{"id":2047536,"date":"2017-02-17T23:36:00","date_gmt":"2017-02-17T23:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/2047536.html"},"modified":"2026-05-13T18:21:58","modified_gmt":"2026-05-13T18:21:58","slug":"da-felicidade-que-vem-nos-livros-francisco-jose-viegas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=2047536","title":{"rendered":"Da felicidade que vem nos livros | Francisco Jos\u00e9 Viegas"},"content":{"rendered":"<p class=\"sapomedia images\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"fjv.png\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/20262269_Q1KAf.png\" alt=\"fjv.png\" width=\"378\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Francisco Jos\u00e9 Viegas<\/span> |<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong><span class=\"s1\"><em>H\u00e1 livros que resumem vidas inteiras.<\/em><\/span><span class=\"s2\"><em>\u00a0<\/em><\/span><span class=\"s3\"><em>E h\u00e1 livros que nos devolvem fragmentos da nossa pr\u00f3pria vida \u2013 peda\u00e7os que j\u00e1 t\u00ednhamos perdido sem esperan\u00e7a de os reencontrar \u2013 mesmo aqueles que j\u00e1 t\u00ednhamos esquecido.<\/em><\/span><\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">De cada vez que penso \u201cnisso\u201d, penso tamb\u00e9m nos lugares onde fui feliz com os livros e, de entre esses dois lugares, elejo dois: o Douro, no Ver\u00e3o quente \u00e0 beira do rio; e numa das mais belas bibliotecas que visitei na inf\u00e2ncia: uma carrinha Citroen da Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian que, \u00e0s quartas-feiras, religiosamente, estacionava no largo principal da aldeia onde eu passava f\u00e9rias (no Douro, o centro do meu mundo de ent\u00e3o) e se enchia de gente que procurava uma \u00e1gua invis\u00edvel para matar aquela sede feita de Ver\u00e3o, calor, pregui\u00e7a, e imagina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Digo \u201cimagina\u00e7\u00e3o\u201d de prop\u00f3sito, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar de livros e de bibliotecas sem essa palavra, ou sem a palavra \u201csonhos\u201d. Os livros s\u00e3o como os pr\u00f3prios sonhos: se se recordam \u00e9 porque s\u00e3o realmente importantes. E se s\u00e3o realmente importantes \u00e9 porque, de alguma forma, transformaram a nossa vida, ou perturbaram-na, ou tocaram-na em algum lugar.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Pouco h\u00e1 a escrever sobre uma biblioteca onde est\u00e3o todas as palavras que poder\u00edamos utilizar para a descrever e para a comentar \u2013 alinhadas em temas, em corredores onde o sil\u00eancio ou a penumbra, a luz ou o rumor do divertimento habitam como se fosse a sua casa. A biblioteca n\u00e3o \u00e9, por isso, apenas a casa do livro. Todas as imagens do mundo, do sonho, do riso, do medo, da dor, est\u00e3o ali, abrigadas e aguardando a oportunidade de visitar quem as visita, folheando um livro, ignorando uma p\u00e1gina em detrimento de outra, fechando um cap\u00edtulo da consulta aos livros, que \u00e9 como quem diz, da consulta ao mundo.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Dir-se-\u00e1 que, provavelmente, o livro n\u00e3o traz a felicidade. Mas, tamb\u00e9m provavelmente, a imagem de felicidade que fomos construindo vem nos livros \u2013 e h\u00e1-de ter um livro por perto. Um livro por onde copiar seja o que for.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">J\u00e1 se disse que a felicidade \u00e9 um produto da nossa imagina\u00e7\u00e3o e da nossa cultura. Mas \u00e9 nos livros que mais se fala dela \u2013 como um estado de esp\u00edrito, uma aus\u00eancia e um enigma. E dado que \u00e9 na biblioteca que os livros se encontram (e em nossa casa, claro, e em qualquer lado, em qualquer lugar onde quisermos que eles estejam), \u00e9 talvez a\u00ed que melhor se reconhece a perfei\u00e7\u00e3o e a imperfei\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 a ideia ou o esquecimento da felicidade.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">NEM SEMPRE \u00c9 F\u00c1CIL PENSAR UMA BIBLIOTECA: o que ela deve ter, o que ela deve oferecer, o que ela deve esquecer. \u00c9 este, penso eu, um dos objetivos da biblioteca: fazer esquecer alguma coisa (o lembrar alguma coisa \u00e9 objetivo comum, n\u00e3o vale a pena falarmos disso \u2013 deriva da ideia da biblioteca como grande reservat\u00f3rio do mundo), fazer-nos passear entre as estantes, esquecendo que o mundo est\u00e1 l\u00e1 fora e que este mundo, o dos corredores repletos de livros, o das p\u00e1ginas revisitadas por prazer ou por obriga\u00e7\u00e3o, ou s\u00f3 por curiosidade, \u00e9 que \u00e9 o mundo verdadeiro. A vida eterna.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Falando sinceramente, a vida que vem nos livros \u00e9 que \u00e9 a verdadeira; foi nos livros que, pela primeira vez, ouvimos falar de amor; o primeiro gesto de ren\u00fancia, ou de medo, ou de alegria, aprende-se num livro, num fragmento de aventura ou de uma hist\u00f3ria escutada de dentro de um livro \u2013 esse instrumento afinad\u00edssimo para escutarmos as grandes vozes, as que sussurram e as que gritam, as que v\u00eam de longe para lembrar a dist\u00e2ncia que nos separa ou aproxima da felicidade, ou as que est\u00e3o t\u00e3o perto que apenas um lev\u00edssimo rumor basta para se tornarem mais reais.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Poder\u00edamos repetir Lawrence Durrell (de Justine, do seu quarteto de Alexandria): podemos amar algu\u00e9m, ou sofrer por algu\u00e9m \u2013 ou, em alternativa, fazer literatura, isto \u00e9, escutar as vozes do mundo.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">E, se falamos em felicidade, falamos tamb\u00e9m de perdi\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, do direito, imposs\u00edvel de negar a um leitor, de se perder na magn\u00edfica contempla\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo, de um par\u00e1grafo, sempre ao acaso das circunst\u00e2ncias que o levaram por este ou por aquele atalho. \u00c9 assim, tamb\u00e9m, que um ge\u00f3grafo amador persegue a textura dos solos, o contraste das paisagens, a contiguidade ou fragmenta\u00e7\u00e3o do povoamento: seguindo ao acaso pelo mapa, anotando isto ou aquilo na sua mem\u00f3ria, voltando a ela quando vem a prop\u00f3sito.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">COMO NOS SONHOS, PORTANTO. Ou seja: deixando que as coisas aconte\u00e7am por dentro, que \u00e9 o s\u00edtio onde tudo de importante acontece.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Provavelmente, dir\u00e3o que esta vis\u00e3o do pequeno universo das bibliotecas \u00e9 demasiado ben\u00e9vola e, tamb\u00e9m, \u00abpo\u00e9tica\u00bb em excesso. Mas n\u00e3o h\u00e1 outra forma de ver o assunto. A vida \u00e9 demasiado s\u00e9ria \u2013 demasiado fugaz tamb\u00e9m, para que a levemos muito a s\u00e9rio, como seres cabisbaixos que recusam o enternecimento e o riso s\u00f3 porque se sabe (de antem\u00e3o, claro que sim) que a vida \u00e9 pesada o suficiente para nos entristecer. N\u00e3o h\u00e1 outra forma de ver o assunto: as bibliotecas s\u00e3o ilhas, pequenos continentes onde a fantasia ainda \u00e9 poss\u00edvel e desejada.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">O importante \u00e9 que, precisamente por isso tudo, as bibliotecas sejam focos de resist\u00eancia. Eu explico: hoje em dia, s\u00f3 se pode ser feliz atrav\u00e9s dos sonhos \u2013 s\u00e3o o espa\u00e7o de liberdade que nos resta, liberdade absoluta, possibilidade absoluta. Como os sonhos passam para os livros, eu n\u00e3o sei nem posso explicar, sen\u00e3o pelo acaso de aos livros ser poss\u00edvel recuperar aquilo que n\u00e3o se diz de outra forma. Com um livro nas m\u00e3os somos livres bem l\u00e1 por dentro. Deve ser impress\u00e3o minha, mas os livros acabam por ser a melhor escola de liberdade: em primeiro lugar, ensinam-nos a propriedade coletiva (mas n\u00e3o coerciva) dos sonhos; ensinam-nos que um sonho \u00e9 partilh\u00e1vel e, por isso, o que vem num livro n\u00e3o diz respeito apenas a um leitor; ensinam-nos que o que vem num livro (os sonhos, as explica\u00e7\u00f5es, as interroga\u00e7\u00f5es, as perplexidades) j\u00e1 uniu outros sonhos a outros sonhos, outras explica\u00e7\u00f5es a outras explica\u00e7\u00f5es, outras interroga\u00e7\u00f5es a outras interroga\u00e7\u00f5es, outras perplexidades a outras perplexidades; ensinam-nos que a verdadeira felicidade s\u00f3 existe porque vem descrita nos livros \u2013 e, se vem nos livros, \u00e9 porque os livros a copiaram de algum lado. \u00c9 bom saber isso, que a felicidade existe em algum lado. De contr\u00e1rio, n\u00e3o t\u00ednhamos raz\u00f5es para procurar.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">E quando se aproxima o Ver\u00e3o, quando a Primavera chega e transporta consigo esse desejo enorme de pregui\u00e7a, sesta a meio da tarde, eu lembro-me do Douro e da meia centena de vezes que li \u201cA Cidade e as Serras\u201d, de E\u00e7a de Queir\u00f3s \u2013 e lembro-me dessa biblioteca ing\u00e9nua e inocente onde, \u00e0s quartas-feiras pelo fim da tarde, a minha tia me levava para escolher alguns livros que nunca chegavam para uma semana de felicidade.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><span class=\"s3\">Adaptado do portugu\u00eas do Brasil.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span class=\"s3\">Conte\u00fado relacionado:<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li class=\"p3\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><span class=\"s3\"><a href=\"https:\/\/www.jn.pt\/artes\/especial\/o-romance-policial-e-um-plagio-da-realidade-11490098.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;O romance policial \u00e9 um pl\u00e1gio da realidade&#8221;<\/a> | jn<\/span><\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><span class=\"s3\"><a title=\"ler. abre nova janela\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Francisco_Jos%C3%A9_Viegas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Francisco Jos\u00e9 Viegas<\/a>\u00a0|Wikip\u00e9dia<\/span><\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><span class=\"s3\">Blogue de\u00a0<a href=\"http:\/\/origemdasespecies.blogs.sapo.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FJV<\/a>\u00a0| A origem das esp\u00e9cies<\/span><\/span><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/fjviegas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><span class=\"s3\">Francisco J. Viegas no Twitter<\/span><\/span><\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/fjviegas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><span class=\"s3\">Francisco Jos\u00e9 Viegas (Quest. Proust) | Anabela Mota Ribeiro<\/span><\/span><\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><span class=\"s3\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BLoAElhVZ3I\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00daMUS<\/a>\u00a0| Raul Brand\u00e3o por Francisco Jos\u00e9 Viegas<\/span><\/span><\/li>\n<p><\/ul>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Jos\u00e9 Viegas | \u00a0 H\u00e1 livros que resumem vidas inteiras.\u00a0E h\u00e1 livros que nos devolvem fragmentos da nossa pr\u00f3pria vida \u2013 peda\u00e7os que j\u00e1 t\u00ednhamos perdido sem esperan\u00e7a de os reencontrar \u2013 mesmo aqueles que j\u00e1 t\u00ednhamos esquecido. \u00a0 De cada vez que penso \u201cnisso\u201d, penso tamb\u00e9m nos lugares onde fui feliz com os livros e, de entre esses dois lugares, elejo dois: o Douro, no Ver\u00e3o quente \u00e0 beira do rio; e numa das mais belas bibliotecas que visitei na inf\u00e2ncia: uma carrinha Citroen da Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian que, \u00e0s quartas-feiras, religiosamente, estacionava no largo principal da aldeia onde eu passava f\u00e9rias (no Douro, o centro do meu mundo de ent\u00e3o) e se enchia de gente que procurava uma \u00e1gua invis\u00edvel para matar aquela sede feita de Ver\u00e3o, calor, pregui\u00e7a, e imagina\u00e7\u00e3o. \u00a0 Digo \u201cimagina\u00e7\u00e3o\u201d de prop\u00f3sito, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar de livros e de bibliotecas sem essa palavra, ou sem a palavra \u201csonhos\u201d. Os livros s\u00e3o como os pr\u00f3prios sonhos: se se recordam \u00e9 porque s\u00e3o realmente importantes. E se s\u00e3o realmente importantes \u00e9 porque, de alguma forma, transformaram a nossa vida, ou perturbaram-na, ou tocaram-na em algum lugar. \u00a0 Pouco h\u00e1 a escrever sobre uma biblioteca onde est\u00e3o todas as palavras que poder\u00edamos utilizar para a descrever e para a comentar \u2013 alinhadas em temas, em corredores onde o sil\u00eancio ou a penumbra, a luz ou o rumor do divertimento habitam como se fosse a sua casa. A biblioteca n\u00e3o \u00e9, por isso, apenas a casa do livro. Todas as imagens do mundo, do sonho, do riso, do medo, da dor, est\u00e3o ali, abrigadas e aguardando a oportunidade de visitar quem as visita, folheando um livro, ignorando uma p\u00e1gina em detrimento de outra, fechando um cap\u00edtulo da consulta aos livros, que \u00e9 como quem diz, da consulta ao mundo. \u00a0 Dir-se-\u00e1 que, provavelmente, o livro n\u00e3o traz a felicidade. Mas, tamb\u00e9m provavelmente, a imagem de felicidade que fomos construindo vem nos livros \u2013 e h\u00e1-de ter um livro por perto. Um livro por onde copiar seja o que for. \u00a0 J\u00e1 se disse que a felicidade \u00e9 um produto da nossa imagina\u00e7\u00e3o e da nossa cultura. Mas \u00e9 nos livros que mais se fala dela \u2013 como um estado de esp\u00edrito, uma aus\u00eancia e um enigma. E dado que \u00e9 na biblioteca que os livros se encontram (e em nossa casa, claro, e em qualquer lado, em qualquer lugar onde quisermos que eles estejam), \u00e9 talvez a\u00ed que melhor se reconhece a perfei\u00e7\u00e3o e a imperfei\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 a ideia ou o esquecimento da felicidade. \u00a0 NEM SEMPRE \u00c9 F\u00c1CIL PENSAR UMA BIBLIOTECA: o que ela deve ter, o que ela deve oferecer, o que ela deve esquecer. \u00c9 este, penso eu, um dos objetivos da biblioteca: fazer esquecer alguma coisa (o lembrar alguma coisa \u00e9 objetivo comum, n\u00e3o vale a pena falarmos disso \u2013 deriva da ideia da biblioteca como grande reservat\u00f3rio do mundo), fazer-nos passear entre as estantes, esquecendo que o mundo est\u00e1 l\u00e1 fora e que este mundo, o dos corredores repletos de livros, o das p\u00e1ginas revisitadas por prazer ou por obriga\u00e7\u00e3o, ou s\u00f3 por curiosidade, \u00e9 que \u00e9 o mundo verdadeiro. A vida eterna. \u00a0 Falando sinceramente, a vida que vem nos livros \u00e9 que \u00e9 a verdadeira; foi nos livros que, pela primeira vez, ouvimos falar de amor; o primeiro gesto de ren\u00fancia, ou de medo, ou de alegria, aprende-se num livro, num fragmento de aventura ou de uma hist\u00f3ria escutada de dentro de um livro \u2013 esse instrumento afinad\u00edssimo para escutarmos as grandes vozes, as que sussurram e as que gritam, as que v\u00eam de longe para lembrar a dist\u00e2ncia que nos separa ou aproxima da felicidade, ou as que est\u00e3o t\u00e3o perto que apenas um lev\u00edssimo rumor basta para se tornarem mais reais. \u00a0 Poder\u00edamos repetir Lawrence Durrell (de Justine, do seu quarteto de Alexandria): podemos amar algu\u00e9m, ou sofrer por algu\u00e9m \u2013 ou, em alternativa, fazer literatura, isto \u00e9, escutar as vozes do mundo. \u00a0 E, se falamos em felicidade, falamos tamb\u00e9m de perdi\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, do direito, imposs\u00edvel de negar a um leitor, de se perder na magn\u00edfica contempla\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo, de um par\u00e1grafo, sempre ao acaso das circunst\u00e2ncias que o levaram por este ou por aquele atalho. \u00c9 assim, tamb\u00e9m, que um ge\u00f3grafo amador persegue a textura dos solos, o contraste das paisagens, a contiguidade ou fragmenta\u00e7\u00e3o do povoamento: seguindo ao acaso pelo mapa, anotando isto ou aquilo na sua mem\u00f3ria, voltando a ela quando vem a prop\u00f3sito. \u00a0 COMO NOS SONHOS, PORTANTO. Ou seja: deixando que as coisas aconte\u00e7am por dentro, que \u00e9 o s\u00edtio onde tudo de importante acontece. \u00a0 Provavelmente, dir\u00e3o que esta vis\u00e3o do pequeno universo das bibliotecas \u00e9 demasiado ben\u00e9vola e, tamb\u00e9m, \u00abpo\u00e9tica\u00bb em excesso. Mas n\u00e3o h\u00e1 outra forma de ver o assunto. A vida \u00e9 demasiado s\u00e9ria \u2013 demasiado fugaz tamb\u00e9m, para que a levemos muito a s\u00e9rio, como seres cabisbaixos que recusam o enternecimento e o riso s\u00f3 porque se sabe (de antem\u00e3o, claro que sim) que a vida \u00e9 pesada o suficiente para nos entristecer. N\u00e3o h\u00e1 outra forma de ver o assunto: as bibliotecas s\u00e3o ilhas, pequenos continentes onde a fantasia ainda \u00e9 poss\u00edvel e desejada. \u00a0 O importante \u00e9 que, precisamente por isso tudo, as bibliotecas sejam focos de resist\u00eancia. Eu explico: hoje em dia, s\u00f3 se pode ser feliz atrav\u00e9s dos sonhos \u2013 s\u00e3o o espa\u00e7o de liberdade que nos resta, liberdade absoluta, possibilidade absoluta. Como os sonhos passam para os livros, eu n\u00e3o sei nem posso explicar, sen\u00e3o pelo acaso de aos livros ser poss\u00edvel recuperar aquilo que n\u00e3o se diz de outra forma. Com um livro nas m\u00e3os somos livres bem l\u00e1 por dentro. Deve ser impress\u00e3o minha, mas os livros acabam por ser a melhor escola de liberdade: em primeiro lugar, ensinam-nos a propriedade coletiva (mas n\u00e3o coerciva) dos sonhos; ensinam-nos que um sonho \u00e9 partilh\u00e1vel e, por isso, o que vem num livro n\u00e3o diz respeito apenas a um leitor; ensinam-nos que o que vem num livro (os sonhos, as explica\u00e7\u00f5es, as interroga\u00e7\u00f5es, as perplexidades) j\u00e1 uniu outros sonhos a outros sonhos, outras explica\u00e7\u00f5es a outras explica\u00e7\u00f5es, outras interroga\u00e7\u00f5es a outras interroga\u00e7\u00f5es, outras perplexidades a outras perplexidades; ensinam-nos que a verdadeira felicidade s\u00f3 existe porque vem descrita nos livros \u2013 e, se vem nos livros, \u00e9 porque os livros a copiaram de algum lado. \u00c9 bom saber isso, que a felicidade existe em algum lado. De contr\u00e1rio, n\u00e3o t\u00ednhamos raz\u00f5es para procurar. \u00a0 E quando se aproxima o Ver\u00e3o, quando a Primavera chega e transporta consigo esse desejo enorme de pregui\u00e7a, sesta a meio da tarde, eu lembro-me do Douro e da meia centena de vezes que li \u201cA Cidade e as Serras\u201d, de E\u00e7a de Queir\u00f3s \u2013 e lembro-me dessa biblioteca ing\u00e9nua e inocente onde, \u00e0s quartas-feiras pelo fim da tarde, a minha tia me levava para escolher alguns livros que nunca chegavam para uma semana de felicidade. \u00a0 Adaptado do portugu\u00eas do Brasil. \u00a0 Conte\u00fado relacionado: &#8220;O romance policial \u00e9 um pl\u00e1gio da realidade&#8221; | jn Francisco Jos\u00e9 Viegas\u00a0|Wikip\u00e9dia Blogue de\u00a0FJV\u00a0| A origem das esp\u00e9cies Francisco J. Viegas no Twitter Francisco Jos\u00e9 Viegas (Quest. Proust) | Anabela Mota Ribeiro H\u00daMUS\u00a0| Raul Brand\u00e3o por Francisco Jos\u00e9 Viegas \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[109,123],"tags":[],"class_list":["post-2047536","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-autores","category-bibliotecas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2047536","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2047536"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2047536\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3090391,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2047536\/revisions\/3090391"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2047536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2047536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2047536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}