{"id":1577933,"date":"2012-03-05T11:33:00","date_gmt":"2012-03-05T11:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/1577933.html"},"modified":"2026-05-13T22:29:30","modified_gmt":"2026-05-13T22:29:30","slug":"o-dom-das-lagrimas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=1577933","title":{"rendered":"&#8220;O dom das l\u00e1grimas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-KGWgshgptwM\/T1Fi78EaazI\/AAAAAAAADTw\/W4bAvrmMxL0\/s1600\/correntes.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"80\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/correntes.jpg\" width=\"320\" \/><\/a><\/div>\n<p><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><br \/><\/span><br \/><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><br \/><\/span><br \/><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><br \/><\/span><br \/><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\">Cr\u00f3nica de In\u00eas Pedrosa, <b><i>O dom das l\u00e1grimas<\/i><\/b>, publicada no seman\u00e1rio <i>Sol<\/i>:<\/span><br \/><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><br \/><\/span><br \/><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">\u00a0<\/span><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Uma turma de crian\u00e7as surdas escreveu um conto premiado no Festival Correntes d&#8217;Escritas da P\u00f3voa de Varzim. \u00a0<\/span><\/i><br \/><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">\u00a0<\/span><\/i><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">O vereador da Cultura pediu que, em vez de bater palmas \u00e0s crian\u00e7as que subiam ao palco, o p\u00fablico agitasse as m\u00e3os no ar, aplaudindo em linguagem gestual a excel\u00eancia dos vencedores. Uma longa onda de m\u00e3os criou naquele audit\u00f3rio municipal um momento eterno de sil\u00eancio e l\u00e1grimas. Chor\u00e1vamos de alegria e orgulho. Honr\u00e1vamos com as nossas l\u00e1grimas a excel\u00eancia daqueles garotos e da sua professora. O choro pode ser um abra\u00e7o que perdura. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">N\u00e3o chora quem quer &#8211; O dom das l\u00e1grimas \u00e9 uma conquista dos que se lan\u00e7am \u00e0 vida com tudo o que t\u00eam. \u00abMuitos anos antes de Cristo havia na Gr\u00e9cia um poeta que dizia: &#8216;Tenho uma grande arte: eu firo duramente aqueles que me ferem&#8217;. Minha arte \u00e9 ainda maior: eu amo aqueles que me amam\u00bb. Isto escreveu Rubem Fonseca em A Grande Arte. Mais adiante, no mesmo romance, diz-se: \u00abAs palavras, meu carrancudo amigo, antigamente, davam tes\u00e3o e faziam chorar, faziam revolu\u00e7\u00f5es, faziam as pessoas se matarem, mas agora fazem apenas as pessoas terem um ar est\u00fapido, (&#8230;) \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Os enredos policiais de Rubem movem-se em torno das palavras que sobram (medo, morte, gan\u00e2ncia, cobardia) e das palavras que faltam (amor, que no l\u00e9xico de Rubem estar\u00e1 sempre ligado ao sexo, por excesso ou por car\u00eancia). \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Quem tem o privil\u00e9gio de amar os livros n\u00e3o seca por dentro: chora inconvenientemente. As l\u00e1grimas limpam a vis\u00e3o. Ensinam a ver. No sal delas some-se tudo o que n\u00e3o presta, trazendo \u00e0 tona as palavras que ardem e curam &#8211; o amor, primeira e \u00faltima raz\u00e3o. L\u00e1grimas na Chuva \u00e9 o t\u00edtulo do romance agora publicado de Rosa Montero, uma fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que decorre no ano de 2109, um tempo em que os nacionalismos fatais foram substitu\u00eddos pelos Estados Unidos da Terra mas os racismos e a \u00e2nsia de poder minam ainda a exist\u00eancia. E a clonagem evoluiu at\u00e9 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de replicantes mais ou menos sofisticados, munidos de mem\u00f3rias falsas. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Mas o que \u00e9 uma mem\u00f3ria verdadeira, se duas pessoas recordam os mesmos factos de forma distinta? Em cada replicante grita a brevidade da vida &#8211; porque vivem apenas dez anos. Mas os outros, os que vivem os nossos m\u00edseros setenta ou noventa anos, o que fazem das suas vidas? O deslumbramento da paix\u00e3o partilhada, a dor do fracasso, a m\u00e1goa do desencontro, o riso dos amigos &#8211; e o tempo perdido em estrat\u00e9gias e vingan\u00e7as, planos de poder e sonhos adiados. \u00abTodos esses momentos se perder\u00e3o no tempo como l\u00e1grimas na chuva\u00bb, escreve Rosa, citando o m\u00edtico filme Blade Runner, realizado j\u00e1 h\u00e1 30 anos. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Ao receber o grande Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio do Casino da P\u00f3voa e das Correntes d&#8217;Escritas, Rubem Fonseca declarou o seu amor orgulhoso pela L\u00edngua Portuguesa e recitou versos de Cam\u00f5es. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Pode e deve orgulhar-se: trocou uma vida de conforto pelas escarpas da escrita e da leitura. Pegou nas palavras que queimam e ati\u00e7ou-lhes o fogo, consciente de que s\u00f3 a partir desse lugar obscuro se pode em verdade transformar o mundo. Criou um l\u00e9xico seu e ofereceu-o ao mundo. \u00abN\u00e3o h\u00e1 sin\u00f3nimos\u00bb &#8211; alertou. Desejo. Amor. Liberdade. Coragem. Entrega. Palavras \u00e0 prova de bala, brilhantes como corpos cintilando no escuro. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Este festival realiza-se h\u00e1 13 anos. Dele nasceram ideias, livros, encontros, e pelo menos dois casais felizes &#8211; um deles, composto por um escritor espanhol e uma escritora cubana que acabaram por escolher Portugal como a sua morada. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Nas escolas, assiste-se a uma amplia\u00e7\u00e3o entusi\u00e1stica dos h\u00e1bitos de leitura. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">E ganha-se a medalha de cristal das l\u00e1grimas, sem a qual n\u00e3o somos mais do que piegas, gente que vive como se estivesse morta. \u00a0<\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00f3nica de In\u00eas Pedrosa, O dom das l\u00e1grimas, publicada no seman\u00e1rio Sol:\u00a0Uma turma de crian\u00e7as surdas escreveu um conto premiado no Festival Correntes d&#8217;Escritas da P\u00f3voa de Varzim. \u00a0\u00a0O vereador da Cultura pediu que, em vez de bater palmas \u00e0s crian\u00e7as que subiam ao palco, o p\u00fablico agitasse as m\u00e3os no ar, aplaudindo em linguagem gestual a excel\u00eancia dos vencedores. Uma longa onda de m\u00e3os criou naquele audit\u00f3rio municipal um momento eterno de sil\u00eancio e l\u00e1grimas. Chor\u00e1vamos de alegria e orgulho. Honr\u00e1vamos com as nossas l\u00e1grimas a excel\u00eancia daqueles garotos e da sua professora. O choro pode ser um abra\u00e7o que perdura. \u00a0 N\u00e3o chora quem quer &#8211; O dom das l\u00e1grimas \u00e9 uma conquista dos que se lan\u00e7am \u00e0 vida com tudo o que t\u00eam. \u00abMuitos anos antes de Cristo havia na Gr\u00e9cia um poeta que dizia: &#8216;Tenho uma grande arte: eu firo duramente aqueles que me ferem&#8217;. Minha arte \u00e9 ainda maior: eu amo aqueles que me amam\u00bb. Isto escreveu Rubem Fonseca em A Grande Arte. Mais adiante, no mesmo romance, diz-se: \u00abAs palavras, meu carrancudo amigo, antigamente, davam tes\u00e3o e faziam chorar, faziam revolu\u00e7\u00f5es, faziam as pessoas se matarem, mas agora fazem apenas as pessoas terem um ar est\u00fapido, (&#8230;) \u00a0 Os enredos policiais de Rubem movem-se em torno das palavras que sobram (medo, morte, gan\u00e2ncia, cobardia) e das palavras que faltam (amor, que no l\u00e9xico de Rubem estar\u00e1 sempre ligado ao sexo, por excesso ou por car\u00eancia). \u00a0 Quem tem o privil\u00e9gio de amar os livros n\u00e3o seca por dentro: chora inconvenientemente. As l\u00e1grimas limpam a vis\u00e3o. Ensinam a ver. No sal delas some-se tudo o que n\u00e3o presta, trazendo \u00e0 tona as palavras que ardem e curam &#8211; o amor, primeira e \u00faltima raz\u00e3o. L\u00e1grimas na Chuva \u00e9 o t\u00edtulo do romance agora publicado de Rosa Montero, uma fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que decorre no ano de 2109, um tempo em que os nacionalismos fatais foram substitu\u00eddos pelos Estados Unidos da Terra mas os racismos e a \u00e2nsia de poder minam ainda a exist\u00eancia. E a clonagem evoluiu at\u00e9 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de replicantes mais ou menos sofisticados, munidos de mem\u00f3rias falsas. \u00a0 Mas o que \u00e9 uma mem\u00f3ria verdadeira, se duas pessoas recordam os mesmos factos de forma distinta? Em cada replicante grita a brevidade da vida &#8211; porque vivem apenas dez anos. Mas os outros, os que vivem os nossos m\u00edseros setenta ou noventa anos, o que fazem das suas vidas? O deslumbramento da paix\u00e3o partilhada, a dor do fracasso, a m\u00e1goa do desencontro, o riso dos amigos &#8211; e o tempo perdido em estrat\u00e9gias e vingan\u00e7as, planos de poder e sonhos adiados. \u00abTodos esses momentos se perder\u00e3o no tempo como l\u00e1grimas na chuva\u00bb, escreve Rosa, citando o m\u00edtico filme Blade Runner, realizado j\u00e1 h\u00e1 30 anos. \u00a0 Ao receber o grande Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio do Casino da P\u00f3voa e das Correntes d&#8217;Escritas, Rubem Fonseca declarou o seu amor orgulhoso pela L\u00edngua Portuguesa e recitou versos de Cam\u00f5es. \u00a0 Pode e deve orgulhar-se: trocou uma vida de conforto pelas escarpas da escrita e da leitura. Pegou nas palavras que queimam e ati\u00e7ou-lhes o fogo, consciente de que s\u00f3 a partir desse lugar obscuro se pode em verdade transformar o mundo. Criou um l\u00e9xico seu e ofereceu-o ao mundo. \u00abN\u00e3o h\u00e1 sin\u00f3nimos\u00bb &#8211; alertou. Desejo. Amor. Liberdade. Coragem. 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