muitas vezes \u2018tenho de evitar cair no sarcasmo\u2019. Ele exilava-se para n\u00e3o cair no sarcasmo.\u00a0A ironia e a auto-ironia, tudo bem. O humor, sim. O sarcasmo, n\u00e3o. Considerava-o desrespeitoso, diminui o outro. Mas tinha de se vigiar. Era muito autovigilante nisso, sobretudo quando escrevia.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a imagem da caligrafia, sublinhados, rasuras. Ocorre uma frase da escritora brasileira\u00a0Lygia Fagundes Telles de que Saramago gostava: \u201cA nossa mem\u00f3ria (&#8230;) manipula as recorda\u00e7\u00f5es, organiza-as, comp\u00f5e-as, recomp\u00f5e-as, e \u00e9, dessa maneira, em dois instantes seguidos, a mesma mem\u00f3ria e a mem\u00f3ria que passou a ser.\u201d\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Aquele \u00e9 um lugar de justaposi\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias.\u00a0Estamos no presente de uma conversa iluminada por mem\u00f3rias do escritor e tamb\u00e9m pelas mem\u00f3rias de quem tem a fun\u00e7\u00e3o de manter vivo o seu legado. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para se estar ali, naquela casa, vinte anos depois do Nobel da Literatura, curiosamente num ano em que n\u00e3o \u00e9 atribu\u00eddo o Nobel da Literatura. \u201cSaramago e eu t\u00ednhamos um projecto e esse projecto implicava-o a ele e implicava-me, com as diferen\u00e7as \u00f3bvias. Dentro do projecto Saramago est\u00e1 o pensar, o reflectir,\u00a0a literatura, e est\u00e3o os direitos e os deveres humanos. Eu estou aqui [em Portugal] como integrante do projecto Saramago. N\u00e3o sou a \u00fanica. A Funda\u00e7\u00e3o \u00e9 uma parte do projecto. E o projecto Saramago \u2014 chamamo-lo assim depois da morte de Saramago, porque ele n\u00e3o o teria permitido \u2014 \u00e9 um projecto de interven\u00e7\u00e3o cultural, social e pol\u00edtica de reflex\u00e3o. Sinto-me muito c\u00f3moda porque n\u00e3o vou falar jamais, jamais, como vi\u00fava! Quem n\u00e3o me vir como parte desse projecto que n\u00e3o se relacione comigo, porque como fam\u00edlia n\u00e3o falo. Essa \u00e9 a minha vida \u00edntima e privada e dela n\u00e3o digo nada.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Saramago morreu em 2010, doze anos ap\u00f3s o Nobel, 87 depois de nascer na aldeia de Azinhaga, concelho da Goleg\u00e3, junto ao rio Tejo. \u201cFoi este o mundo em que, crian\u00e7a, e depois adolescente, me iniciei na mais humana e formativa de todas as artes: a da contempla\u00e7\u00e3o\u201d, escreve em 28 de Abril.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0F-fupSNmJk\">No c\u00e9lebre discurso em Estocolmo, quando recebeu o Nobel<\/a>, lembraria os av\u00f3s, Jer\u00f3nimo e Eul\u00e1lia, em como os ajudou a pastar porcos, como ent\u00e3o a vida parecia muito longe de o levar um dia a escritor. Menos ainda a um escritor com o mais cobi\u00e7ado dos pr\u00e9mios. Os sonhos n\u00e3o chegavam a\u00ed. Antes, foi torneiro mec\u00e2nico, jornalista, e aos 53 anos decidiu apostar tudo na escrita. Traduzia e escrevia<em>.\u00a0<\/em>O primeiro romance,<em>\u00a0Terra de Pecado<\/em>, foi publicado em 1947. S\u00f3 trinta anos depois, em 1977, surge o segundo<em>, Manual de Pintura e Caligrafia<\/em>; em 1980<em>, Levantado do Ch\u00e3o\u00a0<\/em>e, em 1982,<em>\u00a0Memorial do Convento.\u00a0<\/em>Tinha 60 anos<em>.\u00a0<\/em>Era o princ\u00edpio.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>As marcas de muita dessa escrita, desse percurso<em>,\u00a0<\/em>est\u00e3o pela casa<em>.\u00a0<\/em>Na secret\u00e1ria de Pilar, h\u00e1 um exemplar de\u00a0<em>Anna Karenina\u00a0<\/em>numa tradu\u00e7\u00e3o de Saramago a partir do franc\u00eas, uma edi\u00e7\u00e3o de 1959 dos Est\u00fadios Cor.\u00a0As mem\u00f3rias intrometem-se.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"cutid1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"ljcut\" text=\"Ler mais...\"><\/p>\n<p>\u201cVinte anos depois \u00e9 o momento adequado para certas reflex\u00f5es e confid\u00eancias\u201d, escreveu no pref\u00e1cio a\u00a0<em>\u00daltimo Caderno de Lanzarote<\/em>, o di\u00e1rio relativo ao ano de 1998, encontrado por acaso quando ela procurava um texto no computador que Jos\u00e9 Saramago usou nos \u00faltimos anos da sua escrita. O livro chegou a ser anunciado pelo escritor em 2001, na edi\u00e7\u00e3o espanhola do 2.\u00ba volume de\u00a0<em>Cadernos de Lanzarote<\/em>. Assim: \u201cE, se o\u00a0<em>Sexto Caderno\u00a0<\/em>n\u00e3o chegou a ver a luz do dia e ficou preso no disco r\u00edgido do computador, foi apenas porque, enredado de s\u00fabito em mil obriga\u00e7\u00f5es e compromissos, todos urgentes, todos imperativos, todos inadi\u00e1veis, perdi o \u00e2nimo e tamb\u00e9m a paci\u00eancia para rever e corrigir as duzentas p\u00e1ginas que tinham acolhido as ideias, os factos e tamb\u00e9m as emo\u00e7\u00f5es com que o ano de 1998 me beneficiou e, uma ou outra vez, me agrediu&#8230;\u201d Nos planos dele, haveria uma edi\u00e7\u00e3o em Portugal. Em Espanha, se veria. Mas o tal\u00a0<em>VI Caderno<\/em>\u00a0nunca apareceu e deu-se como perdido.\u00a0At\u00e9 Fevereiro deste ano.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cDevemos esta descoberta a Fernando G\u00f3mez Aguilera\u201d, conta Pilar del R\u00edo numa conversa interrompida por muitas mem\u00f3rias, esp\u00e9cie de boas intrusas que tanto a levam a gargalhadas como lhe provocam como\u00e7\u00e3o. Aguilera \u00e9 poeta e ensa\u00edsta, director da Funda\u00e7\u00e3o C\u00e9sar Manrique, em Lanzarote, e curador da Funda\u00e7\u00e3o Saramago. Convidado pela Editorial Alfaguara para organizar um volume com as confer\u00eancias e discursos de Saramago, pediu textos espec\u00edficos a Pilar. Por exemplo: \u201cHavia v\u00e1rias vers\u00f5es de uma confer\u00eancia de Jos\u00e9 e gerou-se uma discuss\u00e3o porque h\u00e1 o mesmo texto pronunciado em diferentes s\u00edtios com certas altera\u00e7\u00f5es, e ent\u00e3o, era preciso ver qual era a \u00faltima \u2014 a \u00faltima vers\u00e3o de um discurso \u00e9 sempre considerada a \u2018ortodoxa\u2019 por Carlos Reis [professor da Universidade de Coimbra e um dos especialistas da obra de Saramago]. Entrei no computador, havia uma pasta com o t\u00edtulo\u00a0<em>Cadernos<\/em>\u00a0e dou com o\u00a0<em>VI Caderno<\/em>. Foi assim. T\u00e3o banal quanto isto\u201d, diz, tentando reconstituir o que sentiu naquele momento. \u201cFiquei sem reac\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se possa contar o que senti, pode-se contar tudo, mas \u00e9 preciso encontrar muitos qualificativos para dizer que fiquei perplexa, sem ar, emocionada. Vi as notas, e ali estava o dia 1, depois o dia 2, o dia 3&#8230; Ali estava ele, no seu lugar de trabalho, no seu computador. Eram tantas horas da madrugada e eu ali estou, num outro dia a entrar naquele dia de h\u00e1 vinte anos, a encontrar tudo aquilo&#8230;\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>Dia 1 Janeiro de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u201cDurante a noite, o vento andou de cabe\u00e7a perdida, dando voltas cont\u00ednuas \u00e0 casa, servindo-se de quantas sali\u00eancias e interst\u00edcios encontrava para fazer soar a gama completa dos instrumentos da sua orquestra particular, sobretudo os gemidos, os silvos e os roncos das cordas, pontuados de vez em quando pelo golpe do timbale de uma persiana mal fechada. Nervosos, os c\u00e3es lan\u00e7avam-se de rompante pela gateira da cozinha (o ru\u00eddo \u00e9 inconfund\u00edvel) para irem ladrar l\u00e1 fora ao inimigo invis\u00edvel que n\u00e3o os deixava dormir.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Veio a manh\u00e3, o olhar sobre os estragos e depois o pequeno-almo\u00e7o habitual, sumo de laranja, iogurte, ch\u00e1 verde e torradas com azeite e a\u00e7\u00facar. Eram mais ou menos assim os dias antes dos \u201cdias do caos\u201d, depois de 8 de Outubro desse ano, de 1998, quando a Academia Sueca anunciou que Jos\u00e9 Saramago era o vencedor desse ano do Pr\u00e9mio Nobel da Literatura. O escritor tinha 75 anos, dez romances publicados, quatro pe\u00e7as de teatro, um livro de viagens, tr\u00eas volumes de poesia, dois livros para crian\u00e7as, dois volumes de contos, um de mem\u00f3rias e cinco di\u00e1rios, os\u00a0<em>Cadernos de Lanzarote.\u00a0<\/em>Vivia na ilha de Lanzarote com a sua terceira mulher, Pilar del R\u00edo,\u00a0e estava no Terminal 2 do aeroporto de Frankfurt prestes a entrar num avi\u00e3o para Madrid. Soube da not\u00edcia por uma hospedeira.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago estava sozinho e a imagem que correu mundo, aquela que todos guardam por ter sido tantas vezes contada, mesmo que nunca tenha sido vista, \u00e9 a de um homem a caminhar com uma gabardina dobrada no bra\u00e7o e uma pasta na m\u00e3o. O homem que nesse preciso momento pensaria qualquer coisa como \u201cDeram-me o Nobel, e o qu\u00ea?\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cEste livro \u00e9 uma carta que recebemos\u201d, afirma Pilar del R\u00edo sobre o\u00a0<em>VI Caderno de Lanzarote<\/em>\u00a0que tem como t\u00edtulo\u00a0<em>\u00daltimo Caderno<\/em>, e chega \u00e0s livrarias esta segunda-feira, dia 8, quando passam vinte anos da atribui\u00e7\u00e3o do Nobel a Saramago. \u201cAntes est\u00e1vamos t\u00e3o habituados a ouvir as considera\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Saramago, elas eram quase como o quotidiano. Ele aparecia muito, e de repente, passado tanto tempo, voltamos a ouvimo-lo reflectir sobre a import\u00e2ncia de manter posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, por exemplo, sobre a import\u00e2ncia da leitura e a import\u00e2ncia do outro e da poesia. Ouvir isso de repente outra vez, na primeira pessoa \u00e9 como se fosse uma carta\u201d, continua a presidente da Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago, remetendo para outro livro,\u00a0<em>Um Pa\u00eds Levantado em Alegria<\/em>, do jornalista Ricardo Viel, relato dos dias do Nobel, com uma compila\u00e7\u00e3o de cartas e de testemunhos sobre o modo como a not\u00edcia foi recebida depois de Saramago a ter ouvido, desta forma, pela voz da hospedeira: \u201cH\u00e1 uma pessoa que quer falar consigo por telefone, \u00e9 que o senhor ganhou o Pr\u00e9mio Nobel.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A frase vem replicada no livro de Viel, tentando reproduzir o que, dito assim, ter\u00e1 ecoado junto do seu ouvinte solit\u00e1rio e antecedeu as horas de euforia que se viveram logo depois na Feira de Frankfurt, de onde Saramago sa\u00edra e para onde voltou de imediato, n\u00e3o sem uma s\u00e9rie de perip\u00e9cias e desencontros. Antecede ainda \u2014 e sobretudo \u2014 a euforia vivida, em Portugal. \u201cA alegria aqui foi t\u00e3o forte que eu diria que \u00e9 como se, da noite para o dia, todo o mundo, de uma hora para a outra, tivesse crescido tr\u00eas cent\u00edmetros\u201d, escreveu ent\u00e3o o ensa\u00edsta Eduardo Prado Coelho num texto que o livro de Ricardo Viel tamb\u00e9m recupera. Em contrapartida, no\u00a0<em>\u00daltimo Caderno<\/em>, sobre esse dia, Saramago escreveu s\u00f3 isto: \u201cAeroporto de Frankfurt. Pr\u00e9mio Nobel. A hospedeira. Teresa Cruz. Entrevistas.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Depois de 8 de Outubro de 1998 faltou tempo a Saramago para completar o seu di\u00e1rio. Surgem apenas, com algumas excep\u00e7\u00f5es, notas dispersas, uma frase, uma palavra talvez a desenvolver, um registo a retomar. Como este, a 26 de Outubro: \u201cMorte de Jos\u00e9 Cardoso Pires.\u201d Antes, estendera-se mais para dizer que morrera Maria Judite de Carvalho. A 19 de Janeiro. \u201cChega-me aqui a not\u00edcia da morte de Maria Judite de Carvalho. Nunca li uma p\u00e1gina sua em que n\u00e3o pensasse na pessoa que a tinha escrito. E creio que ela o queria assim. Que o leitor compreendesse que do outro lado n\u00e3o havia estado apenas uma escritora, mas sim algu\u00e9m que, conhecendo como raras a arte do conto e as \u00edntimas resson\u00e2ncias de cada palavra, usava essa arte e esse sentido musical para dizer quem era. Com obstina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com simplicidade e discreta reserva.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Faz-se a pergunta a Pilar del R\u00edo, se \u00e9 poss\u00edvel saber quem foi Saramago lendo os seus livros, se a voz do autor era muito diferente da voz do homem com quem vivia. \u201cUma das caracter\u00edsticas mais importantes de Jos\u00e9 Saramago \u00e9 que carecia de fingimento. N\u00e3o era um homem fingido. Era um homem livre.\u201d Faz uma pausa. Sentada no sof\u00e1, aponta um quadro em frente. Um retrato de Blimunda pintado por Rog\u00e9rio Ribeiro. N\u00e3o diz nada e aponta. \u201cSabe quem era Saramago? Blimunda.\u201d Tamb\u00e9m poderia ser o Jesus Cristo do Evangelho, como ele mesmo chegou a ironizar. \u201cSim, evidentemente que era Jesus Cristo do\u00a0<em>Evangelho<\/em>, mas vejo-o mais como Blimunda, a mulher livre que v\u00ea dentro. Ou como a mulher do m\u00e9dico que n\u00e3o cega [protagonista de\u00a0<em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em>, 1995]. \u00c9 incr\u00edvel como estas duas personagens s\u00e3o femininas e t\u00eam o dom da vis\u00e3o! O escritor \u00e9 uma pessoa que trata de ver o que h\u00e1 por detr\u00e1s das coisas, de construir num mundo de trevas. Para mim, Jos\u00e9 Saramago \u00e9 Blimunda. Mas Saramago n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o escritor, \u00e9 um homem do seu tempo, o pensador, o humanista, n\u00e3o gostaria de o ver colado a c\u00e2nones pequeno-burgueses, de um pa\u00eds ou de uma cultura. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um pa\u00eds e uma cultura. S\u00e3o muitas culturas e s\u00e3o muitos pa\u00edses.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A 18 de Mar\u00e7o de 1999, numa confer\u00eancia no M\u00e9xico intitulada\u00a0<em>O Autor como Narrador Omnisciente<\/em>, diz, aludindo a Gustave Flaubert e \u00e0 famosa afirma\u00e7\u00e3o \u201cMadame Bovary sou eu\u201d, que o franc\u00eas se esquecera de dizer que tamb\u00e9m fora o amante dela e a rua e os outros, para concluir: \u201cTamb\u00e9m, ainda que sendo t\u00e3o pouca coisa em compara\u00e7\u00e3o, eu sou a Blimunda e o Baltazar do\u00a0<em>Memorial do Convento<\/em>, e em\u00a0<em>O Evangelho segundo Jesus Cristo<\/em>\u00a0n\u00e3o sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou Jos\u00e9 e Maria, porque sou tamb\u00e9m o Deus e o Diabo que l\u00e1 est\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>10 de Outubro de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u201cLanzarote.\u201d S\u00f3 isto.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O livro de Ricardo Viel ajuda a entender os sil\u00eancios do di\u00e1rio. No pref\u00e1cio, o jornalista recorre \u00e0s palavras do pr\u00f3prio Saramago para definir o que foram esses tempos: \u201cEm Dezembro de 1999, j\u00e1 prestes a passar a coroa ao alem\u00e3o G\u00fcnter Grass, concedeu uma entrevista ao\u00a0<em>Jornal de Letras<\/em>\u00a0onde falou sobre os cerca de 400 dias em que viveu uma vida de estrela de rock. \u2018Quando disse que o Nobel n\u00e3o ia mudar a minha vida, provavelmente o que queria dizer \u00e9 que n\u00e3o ia mudar a pessoa. Mudar a vida, calculava; n\u00e3o podia imaginar era at\u00e9 que ponto\u2019.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nesse dia 8 de Outubro, Pilar del R\u00edo n\u00e3o estava com ele. Ficara em Lanzarote e nos \u00faltimos dias geria alegria e ang\u00fastia. Fora avisada de que o Nobel era de Saramago, mas apenas para o impedir de apanhar aquele avi\u00e3o. N\u00e3o podia dizer a ningu\u00e9m o que sabia, sob pena de o pr\u00e9mio lhe ser retirado. Apesar dos seus esfor\u00e7os para o deter em Frankfurt a tempo de ser contactado pela Academia Sueca, Saramago estava no aeroporto. Viel conta os detalhes dessas horas cuja descri\u00e7\u00e3o falta no tal caderno; o caderno que quando Pilar o encontrou n\u00e3o teve d\u00favidas de que teria de ser publicado. \u201cOs escritores escrevem para publicar. Ele n\u00e3o queria publicar aquilo? N\u00e3o queria ou n\u00e3o p\u00f4de?\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>E assim, simbolicamente, no ano em que se celebram os 20 anos do pr\u00e9mio Nobel, surge o \u00faltimo in\u00e9dito de Saramago. \u201cEle ia escrevendo aqueles di\u00e1rios ao longo do ano\u201d, explica Zeferino Coelho, o editor da Caminho que publicou toda a obra de Saramago em vida. \u201cEle\u00a0escrevia, e em Janeiro de cada ano via se estava tudo bem, fazia as correc\u00e7\u00f5es e enviava a tempo de ser publicado na Feira do Livro [de Lisboa]. Naquele ano, quando chegou Janeiro perguntei pelo\u00a0<em>Caderno<\/em>\u00a0e ele respondeu que nunca mais escrevera nada por n\u00e3o ter tido tempo e que n\u00e3o lhe fazia sentido pegar naquilo. \u2018Vou escrever o qu\u00ea agora sobre esses dias?\u2019, disse, e acrescentou qualquer coisa como \u2018N\u00e3o fa\u00e7o mais\u00a0<em>Cadernos<\/em>\u2019. E como todos os anos ele tinha mais um livro novo para publicar, n\u00e3o lhe voltei a falar do\u00a0<em>Caderno<\/em>\u201d, refere o editor. Pilar del R\u00edo escreve no pref\u00e1cio: \u201cEste \u00e9 o renascimento do\u00a0<em>Caderno VI<\/em>, o di\u00e1rio que ficou para tr\u00e1s porque a capacidade de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada \u2014 a do autor, que lidava em diversas frentes, tamb\u00e9m a daqueles que com ele estavam, que n\u00e3o reclamaram o livro que j\u00e1 era uma tradi\u00e7\u00e3o anual e, al\u00e9m disso, j\u00e1 fora anunciado. Em defesa de uns e de outros, conv\u00e9m insistir no caos que se instalou em casa de Jos\u00e9 Saramago, a partir do momento em que foi anunciado o Pr\u00e9mio Nobel da Literatura. (&#8230;) O processo de escrita foi radicalmente alterado.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Manuel Alberto Valente, da Porto Editora \u2014 que desde 2013 det\u00e9m os direitos da obra de Saramago \u2014 escusa-se a fazer avalia\u00e7\u00f5es ou compara\u00e7\u00f5es sobre a qualidade liter\u00e1ria face aos cadernos anteriores, publicados anualmente desde 1994. Como Pilar, como Zeferino, tamb\u00e9m considera que a obra de um autor \u00e9 para publicar e refere: \u201cOs di\u00e1rios s\u00e3o sempre um instrumento importante para se perceber a obra e a personalidade de um autor. O aparecimento de um di\u00e1rio que n\u00e3o se sabia que estava escrito \u00e9 um acontecimento liter\u00e1rio importante. Faria todo o sentido apresent\u00e1-lo nesta altura.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Saramago era reticente em rela\u00e7\u00e3o a publicar alguns trabalhos antigos. Refere isso numa entrevista ao jornalista brasileiro Humberto Werneck, para a revista\u00a0<em>Playboy<\/em>. O jornalista pergunta-lhe por trabalhos antigos, vai \u00e0 g\u00e9nese, e o di\u00e1logo que se estabelece (transcrito na entrada de 28 de Junho de 1998) \u00e9 este:<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>\u201c<strong>A sua estr\u00e9ia foi l\u00e1 atr\u00e1s, aos 25 anos.<\/strong><\/em><br \/><em>Tenho um livro que foi reeditado agora \u2014 o meu editor teimou e a minha mulher ajudou nisso \u2014, um romance que publiquei em 1947. Chama-se\u2019Terra do Pecado\u2019. N\u00e3o est\u00e1 mal escrito, mas tem pouco a ver comigo hoje. Ainda escrevi um outro livrinho [o romance Claraboia], que est\u00e1 por a\u00ed, mas, enfim&#8230;<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><em>N\u00e3o ser\u00e1 publicado?<\/em><\/strong><br \/><em>Em vida minha, n\u00e3o. Depois, se quiserem&#8230;<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong><em>Do que se trata?<\/em><\/strong><br \/><em>\u00c9 a hist\u00f3ria de um pr\u00e9dio onde h\u00e1 seis inquilinos, e \u00e9 como se por cima da escada houvesse uma claraboia por onde o narrador v\u00ea o que se passa embaixo. N\u00e3o est\u00e1 mal, mas n\u00e3o quero que publiquem.\u201d<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Escrito no in\u00edcio da d\u00e9cada de cinquenta, o livro seria publicado em 2011, j\u00e1 ap\u00f3s a sua morte, mas com o seu consentimento. \u201cEle acabou por ceder, conta Zeferino Coelho. Li o livro e n\u00e3o achei nada comprometedor. Estava escrito e sou muito defensor que se publique tudo. \u00c9 um livro constru\u00eddo de maneira cl\u00e1ssica. A hist\u00f3ria passa-se num pr\u00e9dio. H\u00e1 o sapateiro, um velho anarquista e a outra personagem que de vez em quando se senta a conversar j\u00e1 \u00e9 uma esp\u00e9cie de Ricardo Reis. Algu\u00e9m que cultivava uma certa ataraxia. N\u00e3o se compromete com ningu\u00e9m. N\u00e3o quer ficar preso a coisa nenhuma. Quer viver afastado do mundo a contemplar o mundo. Ou seja, j\u00e1 estava l\u00e1 a ideia que ele vai cultivar com outra amplitude em\u00a0<em>O Ano da Morte de Ricardo Reis<\/em>. \u00c9 uma coisa curiosa e interessante. J\u00e1 nesta altura, quando diz que lera Fernando Pessoa e a poesia do Ricardo Reis que ele at\u00e9 julgava que era real, n\u00e3o s\u00f3 leu como absorveu aquele heter\u00f3nimo.\u201d Pilar del R\u00edo acrescenta que o romance podia introduzir alguma confus\u00e3o. \u201cSaramago tinha um estilo e n\u00e3o queria aparecer com um livro noutro estilo.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Claraboia<\/em>\u00a0acabaria ainda por ser adaptado ao teatro em 2015, numa encena\u00e7\u00e3o de Maria do C\u00e9u Guerra para celebrar os 40 anos do teatro A Barraca. A RTP2 exibiu-a este s\u00e1bado para assinalar os 20 anos do Nobel.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Como se conquistam novos leitores, quando o autor de que se fala j\u00e1 n\u00e3o escreve, j\u00e1 morreu, ainda que seja um Nobel? Como \u00e9 que se mant\u00e9m viva a obra? \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 preciso tomar medidas. O mundo acad\u00e9mico \u00e9 muito importante, o estudo universit\u00e1rio, as confer\u00eancias, este congresso\u201d, responde Pilar del R\u00edo acerca do Congresso Internacional que ir\u00e1 decorrer em Coimbra, de 8 a 10 deste m\u00eas de Outubro, no Convento de S\u00e3o Francisco, uma organiza\u00e7\u00e3o do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, coordenado por Carlos Reis. \u201c\u00c9 muito importante ir continuamente por universidades de diversos pa\u00edses a falar. Mas isso \u00e9 para ficar no \u00e2mbito acad\u00e9mico? N\u00e3o. Mas isso projecta, mant\u00e9m e suporta. Temos boas editoras em diversos pa\u00edses e algumas s\u00e3o militantes de Saramago. Em Fran\u00e7a vai ser feita uma recompila\u00e7\u00e3o e republica\u00e7\u00e3o da obra completa. \u00c9 preciso discutir e perfilar muitas coisas, mas vamos conseguindo. E \u00e9 muito importante para tudo isso que uma pessoa de top represente Jos\u00e9 Saramago no mundo\u201d, acrescenta, sublinhando ainda outro dos projectos: a adapta\u00e7\u00e3o da obra de Saramago a s\u00e9ries de televis\u00e3o e ao cinema. \u201cUm dos momentos que mais ajudou a criar leitores em todo o mundo foi o filme\u00a0<em>Jos\u00e9 e Pilar<\/em>. Foi primeira p\u00e1gina em jornais num pa\u00eds como o Ir\u00e3o! O como aconteceu com\u00a0<em>Ensaio sobre a Cegueira.\u201d\u00a0<\/em>Mais uma vez com a relut\u00e2ncia inicial de Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>2 de Mar\u00e7o de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p><em>\u201c<\/em>Diz Ray-G\u00fcde Mertin que lhe chovem de Los Angeles perguntas de produtores de cinema (s\u00e3o j\u00e1 oito ou nove, informa ela) a querer saber se os direitos do\u00a0<em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em>\u00a0est\u00e3o livres. Como o livro ainda n\u00e3o apareceu \u00e0 luz nos Estados Unidos, o motivo do s\u00fabito e arrebatado interesse (n\u00e3o creio que naquelas californianas paragens se leiam jornais ingleses) deve ter sido o cat\u00e1logo da Harcourt Brace, que, mais do que provavelmente, se excedeu na eloqu\u00eancia publicit\u00e1ria&#8230; Enfim, o cinema ataca outra vez. Terei eu for\u00e7as para resistir-lhe? Por meras raz\u00f5es de simpatia (n\u00e3o fui capaz de dizer n\u00e3o a Yvette Biro), j\u00e1 se me escapou das m\u00e3os\u00a0<em>A Jangada de Pedra<\/em>, mas juro pelos deuses de todos os c\u00e9us e olimpos que no\u00a0<em>Ensaio sobre a Cegueir<\/em>a ningu\u00e9m toca.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pilar lembra. \u201cEle dizia sempre: \u2018N\u00e3o quero ver a cara das minhas personagens\u2019. Tamb\u00e9m nunca tinha tido uma oferta concreta maravilhosa.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Aceitou a adapta\u00e7\u00e3o de Fernando Meirelles, em 2005. E acabou por escrever no cat\u00e1logo do filme. \u201cHouve um tempo em que eu n\u00e3o queria ver a cara das minhas personagens quando me chegavam pedidos de adapta\u00e7\u00e3o de romances meus ao cinema. Digamos que eu era ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de radical da escrita: o que n\u00e3o passava pela palavra posta num papel simplesmente n\u00e3o existia.\u201d Pilar refere que a experi\u00eancia com\u00a0<em>A Jangada de Pedra<\/em>, filme estreado em 2002, realizado pelo holand\u00eas George Sluizer, o deixou receoso. Passou. \u201cEle poderia ter dito que n\u00e3o milh\u00f5es de vezes, mas agora que depende de mim eu vou dizer que sim. O meu trabalho \u00e9 continu\u00e1-lo e eu vejo que o mundo mudou nos \u00faltimos anos de uma maneira tal que&#8230; J\u00e1 n\u00e3o lemos livros, lemos os jornais em digital. Quero ver\u00a0<em>As Intermit\u00eancias da Mort<\/em>e em s\u00e9rie.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00c9 um dos pr\u00f3ximos projectos, ou vontades. Para j\u00e1 h\u00e1 m\u00fasica, a encomenda da pe\u00e7a sinf\u00f3nica\u00a0<em>Memorial<\/em>\u00a0a Ant\u00f3nio Pinho Vargas passa por essa divulga\u00e7\u00e3o, de manter vivo o nome e homenagear. A estreia est\u00e1 agendada para Dezembro, numa interpreta\u00e7\u00e3o da Orquestra Sinf\u00f3nica Portuguesa dirigida por Crist\u00f3bal Soler.<\/p>\n<p><\/p>\n<aside class=\"story__callout story__callout--quote story__callout--cite story__callout--inline\"><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<div>\u201cOs di\u00e1rios s\u00e3o sempre um instrumento importante para se perceber a obra e a personalidade de um autor. O aparecimento de um di\u00e1rio que n\u00e3o se sabia que estava escrito \u00e9 um acontecimento liter\u00e1rio importante. Faria todo o sentido apresent\u00e1-lo nesta altura.\u201d<\/div>\n<p><\/p>\n<footer>Manuel Alberto Valente<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p><\/aside>\n<p><\/p>\n<h2>7 de Dezembro de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>O discurso em Estocolmo. \u201cCompreendemos que um livro \u00e9 como uma partitura, que a fala \u00e9 como uma melodia ansiosa e inesgot\u00e1vel.\u201d Saramago chegou a estudar na Academia de Amadores de M\u00fasica de Lisboa, queria aprender violoncelo, achava-o o instrumento mais aproximado da voz humana. Nunca aconteceu. Ia escrevendo sempre, treinado a voz do escritor.<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>Dia 10 de Julho de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u201cAssombro. O\u00a0<em>ayuntamiento<\/em>\u00a0de Madrid prop\u00f5e-me para o Nobel. Em Lanzarote, o taxista que me trouxe do aeroporto conta-me que o terreno onde agora se levanta a minha casa pertencera \u00e0 sua fam\u00edlia e recordou que quando tinha dez anos lavrou esta terra pobre com um camelo&#8230;\u201d Jos\u00e9 Saramago vai acrescentando entradas ao di\u00e1rio enquanto promove o seu mais recente romance,\u00a0<em>Todos os Nomes<\/em>, lan\u00e7ado em Portugal no fim de 1997. Dia 18 de Agosto. \u201cFinalmente, respondi \u00e0 carta de Miguel Real. Assim: \u2018A sua carta de 26 de maio (&#8230;) apanharam-me numa curva do caminho e, portanto, em risco de derrapagem. Por motivos de trabalho, nada mais. Ou nada menos. As mil andan\u00e7as que me comeram o tempo no ano passado, sem esquecer o labirinto de\u00a0<em>Todos os Nomes<\/em>\u00a0em que quase me perdi, tiveram como efeito atrasar-me o di\u00e1rio a um ponto tal que at\u00e9 este Julho n\u00e3o fiz outra coisa que empurr\u00e1-lo&#8230;\u201d\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Todos os Nomes<\/em>\u00a0era o d\u00e9cimo romance de Jos\u00e9 Saramago e o primeiro que Pilar del R\u00edo traduzia para castelhano. \u201cFoi o mais dif\u00edcil\u201d, confessa. \u201cPerdi o meu arquivo quando j\u00e1 estava traduzido e ca\u00ed numa depress\u00e3o tremenda, nenhum t\u00e9cnico conseguiu recuperar. Fiquei t\u00e3o mal que sa\u00ed de Lanzarote e fui para Granada, a aldeia da minha m\u00e3e, e fiquei uns dias com ela. Estava desolada. Era tamb\u00e9m o primeiro livro que traduzia. Teve um lado bom, porque foram as \u00faltimas f\u00e9rias que passei com a minha m\u00e3e. O pior \u00e9 que voltei ao livro e voltaram todas as d\u00favidas. N\u00e3o tinha aprendido nada [ri]. Ou seja, t\u00ea-lo j\u00e1 traduzido n\u00e3o significou que tivesse o caminho resolvido.\u201d Chamaram a\u00a0<em>Todos os Nomes<\/em>\u00a0o mais kafkiano dos livros de Saramago. Pilar concorda. A obra \u00e9 kafkiana. Como dizia Francisco Umbral, \u201cSaramago escreveu um n\u00e3o-romance, com uma n\u00e3o-hist\u00f3ria, com uns n\u00e3o-personagens de um n\u00e3o-encontro e um n\u00e3o-amor. Saramago escreveu um livro magn\u00edfico e a \u00fanica coisa que tem de fazer a partir de agora \u00e9 sentar-se \u00e0 porta de casa e esperar que lhe d\u00eaem o Nobel.\u201d Mas a dificuldade de traduzir Saramago n\u00e3o era tanto a complexidade dos seus livros, mas a proximidade dos dois idiomas e sobretudo o facto de o autor espreitar por cima do ombro da tradutora. \u201cTer o autor a espreitar quando estava a trabalhar era odioso. Eu a escrever e ele a espreitar. Sempre que ele vinha eu tinha a tenta\u00e7\u00e3o de mudar de p\u00e1gina, como se estivesse a fazer qualquer coisa clandestina\u201d, continua, revelando ainda que muitas vezes ele lia, que a princ\u00edpio at\u00e9 discutiam a tradu\u00e7\u00e3o, mas&#8230; \u201cdepois deixei de fazer isso porque deixei de lhe perguntar. Ele n\u00e3o tinha a mesma rela\u00e7\u00e3o com as\u00a0minhas perguntas que tinha com as dos outros tradutores. Por isso quando eu tinha d\u00favidas falava com outras pessoas.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Desde a\u00ed traduziu toda a obra de Saramago, mas recusou traduzir este\u00a0<em>\u00daltimo Caderno<\/em>. \u201cSe antes a dificuldade de traduzir era pela proximidade da l\u00edngua e pela proximidade do autor \u2014 que tira liberdade, inclusive \u2014, agora senti que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a presen\u00e7a f\u00edsica a tirar liberdade. Desta vez, n\u00e3o tenho liberdade porque oi\u00e7o a m\u00fasica de Saramago, oi\u00e7o a voz de Saramago e acho uma trai\u00e7\u00e3o pass\u00e1-la para outro lugar. N\u00e3o tive serenidade espiritual para o traduzir. N\u00e3o consegui e a partir do momento em que tomei a decis\u00e3o de n\u00e3o o traduzir e comuniquei \u00e0 editora nesse dia perdi estas rugas\u201d, diz apontado para o rosto.<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>Dia 11 de Julho de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>Carta para Cleonice Berardinelli com desculpas e algo mais: \u201c&#8230; H\u00e1 alguns meses, o Manuel Alegre escreveu-me, a prop\u00f3sito de\u00a0<em>Todos os Nomes<\/em>, certas palavras que me perturbaram e me t\u00eam perturbado at\u00e9 hoje. Disse ele: \u2018Aonde ir\u00e1 voc\u00ea parar? Tenho medo por si&#8230;\u2019 Realmente, a partir do\u00a0<em>Ensaio<\/em>\u00a0a minha rela\u00e7\u00e3o com o acto de escrever mudou, o que s\u00f3 pode significar que algo ter\u00e1 mudado em mim. Tenho tentado explicar isto pela met\u00e1fora da est\u00e1tua e da pedra, digo que at\u00e9 ao Evangelho andei a descrever uma est\u00e1tua, a superf\u00edcie da pedra (a est\u00e1tua \u00e9 apenas a superf\u00edcie da pedra&#8230;) e que com o\u00a0<em>Ensaio\u00a0<\/em>passei para o lado de dentro, para a pedra s\u00f3 pedra e nada mais que pedra. Ficou mais claro assim? Provavelmente n\u00e3o, mas \u00e9 o que ando a sentir. Se a tudo isto se junta que cada vez menos me interessa falar de literatura, que duvido at\u00e9 que se possa\u00a0<em>falar<\/em>\u00a0de literatura&#8230;\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pilar del R\u00edo ouviu ler algumas frases do\u00a0<em>Caderno<\/em>\u00a0e sorri. Lembra que desde que soube do pr\u00e9mio e reflectiu sobre ele, Saramago o encarou como uma miss\u00e3o. N\u00e3o apenas liter\u00e1ria. \u201cEle assumiu-o como uma responsabilidade e isso est\u00e1 clar\u00edssimo no livro do Ricardo [Viel]. Jos\u00e9, por pudor, n\u00e3o contaria. Tinha vergonha. Mas assume o pr\u00e9mio como uma responsabilidade. Em Portugal, a de compartilhar a alegria. E fora de Portugal quase como uma bandeira. \u00c9 portugu\u00eas, v\u00e1 onde v\u00e1, fala portugu\u00eas. Fazia quest\u00e3o de que fosse em portugu\u00eas. E ent\u00e3o a miss\u00e3o \u00e9 mostrar uma cultura, uma l\u00edngua e uma forma pol\u00edtica de estar no mundo. A \u00e9tica da responsabilidade. N\u00e3o precisava de deixar de ser comunista, n\u00e3o iria deixar de o ser, e iria manifestar-se como um homem de esquerda, como um homem respons\u00e1vel, como um antidogm\u00e1tico. Assumiu o compromisso da responsabilidade de uma forma rotunda.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>Dia 5 de Outubro de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u201cPara Alexandra Lucas Coelho, do\u00a0<em>P\u00fablico<\/em>: \u2018Que significa hoje ser escritor comunista? (&#8230;) Tiremos o escritor e perguntemos simplesmente: Que significa hoje ser comunista? Desmoronou-se a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, foram arrastadas na queda as denominadas democracias populares, a China hist\u00f3rica mudou menos do que se julga, a Coreia do Norte \u00e9 uma farsa tr\u00e1gica, as m\u00e3os dos Estados Unidos continuam a apertar o pesco\u00e7o de Cuba&#8230; Ainda \u00e9 poss\u00edvel, nesta situa\u00e7\u00e3o, ser-se comunista? Penso que sim. Com a condi\u00e7\u00e3o, reconhe\u00e7o que nada materialista, de que n\u00e3o se perca o estado de esp\u00edrito. Ser-se comunista ou ser-se socialista \u00e9, al\u00e9m de tudo o mais, e tanto como ou ainda mais importante que o resto, um estado de esp\u00edrito. Neste sentido, foi Ieltsin alguma vez comunista? Foi-o alguma vez Estaline? A ep\u00edgrafe que pus em\u00a0<em>Objeto quase\u00a0<\/em>[livro de contos, 1978], tirada de\u00a0<em>A Sagrada Fam\u00edlia<\/em>, cont\u00e9m e explica de modo claro e definitivo o que estou a tentar exprimir. Dizem Marx e Engels: \u2018Se o homem \u00e9 formado pelas circunst\u00e2ncias, \u00e9 necess\u00e1rio formar as circunst\u00e2ncias humanamente.\u2019 Est\u00e1 aqui tudo. S\u00f3 um \u2018estado de esp\u00edrito comunista\u2019 pode ter sempre presentes, como regra de pensamento e de conduta, estas palavras. Em todas as circunst\u00e2ncias\u2019.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pilar del R\u00edo faz um sublinhado. \u201cO facto de ser tudo isso e n\u00e3o s\u00f3 um escritor liter\u00e1rio fez a diferen\u00e7a no modo como se projectou.\u201d Com Saramago, o Nobel n\u00e3o foi uma distin\u00e7\u00e3o apenas liter\u00e1ria. \u201cNo caso de Jos\u00e9, independentemente de ser um autor liter\u00e1rio, era tamb\u00e9m um pensador. Ele teve uma interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica, como outros intelectuais. Sartre teve o Nobel da Literatura, mas tamb\u00e9m foi pelo seu pensamento. S\u00e3o pessoas que transcendem a realiza\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Al\u00e9m de uma grande obra liter\u00e1ria t\u00eam um pensamento pr\u00f3prio que continua a iluminar.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<h2>8 de Agosto, de 1998<\/h2>\n<p><\/p>\n<p>\u201cUm dia deixei consignada nestes cadernos a \u00fanica ideia em tudo original que at\u00e9 a\u00ed tinha produzido (&#8230;), aquela luminos\u00edssima ocorr\u00eancia de que na publica\u00e7\u00e3o da obra completa de um escritor deveria haver um volume ou mais com as cartas de leitores&#8230;\u201d E deixa a primeira dessas cartas, simbolicamente dirigida a Pilar. \u201cQuerida Pilar: escrevo-te a ti, pedindo que, ap\u00f3s a tua leitura, fa\u00e7as chegar esta carta ao Senhor Jos\u00e9, pois considero que n\u00e3o pode haver segredos entre um escritor e os seus leitores.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Vem no\u00a0<em>\u00daltimo Caderno<\/em>\u00a0esta esp\u00e9cie de testamento. \u201cTemos de fazer esse trabalho na Funda\u00e7\u00e3o num futuro muito pr\u00f3ximo. A verdadeira revis\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 dos leitores. Esse vai ser o contributo definitivo da obra de Jos\u00e9 Saramago \u00e0 literatura. O posicionamento de Jos\u00e9 Saramago era o de, mantendo o respeito \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, de ruptura. O posicionamento pol\u00edtico de Jos\u00e9 Saramago, o humanismo. Jos\u00e9 Saramago era militante do Partido Comunista, mas Jos\u00e9 Saramago era um humanista e provocou muito nos seus leitores esse posicionamento de ruptura, tanto liter\u00e1rio como ideol\u00f3gico. Ser\u00e1 muito interessante conhecer essa recep\u00e7\u00e3o nos leitores.\u201d<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>H\u00e1 milhares de cartas, adianta, onde \u201cas pessoas sobretudo se contam\u201d. Menos rica \u00e9 a correspond\u00eancia entre pares. \u201cJos\u00e9 Saramago \u00e9 um autor muito tardio e tem correspond\u00eancia com outros autores, mas lamentavelmente j\u00e1 existia o telefone, o fax, e as viagens. E a\u00ed perdeu-me muito do v\u00ednculo com os seus pares.\u201d Conta conversas com Orhan Pamuk, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Carlos Fuentes, Nadine Gordimer, a escritora sul-americana, Nobel em 1991, que leu o conto\u00a0<em>O Centauro<\/em>, de Saramago, para um\u00a0<em>podcast<\/em>\u00a0do jornal\u00a0<em>The Guardian<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 registo de nenhuma dessas conversas a n\u00e3o ser na mem\u00f3ria de Pilar del R\u00edo que participou de muitas. Pode-se esperar um livro com essas mem\u00f3rias? \u201cN\u00e3o vai haver!\u201d Porqu\u00ea? A resposta \u00e9 um longo sil\u00eancio.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h4 class=\"referenceString selectable\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong>: Lucas, I. (2018).\u00a0<em>A \u00faltima carta de Saramago<\/em>.\u00a0<em>P\u00daBLICO<\/em>. Retrieved 7 October 2018, from <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2018\/10\/07\/culturaipsilon\/noticia\/quando-o-tempo-comecou-a-contar-faz-20-anos-1846366\">https:\/\/www.publico.pt\/2018\/10\/07\/culturaipsilon\/noticia\/quando-o-tempo-comecou-a-contar-faz-20-anos-1846366<\/a><\/span><\/h4>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0por Isabel Lucas | Ler no\u00a0P\u00fablico| foto: Luis Davilla\/Getty Images \u00a0 20 Anos depois do Nobel A \u00faltima carta de Saramago \u00a0 Vinte anos de Nobel e um in\u00e9dito para celebrar.\u00a0\u00daltimo Caderno, a publicar esta segunda-feira, \u00e9 a derradeira obra de Jos\u00e9 Saramago. \u201c\u00c9 uma carta que nos deixou\u201d, diz Pilar del R\u00edo. Com ela vamos lendo esse di\u00e1rio de 1998, tentando entender ideias, preencher faltas, contradi\u00e7\u00f5es e um legado que ela assumiu, como miss\u00e3o, preservar como muito mais do que mem\u00f3ria hist\u00f3rica. \u00a0 Se os dias do Nobel tivessem uma imagem \u00edntima seria a de um homem adormecido numa poltrona, os p\u00e9s cruzados em cima da mesa, e de uma mulher deitada no sof\u00e1 ao lado, tapada por jornais. Ela dorme e apoia o rosto na m\u00e3o esquerda que tem junto ao queixo. Ele, sentado, como se estivesse a pensar, m\u00e3o direita semiaberta, o indicador na testa e o polegar junto \u00e0 orelha. Parece numa pausa de conversa. E \u00e9, mas inusitada. A fotografia a preto e branco, est\u00e1 pendurada numa das paredes da casa de Lisboa de Jos\u00e9 Saramago e Pilar del R\u00edo. Tem a data de 14 de Novembro de 1998 e foi tirada noutra sala, de outra casa de Jos\u00e9 e Pilar, em Lanzarote por um jornalista que os entrevistava. \u201cT\u00ednhamos chegado do primeiro compromisso p\u00fablico entre o an\u00fancio do Nobel e a cerim\u00f3nia em Estocolmo. T\u00ednhamos regressado de Paris. Ele tinha ido \u00e0 Sorbonne e \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian [delega\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a]. Estava connosco um jornalista a fazer uma reportagem para um suplemento cultural de um jornal de Espanha. Est\u00e1vamos a falar com ele e, primeiro, foi o Jos\u00e9. P\u00f4s os p\u00e9s na mesa e adormeceu. Eu, que estava a ler um jornal, adormeci a seguir. A fotografia somos os dois a dormir, cada um no seu s\u00edtio; eu toda tapada com jornais, com uma cadela aos p\u00e9s. Sim, essa \u00e9 uma imagem desses dias\u201d, afirma Pilar del R\u00edo enquanto olha a fotografia com um sorriso. N\u00e3o se falou disso, mas h\u00e1 uma breve nota sobre esse dia no di\u00e1rio rec\u00e9m-descoberto de Jos\u00e9 Saramago. Assim: \u201cLanzarote. Entrevista Anders Lange, Morgenavien.\u201d \u00a0 Passaram 20 anos. Est\u00e1 uma manh\u00e3 de sol num bairro tranquilo do centro de Lisboa. O mesmo sol que ilumina, luz filtrada pela janela, a fotografia e o rosto de Pilar quando a aponta. \u00c9 s\u00e1bado e quase n\u00e3o h\u00e1 ru\u00eddos junto \u00e0 casa azul baptizada com o nome de uma das personagens mais emblem\u00e1ticas da obra de Saramago. A casa chama-se Blimunda, a protagonista vision\u00e1ria de\u00a0Memorial do Convento. Nela vive agora Pilar del R\u00edo, a ex-jornalista, mulher do escritor durante 22 anos, tradutora de parte da sua obra para castelhano, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. Perto do dedo de Pilar h\u00e1 uma folha emoldurada. Chama a aten\u00e7\u00e3o para ela. \u00c9 branca e nela destaca-se uma impressa express\u00e3o\u00a0Uff;\u00a0terminara o\u00a0Ensaio sobre a Cegueira.\u00a0A luz ainda n\u00e3o comeu a tinta. H\u00e1 mais fotografias. Muitas. Em quase nenhuma o escritor aparece a rir. \u201cEle n\u00e3o gostava das fotografias em que aparecia a sorrir\u201d, conta Pilar que confirma, no entanto, um grande sentido de humor. \u201cEle tinha muita ironia e dizia muitas vezes \u2018tenho de evitar cair no sarcasmo\u2019. Ele exilava-se para n\u00e3o cair no sarcasmo.\u00a0A ironia e a auto-ironia, tudo bem. O humor, sim. O sarcasmo, n\u00e3o. Considerava-o desrespeitoso, diminui o outro. Mas tinha de se vigiar. Era muito autovigilante nisso, sobretudo quando escrevia.\u201d H\u00e1 ainda a imagem da caligrafia, sublinhados, rasuras. Ocorre uma frase da escritora brasileira\u00a0Lygia Fagundes Telles de que Saramago gostava: \u201cA nossa mem\u00f3ria (&#8230;) manipula as recorda\u00e7\u00f5es, organiza-as, comp\u00f5e-as, recomp\u00f5e-as, e \u00e9, dessa maneira, em dois instantes seguidos, a mesma mem\u00f3ria e a mem\u00f3ria que passou a ser.\u201d\u00a0 \u00a0 Aquele \u00e9 um lugar de justaposi\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias.\u00a0Estamos no presente de uma conversa iluminada por mem\u00f3rias do escritor e tamb\u00e9m pelas mem\u00f3rias de quem tem a fun\u00e7\u00e3o de manter vivo o seu legado. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para se estar ali, naquela casa, vinte anos depois do Nobel da Literatura, curiosamente num ano em que n\u00e3o \u00e9 atribu\u00eddo o Nobel da Literatura. \u201cSaramago e eu t\u00ednhamos um projecto e esse projecto implicava-o a ele e implicava-me, com as diferen\u00e7as \u00f3bvias. Dentro do projecto Saramago est\u00e1 o pensar, o reflectir,\u00a0a literatura, e est\u00e3o os direitos e os deveres humanos. Eu estou aqui [em Portugal] como integrante do projecto Saramago. N\u00e3o sou a \u00fanica. A Funda\u00e7\u00e3o \u00e9 uma parte do projecto. E o projecto Saramago \u2014 chamamo-lo assim depois da morte de Saramago, porque ele n\u00e3o o teria permitido \u2014 \u00e9 um projecto de interven\u00e7\u00e3o cultural, social e pol\u00edtica de reflex\u00e3o. Sinto-me muito c\u00f3moda porque n\u00e3o vou falar jamais, jamais, como vi\u00fava! Quem n\u00e3o me vir como parte desse projecto que n\u00e3o se relacione comigo, porque como fam\u00edlia n\u00e3o falo. Essa \u00e9 a minha vida \u00edntima e privada e dela n\u00e3o digo nada.\u201d Saramago morreu em 2010, doze anos ap\u00f3s o Nobel, 87 depois de nascer na aldeia de Azinhaga, concelho da Goleg\u00e3, junto ao rio Tejo. \u201cFoi este o mundo em que, crian\u00e7a, e depois adolescente, me iniciei na mais humana e formativa de todas as artes: a da contempla\u00e7\u00e3o\u201d, escreve em 28 de Abril.\u00a0No c\u00e9lebre discurso em Estocolmo, quando recebeu o Nobel, lembraria os av\u00f3s, Jer\u00f3nimo e Eul\u00e1lia, em como os ajudou a pastar porcos, como ent\u00e3o a vida parecia muito longe de o levar um dia a escritor. Menos ainda a um escritor com o mais cobi\u00e7ado dos pr\u00e9mios. Os sonhos n\u00e3o chegavam a\u00ed. Antes, foi torneiro mec\u00e2nico, jornalista, e aos 53 anos decidiu apostar tudo na escrita. Traduzia e escrevia.\u00a0O primeiro romance,\u00a0Terra de Pecado, foi publicado em 1947. S\u00f3 trinta anos depois, em 1977, surge o segundo, Manual de Pintura e Caligrafia; em 1980, Levantado do Ch\u00e3o\u00a0e, em 1982,\u00a0Memorial do Convento.\u00a0Tinha 60 anos.\u00a0Era o princ\u00edpio. As marcas de muita dessa escrita, desse percurso,\u00a0est\u00e3o pela casa.\u00a0Na secret\u00e1ria de Pilar, h\u00e1 um exemplar de\u00a0Anna Karenina\u00a0numa tradu\u00e7\u00e3o de Saramago a partir do franc\u00eas, uma edi\u00e7\u00e3o de 1959 dos Est\u00fadios Cor.\u00a0As mem\u00f3rias intrometem-se. \u00a0 \u00a0 \u201cVinte anos depois \u00e9 o momento adequado para certas reflex\u00f5es e confid\u00eancias\u201d, escreveu no pref\u00e1cio a\u00a0\u00daltimo Caderno de Lanzarote, o di\u00e1rio relativo ao ano de 1998, encontrado por acaso quando ela procurava um texto no computador que Jos\u00e9 Saramago usou nos \u00faltimos anos da sua escrita. O livro chegou a ser anunciado pelo escritor em 2001, na edi\u00e7\u00e3o espanhola do 2.\u00ba volume de\u00a0Cadernos de Lanzarote. Assim: \u201cE, se o\u00a0Sexto Caderno\u00a0n\u00e3o chegou a ver a luz do dia e ficou preso no disco r\u00edgido do computador, foi apenas porque, enredado de s\u00fabito em mil obriga\u00e7\u00f5es e compromissos, todos urgentes, todos imperativos, todos inadi\u00e1veis, perdi o \u00e2nimo e tamb\u00e9m a paci\u00eancia para rever e corrigir as duzentas p\u00e1ginas que tinham acolhido as ideias, os factos e tamb\u00e9m as emo\u00e7\u00f5es com que o ano de 1998 me beneficiou e, uma ou outra vez, me agrediu&#8230;\u201d Nos planos dele, haveria uma edi\u00e7\u00e3o em Portugal. Em Espanha, se veria. Mas o tal\u00a0VI Caderno\u00a0nunca apareceu e deu-se como perdido.\u00a0At\u00e9 Fevereiro deste ano.\u00a0 \u201cDevemos esta descoberta a Fernando G\u00f3mez Aguilera\u201d, conta Pilar del R\u00edo numa conversa interrompida por muitas mem\u00f3rias, esp\u00e9cie de boas intrusas que tanto a levam a gargalhadas como lhe provocam como\u00e7\u00e3o. Aguilera \u00e9 poeta e ensa\u00edsta, director da Funda\u00e7\u00e3o C\u00e9sar Manrique, em Lanzarote, e curador da Funda\u00e7\u00e3o Saramago. Convidado pela Editorial Alfaguara para organizar um volume com as confer\u00eancias e discursos de Saramago, pediu textos espec\u00edficos a Pilar. Por exemplo: \u201cHavia v\u00e1rias vers\u00f5es de uma confer\u00eancia de Jos\u00e9 e gerou-se uma discuss\u00e3o porque h\u00e1 o mesmo texto pronunciado em diferentes s\u00edtios com certas altera\u00e7\u00f5es, e ent\u00e3o, era preciso ver qual era a \u00faltima \u2014 a \u00faltima vers\u00e3o de um discurso \u00e9 sempre considerada a \u2018ortodoxa\u2019 por Carlos Reis [professor da Universidade de Coimbra e um dos especialistas da obra de Saramago]. Entrei no computador, havia uma pasta com o t\u00edtulo\u00a0Cadernos\u00a0e dou com o\u00a0VI Caderno. Foi assim. T\u00e3o banal quanto isto\u201d, diz, tentando reconstituir o que sentiu naquele momento. \u201cFiquei sem reac\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se possa contar o que senti, pode-se contar tudo, mas \u00e9 preciso encontrar muitos qualificativos para dizer que fiquei perplexa, sem ar, emocionada. Vi as notas, e ali estava o dia 1, depois o dia 2, o dia 3&#8230; Ali estava ele, no seu lugar de trabalho, no seu computador. Eram tantas horas da madrugada e eu ali estou, num outro dia a entrar naquele dia de h\u00e1 vinte anos, a encontrar tudo aquilo&#8230;\u201d \u00a0 Dia 1 Janeiro de 1998 \u201cDurante a noite, o vento andou de cabe\u00e7a perdida, dando voltas cont\u00ednuas \u00e0 casa, servindo-se de quantas sali\u00eancias e interst\u00edcios encontrava para fazer soar a gama completa dos instrumentos da sua orquestra particular, sobretudo os gemidos, os silvos e os roncos das cordas, pontuados de vez em quando pelo golpe do timbale de uma persiana mal fechada. Nervosos, os c\u00e3es lan\u00e7avam-se de rompante pela gateira da cozinha (o ru\u00eddo \u00e9 inconfund\u00edvel) para irem ladrar l\u00e1 fora ao inimigo invis\u00edvel que n\u00e3o os deixava dormir.\u201d Veio a manh\u00e3, o olhar sobre os estragos e depois o pequeno-almo\u00e7o habitual, sumo de laranja, iogurte, ch\u00e1 verde e torradas com azeite e a\u00e7\u00facar. Eram mais ou menos assim os dias antes dos \u201cdias do caos\u201d, depois de 8 de Outubro desse ano, de 1998, quando a Academia Sueca anunciou que Jos\u00e9 Saramago era o vencedor desse ano do Pr\u00e9mio Nobel da Literatura. O escritor tinha 75 anos, dez romances publicados, quatro pe\u00e7as de teatro, um livro de viagens, tr\u00eas volumes de poesia, dois livros para crian\u00e7as, dois volumes de contos, um de mem\u00f3rias e cinco di\u00e1rios, os\u00a0Cadernos de Lanzarote.\u00a0Vivia na ilha de Lanzarote com a sua terceira mulher, Pilar del R\u00edo,\u00a0e estava no Terminal 2 do aeroporto de Frankfurt prestes a entrar num avi\u00e3o para Madrid. Soube da not\u00edcia por uma hospedeira. Jos\u00e9 Saramago estava sozinho e a imagem que correu mundo, aquela que todos guardam por ter sido tantas vezes contada, mesmo que nunca tenha sido vista, \u00e9 a de um homem a caminhar com uma gabardina dobrada no bra\u00e7o e uma pasta na m\u00e3o. O homem que nesse preciso momento pensaria qualquer coisa como \u201cDeram-me o Nobel, e o qu\u00ea?\u201d \u00a0 \u201cEste livro \u00e9 uma carta que recebemos\u201d, afirma Pilar del R\u00edo sobre o\u00a0VI Caderno de Lanzarote\u00a0que tem como t\u00edtulo\u00a0\u00daltimo Caderno, e chega \u00e0s livrarias esta segunda-feira, dia 8, quando passam vinte anos da atribui\u00e7\u00e3o do Nobel a Saramago. \u201cAntes est\u00e1vamos t\u00e3o habituados a ouvir as considera\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Saramago, elas eram quase como o quotidiano. Ele aparecia muito, e de repente, passado tanto tempo, voltamos a ouvimo-lo reflectir sobre a import\u00e2ncia de manter posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, por exemplo, sobre a import\u00e2ncia da leitura e a import\u00e2ncia do outro e da poesia. Ouvir isso de repente outra vez, na primeira pessoa \u00e9 como se fosse uma carta\u201d, continua a presidente da Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago, remetendo para outro livro,\u00a0Um Pa\u00eds Levantado em Alegria, do jornalista Ricardo Viel, relato dos dias do Nobel, com uma compila\u00e7\u00e3o de cartas e de testemunhos sobre o modo como a not\u00edcia foi recebida depois de Saramago a ter ouvido, desta forma, pela voz da hospedeira: \u201cH\u00e1 uma pessoa que quer falar consigo por telefone, \u00e9 que o senhor ganhou o Pr\u00e9mio Nobel.\u201d A frase vem replicada no livro de Viel, tentando reproduzir o que, dito assim, ter\u00e1 ecoado junto do seu ouvinte solit\u00e1rio e antecedeu as horas de euforia que se viveram logo depois na Feira de Frankfurt, de onde Saramago sa\u00edra e para onde voltou de imediato, n\u00e3o sem uma s\u00e9rie de perip\u00e9cias e desencontros. Antecede ainda \u2014 e sobretudo \u2014 a euforia vivida, em Portugal. \u201cA alegria aqui foi t\u00e3o forte que eu diria que \u00e9 como se, da noite para o dia, todo o mundo, de uma hora para a outra, tivesse crescido tr\u00eas cent\u00edmetros\u201d, escreveu ent\u00e3o o ensa\u00edsta Eduardo Prado Coelho num texto que o livro de Ricardo Viel tamb\u00e9m recupera. Em contrapartida, no\u00a0\u00daltimo Caderno, sobre esse dia, Saramago escreveu s\u00f3 isto: \u201cAeroporto de Frankfurt. Pr\u00e9mio Nobel. A hospedeira. Teresa Cruz. Entrevistas.\u201d Depois de 8 de Outubro de 1998 faltou tempo a Saramago para completar o seu di\u00e1rio. Surgem apenas, com algumas excep\u00e7\u00f5es, notas dispersas, uma frase, uma palavra talvez a desenvolver, um registo a retomar. Como este, a 26 de Outubro: \u201cMorte de Jos\u00e9 Cardoso Pires.\u201d Antes, estendera-se mais para dizer que morrera Maria Judite de Carvalho. A 19 de Janeiro. \u201cChega-me aqui a not\u00edcia da morte de Maria Judite de Carvalho. Nunca li uma p\u00e1gina sua em que n\u00e3o pensasse na pessoa que a tinha escrito. E creio que ela o queria assim. Que o leitor compreendesse que do outro lado n\u00e3o havia estado apenas uma escritora, mas sim algu\u00e9m que, conhecendo como raras a arte do conto e as \u00edntimas resson\u00e2ncias de cada palavra, usava essa arte e esse sentido musical para dizer quem era. Com obstina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com simplicidade e discreta reserva.\u201d Faz-se a pergunta a Pilar del R\u00edo, se \u00e9 poss\u00edvel saber quem foi Saramago lendo os seus livros, se a voz do autor era muito diferente da voz do homem com quem vivia. \u201cUma das caracter\u00edsticas mais importantes de Jos\u00e9 Saramago \u00e9 que carecia de fingimento. N\u00e3o era um homem fingido. Era um homem livre.\u201d Faz uma pausa. Sentada no sof\u00e1, aponta um quadro em frente. Um retrato de Blimunda pintado por Rog\u00e9rio Ribeiro. N\u00e3o diz nada e aponta. \u201cSabe quem era Saramago? Blimunda.\u201d Tamb\u00e9m poderia ser o Jesus Cristo do Evangelho, como ele mesmo chegou a ironizar. \u201cSim, evidentemente que era Jesus Cristo do\u00a0Evangelho, mas vejo-o mais como Blimunda, a mulher livre que v\u00ea dentro. Ou como a mulher do m\u00e9dico que n\u00e3o cega [protagonista de\u00a0Ensaio sobre a Cegueira, 1995]. \u00c9 incr\u00edvel como estas duas personagens s\u00e3o femininas e t\u00eam o dom da vis\u00e3o! O escritor \u00e9 uma pessoa que trata de ver o que h\u00e1 por detr\u00e1s das coisas, de construir num mundo de trevas. Para mim, Jos\u00e9 Saramago \u00e9 Blimunda. Mas Saramago n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o escritor, \u00e9 um homem do seu tempo, o pensador, o humanista, n\u00e3o gostaria de o ver colado a c\u00e2nones pequeno-burgueses, de um pa\u00eds ou de uma cultura. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um pa\u00eds e uma cultura. S\u00e3o muitas culturas e s\u00e3o muitos pa\u00edses.\u201d A 18 de Mar\u00e7o de 1999, numa confer\u00eancia no M\u00e9xico intitulada\u00a0O Autor como Narrador Omnisciente, diz, aludindo a Gustave Flaubert e \u00e0 famosa afirma\u00e7\u00e3o \u201cMadame Bovary sou eu\u201d, que o franc\u00eas se esquecera de dizer que tamb\u00e9m fora o amante dela e a rua e os outros, para concluir: \u201cTamb\u00e9m, ainda que sendo t\u00e3o pouca coisa em compara\u00e7\u00e3o, eu sou a Blimunda e o Baltazar do\u00a0Memorial do Convento, e em\u00a0O Evangelho segundo Jesus Cristo\u00a0n\u00e3o sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou Jos\u00e9 e Maria, porque sou tamb\u00e9m o Deus e o Diabo que l\u00e1 est\u00e3o&#8230;\u201d \u00a0 10 de Outubro de 1998 \u201cLanzarote.\u201d S\u00f3 isto. O livro de Ricardo Viel ajuda a entender os sil\u00eancios do di\u00e1rio. No pref\u00e1cio, o jornalista recorre \u00e0s palavras do pr\u00f3prio Saramago para definir o que foram esses tempos: \u201cEm Dezembro de 1999, j\u00e1 prestes a passar a coroa ao alem\u00e3o G\u00fcnter Grass, concedeu uma entrevista ao\u00a0Jornal de Letras\u00a0onde falou sobre os cerca de 400 dias em que viveu uma vida de estrela de rock. \u2018Quando disse que o Nobel n\u00e3o ia mudar a minha vida, provavelmente o que queria dizer \u00e9 que n\u00e3o ia mudar a pessoa. Mudar a vida, calculava; n\u00e3o podia imaginar era at\u00e9 que ponto\u2019.\u201d \u00a0 Nesse dia 8 de Outubro, Pilar del R\u00edo n\u00e3o estava com ele. Ficara em Lanzarote e nos \u00faltimos dias geria alegria e ang\u00fastia. Fora avisada de que o Nobel era de Saramago, mas apenas para o impedir de apanhar aquele avi\u00e3o. N\u00e3o podia dizer a ningu\u00e9m o que sabia, sob pena de o pr\u00e9mio lhe ser retirado. Apesar dos seus esfor\u00e7os para o deter em Frankfurt a tempo de ser contactado pela Academia Sueca, Saramago estava no aeroporto. Viel conta os detalhes dessas horas cuja descri\u00e7\u00e3o falta no tal caderno; o caderno que quando Pilar o encontrou n\u00e3o teve d\u00favidas de que teria de ser publicado. \u201cOs escritores escrevem para publicar. Ele n\u00e3o queria publicar aquilo? N\u00e3o queria ou n\u00e3o p\u00f4de?\u201d E assim, simbolicamente, no ano em que se celebram os 20 anos do pr\u00e9mio Nobel, surge o \u00faltimo in\u00e9dito de Saramago. \u201cEle ia escrevendo aqueles di\u00e1rios ao longo do ano\u201d, explica Zeferino Coelho, o editor da Caminho que publicou toda a obra de Saramago em vida. \u201cEle\u00a0escrevia, e em Janeiro de cada ano via se estava tudo bem, fazia as correc\u00e7\u00f5es e enviava a tempo de ser publicado na Feira do Livro [de Lisboa]. Naquele ano, quando chegou Janeiro perguntei pelo\u00a0Caderno\u00a0e ele respondeu que nunca mais escrevera nada por n\u00e3o ter tido tempo e que n\u00e3o lhe fazia sentido pegar naquilo. \u2018Vou escrever o qu\u00ea agora sobre esses dias?\u2019, disse, e acrescentou qualquer coisa como \u2018N\u00e3o fa\u00e7o mais\u00a0Cadernos\u2019. E como todos os anos ele tinha mais um livro novo para publicar, n\u00e3o lhe voltei a falar do\u00a0Caderno\u201d, refere o editor. Pilar del R\u00edo escreve no pref\u00e1cio: \u201cEste \u00e9 o renascimento do\u00a0Caderno VI, o di\u00e1rio que ficou para tr\u00e1s porque a capacidade de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada \u2014 a do autor, que lidava em diversas frentes, tamb\u00e9m a daqueles que com ele estavam, que n\u00e3o reclamaram o livro que j\u00e1 era uma tradi\u00e7\u00e3o anual e, al\u00e9m disso, j\u00e1 fora anunciado. Em defesa de uns e de outros, conv\u00e9m insistir no caos que se instalou em casa de Jos\u00e9 Saramago, a partir do momento em que foi anunciado o Pr\u00e9mio Nobel da Literatura. (&#8230;) O processo de escrita foi radicalmente alterado.\u201d Manuel Alberto Valente, da Porto Editora \u2014 que desde 2013 det\u00e9m os direitos da obra de Saramago \u2014 escusa-se a fazer avalia\u00e7\u00f5es ou compara\u00e7\u00f5es sobre a qualidade liter\u00e1ria face aos cadernos anteriores, publicados anualmente desde 1994. Como Pilar, como Zeferino, tamb\u00e9m considera que a obra de um autor \u00e9 para publicar e refere: \u201cOs di\u00e1rios s\u00e3o sempre um instrumento importante para se perceber a obra e a personalidade de um autor. 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