{"id":1951165,"date":"2016-05-02T09:00:00","date_gmt":"2016-05-02T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/1951165.html"},"modified":"2026-05-13T19:11:34","modified_gmt":"2026-05-13T19:11:34","slug":"os-livros-cientificos-dos-seculos-xvi-e-xvii-ou-como-a-inquisicao-limpou-as-bibliotecas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=1951165","title":{"rendered":"Os livros cient\u00edficos dos s\u00e9culos XVI e XVII, ou como a Inquisi\u00e7\u00e3o &#8220;limpou&#8221; as bibliotecas"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/p>\n<p class=\"sapomedia images\"><a class=\"media-link\" title=\"inqui.jpg\" href=\"http:\/\/fotos.sapo.pt\/redebibliotecas\/fotos\/?uid=ge6QYWzTwpeubW5qYQVr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"float: left; padding: 10px 10px; border: 1px solid #c0c0c0;\" title=\"inqui.jpg\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/19544797_2nvHE.jpeg\" alt=\"inqui.jpg\" width=\"500\" height=\"333\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p>foto de Daniel Rocha. artigo de Nicolau Ferreira no <a title=\"consultar na fonte. abre numa nova janela\" href=\"http:\/\/www.publico.pt\/ciencias\/jornal\/os-livros-cientificos-dos-seculos-xvi-e-xvii-ou-como-a-inquisicao-limpou-as-bibliotecas-26448333\" target=\"_blank\">P\u00daBLICO<\/a>.<\/p>\n<p><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u00c9 a primeira sistematiza\u00e7\u00e3o da censura de livros m\u00e9dicos pela Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal &#8211; um dos casos expurgados foi o de uma freira que se dizia ter engravidado no banho. Est\u00e1 tamb\u00e9m em marcha um invent\u00e1rio dos livros de ci\u00eancia nas bibliotecas dessa altura. O lugar deste objecto na cultura cient\u00edfica nacional come\u00e7a a ser desvendado<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O &#8220;l\u00e1pis&#8221; da censura nos s\u00e9culos XVI e XVII era a tinta ferrog\u00e1lica. Se estivesse muito concentrada, a tinta utilizada na expurga\u00e7\u00e3o de uma obra podia queimar o papel. Se fosse em menor quantidade, as palavras censuradas voltavam a ser leg\u00edveis. De qualquer forma, esta vertente da Inquisi\u00e7\u00e3o afectava a leitura das obras, dando-lhes uma conota\u00e7\u00e3o insidiosa de pecado e culpa. A literatura t\u00e9cnica e cient\u00edfica em Portugal n\u00e3o escapou a este controlo, como os livros de Amato Lusitano, m\u00e9dico judeu portugu\u00eas que fugiu da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">&#8220;Qualquer expurga\u00e7\u00e3o perturba a confian\u00e7a na leitura de livros de ci\u00eancia &#8211; um acto que passa pelo desejo de querer saber mais&#8221;, defende Herv\u00e9 Baudry, do Centro de Hist\u00f3ria da Cultura da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O efeito que a censura teve no desenvolvimento cient\u00edfico e cultural do pa\u00eds \u00e9 ainda dif\u00edcil de contabilizar, diz o historiador franc\u00eas, orador num <em>workshop<\/em> sobre as bibliotecas e livros cient\u00edficos dos s\u00e9culos XV a XVIII na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Mas Herv\u00e9 Baudry est\u00e1 apenas no in\u00edcio de um projecto de investiga\u00e7\u00e3o sobre aquilo a que chama de &#8220;biblioteca limpa&#8221;, ou seja, a expurga\u00e7\u00e3o de livros dos s\u00e9culos XVI e XVII.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"cutid1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"ljcut\" text=\"Continuar a ler...\"><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O franc\u00eas analisou a censura em 105 exemplares de cinco obras de medicina, que est\u00e3o em bibliotecas do pa\u00eds, e sistematizou a forma como decorreu a censura da Inquisi\u00e7\u00e3o, um trabalho in\u00e9dito em Portugal. As obras analisadas eram de quatro autores: os portugueses Amato Lusitano e Gon\u00e7alo Cabreira, cirurgi\u00e3o contempor\u00e2neo de Lusitano, e dos espanh\u00f3is Andr\u00e9s Laguna, m\u00e9dico humanista que se dedicava especialmente \u00e0 farmacologia e bot\u00e2nica, e Oliva Sabuco, fil\u00f3sofa e m\u00e9dica.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">&#8220;Essa censura foi eficaz, sistem\u00e1tica, tinha um lado rotineiro&#8221;, explica. Os respons\u00e1veis pela expurga\u00e7\u00e3o n\u00e3o se viam como &#8220;donos&#8221; dos livros que &#8220;limpavam&#8221;, seguiam uma lista de passagens proibidas.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Assim, nos textos m\u00e9dicos apareciam riscadas datas judaicas, casos m\u00e9dicos sobre sexualidade na Igreja ou dizeres que acompanhavam receitas medicinais tradicionais. &#8220;A censura \u00e9 a resposta t\u00e9cnica, formal [da Inquisi\u00e7\u00e3o] ao crescimento enorme do livro como ve\u00edculo da heterodoxia&#8221;, salienta Herv\u00e9 Baudry.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Na segunda metade do s\u00e9culo XV foram impressos na Europa entre 15 a 20 milh\u00f5es de livros. No s\u00e9culo seguinte, este valor multiplicou-se por 10. Apesar de os autos-de-f\u00e9 serem os rituais mais conhecidos da Inquisi\u00e7\u00e3o, e o seu lado mais sangrento, em que &#8220;hereges&#8221;, desde judeus a sodomitas, eram mortos na fogueira, a censura livresca era intensa.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Havia listas de livros de autores proibidos, mas tamb\u00e9m havia o \u00cdndex Expurgat\u00f3rio, onde passagens de muitos outros livros deviam ser cortadas. Entre elas estavam as obras de Amato Lusitano, <em>Sete Cent\u00farias de Curas Medicinais<\/em> e <em>Mat\u00e9ria M\u00e9dica de Diosc\u00f3rides<\/em>; de Gon\u00e7alo Cabreira, <em>Tesouro de Pobres<\/em>; outra de Andr\u00e9s Laguna, <em>Pedacio Dioscorides<\/em>; e a quinta de Oliva Sabuco, <em>Nueva Filosofia de La Naturaleza del Hombre<\/em>. &#8220;Nas bibliotecas, quando estas obras foram publicadas e lidas c\u00e1 nos s\u00e9culos XVI e XVII, foram todas controladas. Quem lia sabia que estava a entrar em terreno minado&#8221;, diz o investigador, considerando que um dos efeitos era um clima de medo psicol\u00f3gico na sociedade.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O impacto que a expurga\u00e7\u00e3o teve na cultura cient\u00edfica portuguesa \u00e9 dif\u00edcil de avaliar. \u00c9 preciso ver livro a livro. A obra <em>Sete Cent\u00farias de Curas Medicinais<\/em>, onde o famoso m\u00e9dico portugu\u00eas relatou casos de medicina, \u00e9 o exemplo de um livro bastante censurado.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Amato Lusitano era judeu, estudou em Espanha e teve de fugir da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica para manter a sua f\u00e9. Nas <em>Cent\u00farias<\/em>, as datas hebraicas foram cortadas. H\u00e1 casos m\u00e9dicos sobre sexualidade descritos por Amato Lusitano que s\u00e3o censurados s\u00f3 por estarem associados \u00e0 Igreja, explica Herv\u00e9 Baudry. Um exemplo de uma passagem totalmente expurgada listada no \u00cdndex dizia respeito a uma freira gr\u00e1vida. &#8220;Uma freira, daquelas que vivem em religi\u00e3o longe da multid\u00e3o, sentia-se mal, dizendo que alguma coisa se mexia na barriga dela. (&#8230;) Na realidade, esta mulher engravidara de s\u00e9men viril depois de ter ficado no banho&#8221;, l\u00ea-se no original.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Noutro caso, que Herv\u00e9 Baudry diz n\u00e3o estar nas listas oficias de expurga\u00e7\u00e3o, \u00e9 censurado o coment\u00e1rio de Lusitano sobre a gravidez entre duas mulheres. Mas a narrativa do caso em si n\u00e3o est\u00e1 riscada: &#8220;Duas mulheres turcas vizinhas, em virtude de muitos actos de coito, \u00edncubos e s\u00facubos, contaminavam-se e polu\u00edam-se. Uma era vi\u00fava e a outra tinha marido. (&#8230;) Neste trabalho do coito e abra\u00e7os, o \u00fatero da vi\u00fava s\u00facuba sorveu (&#8230;) n\u00e3o s\u00f3 o s\u00e9men da mulher \u00edncuba, mais ainda algum s\u00e9men viril deixado antes no \u00fatero dela. Em virtude deste s\u00e9men ficou prenhe.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Os efeitos directos na discuss\u00e3o cient\u00edfica da \u00e9poca deste tipo de censura n\u00e3o s\u00e3o certos. Os livros que Herv\u00e9 Baudry estudou s\u00f3 diziam respeito a casos m\u00e9dicos, mas o historiador argumenta que \u00e9 imposs\u00edvel a censura n\u00e3o alterar a sociedade, principalmente ao durar s\u00e9culos, mas \u00e9 necess\u00e1rio estudar as obras de outras disciplinas, como a F\u00edsica, a Hist\u00f3ria Natural ou o Direito, para ter uma vis\u00e3o global.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">H\u00e1, por outro lado, textos que n\u00e3o foram tocados. \u00c9 o caso da obra emblem\u00e1tica <em>De revolutionibus orbium coelestium<\/em>, de Nicolau Cop\u00e9rnico, onde o astr\u00f3nomo polaco exp\u00f5e, em 1543, a teoria helioc\u00eantrica (na \u00e9poca, a Igreja defendia que era o Sol que girava \u00e0 volta da Terra).<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Os exemplares desta obra em Portugal e na Europa, diz o historiador de ci\u00eancia Henrique Leit\u00e3o, n\u00e3o apresentam actos de censura. &#8220;As obras que eram muito pouco consultadas, por serem muito t\u00e9cnicas e s\u00f3 estarem acess\u00edveis aos especialistas, muitas vezes n\u00e3o apresentam as expurga\u00e7\u00f5es exigidas&#8221;, infere o investigador, do Centro Interuniversit\u00e1rio de Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e da Tecnologia (CIUHCT) de Lisboa e um dos organizadores do <em>workshop<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\"><strong>O invent\u00e1rio dos invent\u00e1rios<\/strong><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Sabe-se muito pouco sobre a cultura cient\u00edfica portuguesa dos \u00faltimos 500 anos, por que \u00e9 que a sua produ\u00e7\u00e3o foi escassa e sem nomes proeminentes, com excep\u00e7\u00f5es como a do matem\u00e1tico Pedro Nunes. A an\u00e1lise do lugar do livro cient\u00edfico permitir\u00e1 compreender essa situa\u00e7\u00e3o. &#8220;O livro tem um papel absolutamente central no estabelecimento da cultura cient\u00edfica. N\u00e3o s\u00f3 acumula como transmite informa\u00e7\u00e3o. Serve como ponto de jun\u00e7\u00e3o de pessoas, catalisa fen\u00f3menos sociais&#8221;, explica Henrique Leit\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Na confer\u00eancia, o investigador falou do livro cient\u00edfico em Portugal, partindo de um &#8220;paradoxo&#8221;: a obsess\u00e3o historiogr\u00e1fica em tentar compreender as causas do falhan\u00e7o de Portugal em alcan\u00e7ar a modernidade, ao mesmo tempo que neste esfor\u00e7o a hist\u00f3ria da ci\u00eancia \u00e9 ignorada, uma falha que o investigador tenta colmatar. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nenhuma no\u00e7\u00e3o de modernidade que n\u00e3o passe pela ci\u00eancia. Acho estranho que os historiadores andem em torno da quest\u00e3o da modernidade e depois n\u00e3o liguem \u00e0 ci\u00eancia. ?? um paradoxo da historiografia portuguesa.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Henrique Leit\u00e3o e Luana Giurgevich, investigadora italiana tamb\u00e9m do CIUHCT, est\u00e3o a finalizar a primeira etapa do levantamento de todos os livros nas bibliotecas portuguesas desde o s\u00e9culo XVI at\u00e9 1834, quando foram extintas as ordens religiosas masculinas. Estas bibliotecas, cujos cat\u00e1logos foram um instrumento-chave de pesquisa, pertenciam principalmente a mosteiros e conventos. Nalgumas, os cat\u00e1logos foram feitos por vontade pr\u00f3pria, a maioria foi uma exig\u00eancia do Marqu\u00eas de Pombal. Quase todos os livros est\u00e3o perdidos, mas saber o que existia em cada s\u00edtio pode ajudar a revelar os c\u00edrculos da cultura cient\u00edfica portuguesa e pode ajudar a perceber por que \u00e9 que a moderniza\u00e7\u00e3o falhou.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">&#8220;Nas colec\u00e7\u00f5es da Biblioteca Nacional, repar\u00e1mos que os exemplares tinham marcas de posse de antigos conventos&#8221;, diz-nos Luana Giurgevich. Foi assim que nasceu esta ideia de fazer &#8220;um invent\u00e1rio dos invent\u00e1rios&#8221; destas colec\u00e7\u00f5es, at\u00e9 agora inexistente, para &#8220;saber os h\u00e1bitos de leitura&#8221; e ver &#8220;que tipo de ci\u00eancia est\u00e1 associada a que tipo de ordem&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Ainda preliminares, os resultados (que ser\u00e3o publicados pela Biblioteca Nacional) indicam que haveria, nas 200 bibliotecas alvo da pesquisa, centenas de milhares de livros entre os s\u00e9culos XVI e XVIII. A biblioteca do Mosteiro de Santa Maria de Alcoba\u00e7a, com cerca de 16.000 volumes, era das mais recheadas.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Os livros cient\u00edficos podiam chegar entre 8 a 10% de algumas colec\u00e7\u00f5es. Noutras eram praticamente ausentes. Mas este trabalho mostrou que a maioria dos livros de ci\u00eancia do s\u00e9culo XVI existia em Portugal. O seu uso \u00e9 desconhecido.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">&#8220;Temos de fazer a radiografia dos grandes coleccionadores de livros cient\u00edficos&#8221;, diz por sua vez Henrique Leit\u00e3o, rec\u00e9m-eleito membro efectivo da Academia Internacional de Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias. &#8220;At\u00e9 agora, o trabalho [na hist\u00f3ria de ci\u00eancia] foi a an\u00e1lise de texto. Mas \u00e9 muito interessante estudar as pr\u00e1ticas de leitura. Quem eram os coleccionadores de livros? Quem os lia? Como \u00e9 que os arranjava? Tem de se passar dos textos para as institui\u00e7\u00f5es e para pr\u00e1tica a n\u00edvel social.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Naquela altura, surgiram grandes pensadores, gente que revolucionou a ci\u00eancia como Isaac Newton. Ao contr\u00e1rio de Portugal, \u00e9 conhecida a cultura cient\u00edfica da Real Sociedade de Londres na altura, quando Newton publicou o seu <em>Principia<\/em> em 1687, onde enunciou as tr\u00eas leis da mec\u00e2nica cl\u00e1ssica.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">&#8220;Na Real Sociedade de Londres, um grupo de cavalheiros reunia-se para fazer experi\u00eancias&#8221;, conta ao P\u00daBLICO outro orador no <em>workshop<\/em>, o brit\u00e2nico Adrian Johns, da Universidade de Chicago, nos EUA. &#8220;Era a primeira vez que um grupo de pessoas se intitulava fil\u00f3sofas experimentais e utilizava consistentemente a filosofia para chegar a uma pr\u00e1tica experimental&#8221;, diz o historiador de ci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Esses cavalheiros alimentavam as suas experi\u00eancias cient\u00edficas com leituras e discuss\u00e3o constantes. Em reuni\u00f5es debatiam as leituras, os resultados das experi\u00eancias e propunham novos procedimentos experimentais. &#8220;Estes protocolos de leitura n\u00e3o eram naturais, tinham de ser aprendidos e deram origem a uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica cont\u00ednua&#8221;, diz o brit\u00e2nico. Do pouco que se conhece, o cen\u00e1rio seria muito diferente por c\u00e1. &#8220;N\u00e3o vemos verdadeiras discuss\u00f5es cient\u00edficas&#8221;, diz Henrique Leit\u00e3o. &#8220;Rapidamente se tornavam em picardias pessoais e o conte\u00fado cient\u00edfico perdia-se.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Para o historiador portugu\u00eas, este problema passa pela &#8220;fragilidade das institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas&#8221;, em que uma educa\u00e7\u00e3o de m\u00e1 qualidade tem um efeito &#8220;devastador&#8221; na ci\u00eancia e na modernidade: &#8220;H\u00e1 um conjunto complexo de quest\u00f5es que tem de ser estudado aos poucos. Vamos tentar perceber este problema secular. N\u00e3o pode ser uma raz\u00e3o conjectural, vemo-lo hoje, as <em>performances<\/em> das universidades portuguesas s\u00e3o uma vergonha, excepto honrosas excep\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><\/div>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0Liga\u00e7\u00f5es relacionadas:<\/p>\n<p><\/p>\n<ul><\/p>\n<li class=\"p3\"><a title=\"ler. abre numa nova janela\" href=\"http:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/palacio-de-mafra-tem-a-maior-colecao-de-1864853\" target=\"_blank\">Pal\u00e1cio de Mafra tem a maior cole\u00e7\u00e3o de livros proibidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o<\/a><\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><a title=\"consultar. abre numa nova janela\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Inquisi%C3%A7%C3%A3o_portuguesa\" target=\"_blank\">A Inquisi\u00e7\u00e3o portuguesa<\/a>, na Wikip\u00e9dia<\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><a title=\"visionar. abre numa nova janela\" href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/breve-historia-da-inquisicao-em-portugal\/\" target=\"_blank\">Breve hist\u00f3ria da Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal<\/a>\u00a0(Ensina RTP)<\/li>\n<p><\/p>\n<li class=\"p3\"><a title=\"visionar. abre numa nova janela\" href=\"http:\/\/ensina.rtp.pt\/artigo\/fim-da-inquisicao-em-portugal\/\" target=\"_blank\">Fim da Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal<\/a>\u00a0(Ensina RTP)<\/li>\n<p><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>foto de Daniel Rocha. artigo de Nicolau Ferreira no P\u00daBLICO. \u00a0 \u00c9 a primeira sistematiza\u00e7\u00e3o da censura de livros m\u00e9dicos pela Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal &#8211; um dos casos expurgados foi o de uma freira que se dizia ter engravidado no banho. Est\u00e1 tamb\u00e9m em marcha um invent\u00e1rio dos livros de ci\u00eancia nas bibliotecas dessa altura. O lugar deste objecto na cultura cient\u00edfica nacional come\u00e7a a ser desvendado \u00a0 O &#8220;l\u00e1pis&#8221; da censura nos s\u00e9culos XVI e XVII era a tinta ferrog\u00e1lica. Se estivesse muito concentrada, a tinta utilizada na expurga\u00e7\u00e3o de uma obra podia queimar o papel. Se fosse em menor quantidade, as palavras censuradas voltavam a ser leg\u00edveis. De qualquer forma, esta vertente da Inquisi\u00e7\u00e3o afectava a leitura das obras, dando-lhes uma conota\u00e7\u00e3o insidiosa de pecado e culpa. A literatura t\u00e9cnica e cient\u00edfica em Portugal n\u00e3o escapou a este controlo, como os livros de Amato Lusitano, m\u00e9dico judeu portugu\u00eas que fugiu da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. \u00a0 &#8220;Qualquer expurga\u00e7\u00e3o perturba a confian\u00e7a na leitura de livros de ci\u00eancia &#8211; um acto que passa pelo desejo de querer saber mais&#8221;, defende Herv\u00e9 Baudry, do Centro de Hist\u00f3ria da Cultura da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O efeito que a censura teve no desenvolvimento cient\u00edfico e cultural do pa\u00eds \u00e9 ainda dif\u00edcil de contabilizar, diz o historiador franc\u00eas, orador num workshop sobre as bibliotecas e livros cient\u00edficos dos s\u00e9culos XV a XVIII na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Mas Herv\u00e9 Baudry est\u00e1 apenas no in\u00edcio de um projecto de investiga\u00e7\u00e3o sobre aquilo a que chama de &#8220;biblioteca limpa&#8221;, ou seja, a expurga\u00e7\u00e3o de livros dos s\u00e9culos XVI e XVII. \u00a0 \u00a0 O franc\u00eas analisou a censura em 105 exemplares de cinco obras de medicina, que est\u00e3o em bibliotecas do pa\u00eds, e sistematizou a forma como decorreu a censura da Inquisi\u00e7\u00e3o, um trabalho in\u00e9dito em Portugal. As obras analisadas eram de quatro autores: os portugueses Amato Lusitano e Gon\u00e7alo Cabreira, cirurgi\u00e3o contempor\u00e2neo de Lusitano, e dos espanh\u00f3is Andr\u00e9s Laguna, m\u00e9dico humanista que se dedicava especialmente \u00e0 farmacologia e bot\u00e2nica, e Oliva Sabuco, fil\u00f3sofa e m\u00e9dica. \u00a0 &#8220;Essa censura foi eficaz, sistem\u00e1tica, tinha um lado rotineiro&#8221;, explica. Os respons\u00e1veis pela expurga\u00e7\u00e3o n\u00e3o se viam como &#8220;donos&#8221; dos livros que &#8220;limpavam&#8221;, seguiam uma lista de passagens proibidas. \u00a0 Assim, nos textos m\u00e9dicos apareciam riscadas datas judaicas, casos m\u00e9dicos sobre sexualidade na Igreja ou dizeres que acompanhavam receitas medicinais tradicionais. &#8220;A censura \u00e9 a resposta t\u00e9cnica, formal [da Inquisi\u00e7\u00e3o] ao crescimento enorme do livro como ve\u00edculo da heterodoxia&#8221;, salienta Herv\u00e9 Baudry. \u00a0 Na segunda metade do s\u00e9culo XV foram impressos na Europa entre 15 a 20 milh\u00f5es de livros. No s\u00e9culo seguinte, este valor multiplicou-se por 10. Apesar de os autos-de-f\u00e9 serem os rituais mais conhecidos da Inquisi\u00e7\u00e3o, e o seu lado mais sangrento, em que &#8220;hereges&#8221;, desde judeus a sodomitas, eram mortos na fogueira, a censura livresca era intensa. \u00a0 Havia listas de livros de autores proibidos, mas tamb\u00e9m havia o \u00cdndex Expurgat\u00f3rio, onde passagens de muitos outros livros deviam ser cortadas. Entre elas estavam as obras de Amato Lusitano, Sete Cent\u00farias de Curas Medicinais e Mat\u00e9ria M\u00e9dica de Diosc\u00f3rides; de Gon\u00e7alo Cabreira, Tesouro de Pobres; outra de Andr\u00e9s Laguna, Pedacio Dioscorides; e a quinta de Oliva Sabuco, Nueva Filosofia de La Naturaleza del Hombre. &#8220;Nas bibliotecas, quando estas obras foram publicadas e lidas c\u00e1 nos s\u00e9culos XVI e XVII, foram todas controladas. Quem lia sabia que estava a entrar em terreno minado&#8221;, diz o investigador, considerando que um dos efeitos era um clima de medo psicol\u00f3gico na sociedade. \u00a0 O impacto que a expurga\u00e7\u00e3o teve na cultura cient\u00edfica portuguesa \u00e9 dif\u00edcil de avaliar. \u00c9 preciso ver livro a livro. A obra Sete Cent\u00farias de Curas Medicinais, onde o famoso m\u00e9dico portugu\u00eas relatou casos de medicina, \u00e9 o exemplo de um livro bastante censurado. \u00a0 Amato Lusitano era judeu, estudou em Espanha e teve de fugir da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica para manter a sua f\u00e9. Nas Cent\u00farias, as datas hebraicas foram cortadas. H\u00e1 casos m\u00e9dicos sobre sexualidade descritos por Amato Lusitano que s\u00e3o censurados s\u00f3 por estarem associados \u00e0 Igreja, explica Herv\u00e9 Baudry. Um exemplo de uma passagem totalmente expurgada listada no \u00cdndex dizia respeito a uma freira gr\u00e1vida. &#8220;Uma freira, daquelas que vivem em religi\u00e3o longe da multid\u00e3o, sentia-se mal, dizendo que alguma coisa se mexia na barriga dela. (&#8230;) Na realidade, esta mulher engravidara de s\u00e9men viril depois de ter ficado no banho&#8221;, l\u00ea-se no original. \u00a0 Noutro caso, que Herv\u00e9 Baudry diz n\u00e3o estar nas listas oficias de expurga\u00e7\u00e3o, \u00e9 censurado o coment\u00e1rio de Lusitano sobre a gravidez entre duas mulheres. Mas a narrativa do caso em si n\u00e3o est\u00e1 riscada: &#8220;Duas mulheres turcas vizinhas, em virtude de muitos actos de coito, \u00edncubos e s\u00facubos, contaminavam-se e polu\u00edam-se. Uma era vi\u00fava e a outra tinha marido. (&#8230;) Neste trabalho do coito e abra\u00e7os, o \u00fatero da vi\u00fava s\u00facuba sorveu (&#8230;) n\u00e3o s\u00f3 o s\u00e9men da mulher \u00edncuba, mais ainda algum s\u00e9men viril deixado antes no \u00fatero dela. Em virtude deste s\u00e9men ficou prenhe.&#8221; \u00a0 Os efeitos directos na discuss\u00e3o cient\u00edfica da \u00e9poca deste tipo de censura n\u00e3o s\u00e3o certos. Os livros que Herv\u00e9 Baudry estudou s\u00f3 diziam respeito a casos m\u00e9dicos, mas o historiador argumenta que \u00e9 imposs\u00edvel a censura n\u00e3o alterar a sociedade, principalmente ao durar s\u00e9culos, mas \u00e9 necess\u00e1rio estudar as obras de outras disciplinas, como a F\u00edsica, a Hist\u00f3ria Natural ou o Direito, para ter uma vis\u00e3o global. \u00a0 H\u00e1, por outro lado, textos que n\u00e3o foram tocados. \u00c9 o caso da obra emblem\u00e1tica De revolutionibus orbium coelestium, de Nicolau Cop\u00e9rnico, onde o astr\u00f3nomo polaco exp\u00f5e, em 1543, a teoria helioc\u00eantrica (na \u00e9poca, a Igreja defendia que era o Sol que girava \u00e0 volta da Terra). \u00a0 Os exemplares desta obra em Portugal e na Europa, diz o historiador de ci\u00eancia Henrique Leit\u00e3o, n\u00e3o apresentam actos de censura. &#8220;As obras que eram muito pouco consultadas, por serem muito t\u00e9cnicas e s\u00f3 estarem acess\u00edveis aos especialistas, muitas vezes n\u00e3o apresentam as expurga\u00e7\u00f5es exigidas&#8221;, infere o investigador, do Centro Interuniversit\u00e1rio de Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e da Tecnologia (CIUHCT) de Lisboa e um dos organizadores do workshop. \u00a0 O invent\u00e1rio dos invent\u00e1rios \u00a0 Sabe-se muito pouco sobre a cultura cient\u00edfica portuguesa dos \u00faltimos 500 anos, por que \u00e9 que a sua produ\u00e7\u00e3o foi escassa e sem nomes proeminentes, com excep\u00e7\u00f5es como a do matem\u00e1tico Pedro Nunes. A an\u00e1lise do lugar do livro cient\u00edfico permitir\u00e1 compreender essa situa\u00e7\u00e3o. &#8220;O livro tem um papel absolutamente central no estabelecimento da cultura cient\u00edfica. N\u00e3o s\u00f3 acumula como transmite informa\u00e7\u00e3o. Serve como ponto de jun\u00e7\u00e3o de pessoas, catalisa fen\u00f3menos sociais&#8221;, explica Henrique Leit\u00e3o. \u00a0 Na confer\u00eancia, o investigador falou do livro cient\u00edfico em Portugal, partindo de um &#8220;paradoxo&#8221;: a obsess\u00e3o historiogr\u00e1fica em tentar compreender as causas do falhan\u00e7o de Portugal em alcan\u00e7ar a modernidade, ao mesmo tempo que neste esfor\u00e7o a hist\u00f3ria da ci\u00eancia \u00e9 ignorada, uma falha que o investigador tenta colmatar. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nenhuma no\u00e7\u00e3o de modernidade que n\u00e3o passe pela ci\u00eancia. Acho estranho que os historiadores andem em torno da quest\u00e3o da modernidade e depois n\u00e3o liguem \u00e0 ci\u00eancia. ?? um paradoxo da historiografia portuguesa.&#8221; \u00a0 Henrique Leit\u00e3o e Luana Giurgevich, investigadora italiana tamb\u00e9m do CIUHCT, est\u00e3o a finalizar a primeira etapa do levantamento de todos os livros nas bibliotecas portuguesas desde o s\u00e9culo XVI at\u00e9 1834, quando foram extintas as ordens religiosas masculinas. Estas bibliotecas, cujos cat\u00e1logos foram um instrumento-chave de pesquisa, pertenciam principalmente a mosteiros e conventos. Nalgumas, os cat\u00e1logos foram feitos por vontade pr\u00f3pria, a maioria foi uma exig\u00eancia do Marqu\u00eas de Pombal. Quase todos os livros est\u00e3o perdidos, mas saber o que existia em cada s\u00edtio pode ajudar a revelar os c\u00edrculos da cultura cient\u00edfica portuguesa e pode ajudar a perceber por que \u00e9 que a moderniza\u00e7\u00e3o falhou. \u00a0 &#8220;Nas colec\u00e7\u00f5es da Biblioteca Nacional, repar\u00e1mos que os exemplares tinham marcas de posse de antigos conventos&#8221;, diz-nos Luana Giurgevich. Foi assim que nasceu esta ideia de fazer &#8220;um invent\u00e1rio dos invent\u00e1rios&#8221; destas colec\u00e7\u00f5es, at\u00e9 agora inexistente, para &#8220;saber os h\u00e1bitos de leitura&#8221; e ver &#8220;que tipo de ci\u00eancia est\u00e1 associada a que tipo de ordem&#8221;. \u00a0 Ainda preliminares, os resultados (que ser\u00e3o publicados pela Biblioteca Nacional) indicam que haveria, nas 200 bibliotecas alvo da pesquisa, centenas de milhares de livros entre os s\u00e9culos XVI e XVIII. A biblioteca do Mosteiro de Santa Maria de Alcoba\u00e7a, com cerca de 16.000 volumes, era das mais recheadas. \u00a0 Os livros cient\u00edficos podiam chegar entre 8 a 10% de algumas colec\u00e7\u00f5es. Noutras eram praticamente ausentes. Mas este trabalho mostrou que a maioria dos livros de ci\u00eancia do s\u00e9culo XVI existia em Portugal. O seu uso \u00e9 desconhecido. \u00a0 &#8220;Temos de fazer a radiografia dos grandes coleccionadores de livros cient\u00edficos&#8221;, diz por sua vez Henrique Leit\u00e3o, rec\u00e9m-eleito membro efectivo da Academia Internacional de Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias. &#8220;At\u00e9 agora, o trabalho [na hist\u00f3ria de ci\u00eancia] foi a an\u00e1lise de texto. Mas \u00e9 muito interessante estudar as pr\u00e1ticas de leitura. Quem eram os coleccionadores de livros? Quem os lia? Como \u00e9 que os arranjava? Tem de se passar dos textos para as institui\u00e7\u00f5es e para pr\u00e1tica a n\u00edvel social.&#8221; \u00a0 Naquela altura, surgiram grandes pensadores, gente que revolucionou a ci\u00eancia como Isaac Newton. Ao contr\u00e1rio de Portugal, \u00e9 conhecida a cultura cient\u00edfica da Real Sociedade de Londres na altura, quando Newton publicou o seu Principia em 1687, onde enunciou as tr\u00eas leis da mec\u00e2nica cl\u00e1ssica. \u00a0 &#8220;Na Real Sociedade de Londres, um grupo de cavalheiros reunia-se para fazer experi\u00eancias&#8221;, conta ao P\u00daBLICO outro orador no workshop, o brit\u00e2nico Adrian Johns, da Universidade de Chicago, nos EUA. &#8220;Era a primeira vez que um grupo de pessoas se intitulava fil\u00f3sofas experimentais e utilizava consistentemente a filosofia para chegar a uma pr\u00e1tica experimental&#8221;, diz o historiador de ci\u00eancia. \u00a0 Esses cavalheiros alimentavam as suas experi\u00eancias cient\u00edficas com leituras e discuss\u00e3o constantes. Em reuni\u00f5es debatiam as leituras, os resultados das experi\u00eancias e propunham novos procedimentos experimentais. &#8220;Estes protocolos de leitura n\u00e3o eram naturais, tinham de ser aprendidos e deram origem a uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica cont\u00ednua&#8221;, diz o brit\u00e2nico. Do pouco que se conhece, o cen\u00e1rio seria muito diferente por c\u00e1. &#8220;N\u00e3o vemos verdadeiras discuss\u00f5es cient\u00edficas&#8221;, diz Henrique Leit\u00e3o. &#8220;Rapidamente se tornavam em picardias pessoais e o conte\u00fado cient\u00edfico perdia-se.&#8221; \u00a0 Para o historiador portugu\u00eas, este problema passa pela &#8220;fragilidade das institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas&#8221;, em que uma educa\u00e7\u00e3o de m\u00e1 qualidade tem um efeito &#8220;devastador&#8221; na ci\u00eancia e na modernidade: &#8220;H\u00e1 um conjunto complexo de quest\u00f5es que tem de ser estudado aos poucos. Vamos tentar perceber este problema secular. N\u00e3o pode ser uma raz\u00e3o conjectural, vemo-lo hoje, as performances das universidades portuguesas s\u00e3o uma vergonha, excepto honrosas excep\u00e7\u00f5es.&#8221; \u00a0 \u00a0Liga\u00e7\u00f5es relacionadas: Pal\u00e1cio de Mafra tem a maior cole\u00e7\u00e3o de livros proibidos pela Inquisi\u00e7\u00e3o A Inquisi\u00e7\u00e3o portuguesa, na Wikip\u00e9dia Breve hist\u00f3ria da Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal\u00a0(Ensina RTP) Fim da Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal\u00a0(Ensina RTP)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[123,33,140],"tags":[],"class_list":["post-1951165","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-bibliotecas","category-historia","category-livros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1951165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1951165"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1951165\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3091055,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1951165\/revisions\/3091055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1951165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1951165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1951165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}