{"id":2159162,"date":"2018-04-09T10:24:00","date_gmt":"2018-04-09T10:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2159162.html"},"modified":"2026-05-14T09:14:43","modified_gmt":"2026-05-14T09:14:43","slug":"diario-de-um-portugues-em-la-lys-naquela-altura-o-meu-gosto-seria-morrer-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2159162","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um portugu\u00eas em La Lys: \u201cNaquela altura o meu gosto seria morrer\u201d | hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<table style=\"height: 223px;\" width=\"328\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"lys.jpg\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/20969107_ASSz4.jpeg\" alt=\"lys.jpg\" width=\"500\" height=\"250\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<span style=\"font-size: 10pt;\"><em>por<\/em> Maria Jos\u00e9 Oliveira<\/span> |\u00a0<a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/diario-de-um-portugues-em-la-lys-naquela-altura-o-meu-gosto-seria-morrer\/\" target=\"_blank\">Observador<\/a><\/p>\n<p><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Ricardo Rangel Gomes, militar do CEP, preso a 10 de abril de 1918, escreveu sobre a sua vida na Frente Ocidental. O Observador revela e publica pela primeira vez o seu \u201cDicion\u00e1rio de Campanha&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>S\u00e3o quatro horas da tarde, mas parece noite. O nevoeiro e o fumo das armas formam uma cortina opaca que quase n\u00e3o lhe permite ver o ch\u00e3o que pisa. Ricardo est\u00e1 perdido, talvez nas linhas inimigas, n\u00e3o sabe. O g\u00e1s venenoso que respirou h\u00e1 poucas horas come\u00e7a agora a fazer-se sentir nos seus pulm\u00f5es. Ricardo n\u00e3o consegue caminhar mais. Apesar da parca visibilidade, encontra um pequeno abrigo e \u00e9 ali que quer morrer. No interior est\u00e3o dois soldados alem\u00e3es que, perante o estado de Ricardo e sem proferir qualquer palavra, o deixam recolher-se ali. <em>\u201cEu n\u00e3o me importava que me fizessem mal pois naquela altura o meu gosto seria morrer\u201d<\/em>, escrever\u00e1 menos de um ano mais tarde, em fevereiro de 1919, em Sintra.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Dentro do abrigo, com dores, com tosse, febril, Ricardo espera uma morte lenta.<\/strong> De l\u00e1 de fora chega-lhe o som ininterrupto do troar do canh\u00e3o, da metralha, das granadas e os gritos aflitivos dos homens. Dorme um sono vigilante, mas as dores parecem come\u00e7ar a desaparecer e sente-se um pouco mais aliviado. Ao romper da manh\u00e3 percebe que \u00e9 prisioneiro de guerra dos alem\u00e3es. \u00c9 10 de abril de 1918.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Dois dias antes, Ricardo Rangel Gomes, 1\u00ba cabo de 22 anos, retornou \u00e0 primeira linha de trincheiras no sector de Neuve-Chapelle, onde ele e os seus camaradas de Infantaria n\u00ba 1 tinham rendido, dia 6, o batalh\u00e3o de Infantaria n\u00ba 12. Era noite cerrada, estava frio, viam-se apenas alguns min\u00fasculos e tremeluzentes pontos de luz nas linhas da retaguarda, e lentamente come\u00e7ou a cair um espesso nevoeiro. N\u00e3o sem alguma dificuldade, Ricardo chegou \u00e0 primeira linha. Apenas 15 metros o separavam da trincheira inimiga. <strong>Tudo estava silencioso e Ricardo estranhou, pois nas noites anteriores ouvira grandes movimenta\u00e7\u00f5es de homens nas linhas alem\u00e3s.<\/strong> O seu posto tinha seis foguetes luminosos (<em>very<\/em> <em>lights<\/em>), o que lhe pareceu pouco para a eventualidade de serem atacados numa noite quase sem visibilidade. Pediu ent\u00e3o mais <em>very<\/em> <em>lights<\/em> ao comando. O pedido \u00e9-lhe negado. Que se remediassem como pudessem, responderam. Resignado, Ricardo manteve-se em vigia. At\u00e9 que chegaram as quatro horas da madrugada do dia 9 de abril.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote><p><\/p>\n<p><em>\u201cEram 4 horas fixas quando os inimigos rompem com um forte bombardeamento as nossas posi\u00e7\u00f5es de artilharia com gases asfixiantes, come\u00e7ando tamb\u00e9m por bater as nossas linhas com uma terr\u00edvel barragem de fogo. Ainda pedimos socorro \u00e0 nossa artilharia, que ainda fez algum fogo mas pouco porque a maior parte das posi\u00e7\u00f5es j\u00e1 estavam descobertas. Como a manh\u00e3 estivesse muito enevoada quase que se n\u00e3o via nada. Os nossos aeroplanos n\u00e3o poderiam romper a atmosfera que estava nesse dia. Como j\u00e1 tinham passado 2 horas e com o mesmo bombardeamento ali continu\u00e1mos na 1\u00aa linha esperando ordens, mas como as comunica\u00e7\u00f5es estavam j\u00e1 todas cortadas e n\u00e3o havia ordenan\u00e7as que fossem capaz de romper tanto fogo ali continu\u00e1mos j\u00e1 sofrendo um grande ataque de g\u00e1s debaixo de uma chapas de zinco para nos livrar simplesmente de alguma terra que ca\u00eda. Quando dali a pouco vem um camarada meu pedimos aux\u00edlio porque o posto que estava \u00e0 minha direita estavam todos enterrados. Imagine-se a nossa afli\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o podia abandonar o posto mandei 4 soldados para os auxiliar. Come\u00e7aram por desenterrar os camaradas mas alguns j\u00e1 eram v\u00edtimas. Como um estivesse com os bra\u00e7os de fora, pux\u00e1mos por ele mas s\u00f3 vieram os bra\u00e7os, foi sem d\u00favida a trincheira que tinha abatido e que lhos tinha cortado, outros gravemente feridos. Como o bombardeamento n\u00e3o cessasse um s\u00f3 minuto e os gases cada vez nos atacavam mais tivemos sem ordem de abandonar a 1\u00aa linha que j\u00e1 estava quase em n\u00edvel com o terreno. Ao sair do posto onde estava enterrei-me logo de lama at\u00e9 \u00e0 cintura ficando a minha m\u00e1scara inutilizada o que deu resultado de apanhar ainda alguns gases. Depois de sair daquela linha que deviam de ser umas nove e meia consegui meter-me na linha de comunica\u00e7\u00e3o o que tamb\u00e9m j\u00e1 estava muito destru\u00edda, l\u00e1 fui indo de rastos at\u00e9 que cheguei \u00e0 2\u00aa linha onde j\u00e1 havia ordem de retirar para as linhas de apoio o que imediatamente fiz para ver se consegu\u00edamos repelir o inimigo ao entrar nas nossas linhas, mas ao chegar \u00e0s linhas de apoio a barragem de fogo cada vez era mais, pois j\u00e1 se viam muitos dos nossos camaradas mortos e grande n\u00famero de feridos o que constantemente pediam que lhes acudissem o que imediatamente se fazia.\u201d<\/em><\/p>\n<p><\/p><\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<div class=\"block_image full esquerda\"><a href=\"https:\/\/s3cdn-observadorontime.netdna-ssl.com\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/03180305\/img_6719.jpg\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"news-photo resrc\" src=\"https:\/\/imageproxy-observadorontime.netdna-ssl.com\/1500x,q85\/https:\/\/s3cdn-observadorontime.netdna-ssl.com\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/03180305\/img_6719.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"caption\"><\/p>\n<p class=\"legenda\"><span style=\"font-size: 10pt;\">O caderno onde Ricardo escreveu o esbo\u00e7o das suas mem\u00f3rias, em 42 p\u00e1ginas @JO\u00c3O PORF\u00cdRIO\/OBSERVADOR<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"legenda\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"legenda\">\u00a0<\/p>\n<p><\/div>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es na pol\u00edtica dom\u00e9stica, nomeadamente a chegada ao poder de Sid\u00f3nio Pais e o acordo que firmou com Inglaterra, em janeiro de 1918, para que as duas divis\u00f5es do Corpo Expedicion\u00e1rio Portugu\u00eas (CEP) na Frente Ocidental fossem reduzidas a uma, sob a tutela do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico, proibindo, em simult\u00e2neo, o envio de mais refor\u00e7os nacionais para a guerra, n\u00e3o foram mencionadas explicitamente por Gomes da Costa no seu relat\u00f3rio sobre a batalha de La Lys. Mas foram-no veladamente: \u201cA 2\u00aa Divis\u00e3o pagou e caro, culpas que n\u00e3o tinha, e li\u00e7\u00e3o de tal pre\u00e7o bom \u00e9 que nos aproveite de futuro. A 2\u00aa Divis\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de vencer, mas <strong>bateu-se<\/strong><strong>, no geral com bravura deixando no campo de batalha perto de 50% do seu <\/strong><strong>efectivo<\/strong>\u201d, l\u00ea-se no documento escrito pelo comandante da 2\u00aa Divis\u00e3o a 3 de maio de 1918.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Nesta altura, apesar do caos e da destrui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 era poss\u00edvel ter um n\u00famero aproximado de baixas. Segundo Gomes da Costa, dos 21.071 efectivos restaram 13.646 oficiais e pra\u00e7as, engrossando os n\u00fameros de mortos, feridos, desaparecidos e presos 7.425 homens. (&#8230;)<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ler mais <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/diario-de-um-portugues-em-la-lys-naquela-altura-o-meu-gosto-seria-morrer\/\" target=\"_blank\">&gt;&gt;<\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<h3 class=\"authorName\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Oliveira, M.<\/span><\/h3>\n<p><\/p>\n<h4 class=\"referenceString selectable\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Refer\u00eancia: Oliveira, M. (2018).\u00a0<em>Di\u00e1rio de um portugu\u00eas em La Lys: \u201cNaquela altura o meu gosto seria morrer\u201d<\/em>.\u00a0<em>Observador<\/em>. Retrieved 9 April 2018, from <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/diario-de-um-portugues-em-la-lys-naquela-altura-o-meu-gosto-seria-morrer\/\">https:\/\/observador.pt\/especiais\/diario-de-um-portugues-em-la-lys-naquela-altura-o-meu-gosto-seria-morrer\/<\/a><\/span><\/h4>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Conte\u00fado relacionado:<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/o-soldado-milhoes-conta-a-sua-aventura-a-rtp\/\" target=\"_blank\">O soldado Milh\u00f5es conta a sua aventura \u00e0 RTP<\/a>\u00a0| Ensina RTP<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/portugal-na-grande-guerra-2039146\" target=\"_blank\">Portugal na Grande Guerra<\/a>\u00a0| blogue RBE<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/www.rtp.pt\/noticias\/pais\/batalha-de-la-lys-major-britanico-reuniu-em-livro-memorias-dos-combatentes-portugueses_v1068593\" target=\"_blank\">Batalha de La Lys: Major brit\u00e2nico reuniu em livro mem\u00f3rias dos combatentes portugueses<\/a>\u00a0| RTP<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Batalha_de_La_Lys\" target=\"_blank\">Batalha de La Lys<\/a>\u00a0| Wikip\u00e9dia<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/batalha-de-la-lys-documentario\/\" target=\"_blank\">Batalha de La Lys &#8211; document\u00e1rio<\/a>\u00a0| Ensina RTP<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/portugueses-na-grande-guerra-em-numeros\/\" target=\"_blank\">Participa\u00e7\u00e3o portuguesa na Grande Guerra em n\u00fameros<\/a>\u00a0| Ensina RTP<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/estudogeral.sib.uc.pt\/bitstream\/10316\/12750\/1\/Guilhermina%20Mota%2038.pdf\" target=\"_blank\">Batalha de La Lys: um relato pessoal<\/a>\u00a0| Revista de hist\u00f3ria<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/expresso.sapo.pt\/sociedade\/2018-04-03-A-batalha-de-La-Lys-nao-foi-uma-vergonha#gs.eojoxUE\" target=\"_blank\">\u201cA batalha de La Lys n\u00e3o foi uma vergonha\u201d<\/a>\u00a0| Expresso<\/li>\n<p><\/p>\n<li style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/100-anos-do-atoleiro-de-la-lys-a-historia-de-uma-tragedia-militar\/\" target=\"_blank\">100 anos do atoleiro de La Lys: a hist\u00f3ria de uma trag\u00e9dia militar<\/a>\u00a0| Observador<\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<div class=\"block_quote preto\">\u00a0<\/div>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0por Maria Jos\u00e9 Oliveira |\u00a0Observador \u00a0 \u00a0 Ricardo Rangel Gomes, militar do CEP, preso a 10 de abril de 1918, escreveu sobre a sua vida na Frente Ocidental. O Observador revela e publica pela primeira vez o seu \u201cDicion\u00e1rio de Campanha&#8221;. \u00a0 \u00a0 S\u00e3o quatro horas da tarde, mas parece noite. O nevoeiro e o fumo das armas formam uma cortina opaca que quase n\u00e3o lhe permite ver o ch\u00e3o que pisa. Ricardo est\u00e1 perdido, talvez nas linhas inimigas, n\u00e3o sabe. O g\u00e1s venenoso que respirou h\u00e1 poucas horas come\u00e7a agora a fazer-se sentir nos seus pulm\u00f5es. Ricardo n\u00e3o consegue caminhar mais. Apesar da parca visibilidade, encontra um pequeno abrigo e \u00e9 ali que quer morrer. No interior est\u00e3o dois soldados alem\u00e3es que, perante o estado de Ricardo e sem proferir qualquer palavra, o deixam recolher-se ali. \u201cEu n\u00e3o me importava que me fizessem mal pois naquela altura o meu gosto seria morrer\u201d, escrever\u00e1 menos de um ano mais tarde, em fevereiro de 1919, em Sintra. \u00a0 Dentro do abrigo, com dores, com tosse, febril, Ricardo espera uma morte lenta. De l\u00e1 de fora chega-lhe o som ininterrupto do troar do canh\u00e3o, da metralha, das granadas e os gritos aflitivos dos homens. Dorme um sono vigilante, mas as dores parecem come\u00e7ar a desaparecer e sente-se um pouco mais aliviado. Ao romper da manh\u00e3 percebe que \u00e9 prisioneiro de guerra dos alem\u00e3es. \u00c9 10 de abril de 1918. \u00a0 Dois dias antes, Ricardo Rangel Gomes, 1\u00ba cabo de 22 anos, retornou \u00e0 primeira linha de trincheiras no sector de Neuve-Chapelle, onde ele e os seus camaradas de Infantaria n\u00ba 1 tinham rendido, dia 6, o batalh\u00e3o de Infantaria n\u00ba 12. Era noite cerrada, estava frio, viam-se apenas alguns min\u00fasculos e tremeluzentes pontos de luz nas linhas da retaguarda, e lentamente come\u00e7ou a cair um espesso nevoeiro. N\u00e3o sem alguma dificuldade, Ricardo chegou \u00e0 primeira linha. Apenas 15 metros o separavam da trincheira inimiga. Tudo estava silencioso e Ricardo estranhou, pois nas noites anteriores ouvira grandes movimenta\u00e7\u00f5es de homens nas linhas alem\u00e3s. O seu posto tinha seis foguetes luminosos (very lights), o que lhe pareceu pouco para a eventualidade de serem atacados numa noite quase sem visibilidade. Pediu ent\u00e3o mais very lights ao comando. O pedido \u00e9-lhe negado. Que se remediassem como pudessem, responderam. Resignado, Ricardo manteve-se em vigia. At\u00e9 que chegaram as quatro horas da madrugada do dia 9 de abril. \u00a0 \u00a0 \u201cEram 4 horas fixas quando os inimigos rompem com um forte bombardeamento as nossas posi\u00e7\u00f5es de artilharia com gases asfixiantes, come\u00e7ando tamb\u00e9m por bater as nossas linhas com uma terr\u00edvel barragem de fogo. Ainda pedimos socorro \u00e0 nossa artilharia, que ainda fez algum fogo mas pouco porque a maior parte das posi\u00e7\u00f5es j\u00e1 estavam descobertas. Como a manh\u00e3 estivesse muito enevoada quase que se n\u00e3o via nada. Os nossos aeroplanos n\u00e3o poderiam romper a atmosfera que estava nesse dia. Como j\u00e1 tinham passado 2 horas e com o mesmo bombardeamento ali continu\u00e1mos na 1\u00aa linha esperando ordens, mas como as comunica\u00e7\u00f5es estavam j\u00e1 todas cortadas e n\u00e3o havia ordenan\u00e7as que fossem capaz de romper tanto fogo ali continu\u00e1mos j\u00e1 sofrendo um grande ataque de g\u00e1s debaixo de uma chapas de zinco para nos livrar simplesmente de alguma terra que ca\u00eda. Quando dali a pouco vem um camarada meu pedimos aux\u00edlio porque o posto que estava \u00e0 minha direita estavam todos enterrados. Imagine-se a nossa afli\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o podia abandonar o posto mandei 4 soldados para os auxiliar. Come\u00e7aram por desenterrar os camaradas mas alguns j\u00e1 eram v\u00edtimas. Como um estivesse com os bra\u00e7os de fora, pux\u00e1mos por ele mas s\u00f3 vieram os bra\u00e7os, foi sem d\u00favida a trincheira que tinha abatido e que lhos tinha cortado, outros gravemente feridos. Como o bombardeamento n\u00e3o cessasse um s\u00f3 minuto e os gases cada vez nos atacavam mais tivemos sem ordem de abandonar a 1\u00aa linha que j\u00e1 estava quase em n\u00edvel com o terreno. Ao sair do posto onde estava enterrei-me logo de lama at\u00e9 \u00e0 cintura ficando a minha m\u00e1scara inutilizada o que deu resultado de apanhar ainda alguns gases. Depois de sair daquela linha que deviam de ser umas nove e meia consegui meter-me na linha de comunica\u00e7\u00e3o o que tamb\u00e9m j\u00e1 estava muito destru\u00edda, l\u00e1 fui indo de rastos at\u00e9 que cheguei \u00e0 2\u00aa linha onde j\u00e1 havia ordem de retirar para as linhas de apoio o que imediatamente fiz para ver se consegu\u00edamos repelir o inimigo ao entrar nas nossas linhas, mas ao chegar \u00e0s linhas de apoio a barragem de fogo cada vez era mais, pois j\u00e1 se viam muitos dos nossos camaradas mortos e grande n\u00famero de feridos o que constantemente pediam que lhes acudissem o que imediatamente se fazia.\u201d \u00a0 \u00a0 O caderno onde Ricardo escreveu o esbo\u00e7o das suas mem\u00f3rias, em 42 p\u00e1ginas @JO\u00c3O PORF\u00cdRIO\/OBSERVADOR \u00a0 \u00a0 As altera\u00e7\u00f5es na pol\u00edtica dom\u00e9stica, nomeadamente a chegada ao poder de Sid\u00f3nio Pais e o acordo que firmou com Inglaterra, em janeiro de 1918, para que as duas divis\u00f5es do Corpo Expedicion\u00e1rio Portugu\u00eas (CEP) na Frente Ocidental fossem reduzidas a uma, sob a tutela do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico, proibindo, em simult\u00e2neo, o envio de mais refor\u00e7os nacionais para a guerra, n\u00e3o foram mencionadas explicitamente por Gomes da Costa no seu relat\u00f3rio sobre a batalha de La Lys. Mas foram-no veladamente: \u201cA 2\u00aa Divis\u00e3o pagou e caro, culpas que n\u00e3o tinha, e li\u00e7\u00e3o de tal pre\u00e7o bom \u00e9 que nos aproveite de futuro. A 2\u00aa Divis\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de vencer, mas bateu-se, no geral com bravura deixando no campo de batalha perto de 50% do seu efectivo\u201d, l\u00ea-se no documento escrito pelo comandante da 2\u00aa Divis\u00e3o a 3 de maio de 1918. \u00a0 Nesta altura, apesar do caos e da destrui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 era poss\u00edvel ter um n\u00famero aproximado de baixas. Segundo Gomes da Costa, dos 21.071 efectivos restaram 13.646 oficiais e pra\u00e7as, engrossando os n\u00fameros de mortos, feridos, desaparecidos e presos 7.425 homens. (&#8230;) \u00a0 Ler mais &gt;&gt; \u00a0 Oliveira, M. Refer\u00eancia: Oliveira, M. (2018).\u00a0Di\u00e1rio de um portugu\u00eas em La Lys: \u201cNaquela altura o meu gosto seria morrer\u201d.\u00a0Observador. Retrieved 9 April 2018, from https:\/\/observador.pt\/especiais\/diario-de-um-portugues-em-la-lys-naquela-altura-o-meu-gosto-seria-morrer\/ \u00a0 Conte\u00fado relacionado: O soldado Milh\u00f5es conta a sua aventura \u00e0 RTP\u00a0| Ensina RTP Portugal na Grande Guerra\u00a0| blogue RBE Batalha de La Lys: Major brit\u00e2nico reuniu em livro mem\u00f3rias dos combatentes portugueses\u00a0| RTP Batalha de La Lys\u00a0| Wikip\u00e9dia Batalha de La Lys &#8211; document\u00e1rio\u00a0| Ensina RTP Participa\u00e7\u00e3o portuguesa na Grande Guerra em n\u00fameros\u00a0| Ensina RTP Batalha de La Lys: um relato pessoal\u00a0| Revista de hist\u00f3ria \u201cA batalha de La Lys n\u00e3o foi uma vergonha\u201d\u00a0| Expresso 100 anos do atoleiro de La Lys: a hist\u00f3ria de uma trag\u00e9dia militar\u00a0| Observador \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33,51],"tags":[],"class_list":["post-2159162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia","category-recursos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2159162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2159162"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2159162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3089616,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2159162\/revisions\/3089616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2159162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2159162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2159162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}