{"id":1102751,"date":"2010-07-07T00:15:00","date_gmt":"2010-07-07T00:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogue.rbe.mec.pt\/1102751.html"},"modified":"2026-05-14T02:56:39","modified_gmt":"2026-05-14T02:56:39","slug":"entrevista-com-alberto-manguel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/?p=1102751","title":{"rendered":"Entrevista com Alberto Manguel"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_Ktgp5ZkbTjk\/TDMfPyBGcOI\/AAAAAAAABxY\/E_N32ASZ00I\/s1600\/manguel.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"150\" rw=\"true\" src=\"https:\/\/projetos.dge.mec.pt\/rbe\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manguel.jpg\" width=\"200\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\">Alberto Manguel passou, h\u00e1 dias, por Lisboa, para participar no\u00a0<em>Festival do\u00a0Sil\u00eancio<\/em>\u00a0e falou com o <em>\u00cdpsilon<\/em>. Aqui fica o in\u00edcio\u00a0da entrevista:<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><em><strong>A sua obra est\u00e1 toda ela dedicada ao lado maravilhoso da leitura, do acto de ler. A sua paix\u00e3o pela leitura vem de onde? Nasce-se leitor ou uma pessoa torna-se leitora?<\/strong><\/em><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><em>Penso que somos animais leitores. Vimos ao mundo com uma certa consci\u00eancia de n\u00f3s pr\u00f3prios e do que nos rodeia e temos a impress\u00e3o de que tudo nos conta hist\u00f3rias: a paisagem, o rosto dos outros, o c\u00e9u, em tudo encontramos linguagem. Tentamos desentranh\u00e1-la, tentamos l\u00ea-la. Nesse sentido, n\u00e3o podemos existir enquanto seres humanos sem a leitura. Invent\u00e1mos a linguagem escrita, a linguagem oral, para tentarmos comunicar essa experi\u00eancia do mundo, para nos contarmos hist\u00f3rias e atrav\u00e9s delas, falar dessa experi\u00eancia. No meu caso, o conhecimento do mundo passou sempre pelos livros. Tive uma inf\u00e2ncia um pouco particular: o facto de o meu pai pertencer ao corpo diplom\u00e1tico fez com que viaj\u00e1ssemos muito e que eu n\u00e3o tivesse nenhum s\u00edtio onde me sentisse em casa. A minha casa estava nos livros. Regressar \u00e0 noite aos livros que conhecia, abri-los e constatar com imenso al\u00edvio que o mesmo conto continuava na mesma p\u00e1gina, com a mesma ilustra\u00e7\u00e3o, dava-me uma certa seguran\u00e7a e um certo sentido do lar.<\/em><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><em><strong>Mas nem toda a gente \u00e9 leitora&#8230;<\/strong><\/em><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><em>Nem toda a gente \u00e9 leitora, mas acho que, no fundo, \u00e9 porque as circunst\u00e2ncias fazem que n\u00e3o sejamos todos leitores. A possibilidade est\u00e1 em todos n\u00f3s. O que quero dizer \u00e9 que suponho que h\u00e1 pessoas que nunca se apaixonam, suponho que h\u00e1 pessoas que nunca viajam, suponho que h\u00e1 pessoas que n\u00e3o t\u00eam uma certa experi\u00eancia do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que n\u00e3o s\u00e3o leitoras. Mas a possibilidade est\u00e1 dentro de n\u00f3s.A propor\u00e7\u00e3o de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande &#8211; seja na Idade M\u00e9dia, seja no Renascimento ou no s\u00e9culo XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um \u00fanico jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da Hist\u00f3ria da literatura.<\/em><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><em><strong>Pensa que, para al\u00e9m de n\u00e3o haver muitos leitores, a leitura est\u00e1 a perder terreno neste momento?<\/strong><\/em><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><em>O que est\u00e1 a perder terreno \u00e9 a intelig\u00eancia. Estamos a tornar-nos mais est\u00fapidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, \u00e9 preciso ser est\u00fapido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de cal\u00e7as de ganga rasgadas. \u00c9 preciso ser mesmo est\u00fapido para isso. Essa educa\u00e7\u00e3o da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de inf\u00e2ncia. \u00c9 preciso um esfor\u00e7o muito grande para diluir a intelig\u00eancia das crian\u00e7as, mas estamos a faz\u00ea-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, \u00e9ticos e morais, o valor do acto intelectual.<\/em><\/span><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><br \/><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">Ler mais no <em>\u00cdpsilon,<\/em> 2 Julho\u00a0<\/span><a href=\"http:\/\/ipsilon.publico.pt\/livros\/texto.aspx?id=260417\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;\">&gt;&gt;<\/span><\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberto Manguel passou, h\u00e1 dias, por Lisboa, para participar no\u00a0Festival do\u00a0Sil\u00eancio\u00a0e falou com o \u00cdpsilon. Aqui fica o in\u00edcio\u00a0da entrevista: A sua obra est\u00e1 toda ela dedicada ao lado maravilhoso da leitura, do acto de ler. A sua paix\u00e3o pela leitura vem de onde? Nasce-se leitor ou uma pessoa torna-se leitora? Penso que somos animais leitores. Vimos ao mundo com uma certa consci\u00eancia de n\u00f3s pr\u00f3prios e do que nos rodeia e temos a impress\u00e3o de que tudo nos conta hist\u00f3rias: a paisagem, o rosto dos outros, o c\u00e9u, em tudo encontramos linguagem. Tentamos desentranh\u00e1-la, tentamos l\u00ea-la. Nesse sentido, n\u00e3o podemos existir enquanto seres humanos sem a leitura. Invent\u00e1mos a linguagem escrita, a linguagem oral, para tentarmos comunicar essa experi\u00eancia do mundo, para nos contarmos hist\u00f3rias e atrav\u00e9s delas, falar dessa experi\u00eancia. No meu caso, o conhecimento do mundo passou sempre pelos livros. Tive uma inf\u00e2ncia um pouco particular: o facto de o meu pai pertencer ao corpo diplom\u00e1tico fez com que viaj\u00e1ssemos muito e que eu n\u00e3o tivesse nenhum s\u00edtio onde me sentisse em casa. A minha casa estava nos livros. Regressar \u00e0 noite aos livros que conhecia, abri-los e constatar com imenso al\u00edvio que o mesmo conto continuava na mesma p\u00e1gina, com a mesma ilustra\u00e7\u00e3o, dava-me uma certa seguran\u00e7a e um certo sentido do lar. Mas nem toda a gente \u00e9 leitora&#8230; Nem toda a gente \u00e9 leitora, mas acho que, no fundo, \u00e9 porque as circunst\u00e2ncias fazem que n\u00e3o sejamos todos leitores. A possibilidade est\u00e1 em todos n\u00f3s. O que quero dizer \u00e9 que suponho que h\u00e1 pessoas que nunca se apaixonam, suponho que h\u00e1 pessoas que nunca viajam, suponho que h\u00e1 pessoas que n\u00e3o t\u00eam uma certa experi\u00eancia do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que n\u00e3o s\u00e3o leitoras. Mas a possibilidade est\u00e1 dentro de n\u00f3s.A propor\u00e7\u00e3o de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande &#8211; seja na Idade M\u00e9dia, seja no Renascimento ou no s\u00e9culo XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um \u00fanico jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da Hist\u00f3ria da literatura. Pensa que, para al\u00e9m de n\u00e3o haver muitos leitores, a leitura est\u00e1 a perder terreno neste momento? O que est\u00e1 a perder terreno \u00e9 a intelig\u00eancia. Estamos a tornar-nos mais est\u00fapidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, \u00e9 preciso ser est\u00fapido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de cal\u00e7as de ganga rasgadas. \u00c9 preciso ser mesmo est\u00fapido para isso. Essa educa\u00e7\u00e3o da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de inf\u00e2ncia. \u00c9 preciso um esfor\u00e7o muito grande para diluir a intelig\u00eancia das crian\u00e7as, mas estamos a faz\u00ea-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, \u00e9ticos e morais, o valor do acto intelectual. 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