{"id":1563738,"date":"2009-12-14T00:00:00","date_gmt":"2009-12-14T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/1563738.html"},"modified":"2026-05-13T22:37:19","modified_gmt":"2026-05-13T22:37:19","slug":"a-mae-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=1563738","title":{"rendered":"A M\u00e3e Natal"},"content":{"rendered":"<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\">\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_Ktgp5ZkbTjk\/SyV7C6dw3FI\/AAAAAAAAAm0\/GA7DoZ2N9jM\/s1600-h\/galo_mato.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/galo_mato.jpg\" \/><\/a><\/div>\n<p><span style=\"font-size: small;\">A aldeia de Pouldreuzic iria conhecer, finalmente, um per\u00edodo de paz? Havia largos anos que a dilacerava a oposi\u00e7\u00e3o entre clericais e radicais, a escola livre dos Irm\u00e3os e a escola comunal laica, o cura e o professor. As hostilidades, que tomavam as cores das esta\u00e7\u00f5es, assumiam o teor das iluminuras lend\u00e1rias com as festas do fim do ano. A missa da meia-noite realizava-se, por motivos pr\u00e1ticos, em 24 de Dezembro \u00e0s seis da tarde. \u00c0 mesma hora, o professor, mascarado de Pai Natal, distribu\u00eda brinquedos aos alunos da escola laica. Gra\u00e7as \u00e0 sua dilig\u00eancia, o Pai Natal convertia-se em her\u00f3i pag\u00e3o, radical e anticlerical \u2014 enquanto o cura da aldeia lhe opunha o Menino Jesus do seu pres\u00e9pio vivo, que era c\u00e9lebre em todo o distrito, como quem atira um chuveiro de \u00e1gua benta \u00e0 cara do Diabo.<\/span><\/div>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Sim, Pouldreuzic teria uma tr\u00e9gua? Acontecia que o professor, chegado \u00e0 idade da reforma, tinha sido substitu\u00eddo por uma professora vinda de fora \u2014 e toda a gente a observava em expectativa, ansiosa por saber de que massa era ela feita. A senhora Oiselin, m\u00e3e de dois filhos \u2014 um dos quais contava apenas tr\u00eas meses \u2014, havia-se divorciado. E isso afigurava-se a muitos um penhor de fidelidade laica. Mas o partido clerical triunfou logo no primeiro domingo depois da sua chegada, quando se viu a nova mestra dar entrada na igreja.\u00a0<\/span><br \/><span style=\"font-size: small;\">(\u2026)<\/span><\/div>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Os dados pareciam lan\u00e7ados. N\u00e3o haveria mais a \u00e1rvore de Natal sacr\u00edlega \u00e0 mesma hora da missa da meia-noite celebrada \u00e0s seis da tarde. O cura ficaria como \u00fanico dominador em campo. Foi grande a surpresa, por conseguinte, quando a senhora Oiselin anunciou aos seus alunos que nada seria mudado na tradi\u00e7\u00e3o estabelecida e que o Pai Natal distribuiria os seus presentes na hora habitual. Que jogo estaria ela a jogar? E quem desempenharia o papel de Pai Natal? O carteiro e o guarda florestal, em que toda a gente pensava devido \u00e0s suas opini\u00f5es socialistas, afirmavam n\u00e3o estar ao corrente de coisa alguma. A estranheza atingiu o c\u00famulo quando se soube que a professora emprestaria o seu beb\u00e9 ao cura para representar o Menino Jesus no pres\u00e9pio vivo.<\/span><\/div>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">De in\u00edcio, tudo correu bem. O pequenino Oiselin dormia a bom dormir quando os fi\u00e9is desfilaram ante o pres\u00e9pio, de olhos agu\u00e7ados pela curiosidade. O boi e o burro \u2014 um boi e um burro aut\u00eanticos \u2014 pareciam enternecidos diante de beb\u00e9 laico t\u00e3o miraculosamente metamorfoseado em Salvador.<\/span><\/div>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Infelizmente, a partir do Evangelho come\u00e7ou a agitar-se e os seus berros redobraram no momento em que o cura subia ao p\u00falpito. Nunca se ouvira uma voz de beb\u00e9 t\u00e3o sonora. Em v\u00e3o a menina que representava a Virgem Maria o embalou contra o peito magro. O mi\u00fado, rubro de c\u00f3lera, agitando os bra\u00e7os e as pernas, fazia ressoar as ab\u00f3badas da igreja com os seus gritos furiosos e o cura n\u00e3o conseguia fazer ouvir uma palavra.<\/span><\/div>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Por fim, o sacerdote chamou um dos meninos do coro e sussurrou-lhe uma ordem ao ouvido. Sem largar a sobrepeliz, o rapaz saiu da igreja e ouviu-se o ru\u00eddo dos seus passos decrescer l\u00e1 fora.<\/span><\/div>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;\">\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: small;\">Poucos minutos depois, a metade clerical da aldeia, que se encontrava reunida em totalidade na nave, teve uma vis\u00e3o ins\u00f3lita que se inscreveu para sempre na lenda dourada da regi\u00e3o: viu-se o Pai Natal em pessoa entrar apressadamente na igreja, dirigir-se a passos largos para o pres\u00e9pio, p\u00f4r de lado as suas grandes barbas de algod\u00e3o branco, desabotoar a vestimenta vermelha e estender um seio generoso ao Menino Jesus, que logo se quedou apaziguado.<\/span><\/div>\n<p><\/div>\n<div style=\"color: black; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: right;\"><span style=\"font-size: small;\"><span style=\"color: #444444; font-size: x-small;\">TOURNIER, Michel &#8211; O galo do mato. Lisboa : D. Quixote, 1986. 217p.<\/span><\/span><\/p>\n<div style=\"color: #444444; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: x-small;\">Ler mais <a href=\"http:\/\/books.google.pt\/books?id=td7kmP7GxeMC&amp;dq=Michel+Tournier&amp;printsec=frontcover&amp;source=bl&amp;ots=yf7F3EVxsk&amp;sig=x7-wOBRqmHFtcy6Cpomoc2H3D-E&amp;hl=pt-PT&amp;ei=-X0lS7mbLcn14Ab-nrjeCQ&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=book-thumbnail&amp;resnum=7&amp;ved=0CDMQ6wEwBg#v=onepage&amp;q=&amp;f=false\">&gt;&gt;<\/a> <\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aldeia de Pouldreuzic iria conhecer, finalmente, um per\u00edodo de paz? Havia largos anos que a dilacerava a oposi\u00e7\u00e3o entre clericais e radicais, a escola livre dos Irm\u00e3os e a escola comunal laica, o cura e o professor. As hostilidades, que tomavam as cores das esta\u00e7\u00f5es, assumiam o teor das iluminuras lend\u00e1rias com as festas do fim do ano. A missa da meia-noite realizava-se, por motivos pr\u00e1ticos, em 24 de Dezembro \u00e0s seis da tarde. \u00c0 mesma hora, o professor, mascarado de Pai Natal, distribu\u00eda brinquedos aos alunos da escola laica. Gra\u00e7as \u00e0 sua dilig\u00eancia, o Pai Natal convertia-se em her\u00f3i pag\u00e3o, radical e anticlerical \u2014 enquanto o cura da aldeia lhe opunha o Menino Jesus do seu pres\u00e9pio vivo, que era c\u00e9lebre em todo o distrito, como quem atira um chuveiro de \u00e1gua benta \u00e0 cara do Diabo. Sim, Pouldreuzic teria uma tr\u00e9gua? Acontecia que o professor, chegado \u00e0 idade da reforma, tinha sido substitu\u00eddo por uma professora vinda de fora \u2014 e toda a gente a observava em expectativa, ansiosa por saber de que massa era ela feita. A senhora Oiselin, m\u00e3e de dois filhos \u2014 um dos quais contava apenas tr\u00eas meses \u2014, havia-se divorciado. E isso afigurava-se a muitos um penhor de fidelidade laica. Mas o partido clerical triunfou logo no primeiro domingo depois da sua chegada, quando se viu a nova mestra dar entrada na igreja.\u00a0(\u2026) Os dados pareciam lan\u00e7ados. N\u00e3o haveria mais a \u00e1rvore de Natal sacr\u00edlega \u00e0 mesma hora da missa da meia-noite celebrada \u00e0s seis da tarde. O cura ficaria como \u00fanico dominador em campo. Foi grande a surpresa, por conseguinte, quando a senhora Oiselin anunciou aos seus alunos que nada seria mudado na tradi\u00e7\u00e3o estabelecida e que o Pai Natal distribuiria os seus presentes na hora habitual. Que jogo estaria ela a jogar? E quem desempenharia o papel de Pai Natal? O carteiro e o guarda florestal, em que toda a gente pensava devido \u00e0s suas opini\u00f5es socialistas, afirmavam n\u00e3o estar ao corrente de coisa alguma. A estranheza atingiu o c\u00famulo quando se soube que a professora emprestaria o seu beb\u00e9 ao cura para representar o Menino Jesus no pres\u00e9pio vivo. De in\u00edcio, tudo correu bem. O pequenino Oiselin dormia a bom dormir quando os fi\u00e9is desfilaram ante o pres\u00e9pio, de olhos agu\u00e7ados pela curiosidade. O boi e o burro \u2014 um boi e um burro aut\u00eanticos \u2014 pareciam enternecidos diante de beb\u00e9 laico t\u00e3o miraculosamente metamorfoseado em Salvador. Infelizmente, a partir do Evangelho come\u00e7ou a agitar-se e os seus berros redobraram no momento em que o cura subia ao p\u00falpito. Nunca se ouvira uma voz de beb\u00e9 t\u00e3o sonora. Em v\u00e3o a menina que representava a Virgem Maria o embalou contra o peito magro. O mi\u00fado, rubro de c\u00f3lera, agitando os bra\u00e7os e as pernas, fazia ressoar as ab\u00f3badas da igreja com os seus gritos furiosos e o cura n\u00e3o conseguia fazer ouvir uma palavra. Por fim, o sacerdote chamou um dos meninos do coro e sussurrou-lhe uma ordem ao ouvido. Sem largar a sobrepeliz, o rapaz saiu da igreja e ouviu-se o ru\u00eddo dos seus passos decrescer l\u00e1 fora. Poucos minutos depois, a metade clerical da aldeia, que se encontrava reunida em totalidade na nave, teve uma vis\u00e3o ins\u00f3lita que se inscreveu para sempre na lenda dourada da regi\u00e3o: viu-se o Pai Natal em pessoa entrar apressadamente na igreja, dirigir-se a passos largos para o pres\u00e9pio, p\u00f4r de lado as suas grandes barbas de algod\u00e3o branco, desabotoar a vestimenta vermelha e estender um seio generoso ao Menino Jesus, que logo se quedou apaziguado. TOURNIER, Michel &#8211; O galo do mato. Lisboa : D. Quixote, 1986. 217p. 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